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Por que os líderes difundem o medo

por Thynus, em 04.06.16

Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir.

Winston Churchill
 

A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo.

Napoleão Bonaparte
 

As grandes massas cairão mais facilmente numa grande mentira do que numa mentirinha.

Adolf Hitler
 
 
 
Líderes se empenham em difundir o medo quando acreditam reconhecer uma ameaça séria à segurança nacional que a população não enxerga e que essa população não será levada por um discurso direto e honesto a avaliar corretamente.(Para uma excelente discussão sobre por que e como líderes exageram ameaças, ver: A. Trevor Thrall e Jane K. Cramer (orgs.), American Foreign Policy and the Politics of Fear: Threat Inflation since 9/11, Nova York, Routledge, 2009) Eles concluem que a única forma de mobilizar os cidadãos a fazer o que é certo é enganá-los para seu próprio bem. A difusão do medo, que é uma forma simples de comportamento de cima para baixo, é antidemocrática em sua essência, embora os líderes recorram a ela porque acreditam ser pelo interesse nacional, e não em benefício pessoal.
Há uma série de razões pelas quais os cidadãos médios podem não ser capazes de compreender uma ameaça específica. Eles podem não estar suficientemente interessados em questões internacionais para perceber que seu país está diante de um perigo iminente, mesmo quando seus líderes lhes oferecem provas francas da ameaça. Além disso, poderiam não ser coletivamente espertos o suficiente para reconhecer uma ameaça específica. Também é possível que esses cidadãos mostrem-se pouco firmes quando confrontados com uma ameaça alarmante. Em suma, a população geral pode estar sujeita a uma combinação de ignorância, estupidez e covardia. Quando isso acontece, de acordo com essa lógica, as elites governantes têm que dar um empurrão em seu povo a fim de que ele se levante para enfrentar o desafio.
Um bom exemplo desse tipo de raciocínio posto em ação foi a forma como o governo Truman tentou vender para o povo americano um grande aumento nos gastos de defesa no começo de 1950.(Steven Casey, "Selling NSC-68: The Truman Administration, Public Opinion, and the Politics of Mobilization, 1950-51” , Diplomatic History, vol.29, n.4, set 2005, p.655-90. De fato, a retórica da administração Truman era tão alarmista que havia "um medo muito real de que o humor da população pudesse facilmente superaquecer, reduzindo assim a liberdade dos agentes governamentais para operar e talvez até mesmo os empurrando para políticas excessivamente radicais e perigosas” (ibid., p.661). Ver também: Nancy E. Bernhard, US Television News and Cold War Propaganda, 1947-1960, Nova York, Cambridge University Press, 1999; Campbell Craig e Fredrik Logevall, America’s Cold War: The Politics of Insecurity, Cambridge, Massachusetts, Belknap Press of Harvard University Press, 2009) O presidente e seus principais conselheiros de política externa acreditavam que a opinião pública não apoiaria plenamente o aumento proposto e, portanto, seria necessário iniciar uma "campanha de terror psicológico”. É claro que, quando os políticos levam um país por esse caminho, inevitavelmente se sentirão pressionados a contar mentiras para assustar seu povo o suficiente, de modo que este apoie entusiasticamente as políticas planejadas pelo governo.
É muito mais difícil argumentar que as elites educadas que discutem a gravidade de uma ameaça sejam ignorantes ou imbecis. Isso é particularmente verdadeiro quando se está lidando com especialistas no assunto em questão. Pode haver o caso, no entanto, em que se perceba que esses dissidentes educados e interessados possuem uma visão rala da política internacional e, portanto, é necessário exagerar um pouco a ameaça para endurecer suas espinhas. Também pode ser que eles simplesmente estejam interpretando erroneamente os dados disponíveis sobre o perigo que seu país enfrenta e estejam traçando conclusões excessivamente otimistas sobre o ambiente de ameaça. E, se os líderes não puderem resolver esse problema fornecendo aos dissidentes equivocados informações mais detalhadas, a única solução que resta é a difusão do medo.
No entanto, é improvável que a ideia de ludibriar essas elites recalcitrantes funcione, porque os dissidentes são por definição bem informados sobre o assunto em questão e, portanto, difíceis de enganar. Uma abordagem alternativa, que é mais provável que funcione, é a utilização da difusão do medo para mobilizar a população geral de forma a fazê-la suspeitar dos teimosos especialistas, ou mesmo os hostilizar. Esses especialistas serão isolados e considerados suspeitos, e talvez até mesmo fiquem preocupados com suas carreiras, o que os tornaria mais propensos a moderar suas críticas ou permanecer em silêncio, ou talvez até mudar subitamente de lado e passar a dar apoio à política do governo. Leslie Gelb, ex-presidente do Conselho de Relações Exteriores, reconheceu candidamente que esse tipo de amedrontamento o fez apoiar a Guerra do Iraque em 2003: "Meu apoio inicial à guerra foi sintomático de tendências infelizes manifestadas no interior da comunidade de política externa, especificamente a disposição e o incentivo para dar apoio à guerra a fim de manter a credibilidade política e profissional.(Leslie Gelb e Jeanne-Paloma Zelmati, "Mission Unaccomplished” , Democracy, n.13, verão 2009, p.24)
E existe uma explicação alternativa de por que os líderes por vezes recorrem à difusão do medo que é menos depreciativa da opinião pública. É possível que o sistema político de um país esteja propenso à paralisia e, portanto, incapaz de responder em tempo hábil a uma séria ameaça. O inexperiente governo americano sob os Artigos da Confederação certamente se encaixa nessa descrição, e alguns até chegam a afirmar que o sistema de checks and balances* estabelecido pela Constituição é contraproducente para reconhecer e lidar com ameaças externas em tempo hábil.(Os discursos clássicos contra os Artigos da Confederação são de Alexander Hamilton, James Madison e John Jay (The Federalist Papers, Harmondsworth, Reino Unido, Penguin Books, 1987, p.145- 84), originalmente publicados entre outubro de 1787 e agosto de 1788. Para críticas à política americana sob a Constituição, ver: Theodore J. Lowi, "Making Democracy Safe for the World: National Politics and Foreign Policy” , in James N. Rosenau (org.), Domestic Sources of Foreign Policy, Nova York, Free Press, 1967, p.295-331; Theodore J. Lowi, The End of Liberalism: The Second Republic of the United States, 2a ed., Nova York, Norton, 1979; E.E. Schattschneider, The Semisovereign People: A Realist's View of Democracy in America, Fort Worth, Texas, Harcourt Brace Jovanovich, 1975. Ver também: Michel Crazier, Samuel P. Huntington e Joji Watanuki, The Crisis of Democracy: Report on the Governability of Democracies to the Trilateral Commission, Triangle Papers 8, Nova York, New York University Press, 1975; e o ensaio de David Donald “Died of Democracy” , in David Donald (org.), Why the North Won the Civil War, Nova York, Collier Books, 1962, p.79-90, no qual ele sugere que o Sul perdeu a Guerra Civil porque era democrático demais) Os líderes terão poderosos incentivos para difundir o medo quando a máquina governamental for esclerosada, porque inflamar o povo pode ser a única maneira de forçar o sistema político à ação para enfrentar um perigo iminente.
É razoavelmente fácil para os políticos mentir para seu povo. Para começar, eles controlam o aparato de inteligência do Estado, o que lhes dá acesso a importantes informações de que o povo não dispõe e não tem como obter, pelo menos a curto prazo. Os políticos, portanto, podem manipular o fluxo de informações para a população de várias formas, e a maioria das pessoas estará inclinada a acreditar no que seus líderes lhes dizem, a menos que haja provas concretas de que está sendo enganada. Além disso, o chefe de um país pode usar a tribuna privilegiada para manipular de diferentes formas o discurso sobre política externa, inclusive mentindo para o povo. Os presidentes americanos têm um poder significativo nesse campo.
Mentir para o público é relativamente fácil por outra razão. Como foi observado, é difícil para os estadistas mentir uns para os outros sobre questões importantes, porque não há muita confiança entre os países. A anarquia impele os Estados a ser vigilantes em suas relações recíprocas, especialmente quando questões de segurança nacional estão em jogo. Mas issso não é o que ocorre no interior da maioria dos países, nos quais um grande número de pessoas, incluindo as elites educadas, está predisposto a confiar em seu governo, cuja mais importante tarefa, afinal, é proteger essas pessoas. Robert McNamara disse certa vez que “é inconcebível que alguém, mesmo que apenas minimamente familiarizado com nossa sociedade e nosso sistema de governo, possa suspeitar da existência de uma conspiração” para provocar uma guerra.(Alterman, When Presidents Lie, p.210.) Muitos americanos prontamente endossariam a afirmação de McNamara, uma vez que eles esperam que seus líderes sejam corretos com eles. Essa confiança, é claro, é o que faz com que o povo seja fácil de enganar, e é por isso que o comportamento descrito por McNamara como inconcebível não apenas é imaginável, como dispomos de provas dele.
Pode-se supor que a difusão do medo não compensa porque o mentiroso acaba por ser descoberto e punido pelo povo. Ele pode perder a credibilidade que possuía com seus cidadãos ou até mesmo perder votos quando concorrer à reeleição. Essas possibilidades não são muito impeditivas, entretanto, principalmente porque os líderes que mentem para seus povos pensam que podem escapar delas. Para começar, não é garantido que as mentiras serão reveladas em futuro próximo. Levou mais de trinta anos para se tornar de conhecimento público que o presidente Kennedy mentira sobre como resolveu a crise dos mísseis cubanos. Conforme será discutido no próximo capítulo, ele fechou um acordo secreto com os soviéticos, segundo o qual os Estados Unidos retirariam seus mísseis Júpiter da Turquia, em troca de os soviéticos retirarem seus mísseis de Cuba. Mas Kennedy e seus conselheiros negaram ter feito esse acordo durante e após a crise.
Além disso, os mentirosos estão propensos a pensar que, mesmo se forem pegos, poderão contar com advogados espertos e amigos nas altas rodas para ajudá-los a criar uma defesa inteligente, a fim de que possam escapar de uma punição. Finalmente, e mais importante, os líderes que se empenham em difundir o medo invariavelmente acreditam que sua avaliação da ameaça esteja correta, mesmo que estejam mentindo sobre alguns dos detalhes. Creem estar do lado certo e estar fazendo aquilo para o bem do país. Assim, suas mentiras importarão pouco a longo prazo se eles expuserem a ameaça como ela é e a tratarem de maneira eficaz. Em outras palavras, o resultado final justifica os meios.
Essa linha de raciocínio certamente deu suporte à campanha de enganação promovida pelo governo Bush na preparação para a Guerra do Iraque, e provavelmente teria dado certo se os Estados Unidos tivessem tido uma vitória retumbante, como aconteceu na guerra contra o Iraque em 1991. Um comentário de Richard Cohen, colunista do Washington Post, em novembro de 2005, quando a segunda Guerra do Iraque estava indo mal, ilustra o poder purificador de uma vitória militar: "Quase se poderia perdoar o presidente Bush por travar a guerra sob pretextos falsos ou equivocados se houvesse um Oriente Médio melhor e mais democrático saindo dela.”(Richard Cohen, "A War without Winners” , Washington Post, 3 nov 2005)

(JOHN J. MEARSHEIMER - Por que os Líderes Mentem, toda a verdade sobre as mentiras na política internacional). O autor é professor de ciência política e codiretor do Programa em Política de Segurança Internacional na Universidade de Chicago. Teve inúmeros artigos publicados em diversas revistas acadêmicas e em veículos de grande público, como New York Times, Los Angeles Times, Chicago Tribune e London Review of Books. É autor de A tragédia política das grandes potências, vencedor do Joseph Lepgold Book Prize, e coautor de The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy, bestseller do New York Times e traduzido para dezenove línguas.

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