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”No princípio, haviam dois espíritos primitivos, Gemêos espontaneamente ativos, Estes são o Bem e o Mal, em pensamento, em palavra e em ação.”
(Ahunuvaiti Gatha; Yasna 30.3, um dos hinos atribuídos a  Zoroastro)

"A noite é escura e cheia de terrores, o dia, luminoso, belo e cheio de esperança. Uma é negra, o outro, branco. Há gelo e há fogo. Ódio e amor. Amargor e doçura. Macho e fêmea. Dor e prazer. Inverno e verão. Mal e bem. Vida e morte. Em toda parte há opostos. Em toda parte há a guerra.’’
(Melisandre à Davos,  A Tormenta de Espadas, Davos III, Capítulo 25.

‘’A guerra (polemos) é pai de todas as coisas, rei de tudo; de uns fez deuses, de outros homens; de uns, escravos, de outros, homens livres. ’’ ‘’O deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Toma várias formas como o fogo, quando misturado a especiarias toma o perfume de cada uma’’ 
 (Fragmentos de Heráclito)
 
Hisrória de Gelo e Fogo
 
O LUTO NO ROSTO DA LADY CATELYN STARK era claramente visível quando ela atingiu Sor Jaime Lannister com uma pedra no último episódio da primeira temporada de Game of Thrones. Ela havia acabado de receber a notícia que o marido, o lorde Eddard Stark, tinha sido decapitado por ordem do rei Joffrey. Catelyn diz a Jaime Lannister que ele “irá ao mais profundo dos sete infernos se os deuses forem justos”. Jaime, ainda se recuperando do trauma na cabeça, responde com uma pergunta: “Se os deuses existem e são justos, por que o mundo está tão cheio de injustiça?” (Episódio 10 da primeira temporada, Fire and Blood [Fogo e sangue].)
Essa pergunta é a essência do que os filósofos chamam de o problema do mal. O problema gira em torno da aparente contradição entre a existência de um Deus bom e justo e o mal que é claramente visível no mundo. Afinal, por que um ser bondoso que tem o poder de impedir o mal permite que ele exista? Muitos filósofos e teólogos tentaram responder essa pergunta. Sabemos que o mundo criado por George R. R. Martin em As crônicas de gelo e fogo tem vários deuses e crenças. O problema do mal também desafia a crença nesses deuses?

O problema do mal é realmente um problema?
O filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.) foi um dos primeiros a expressar esse problema. A versão dele, citada pelo filósofo britânico do século XVIII, David Hume (1711-1776) em seus Diálogos sobre a religião natural, pergunta: “A divindade quer evitar o mal, mas não é capaz disso? Então, ela é impotente. Ela é capaz, mas não quer evitá-lo? Então, ela é malévola. Ela é capaz de evitá-lo e quer evitá-lo? De onde, então, provém o mal?”1
Em outras palavras, de acordo com Hume e Epicuro, a existência de Deus é logicamente incompatível com a existência do mal. Suponha que alguém acredite na existência de um deus que é:
1. Onisciente, significando que este deus sabe tudo, inclusive exatamente quando e onde o mal vai acontecer. 
2. Onipotente, significando que este deus tem o poder de impedir que o mal (ou qualquer outra coisa) aconteça. 
3. Perfeitamente bom, significando que este deus quer impedir que o mal aconteça.
Se este deus existe, não deveria existir mal algum no mundo. Porém:

1. O mal existe.
Portanto, a conclusão deve ser que tal deus não existe.
Onisciência, onipotência e bondade perfeita são três atributos importantes do Deus das principais religiões ocidentais. Para essas religiões, o problema do mal apresenta um perigo verdadeiro: se for deixado sem solução, tornará irracional a crença neste Deus. Jaime faz uma afirmação semelhante quando apresenta o problema do mal a Catelyn: devido à existência do mal, acreditar nos deuses de Westeros também se mostra irracional. E Jaime certamente não é o único a chegar a essa conclusão. Veja o Cão de Caça, Sandor Clegane, que é confrontado por Sansa Stark em A fúria dos reis quanto a todas as maldades que praticou:
— Não tem medo? Os deuses podem enviá-lo para algum inferno terrível por todo o mal que já fez.
— Que mal? — soltou uma gargalhada. — Que deuses? — Os deuses que fizeram todos nós.
— Todos? — ele zombou. — Diga-me, passarinho, que tipo de deus faz um monstro como o Duende, ou uma idiota como a filha da Senhora Tanda? Se os deuses existirem, fizeram as ovelhas para que os lobos possam comer carneiro, e os fracos para os fortes brincarem com eles.
— Os verdadeiros cavaleiros protegem os fracos.
Ele fungou:
— Os verdadeiros cavaleiros não são mais reais do que os deuses. Se não pode se proteger por conta própria, morra e saia do caminho daqueles que podem. É o aço afiado e os braços fortes que governam este mundo, e nunca acredite em outra coisa.
Sansa afastou-se dele:
— É horrível.
— Sou honesto. É o mundo que é horrível. Agora voe, passarinho, estou farto de seus trinados. 2

Mas o que é o mal?
Para lidar com o problema do mal, primeiro devemos deixar claro o que conta como mal. Parece haver dois tipos bem distintos de mal no mundo: o moral e o natural. O mal moral é o tipo de mal que a humanidade causa por meio de suas decisões. Ordenar a decapitação de Eddard Stark e que o Cão de Caça matasse Mycah, o filho do carniceiro, seriam exemplos deste tipo de mal. O mal natural, por outro lado, se refere à dor e ao sofrimento causados pelas ocorrências da natureza, e não por seres humanos: naufrágios numa tempestade seriam um exemplo.
Infelizmente, nem todos acreditam que as mesmas coisas são boas ou más em termos morais. O Deus dos Cavalos dos dothraki, por exemplo, parece não ter qualquer problema moral com estupros e roubos. E, de acordo com a descrição de Theon Greyjoy sobre o Deus Afogado dos homens que vivem nas Ilhas de Ferro: “O Deus Afogado fizera-os para saquear e violar, para esculpir reinos e escrever seus nomes em fogo, sangue e canções.”3 Assim, o que conta como mal para alguns pode ser considerado normal ou até como um comportamento adequado por outros. Se a moralidade é relativa, então o mal objetivo não existe. E, se não houver um mal objetivo, se nada for realmente maligno, a contradição lógica à qual aludimos anteriormente deverá ser evitada.
Portanto, a primeira solução que encontraremos é que o problema do mal não parece afetar quem acredita que não existe mal verdadeiro no mundo. Ela acredita que há apenas julgamentos subjetivos de nossa parte. Numa segunda análise, contudo, parece que a maioria dos habitantes dos Sete Reinos e além acredita que muitas coisas são realmente maléficas, e não apenas em termos subjetivos. Até alguém como Theon Greyjoy concordaria que foi injustiçado quando Eddard Stark o tomou como refém. Assim, embora uma solução possível seja recusar-se a acreditar que o mal realmente exista, esta parece ser uma posição muito fraca. Mesmo numa visão relativista, a questão de por que os deuses permitem a existência do que os habitantes consideram o mal ainda deve ser abordada.

Santo Agostinho e Catelyn defendem a Fé dos Sete
A fé mais difundida nos Sete Reinos é a chamada Fé dos Sete, que tem similaridades com o catolicismo romano, como a repentina e rápida conversão de Westeros à Fé e a estrutura hierárquica da religião, tendo o Alto Septão como chefe da Igreja. E o mais importante: a Fé tem apenas um deus, que possui sete faces. Isso se assemelha ao dogma cristão da Trindade: um Deus, três pessoas. Parece que o deus da Fé tem os atributos necessários ao problema do mal: é um deus potente (e talvez até onipotente) e justo. Assim, ele deve ser capaz e estar disposto a impedir que o mal aconteça, mas, como sabemos, o mal existe em Westeros.
O filósofo e padre Agostinho de Hipona (354-430), também conhecido como Santo Agostinho, apresentou dois argumentos importantes para explicar por que Deus não é o responsável pela existência do mal. Primeiro, Agostinho diz que o mal não é algo que existe por si. O mal é apenas a falta de bondade, semelhante à cegueira ser a falta de visão. A cegueira não é uma entidade positiva ou definida, apenas a falta de uma entidade definida: a visão. Chamamos alguém de cego quando seus olhos não funcionam. Da mesma forma, de acordo com Agostinho, chamamos de mal algo que não é bom. Portanto, Deus jamais criou o mal, pois o mal não é algo que possa ser criado.4
O segundo argumento de Agostinho diz respeito à causa do mal, ou seja, o livre arbítrio: a capacidade de escolher nossos atos. Deus considera uma virtude moral o fato de o homem ter livre-arbítrio e não ser apenas uma marionete que age por meio de instintos pré-programados. Assim, embora Deus tenha criado um mundo bom e justo, os seres humanos podem optar por ignorar as regras definidas por Ele, e essa é a causa do mal, de acordo com Agostinho. Mesclando esses dois argumentos, fica claro, segundo Agostinho, que Deus não é a causa do mal, e nem poderia impedir esse tipo de mal, pois impedir o mal significaria que os indivíduos não teriam livre-arbítrio.5
Esta é a chamada defesa do livre-arbítrio. Então, em Westeros, a causa do mal não está no deus de sete faces, e sim nas pessoas que agem de acordo com o livrearbítrio. Lembre-se que Jaime Lannister perguntou a Catelyn Stark: “Se deuses existirem, por que o mundo está tão cheio de dor e injustiça?” À essa pergunta, Catelyn respondeu: “Por causa de homens como você.” Mesmo quando Jaime disse: “Então, culpe esses seus preciosos deuses, que trouxeram o garoto até a nossa janela e lhe deram um vislumbre de algo que nunca devia ter visto”, Catelyn simplesmente retrucou: “Culpar os deuses?” perguntou, incrédula. “A mão que o atirou era sua. Queria que ele morresse.”6 Parece que Catelyn tem razão. Realmente foi por causa de atos de homens como Jaime e Joffrey que o marido dela morreu assassinado.

Problemas com as soluções
Os argumentos de Agostinho conseguem explicar por que o mal moral existe? Bom, parece que as coisas são um pouco mais complicadas do que ele inicialmente percebeu. Veja, por exemplo, a definição dele do mal como a falta do bem. Esta seria uma definição adequada do mal apenas se o bem e o mal fossem conceitos polares. Conceitos polares são coisas definidas uma em termos da outra. Por exemplo, não pode haver uma montanha a menos que exista também um vale. Tente imaginar um mundo composto apenas de montanhas e sem vales. Isso seria uma contradição lógica, pois montanhas exigem a existência de vales para serem consideradas montanhas, assim como só podem haver homens altos se houverem homens baixos e só pode haver moedas falsas se também existirem moedas verdadeiras.7
O mesmo pode ser dito sobre o bem e o mal? O bem e o mal são como montanhas e vales? Bom, sou perfeitamente capaz de imaginar um mundo composto apenas de bondades (como um verão sem fim) ou um mundo em que apenas o mal aconteça (um longo e tenebroso inverno, em que os Outros surgem de todos os lugares). Logo, eles não parecem ser conceitos polares, e isso lança dúvida sobre a afirmação feita por Santo Agostinho de que o mal é a falta do bem. Além disso, os atos maléficos feitos pelo homem (estupros, assassinatos etc.) parecem ser caracterizados de modo mais adequado como ocorrências reais em vez de falta de algo. Porém, mesmo se os considerarmos como falta de algo, ainda podemos perguntar por que Deus permite que eles aconteçam. Por que ele permitiria a existência de “menos bondade” quando poderia criar mais?
A defesa do livre-arbítrio também está sujeita a contra-argumentos. Alguns filósofos e neurocientistas questionam se realmente temos livre-arbítrio.8 Entretanto, mesmo acreditando que temos, existe uma suposição muito importante por trás da defesa do livrearbítrio: ter livre-arbítrio é, em geral, tão importante que justifica a ocorrência de todo o mal que existe no mundo. Em outras palavras, deve ser verdade que ter livre-arbítrio e a possibilidade do mal é de alguma forma melhor do que não ter livre-arbítrio e nem mal.9
Contudo, fica bem difícil defender essa suposição devido à quantidade de mal existente no mundo. Embora a morte de Eddard Stark tenha sido trágica, pelo menos ele era um adulto que teve uma vida completa, mas pense em todas as crianças pobres e inocentes mortas durante guerras. Nem crianças que ainda estão no ventre são poupadas. Pense no bebê de Daenerys Targaryen. O livre-arbítrio é um bem tão valioso que de alguma forma compensa todas essas mortes, sendo algumas delas horríveis? Além disso, parece razoável supor que alguém deveria parar ou impedir um mal que uma pessoa escolheu realizar de livre e espontânea vontade, mesmo se isso interferisse com o livre-arbítrio dessa pessoa. Então, por que também não é razoável supor que Deus deveria, da mesma forma, parar ou impedir o mal que resulta de nossas decisões tomadas por livre e espontânea vontade? Não é fácil responder a essas perguntas.

David Hume e a impotência dos velhos deuses
Tendo considerado a Fé dos Sete, vamos voltar nossa análise para os velhos deuses, os espíritos da natureza que foram venerados pelos Filhos da Floresta e ainda o são pelos nortenhos. Eles devem ter tido pelo menos um pouco de poder — afinal, por que alguém veneraria e rezaria para deuses que não têm poder algum e, portanto, não exercem qualquer influência sobre a vida diária dos seres humanos? Esses deuses seriam impotentes, no sentido que Hume dá à palavra. Mas o fato de eles terem algum poder significa que teriam poder suficiente para impedir completamente todos os tipos de mal? Parece muito improvável. A fé nos velhos deuses significa fé numa religião politeísta, com múltiplos deuses. E nesse tipo de religião geralmente não há um deus onipotente.
Pense nos deuses gregos. Mesmo Zeus, mais poderoso que todos os outros deuses do Olimpo, não poderia impedir que o mal acontecesse. Ele também não tinha poder para controlar eventos ocorridos nos domínios de seus irmãos Hades (o submundo) e Poseidon (o mar).
Assim, se os velhos deuses se parecem com os deuses gregos, eles não podem impedir todo o mal. Eles são impotentes, num certo sentido da palavra. Os velhos deuses também não têm poder em determinadas áreas, especialmente onde os represeiros foram cortados. Osha explica isso a Bran quando lhe diz que seu irmão Robb deveria ter levado o exército para o norte em vez do sul. E quando Arya ficou em Harrenhal e tentou rezar aos velhos deuses, ela se perguntou se talvez devesse “rezar em voz alta se quisesse que os velhos deuses ouvissem. Ou talvez por mais tempo. Recordava que às vezes o pai rezava durante muito tempo. Mas os velhos deuses nunca o ajudaram. Lembrar-se disso a deixou zangada.*** — Devia tê-lo salvado — ralhou com a árvore.— Ele rezava para você o tempo todo. Não me importa se me ajuda ou não. Não me parece que possa, mesmo se quisesse.”10
Os velhos deuses podem até ser um pouco malvados, pois geralmente não se dispõem a ajudar os que pedem auxílio. Como o rei Robert Baratheon disse a Eddard Stark: “Os deuses zombam tanto das preces de reis quanto das dos vaqueiros.”11 Então, parece que o problema do mal não se aplica aos velhos deuses. Como eles não parecem ser poderosos ou dispostos o bastante para impedir que o mal aconteça, não se pode perguntar por que eles não o fazem.

Culpar os deuses pelo mal natural
O mal natural é causado por eventos naturais, como terremotos e furacões. Por exemplo, Steffon Baratheon, o pai de Robert, Stannis e Renly, foi morto junto com a esposa e cem homens em seu navio, o Orgulho do Vento, durante uma tempestade. Relembrando o fato, Stannis Baratheon explica: “Deixei de acreditar em deuses no dia em que vi o Orgulho do Vento quebrar-se do outro lado da baía. Jurei que quaisquer deuses que fossem monstruosos a ponto de afogar minha mãe e meu pai nunca teriam a minha adoração.”12
À primeira vista, a existência do mal natural não pode ser explicada da mesma forma que a de males morais, como assassinato e estupro. Pois parece que os males naturais não foram causados pelo livre-arbítrio de um indivíduo. Além disso, ninguém, exceto os deuses, pode evitar que esses males aconteçam. E, como Stannis concluiu de forma justa, parece que os deuses, velhos e novos, não estão dispostos ou são incapazes de impedir esse tipo de mal.
Contudo, Agostinho e outros adeptos da defesa do livre-arbítrio, como o filósofo contemporâneo Richard Swinburne, culparam os humanos por esse tipo de mal. Eles argumentam que o mal natural é necessário para a existência do mal moral. Para exemplificar isso, pense no prólogo de A fúria dos reis. O meistre Cressen decide envenenar Melisandre usando o estrangulador, um cristal solúvel que na verdade é um veneno mortal.13 Mas como Cressen sabia que esse cristal era venenoso? Bom, provavelmente ele foi ensinado pelos meistres de sua Ordem que esse cristal tinha o efeito mortal apropriado. Mas como esses meistres sabiam? Em algum momento deve ter acontecido um primeiro assassinato usando esse cristal. Mas como o primeiro assassino sabia que esse cristal teria um efeito mortal? Presumivelmente, essa pessoa notou que o cristal (ou seu conteúdo) era mortal porque alguém o ingeriu acidentalmente e acabou morrendo. Mas este último evento é um mal natural. Assim, de acordo com esta linha de raciocínio, é preciso haver males que ocorrem naturalmente para que os homens saibam como causar males morais. Dessa forma, os males naturais são um pré-requisito para a ocorrência de males morais.14
Essa resposta parece muito fraca. A ideia de que o mal moral exige a existência do mal natural não parece verdadeira. Deus — ou, neste caso, deuses — poderia(m) ter criado seres humanos com o conhecimento inato de como ferir ou matar outros. Ou alguém poderia simplesmente aprender por meio da tentativa e erro. Além do mais, mesmo se alguém garantir que venenos são necessários por algum motivo, a existência de furacões, enchentes e terremotos, que destroem sem reservas ou preconceitos, continua sem explicação. Ninguém descobriu como usar tais desastres naturais para criar males morais.
Uma segunda explicação sobre o mal natural é dada pelo filósofo alemão Gottfried Leibniz (1646-1716). Leibniz argumentou que o mundo em que vivemos é o melhor mundo possível. Deus não poderia ter criado o mundo melhor do que ele é atualmente. E o mal natural é apenas uma parte necessária do melhor mundo possível. Para citar um exemplo moderno, as placas tectônicas — das quais Leibniz obviamente nada sabia — causam terremotos, mas também renovam o carbono no chamado ciclo do carbono. Sem o ciclo do carbono, as formas de vida baseadas em carbono (como nós) não poderiam existir neste planeta. O bem e o mal andam de mãos dadas, e nós apenas vivemos no mundo com a melhor combinação de ambos.15
Esse argumento, assim como o anterior, tem uma falha que já notamos anteriormente. A quantidade de sofrimento e mal a nosso redor nos faz perguntar se Deus ou os deuses realmente fizeram algo de bom ao criar este mundo, se foi preciso incluir todos esses males. E, em resposta a Leibniz, certamente parece possível imaginar um mundo melhor que o nosso

R’hllor e o mal natural
Embora os humanos não possam causar males naturais, como tempestades, enchentes e terremotos, os deuses poderiam. Teriam que ser deuses maléficos, é claro. Mas a existência de deuses maus significa que não existem deuses bons?
De acordo com a religião dos seguidores de R’hllor, existem dois deuses: R’hllor, o Senhor da Luz, que é o deus bom, e seu inimigo, o Grande Outro, o deus da escuridão, do frio e da morte. Esses dois deuses estão em guerra, e o mundo é o campo de batalha. A fé r’hlloriana tem muitas semelhanças com o zoroastrismo, uma antiga fé persa em que o deus bom e os deuses maus também estão em guerra, e os humanos ficam de um lado ou de outro.
A fé dos seguidores de R’hllor pode explicar por que existem males naturais: eles são causados pelo deus mau. Entre os exemplos desses males estão os invernos frios e os temidos Outros.
Embora esse tipo de fé possa responder pelo mal natural e ainda ter um deus bom e justo, ela sofre de dois problemas já vistos anteriormente. O primeiro é que R’hllor e o Grande Outro parecem ser iguais em termos de poder: nenhum deles é onipotente. Se R’hllor fosse onipotente, ele poderia simplesmente destruir o Grande Outro. O fato de R’hllor não tê-lo feito sugere que não pode fazê-lo, e o mesmo vale para o Grande Outro. Então, nenhum deles é onipotente, e Hume nos ensinou que sem onipotência o problema lógico do mal não existe. Apenas um deus onipotente é capaz de impedir que todo o mal aconteça. O Deus cristão é onipotente, claro. Então, se você está preocupado em defender a existência Dele, terá que procurar outro argumento para rebater.
O segundo problema é que os seguidores de R’hllor não são gatinhos inocentes. Melisandre, sua sacerdotisa, já causou muitas mortes. Pense no pobre Cressen, que bebeu a poção com o estrangulador destinada a ela.16 E pense em Renly Baratheon, morto pela sombra de Stannis, criada por Melisandre. 17 Se pudermos deduzir a vontade do deus pelas ações de seus seguidores, é questionável que R’hllor seja considerado um deus bom, apesar de seus belos títulos.

Deuses não se importam com os homens
O problema do mal apresenta algumas perguntas interessantes para os deuses de Westeros, mas não estabelece a inexistência deles. Pelo menos em Westeros, o problema lógico do mal, que diz que o problema do mal leva a uma contradição lógica, não existe. Contudo, existe um segundo tipo de problema do mal, chamado problema evidencial (ou probabilístico). O problema evidencial do mal é menos rigoroso, pois conclui apenas que o mal fornece evidências contra a existência dos deuses. Como já vimos neste capítulo, embora existam possíveis explicações quanto à existência ou obrigatoriedade de algum mal, os filósofos simpáticos a essas explicações são pressionados a mostrar por que existe tanta crueldade, mal e injustiça no mundo. Portanto, parece que a própria existência do mal no mundo de As crônicas de gelo e fogo, e talvez também no nosso, fornece evidências, ainda que não seja prova absoluta, da inexistência dos deuses
Observe novamente, contudo, que esse argumento diz respeito apenas a deuses justos, bons e poderosos. O problema do mal, seja ele lógico ou evidencial, não argumenta contra os deuses negligentes. E muitos dos habitantes de Westeros concordariam que os deuses são desprovidos de características encantadoras. Assim, quando Catelyn Stark disse a Brienne:
Ensinaram-me que os homens bons devem lutar contra o mal neste mundo, e a morte de Renly foi maligna, para lá de qualquer dúvida. Mas também me ensinaram que os deuses fazem os reis, não as espadas dos homens. Se Stannis for o nosso legítimo rei...
Brienne respondeu:
Robert também nunca foi o rei legítimo, até Renly disse isso. Jaime Lannister assassinou o rei legítimo, depois de Robert ter matado seu legítimo herdeiro no Tridente. Onde estavam então os deuses? Os deuses não se importam mais com os homens do que os reis com os camponeses.18

(A guerra dos tronos e a filosofia / editado por Henry Jacoby) 


NOTAS

1. David Hume, Diálogos sobre a religião natural (Martins Fontes, 1992).

2. George R. R. Martin, A fúria dos reis (Leya Brasil, 2011).

3. Id.

4. Santo Agostinho, A cidade de Deus (Vozes de Bolso, 2012).

5. Santo Agostinho, As confissões de Santo Agostinho (Paulinas, 2000).

6. Martin, A fúria dos reis.

7. Gilbert Ryle, Dilemas (Martins, 1993).

8. Richard Double, The Non-Reality of Free Will (New York: Oxford Univ. Press, 1991); e mais recentemente, dos cientistas Daniel M. Wegner, The Illusion of Conscious Will (Cambridge: MIT Press, 2002); e Benjamin Libet, “Do We Have Free Will?”, Oxford Handbook on Free Will, ed. Robert Kane (New York: Oxford Univ. Press, 2002).

9. H. J. McCloskey, “God and Evil”, Philosophical Quarterly 10, no. 39 (1960).

10. Martin, A fúria dos reis.

11. George R. R. Martin, A guerra dos tronos (Leya Brasil, 2010).

12. Martin, A fúria dos reis.

13. Id.

14. T. J. Mawson, “The possibility of a free-will defence for the problem of natural evil”, Religious Studies 40 (2004). Ver também R. Swinburne, The Existence of God (Oxford: Oxford Univ. Press, 2004).

15. Gottfried Wilhelm Leibniz, Theodicy: Essays on the Goodness of God, the Freedom of Man and the Origin of Evil (New York: Cosimo Books, 2009).

16. Martin, A fúria dos reis.

17. Id.

18. Ibid.

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publicado às 14:12


1 comentário

De louis sonia a 24.04.2015 às 07:44


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