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O que acontece com uma garota espanhola enviada a uma escola dirigida por freiras francesas, que tem em casa mademoiselles prontas a ensinar-lhe boas maneiras e nos feriados, visita famílias francesas, para apurar a pronúncia? Ela se transforma em alguém incapaz de passar despercebido na rua. Alicia R. Ivars usa sempre roupas vistosas, mas que refletem seu gosto pessoal, nunca a última moda ditada por Paris.
Que rumo teria tomado sua vida se, na condição de jovem mulher, tivesse se embebedado do jargão filosófico franco-germânico, tornando-se uma vitalista, voluntarista, existencialista gestáltica dissidente devotada a Bergson, Bachelard, Fischer, Chiva, Calvo …? Pois bem, ela se transformou numa autoridade mundial em azeite de oliva. Nada é inevitável ou previsível.
Debaixo das roupas chamativas, de modelo exclusivo, por trás da combinação de timidez e exibicionismo, Alicia está tentando ser uma gueixa. Mulher de grande inteligência, prefere cultivar o prazer sensual mais do que qualquer outro aspecto da sua personalidade. Apesar dos longos anos de treinamento teórico, concentra-se na tarefa de tornar-se agradável, evitando perder-se em indagações do tipo “Quem sou eu?” Uma gueixa é, naturalmente, o oposto de uma “coelhinha”, é uma mulher admirada não apenas pela beleza juvenil, mas também por uma habilidade mais antiga do que a mais antiga das profissões, e bem próxima de uma sacerdotisa, que desempenha rituais destinados a reconciliar os homens com o fato de não poderem ter tudo que querem.
O que os professores ensinam é uma coisa; o que vai na alma, outra. O legado da infância de Alicia é sua timidez; até o dia em que, aos 20 anos, um homem subitamente lhe declarou seu amor, e ela sequer havia notado o interesse dele. Não somente estivera numa escola de moças, como também sua família consistia, salvo o pai, exclusivamente de mulheres: três irmãs, uma avó, duas criadas e a mãe, mais enamorada pela natureza do que pelos homens. Os homens não faziam parte de seu mundo, que ela aprendera a desfrutar sem eles. Sua resposta àquele primeiro homem de sua vida (Ele escreveu: “Ando tentando exprimir meus sentimentos e você nem nota”) foi apaixonar-se em troca, “cheia de gratidão” por algo desconhecido. Desde então, tem combatido a timidez com a intenção deliberada de se transformar em uma pessoa extrovertida, o que quase conseguiu. A vida de uma pessoa tímida não era tão interessante, decidiu ela, quanto a de alguém que deixa a curiosidade correr solta, que é “meio selvagem, meio educado”.
Não importa tanto assim por quem você está apaixonada, acredita ela; é um erro querer ser amada pela pessoa que você ama. Não existe uma “justiça cósmica” na distribuição do amor, que passa por cima das nossas decepções amorosas pessoais. Dar afeto é sempre um bom investimento; você talvez não o receba em troca da pessoa a quem o deu, mas o receberá de alguém, e quanto mais afeto der, mais receberá. Há um déficit na balança de afeto porque as pessoas hesitam em dá-lo, porque não querem recebê-lo de qualquer um, e por isso limitam suas oportunidades, desenvolvendo uma imagem acanhada de si mesmas, como se não passassem de um tipo fixo, invariável, de pessoa. Em consequência, é mais difícil ao amante inesperado encontrá-las e fazer descobertas surpreendentes.
Assim, Alicia tenta ter uma personalidade o mais “fluida” possível. Sua religião é o “culto à vida diária”. “Julgo possível modificar seus papéis prévios ou esperados, para não mencionar manias de toda espécie de pesos psicológicos e limitações autodeterminadas.” Seu conhecimento de inglês pode não ser perfeito, mas está de acordo com seus princípios. Prefere exibir-se, “se virar” em quatro línguas, do que ser corretíssima e infalível em apenas uma. Você pode evitar ser um neurótico se parar de analisar obsessivamente o que imagina ser seu caráter: não importa quais sejam as suas falhas, pare de se queixar acerca dos seus complexos, não se derrame em confissões acerca do que pode e não pode fazer, gosta ou deseja. Trate cada encontro com uma pessoa como um acontecimento independente. “Uma gueixa está sempre pronta a produzir prazer sem considerar suas necessidades próprias.” Ponha de lado as ambições pessoais e as expectativas que criou de si mesma. Aprenda a ser uma gueixa começando por ser, antes de tudo, uma gueixa para o seu próprio corpo; cuide bem dele; quando estiver sozinha, prepare suas refeições com muito apuro; cuide do espírito, alimentando-o com poesia e música. Evite criar uma ideia excessivamente rígida de seus desejos. Veja-se como uma ameba, flutuando através da vida, dividindo-se: não tenha medo de perder a identidade. Ou, então, veja-se como uma coleção de lâmpadas elétricas: não ponha toda a eletricidade numa única lâmpada, ou ela explodirá; deixe sua energia circular livremente pelos muitos lados do seu ser. Quanto mais solta, mais aberta e ilimitada for sua identidade, tanto melhor. Trate suas emoções como um jardim que precisa de cultivo contínuo. Seja generosa, pois isso estimulará novos recursos em seu interior, novas ideias. Siga as “leis da natureza”. São feitas para você.
Com tais crenças, não lhe era possível ganhar a vida como professora, mesmo que fosse como uma professora excêntrica. Alicia abriu um restaurante. Inicialmente, cozinhava três dias por semana e fazia conferências três dias na universidade. Depois, renunciou à universidade e concentrou suas energias no Jardim das Delícias. Esse restaurante foi seu teatro; todos os dias as portas eram abertas e os clientes tinham de ser surpreendidos. “Eu ficava tão feliz de ver as pessoas chegarem bem-vestidas que sempre procurava usar alguma coisa nova.” Sua inventividade em vestuário é extraordinária; pequenos toques bizarros, surrealistas, significam que Alicia está sempre representando. Quando as pessoas que jantavam exigiam que saísse da cozinha, ela sempre trocava de roupa antes de aparecer. Mas isso era mais do que apenas se vestir para duas performances por dia. As pessoas nunca sabem bem o que querem. Seu prazer estava em revelar-lhes seus desejos, em apresentar-se como uma perita em fantasia, “uma intérprete de culinária”, traduzindo vagos anseios em refeições espantosas, envoltas em pesado simbolismo. “A culinária da gueixa é cortês, às vezes silenciosa, porém capaz de ser mística, arrebatadora, minimalista, realística, estética, devotada aos outros.” Organizar festas excêntricas tornou-se a especialidade de Alicia, que cria atmosferas inusitadas para fazer as pessoas “se sentirem diferentes”. Por exemplo: o esplendor eduardiano no Egito colonial, jardins iluminados por tochas, fontes com belas mulheres banhando-se, vinhos de frutas exóticas e coloridas, comida árabe. Como um mágico, ela se chamava Ali + Cia.
Apesar de nunca ter sido uma hippie, no stricto sensu do termo, nem uma feminista, “embora compartilhasse as atitudes, mas não a militância”, a participação em numerosas organizações universitárias e políticas permitiu que tivesse uma “comunicação muita íntima e prolongada, e sexo também, com muitos companeros diferentes” Só veio a se casar com 28 anos, o que exigiu que persuadisse o homem de sua escolha - e nisso levou cinco anos - de que era a mulher ideal, e que ele devia desistir de sua confortável vida de solteiro, ainda que ela “não correspondesse à sua ideia de uma esposa” Ele tampouco era virgem, “longe disso”, mas Alicia lhe disse que ele era uma pessoa retrógrada e forçou-o a superar isso. Segundo ela, Paco é o único homem do mundo que ela considera “cem por cento aceitável”
No entanto, isso não a impediu, após dez anos de casamento, de abandoná-lo. Um boêmio extraordinariamente simpático, um homem do teatro, que tivera seu batismo de fogo durante os acontecimentos de maio de 1968 em Paris, foi comer em seu restaurante. “Venha fazer a sesta comigo”, convidou. Alicia começou a visitá-lo; foram para o campo e fizeram amor. “Foi o paraíso”, uma paixão como ela jamais sentira.
“O maior conflito da minha vida” veio a seguir. Alicia contou a Paco: “Preciso esclarecer minha situação.” Rejeitar a experiência que seu novo amante estava lhe proporcionando seria diminuir sua personalidade. Assim, durante dez meses saboreou a paixão. Depois, decidiu que o amante “não era de todo aceitável”. Voltou para Paco. Paco, o polido, maduro e elegante, o mestre especialista em separações, estava magoado, apesar de toda a sua frieza. No entanto, voltaram às boas. “Paco jamais voltou a falar no assunto.” O casamento emergiu fortalecido; a admiração de Alicia por Paco não conhece limites, “ele nunca se zanga”.
Todavia, Paco “conhece apenas parte de mim. Não tentamos ser muito íntimos, uma maneira de manter um certo mistério no nosso relacionamento … Se você sabe demais, toma-se prisioneiro”. A maneira de conservar um casamento é evitar ir fundo na alma um do outro. Tome cuidado para não falar de forma muito direta, para não ferir o outro. Se tiver de abrir o coração, procure outra pessoa. Alicia encontrou essa pessoa num “misógino, alguém solteiro, mas não homossexual”, um especialista em teologia patrística que também é amigo de seu marido; “um homem muito espiritual”. Costumam ir para o campo, onde fazem piqueniques: “Podemos conversar sobre tudo. Eu o inspiro e ele, a mim. Ele compreende as minúcias dos meus argumentos.” Não há envolvimento sexual.
Sexo é uma outra questão, uma atividade distinta, “não deve ser arruinado por um excesso de sentimentos íntimos ou confidências, porque então você se torna escravo”. Isso não significa que Alicia deseja evitar sentimentos íntimos. “Nunca tive medo dos meus sentimentos íntimos. Sempre apreciei experiências psicotrópicas sem entrar em pânico ante a ideia de perder contato com meu ser interior ou com o meu corpo. Eu sei qual a melodia, o ritmo, o cheiro, a carícia ou o afago que me trará o meu desejado sentimento íntimo.” O engajamento sexual é, portanto, comparável ao ato de cozinhar: ambos produzem agradáveis “sentimentos íntimos”, ambos nos capacitam a produzir tais sentimentos em outra pessoa.
Ela distingue, antes de mais nada, o “sexo puro”. Na juventude, fez esse tipo de sexo com um “homem tântrico”, com quem manteve uma “correspondência ultra-erótica, com uma profusão de ilustrações”, e a quem visitava duas ou três vezes por ano para “atualização de todas as nossas fantasias”: a isso Alicia chamava luxúria emocional. Sexo combinado com amizade é diferente, uma combinação maravilhosa, mas sexo raramente leva à amizade, embora ela não “o rejeite como um estímulo” Mas se o sexo for confundido com amor, segue-se certamente o conflito, ou o casamento.
Com o correr dos anos, a frequência e variedade das atividades sexuais de Alicia diminuíram. Os amigos são menos exigentes; há menos tempo, menos espaço. Os parceiros mais jovens não lhe convêm; os de sua idade ou mais velhos são “rixentos, possessivos, ambiciosos, neuróticos, incapazes de repousar ou se divertir”. Ter uma vida sexual variada é “maravilhoso: mantém a pessoa apaixonada pela vida”. Antigos amantes continuam para sempre, “integrados à minha maneira de amar”; ela ainda os ama, mesmo que não sinta saudade deles; relembrar amores passados, vê-los acontecer de novo em nossa mente é excitante; e quase como estar apaixonada.
Não há motivo, pensa, que justifique a existência de limites à atividade sexual: “Eu, por enquanto, não encontrei limites para a minha predisposição.” Sexo grupal e lesbianismo, é verdade, não a atraem, mas lembra-se da visita de uma estrangeira por quem se sentiu “muito atraída: eu poderia ter me envolvido e ter apreciado, ela era de fato maravilhosa para mim e precisava muito de afeto, pois acabara de enviuvar; provavelmente nós fizemos sexo por telepatia”. Há outras formas de sexo que não atraem. Por exemplo, “homens delicados, que precisam ou dependem de mim”, “vampiros” e “maridos que chegam em casa esperando que suas mulheres lhes dêem seus chinelos e uísque com cubos de gelo: um horror”.
Paco é o homem ideal porque jamais se mostra possessivo. É sempre respeitoso, feliz, divertido e, acima de tudo, “não fica grudado”. Sua grande virtude é sua sólida independência. “Podemos partilhar ou não nosso tempo livre, sair juntos ou ir cada um para o seu lado.”
“Desde a infância fui educada e treinada para sentir os prazeres da sensualidade; passava quatro meses por ano num lugar selvagem e paradisíaco (hoje, a casa é grande e bonita, mas os arredores foram destruídos), com figueiras, amendoeiras e oliveiras, vinhedos e tomateiros, e, além disso, o mar e a liberdade; a família inteira, os amigos; longos, longos dias de exploração dos prazeres sensuais.” Se fosse abandonada numa ilha deserta, escolheria levar um canivete, “para esculpir palavras nas árvores, matar os animais e beber o sangue, comer a carne fresca, construir uma choça para um isolado caso de amor”.
Todas as ambições de Alicia são particulares. Mudar o mundo não lhe interessa. Além de fazer Paco feliz, não tem metas específicas, exceto “um desejo de chegar à perfeição de uma maneira oriental”, o que significa desenvolver suas potencialidades. A fama vale a pena porque lhe permite maiores chances de escolher pessoas interessantes com quem se encontrar - mas apenas isso. O dinheiro é útil para ampliar suas oportunidades, mas é perigoso porque as pessoas ricas tendem a conhecer somente outras pessoas ricas, preocupadas com seus vestidos de seda pura, fazendo todas a mesma coisa. No entanto, o êxito profissional não basta: chega muitas vezes combinado com uma vida privada sem esperanças. Cinco anos dirigindo um restaurante, “como uma irmã de caridade, como o capitão de um navio”, deram-lhe um forte sentimento de realização, mas isto não é o suficiente.
Recentemente, quando Paco adoeceu - felizmente recuperou-se por completo -, Alicia pensou: o que faria se ele morresse? Trabalhar num escritório, nem pensar. Tomaria dois pensionistas e cuidaria deles. A pobreza não a preocupa, já que não lhe tiraria o prazer de pensar, de ter uma vida privada. Ficar sozinha também não a assusta. O outro lado de sua exuberante sociabilidade é a timidez, ou a concentração em seu mundo mental. Assim como o homem que vive rindo muitas vezes não passa de um infeliz, também aquele que vive indo a festas se sente com frequência solitário. Alicia insiste em dizer-se solitária. Olhando de sua janela para os campos que circundam Madri, vê a natureza completamente indiferente aos seres humanos e toma essa indiferença por modelo: a necessidade de ser indiferente às preocupações dos outros, de se desligar das pessoas. Mas ser solitário não significa estar isolado. Ela não está; alterna saídas com os amigos, idas ao cinema (onde também faz um piquenique e come durante toda a exibição do filme) e ficar sozinha. A sociabilidade, para ela, é uma espécie de linguagem - quanto mais você pratica, mais rico é o tipo de comunicação que pode estabelecer com as pessoas. Mas na juventude aprendeu a cortar o próprio cabelo e, desde então, nunca foi a um salão de beleza. Este é o sinal de sua independência.
Seus cortes de cabelo sempre são exóticos, não se parecem com os de ninguém. KRAFFT-EBING, especialista em perversões sexuais e amigo de Freud em Viena, disse que a fome e o amor governam o mundo. Mas os dois esqueceram a fome e se concentraram nos tormentos do amor, o que foi pena, porque sexo, comida e bebida sempre andaram juntos na busca do prazer. Se a sexologia não tivesse se tornado uma matéria científica distinta, se a busca de conhecimento estivesse organizada de outra maneira, se houvessem professores de felicidade para estudar a paixão pelo prazer como um todo, em todas as suas formas, uma visão diferente poderia ter surgido. Os impulsos físicos não são déspotas e frequentemente têm sido desobedecidos; os gostos não permanecem fixos para sempre. A maneira de buscar-se outra vez o desejo está em considerar o que as pessoas querem à mesa, e na cama, como parte de um conjunto.
A gastronomia é a arte de usar a comida para criar felicidade. Há três maneiras de comer, e três maneiras correspondentes de procurar a felicidade. Comer até se fartar é a primeira e tradicional maneira, confiando-se em velhas receitas e métodos bem experimentados. O objetivo é ficar contente, ser confortado, sentir-se aconchegado, ronronar de satisfação. Esta é a abordagem cuidadosa do prazer, que obedece à máxima: “Proteja-se dos corpos estranhos”.
Por corpos estranhos não se deve compreender apenas a mosca na sopa, mas tudo o que é insólito, proibido, obsoleto, ameaçador. Foi no processo de aprender a comer que os humanos fizeram do seu temor aos corpos estranhos uma virtude e chamaram-na de gosto. Desenvolveram-se hábitos mentais que imitaram os padrões estabelecidos para comer, e o medo de corpos estranhos espalhou-se a muitos outros aspectos da vida; a rotina, embora aborrecida, parecia ser a mais confiável apólice de seguro. Uma boa parte da história da humanidade consistiu em guerras travadas contra os corpos estranhos, porque a primeira espécie de felicidade que os seres humanos buscaram foi aquela que lhes desse segurança. Nada teria mudado se houvesse triunfado a cautela, mas sempre houve pessoas nervosas e solitárias que não se sentiam seguras, que também se consideravam corpos estranhos, estrangeiros em seus próprios domínios; o contentamento parecia-lhes impossível.
Em consequência, uma segunda maneira de comer foi inventada, e considerava a comida um divertimento, uma forma de permissividade, uma carícia dos sentidos. O propósito consistia em seduzir e ser seduzido, com a ajuda de velas românticas e de um ambiente de boa convivência, cercado por odores deliciosos. Em tais circunstâncias, nossa atitude em relação ao mundo circundante se modifica apenas temporariamente: flertamos com os corpos estranhos durante a refeição, mas eles não afetam a maneira como nos comportamos no escritório. Esse tipo de arte de comer adequa-se ao indivíduo que se desespera por levar uma vida tranquila, que anseia por distrações e surpresas, que busca uma espécie diferente de felicidade na frivolidade, em ser galhofeiro, cínico e irônico, recusando-se a ser permanentemente condenado à desgraça pelos grandes problemas, como a fome e a estupidez. Os cozinheiros que lhes preparam comida se assemelham a músicos de jazz, improvisando variações graciosas, jamais chegando a uma conclusão.
Mas é claro que é impossível ser feliz, a não ser de uma forma muito superficial, enquanto os outros são infelizes. Quando a paz e a tranquilidade, ou o engenho e o desapego, começaram a ficar insípidos, um anseio diferente nasceu, a fim de dar uma contribuição pessoal e original à vida. A busca de uma terceira categoria de felicidade - que os modernos chamam de criatividade - exigiu uma maneira de comer correspondente. Toda invenção e todo progresso resultam da descoberta de um elo entre duas ideias que nunca se encontraram, juntando corpos estranhos. Para os indivíduos que aspiravam a ser criativos, comer tornou-se parte do processo de olhar o mundo com um espírito mais aventureiro. Unindo ingredientes até então jamais misturados, cozinheiros criativos descobriram qualidades no alimento que ninguém suspeitava que existissem. Os comensais criativos estão constantemente empenhados em perder seu medo de pratos e corpos estranhos.
Contudo, isso não significa que existam três tipos de pessoas, cada um firmado nos seus hábitos. A criatividade é a preocupação do chef genial, que conscientemente tenta inovar, mas aqueles que acreditam que estão fazendo o contrário, reproduzindo infindavelmente as mesmas receitas da vovó, às vezes são criativos sem disso se darem conta. É verdade que existem pessoas que comem mais ou menos a mesma comida que seus ancestrais comiam há milhares de anos, mas ainda assim a variação se insinua, por mais limitado que o cardápio possa parecer. Dessa forma, uma pobre comunidade de Gana, completamente desconhecida para o mundo dos mestres da culinária, come 114 espécies de frutas, 46 tipos de sementes leguminosas e 47 vegetais. Nos Andes, um camponês pode distinguir sem dificuldade entre trezentas variedades de batata, e incluirá em seu guisado nada menos de vinte a quarenta variedades, cuidadosamente balanceadas. Sempre que uma receita não é seguida a rigor, sempre que se corre um risco mudando os ingredientes ou as proporções, o prato resultante é uma obra criativa, boa ou má, em que os seres humanos puseram um pouco de si mesmos. A invenção de um novo prato é um ato de liberdade, pequeno porém não insignificante. Há ainda um vasto campo para tais atos, já que a humanidade hoje em dia consome somente cerca de seiscentas das centenas de milhares de plantas comestíveis.
As crianças geralmente eram educadas para ser leais ao gosto da família ou, mais recentemente, para desenvolver identidades individuais mediante a afirmação de seus próprios gostos. Mas agora algumas estão sendo encorajadas a tratar os gostos como tratam as pessoas, ou seja, como dignos de serem respeitados, reconhecidos, compreendidos, e não a erguer muralhas entre aqueles com quem vão ou não falar, entre os alimentos de que gostam ou não gostam. Os estudantes franceses, cujo currículo agora inclui aulas sistemáticas na arte do gosto, são os pioneiros de uma revolução importante. Um espírito aberto acerca de comida e dos gostos alheios inevitavelmente modifica as atitudes que se tem em relação às atitudes dos vizinhos.
O mundo esteve muito tempo dividido em três grandes impérios, de tamanhos mais ou menos iguais, baseados nos três principais alimentos estabelecidos - trigo, arroz e milho. Porém o que separou as pessoas mais ainda foi o molho ou tempero que adicionaram: azeite de oliva no Mediterrâneo, soja na China, chilli no México, manteiga na Europa Setentrional e toda uma gama de aromas na índia. Os russos se sublevaram na década de 1840, quando o governo tentou persuadi-los a cultivar batatas; habituados a viver principalmente do pão de centeio, suspeitaram de uma conspiração para transformá-los em escravos e forçá-los a adotar uma nova religião; mas em cinquenta anos estavam apaixonados por batatas. A explicação é que eles acrescentaram a mesma acidez - kislotu - que sempre dera sabor à sua alimentação, e na qual estavam, de fato, viciados. Cada povo põe seu próprio sabor na sua comida, e só aceita mudanças se puder escondê-las de si mesmo, disfarçando as novidades no seu sabor especial. Otimismo acerca de mudança, seja na política, na economia ou na cultura, só é possível se for aceita esta premissa.
Os americanos utilizaram o açúcar como o gosto que torna todas as novidades aceitáveis. O açúcar, que não cheira e tem o poder mágico de tornar quase tudo superficialmente apetitoso, na verdade uniu o gosto do mundo muito mais do que qualquer outro ingrediente. Outrora considerado um remédio raro e divino - o mel era chamado de suor do céu, de saliva das estrelas -, sua produção aumentou quarenta vezes nos últimos cem anos: é a expressão culinária da democracia. O chocolate latino-americano, inicialmente temperado com chilli, só veio a conquistar o paladar mundial quando foi misturado ao açúcar (por Conrad van Houten, de Amsterdã, em 1828). Em 1825, Brillat-Savarin, autor de A fisiologia do gosto, previu que o açúcar estava destinado a ser o “sabor universal” Naquela ocasião, Goethe pagava 2,70 marcos de ouro por quilo; o açúcar era o elixir do prazer somente para os ricos, que gastavam mais com ele do que com pão. Agora a profecia se realizou: quase toda comida industrializada contém açúcar.
Toda a evolução culinária esteve subordinada à assimilação de corpos e condimentos estranhos, que são transformados no processo. A comida chinesa atingiu o apogeu no século XII graças às importações de mercadores aventureiros. A comida da Europa foi orientalizada pelo uso maciço de especiarias - na Idade Média, quase toda indiana. Depois, foi americanizada pela introdução da batata, do tomate, do peru de Natal e de outros produtos nativos americanos. A fast food não é americana nem européia, mas uma herança dos vendedores de rua do Médio e Extremo Oriente. A nouvelle cuisine é o resultado de um enxerto de ideias japonesas na tradição culinária francesa. Tais importações sempre foram feitas pelas minorias, contra a oposição. Qualquer inovação provoca oposição.
Contudo, a fome ainda é satisfeita sem a plena consciência acerca do que se quer comer. Certas comidas deliciosas não têm valor nutritivo, outras são desagradáveis até que sejam testadas, outras, ainda, não satisfazem o apetite, mas estimulam a pessoa a comer ainda mais, prolongando o prazer, qual amante que busca prolongar um abraço. Tentar dar sentido a semelhante conduta pode ser muito mais esclarecedor do que os gostos culinários de alguém - por exemplo, até onde alguém está interessado por novas espécies de prazer, ou por inovação e criatividade em geral; se está com vontade de arriscar um desapontamento ou fracasso, se quer ser bravo e livre mais do que aplaudido, se gosta de discutir os prazeres ou de dar prazer aos outros. A gastronomia é um ramo do conhecimento em crescimento, focada não na auto-indulgência, mas na exploração, tampouco na auto-exploração, mas na exploração do todo da natureza. Ela descortina à sua frente horizontes cada vez mais amplos de prazer e compreensão, ainda que tenha o seu lado obscuro, pois pouco tem feito para enfrentar as obscenidades da fome e da crueldade, e talvez só venha a conseguir o reconhecimento adequado quando o fizer. Todavia, garfos e colheres provavelmente têm feito mais para reconciliar pessoas em desacordo do que fuzis e bombas jamais fizeram.

OS PRAZERES DO SEXO, no entanto, estreitaram-se mais do que se afastaram no decorrer dos séculos. O sexo é o milagre que faz com que os seres humanos, normalmente atemorizados em relação aos estranhos, se sintam atraídos para alguns deles. Mas, até aqui, não conseguiu produzir sequer uma fração das flores - do afeto e da compreensão - de que seria capaz.
Como obter nas relações sexuais algo do aconchego e da segurança, do sentido de se saber o lugar a que se pertence, que a comida da mãe dá, foi o que as religiões pagãs ensinaram. Para elas, o mundo era uma grande máquina de auto-sustentação sexual: o céu impregnava a terra com sua umidade, e cada cópula era parte desse permanente processo de auto-renovação, não um ato sórdido, mas uma afirmação de parentesco com toda a natureza. O deus hindu Shiva constituiu um exemplo pelo prazer que sentia em espalhar sua semente entre as mulheres, e seus seguidores encaravam seus instintos sexuais como prova de que também tinham alguma coisa de divino.
A recompensa de fazer parte de um todo era reforçada pelo sentimento de que se podia contribuir pessoalmente para manter o mundo em marcha, pois a natureza tinha de ser encorajada tanto quanto é digna de agradecimento.
Os massais da África Oriental assim faziam nas periódicas Festas do Amor: durante vários meses as restrições de amizade e casamento eram canceladas e as pessoas, procedentes de centenas de quilômetros de distância, reuniam-se para fecundar a terra, os animais e umas às outras, em frente a seus sacerdotes; todo mundo fazia amor com todo mundo, somente as mães e irmãs eram excluídas. Tais ocasiões não eram consideradas orgias, mas uma maneira de dar um empurrão na vida. “Sexo é trabalho exaustivo”, observou uma mulher kikuyu a um antropólogo, “não se tem tempo para conversar.” Mas um prazer não diminui se obtido mediante árduo esforço.
Os chineses faziam da atividade sexual uma fonte de conforto ao situá-la no centro do seu sistema de medicina e acentuar-lhe o papel essencial na salvaguarda da saúde e cura de doenças, melhorando a circulação do sangue e relaxando o sistema nervoso. Os homens fortaleciam-se através do coito frequente, que produzia energia ao unir os princípios do macho e da fêmea, mas tinham de tomar o grande cuidado de assegurar igual prazer às mulheres, da mesma forma que mantinham o solo da terra em boas condições, pois as mulheres produziam sucos vitais que prolongavam a vida. Os exageros bizarros de tais doutrinas obscureceram-lhes a mensagem mais profunda. Em A arte do dormitório, o ministro Han, Chang Tsang, descreve como tentou viver até a idade de 180 anos sugando as secreções dos seios de mulheres. Mas no que, virtualmente, todos os antigos manuais de sexualidade insistiam era na importância de se prestar atenção aos desejos das mulheres. Na Europa, o folclore antigo advertia que nenhuma concepção era possível a menos que a mulher sentisse prazer. A infertilidade, dizia o Guia das parteiras, de Culpepper (1656), era causada pela “falta de amor entre o homem e a mulher”. Aqueles que hoje em dia encaram a atividade sexual como parte essencial de uma vida saudável fincam raízes profundas nessas tradições pagãs, dedicadas, como os taoístas observaram, “à simples e prazerosa arte de viver somente com o propósito de viver” No entanto, da mesma forma que certas pessoas se cansam da comida da mãe e procuram restaurantes exóticos onde se divertir de maneira insuspeita, alguns buscam o divertimento em leitos exóticos. Mas enquanto o conhecimento da culinária se expandia, em consequência do comércio e das viagens, e recebia acréscimos constantes, a imaginação erótica logo se tornou repetitiva. Por volta de 450 d. C., as técnicas do prazer sexual haviam sido descritas de modo compreensível no Kama Sutra, um sumário de numerosas obras mais extensas, compilado pelo ascético celibatário Vatsyayana. Apesar dos exagerados relatos de aventuras pessoais contidos nessa obra de aprendizagem e literatura - notadamente Kshemendra (990-1065), em O breviário da prostituta, e Koka (?1060-?1215), em Os mistérios da paixão -, o alcance dos prazeres em disponibilidade permaneceu virtualmente inalterado; cerca de mil anos depois de Ovídio e Lucrécio, a Europa nada tinha a acrescentar. A pornografia dispunha de seus livros sagrados; seus devotos tendiam a se viciar numa obsessão particular. As fantasias que ocupavam espaço nas mentes dos amantes focavam, acima de tudo, a conquista, a dominação e a submissão, como se o mais comum relacionamento disponível fora da cama houvesse erguido cercas em volta dela. Não houve uma rebelião genuína nas fantasias de ser forçado a cometer atos proibidos ou ser seduzido por admiradores proibidos. Cada geração imaginou encontrar a liberdade em tais fantasias, embora estivesse simplesmente atada ao mesmo e velho mourão - ou a um de uma pequena seleção de mourões - ao redor de sua imaginação.
A mais excitante experiência sexual que um chinês poderia ter, do século X em diante, era olhar de relance os pés de uma mulher, que os havia reduzido a 8 ou 10 centímetros de comprimento, evitando-lhes o crescimento normal na infância.

“Ignoro quando este costume começou:
Deve ter começado por um homem vil,”
Escreveu uma poetisa chinesa. A prática de enfaixar os pés foi introduzida por dançarinos da corte imperial e copiada pela aristocracia como sinal de distinção. Depois, as classes médias a adotaram, para mostrar sua respeitabilidade, agindo de acordo com os preceitos da castidade, e, ao longo de centenas de anos a partir daí, o costume permaneceu como um inquestionável objeto de desejo sexual, porque o sexo não gosta de se questionar acerca do que deseja. Uma mulher com pés miniaturizados não podia trabalhar nem ir longe; e tinha que prever se o marido podia dar-se ao luxo de mantê-la em casa, na ociosidade, O afetado andar desequilibrado excitava os homens; manipular os pés femininos tornou-se um prelúdio indispensável ao coito; manuais sexuais foram publicados para recomendar 18 posições em que o coito permitia a manipulação dos pés e aconselhando diferentes maneiras de acariciá-los para aumentar os graus de êxtase, ou seja, beijando-os, sugando-os, lambendo-os e mordendo-os, introduzindo um pé na boca ou comendo sementes de melão e amêndoas colocadas entre os artelhos. Os pais sabiam que lhes cabia o direito de vender as filhas como prostitutas, a um preço mais alto, se tivessem os pés deformados, e as moças eram louvadas por suportarem a dor extrema que a compressão provocava, o que significava a quebra dos ossos dos pés pelo resto da vida. Concursos de beleza entre mulheres de pés diminutos costumavam ser promovidos em festivais de templos budistas - a “assembléia dos pés expostos”, originalmente para exibir possíveis candidatas ao harém imperial. Embora os manchus, que conquistaram a China no século XVII, decretassem a abolição do costume e insistissem em que as mulheres deviam orgulhar-se dos seus pés grandes, isso não bastou para convencer as mulheres, pois a sensualidade sempre se mostra complacente com seus hábitos; pés diminutos eram considerados um prazer em nada inferior ao do próprio coito, e os homens saboreavam a mistura de piedade e delícia que sentiam diante do sacrifício; os pés eram mantidos ocultos e, assim, permaneciam tão misteriosos como os órgãos sexuais propriamente ditos. Somente o movimento pela liberação da mulher, dois séculos mais tarde, apresentou razões satisfatórias para se desejar andar livremente com os próprios pés. E somente em 1895 um teólogo francês contou que os cristãos chineses admitiam, em confissão, pensamentos lascivos acerca dos pés das mulheres. Na província setentrional de Suiyuan as mulheres continuavam fanaticamente devotadas à compressão dos pés e a confecção de sapatos pequenos, belamente ornamentados, até a década de 1930. Essa veio a ser a forma particular do cruel erotismo que a China desenvolveu no pique de sua prosperidade, quando liderava a tecnologia e as artes no mundo, porque a prosperidade assim o permitia. A Europa obteve satisfações similares com o espartilho, que comprimia a cintura, ainda que os médicos advertissem, desde os tempos romanos e a Renascença até o século XIX, que ele trazia sérios perigos à saúde.
Em vez de ampliar a noção de prazer, sucederam-se ciclos de repressão e permissividade. Os ricos censuravam os pobres por sua chistosa obscenidade, mas na verdade ficavam fascinados pelos hábitos que condenavam e tomaram-nos de empréstimo. Os pobres se apaixonavam e desapaixonavam com respeitabilidade.
Montanhas irregulares de arte erótica ficaram como lembranças de décadas alternadas, e às vezes séculos, de licenciosidade. Na China, por exemplo, embora os objetos pornográficos existissem desde pelo menos 1000 a. C., o primeiro salto em sua produção ocorreu no século VII d. C., quando o império expandiu-se até os confins do Irã, da Coréia e do Vietnã; a prosperidade estimulou a luxúria erótica, ainda que, ou talvez porque, as pessoas se mostrassem mortalmente sérias acerca de seus feitos. Nesse período a China inventou o sistema de exames, que o mundo inteiro mais tarde copiou, e não fazia diferença alguma que a China fosse governada por uma imperatriz, Wu Chao, uma freira fanática e supersticiosa. Somente no século XIII o puritanismo se restabeleceu como o credo oficial. No século XVIII, um renascimento da arte erótica revelou prostitutas elegantes em bordéis de luxo, que eram centros de cultura e entretenimento, e Nanquim ficou famosa por seus vastos “quarteirões do prazer”, de abundância sem precedentes. No século XIX, o imperador Tongzhi morreu de sífilis, e na rebelião de Taiping (1850), seis mil meninos cativos foram castrados para serem usados como garotos de programa, com pés reduzidos e pesados cosméticos.
A maioria dos países poderia compor uma história de ondas de obsessão e reação: algumas vezes, o puritanismo veio da esquerda; outras, da direita; algumas vezes, daqueles que detinham o poder e, outras ainda, como uma reação contra eles. Não há idade de ouro no passado em matéria de sexo. Na década de 1950, os comunistas chineses destruíram sistematicamente enormes quantidades de antiguidades eróticas, numa tentativa de varrer da memória essas tradições ambíguas.
Nas décadas de 1930 e 1940, ao investigar de que maneira os americanos obtinham prazer sexual, Kinsey descobriu que ricos e pobres tinham ideias bem distintas, como se habitassem planetas diferentes. Os pobres devotavam-se desde cedo, “com um compromisso sincero”, ao coito genital, fazendo amor antes do casamento sete vezes mais do que os ricos e utilizando as prostitutas com uma frequência três vezes maior; mas com o passar dos anos, tornavam-se mais fiéis às esposas do que os ricos, que, em contraste, começavam a vida com mais prudência: na juventude, masturbavam-se duas vezes mais que os pobres, limitando-se, sobretudo, às carícias; mas, à medida que ficavam mais velhos, cultivavam a “arte do amor”, preocupandose com seios e jogos introdutórios, ao contrário dos pobres, que tinham dúvidas acerca da prática e até mesmo do beijo, e consideravam a nudez obscena. Em outras palavras, o sexo se tomara menos direto à medida que as pessoas haviam se tornado mais prósperas. O aconselhamento dado no Kama Sutra fora inspirado pelos mercadores ociosos das luxuriantes cidades medievais da Índia.
A terceira forma de prazer sexual produz amor e simpatias duradouras. É criativa, mas sempre foi tratada como um mistério desde o folclore primitivo até os dias de hoje. Por isso, os contos de fadas que ensinam às crianças da África Ocidental acerca do sexo apresentam-no como um jogo de esconder e procurar, sem soluções triviais: as populares histórias infantis sobre as aventuras do Sr. Pênis e da Sra. Vulva são farsas trágicas, que, em vez de estimular a obediência ao costume, oferecem apenas o humor como forma de lutar contra as inevitáveis dificuldades. Os pais são apresentados como figuras grotescas; o Sr. Pênis, que emerge por entre as árvores, é um homem generoso, mas o Sr. Testículos é egoísta; a moral de cada história contrariada pela seguinte; o adultério é, a um só tempo, idealizado e punido; o sexo é tanto divertido quanto cruel; e as fantasias não provocam necessariamente o desejo.
O restante do mundo continuou a tratar o sexo como um enigma, talvez por ter conduzido a maior parte dos seus negócios na suposição de que o egoísmo é a melhor maneira de prosperar, e as forças do sexo, que são capazes de estimular a abnegação, afiguram-se destrutivas, sendo melhor excluí-las da arena pública e relegá-las à privacidade do lar. Mesmo o cristianismo, que é a religião do amor, receou o amor sexual, confinando-o estritamente ao casamento, comparado por Lutero a um hospital para cura da luxúria.
O corpo estranho, que foi uma ameaça constante ao sexo enquanto criador do amor, foi o ciúme. Diderot definiu o amor em sua grande Enciclopédia como “a posse e gozo de outro ser”. Foi o desejo de possuir- inevitável, talvez, enquanto a propriedade dominou todas as relações - que tomou os amantes tão inseguros, fez surgir o medo da perda e a recusa em aceitar que um amor tinha de ser sentido, outra vez, todos os dias. As raízes dessa atitude devem ser procuradas nos antigos manuais de sexualidade hindus, que viam o amor como um combate, envolvendo conquista - também inevitável numa época em que a guerra decidia o destino de todos. O Kama Sutra ingenuamente sugeriu que o amor só era perfeito quando ambas as partes saíam vitoriosas. Mas com grande frequência questionou-se quem amava mais a quem. Tudo ou nada, subjugação total: esses ideais militares limitaram a influência do sexo nos relacionamentos fora do quarto de dormir, impedindo-o de ser tão criativo quanto poderia ser. Há uma grande quantidade de sentimento sexual que jamais encontra expressão genital - amor não- correspondido, atrações e sensações em vários graus de suavidade, cuja maior parte se desperdiça. Esquece-se que na infância o despertar sexual resulta de uma ampla variedade de causas, muitas delas nada tendo a ver com sexo - experiências incomuns ou assustadoras, ser caçado, ser espancado, voar em avião -, e somente aos poucos o leque dos estímulos se estreita: quais as emoções de fato sexuais, será decidido em parte sob pressão do parceiro. A concentração da atenção no orgasmo, no momento do triunfo e entrega, restringiu a ideia de prazer sexual. Assim como a crença de que a energia sexual necessita ser descarregada, qual munição que explodirá no rosto de alguém se não for disparada contra o alvo. Esquece-se que entre os chineses e os hindus muitos advogaram o coito sem ejaculação, que em muitas das chamadas tribos primitivas, como os dani, da Indonésia, de quatro a seis anos de abstinência sexual são observados após cada parto, que entre os iorubas a maioria das mulheres normalmente não dorme na mesma cama dos maridos, que antes da fácil disponibilidade dos contraceptivos os casais passavam horas e horas se beijando: a penetração não é a única forma de carícia.
As formas de se transformar vagas atrações sexuais em propósitos úteis foram investigadas nos séculos XVII e XVIII, particularmente entre os franceses, que desenvolveram o flerte e a coqueteria como artes de sociabilidade, evitando envolvimentos exclusivos. Naquela época, num costume fora de moda, um amante (amant) ainda podia significar um admirador, e não necessariamente um parceiro sexual; originalmente, “fazer amor” significava cortejar, e não praticar o coito. O flerte imprimiu um novo rumo ao amor cortês, era o sexo sem sexo, um prolongamento das preliminares do sexo que nunca precisa ser consumado; mas em vez de idealizar o ser amado, tentava-se compreendê-lo e comprovar de que forma os dois poderiam ser mutuamente agradáveis e estimulantes. No entanto, a maior parte das pessoas tinha pressa de fazer conquistas e acusaram o flerte de tedioso, de fingido, de tornar o amor impossível, de levar os casais a se comportarem como se estivessem permanentemente num baile de máscaras. Essa hostilidade era compreensível, já que se via no casamento e na procriação a função principal da mulher, mas assim que mulheres e homens foram tratados como personalidades independentes, cujas opiniões valia a pena descobrir, o flerte pôde ser reconhecido como o primeiro passo de um relacionamento cujo propósito é a exploração associada e mútua. Talvez outra palavra venha a substituir flerte, para indicar seu significado em expansão: uma aventura fundamentada na atração, mas buscando fazer mais do que atrair.
“Um homem não tem pensamentos suficientes para uma mulher”, diz um provérbio da tribo dos mateiros kung. Adultério e divórcio não foram maneiras particularmente criativas de acomodação. Mas o autor congolês Sony Labou Tansi, que escreveu que o erotismo é a arte de “bem cozinhar o amor”, lembra que ainda há um longo cardápio a ser descoberto e que até lá muito afeto será jogado pela janela. Cozinhar, é claro, envolve não somente os sentidos, mas também o interesse em tudo o que está vivo, e a comida tem melhor sabor se supre, aqueles que juntos a consomem, de benevolência, ainda que temporária, de um para com o outro.

(Theodore Zeldin - Uma história íntima da humanidade)

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