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Pitonisas & Sibilas

por Thynus, em 22.08.17

De fato, penso no antigo erro, logo punido, mas com efeitos que duram até a terceira geração, no desvio de Laio, surdo à voz de Apolo que, três vezes, em seu trono fatídico de Pito, umbigo do mundo, declarou que ele devia morrer sem filhos, se quisesse salvar sua cidade. Cedendo porém ao insensato desejo (Laio está sob o domínio do álcool ao fazer amor com Jocasta), ele engendra sua própria morte, Édipo, o parricida que, no rego sagrado da mãe que o nutriu, ousou plantar uma raiz sangrenta. O delírio havia unido os esposos ensandecidos (ainda o álcool explicando o esquecimento da recomendação de Apolo). Um mar de males lança sobre nós as suas vagas. Cada uma que rebenta ergue outra, três vezes mais forte, a estrondear fervilhando contra a popa da nossa cidade [...] Pois aqui se cumpre o terrível acerto de contas de antigas imprecações.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 

 Aproveito para, de passagem, contar de onde vem a expressão “palavras sibilinas”. Sibila era simplesmente uma pítia, uma sacerdotisa encarregada de transmitir os oráculos de Apolo. Como tinha uma grande fama, decidiu-se após sua morte transformar seu nome próprio em nome comum e dizer “uma” sibila para designar as sacerdotisas que a sucedessem em Delfos ou em outro lugar, propagando palavras oraculares. Os oráculos, no entanto, tinham uma característica constante: eram sempre ambíguos, com significado nunca imediato e sempre de difícil interpretação para os mortais. Por isso se diz “palavras sibilinas”, designando argumentos pouco claros ou ambíguos.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)



Ouvir profecias foi um hábito constante dos povos etruscos, romanos e gregos. Os centros proféticos se multiplicavam em suas localidades. Porém, o mais famoso foi, sem dúvida, o de Delfos, dedicado a Apolo. Situado no sopé do monte Parnaso, num magnífico cenário natural, donde se podia descortinar boa parte da Grécia, para lá acorriam pessoas de muitos países para consultas, homenagens e oferendas ao deus.

   Os textos homéricos são ricos em citações a este templo onde Apolo, deus do sol e da profecia, se revelava ao mortal através de suas profetisas.

 

   Passado o inverno, quando o sol retornava à Grécia, o mito nos diz que Apolo voltava do paraíso hiperbóreo para Delfos, onde o esperavam as suas Pitonisas.

 

   O nome destas sacerdotisas provinha da serpente Pytton. Esta, após o grande dilúvio que devastara a Grécia, ao primeiro raio de sol enviado por Apolo para recuperar um solo lamacento, havia surgido das profundezas da terra.  

 

 

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Delfos, o lugar sagrado das profecias de Apolo proferidas através das pitonisas

As interpretações de Pytton são divergentes. Dependem de como se entende a simbologia das serpentes. Alguns vêem nelas a potência do mal que, surgida das entranhas da terra, foi morta pela luz de Apolo. Para outros, correspondem ao símbolo da sabedoria, que após um grande impacto que destruiu tudo o que era negativo, surge com toda a força, encontrando-se com a luz sagrada de Apolo.

   Como as pitonisas são encarregadas de trazer aos seus consulentes a sabedoria profética do deus, é possível que a serpente Pytton corresponda à segunda interpretação.

 

   Para receberem o beneplácito do deus e fornecerem oráculos corretos, as pitonisas se purificavam nas águas da fonte sagrada Castália. Entrando depois no templo, situado em enorme caverna, encaminhavam-se a um salão indo mascar folhas de louro, sentadas sobre um tamborete de três pernas. Este, colocado exatamente sobre uma fenda de onde emanavam vapores causadores de tonteiras, as capacitavam ao transe. Momento sublime-segundo acreditavam- quando Apolo lhes falava

 

   Sacerdotes anotavam e transmitiam o que as pitonisas balbuciavam entre estremecimentos convulsos. Tais sacerdotes por vezes deturpavam a seu bel prazer o que era recebido conforme suas conveniências. Contudo, muitos deles até influenciaram positivamente o desenvolvimento das cidades gregas, dando informações que vieram a auxiliar em guerras e colonizações, dando aos oráculos uma importância inegável.

 

   Além das Pitonisas, contava-se para adivinhações, profecias e oráculos ainda com Sibilas. A que melhor sobressaiu-se foi a de Cumes, local da Itália onde existiu uma gruta-santuário de Apolo. Esta Sibila notabilizou-se principalmente por seus famosos livros (os Sibilinos). Neles, ela teria predito os destinos de Roma e seriam sempre revistos como orientações em épocas de grandes crises.

 

   A Capela Sistina nos apresenta, em magníficos afrescos de Michelangelo, uma serie de Sibilas. Algumas portando galhos de louro, mas todas com manuscritos ou livros às mãos num simbolismo da sabedoria que Apolo lhes transmitia.

 

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A Sibila de Cumes, pintura da Capela Sistina

 

 Eram privilegiadas por este deus solar, mas ele se tornava implacável quando alguma delas se negava a amá-lo

   Assim aconteceu com a Cassandra, filha do rei de Troia. Apolo lhe deu o dom da profecia, desejando em troca o seu amor. Porém, quando ela lhe resistiu, ele, decepcionado, lhe impôs um castigo. Ninguém jamais acreditaria nas profecias saídas da boca de Cassandra. Isto resultou em desastres, posto que suas advertências de que Páris ao roubar Helena causaria a destruição de Troia, não foram ouvidas. Nem tampouco seus avisos proféticos de que o célebre “Cavalo de Troia” era um perigo iminente, uma grande farsa que os gregos impingiriam aos troianos.

 

   Nem a Sibila de Cumes, tão famosa, subtraiu-se à ira de Apolo. Ele a queria tanto, que prometeu dar-lhe tudo o que desejasse. A Sibila então pegou um punhado de areia e lhe pediu tantos anos de vida quantos grãos tivesse nas mãos.

 

   O deus notou que ela esqueceu-se de pedir-lhe uma paralela juventude eterna. Ainda usou esta promessa para tentar convencê-la. Porém, quando ainda assim ela recusou-se a ele, Apolo deixou que ela envelhecesse. Os anos de vida da Sibila permanecerão por séculos incontáveis, mas seu corpo degenera sempre.

 

   Em angústias terríveis a Sibila se arrepende de ter querido viver tanto e ter recusado amar Apolo.

(Helyette Malta Rossi - A Diversidade dos Mitos)

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