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Pensar mal é tornar mau

por Thynus, em 26.10.17
...
Santo Agostinho e o problema do Mal
 
— As paixões tornam-se más e pérfidas quando são consideradas más e pérfidas. Desse modo, o cristianismo conseguiu transformar Eros e Afrodite — grandes poderes passíveis de idealização — em espíritos e gênios infernais, mediante os tormentos que fez surgir na consciência dos crentes quando há excitação sexual. Não é algo terrível transformar sensações regulares e necessárias em fonte de miséria interior, e assim pretender tornar a miséria interior, em cada pessoa, algo regular e necessário? E isso permanece uma miséria escondida e, portanto, de raízes mais profundas: pois nem todos têm a coragem de Shakespeare, ao admitir seu ensombrecimento cristão nesse ponto, como faz nos sonetos. — Então é preciso considerar mau o que deve ser combatido, conservado em certos limites ou, em algumas circunstâncias, banido por completo da mente? Não é próprio de almas vulgares imaginar sempre mau um inimigo? E pode-se chamar Eros de inimigo? As sensações sexuais têm em comum, com aquelas compassivas e veneradoras, que nelas uma pessoa faz bem a outra mediante o seu prazer — tais arranjos benevolentes não se acham com freqüência na natureza! E denegrir justamente um deles e estragá-lo com a má consciência! Irmanar a procriação dos seres humanos à má consciência! — Por fim, essa demonização de Eros teve um desfecho de comédia: o “demônio” Eros veio a tornar-se mais interessante, para as pessoas, do que todos os anjos e santos, graças ao murmúrio e sigilo da Igreja nas coisas eróticas: seu efeito, até em nossa época, foi tornar a história de amor o único verdadeiro interesse comum a todos os círculos — num exagero incompreensível para a Antigüidade, e que um dia dará lugar à risada. Toda a produção de nossos poetas e pensadores, da maior à mais insignificante, é mais que caracterizada pela excessiva importância da história de amor, que nela surge como história principal: por conta disso, talvez a posteridade julgue que em toda a herança da cultura cristã há algo mesquinho e maluco.

(Friedrich Nietzsche - Aurora, livro I,76)

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