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Pensamento alargado

por Thynus, em 03.10.16

“Adão conheceu a Eva, sua mulher” (Gn.4,1a). “Conhecer”, em linguagem bíblica, não é um ato apenas intelectual, mas uma experiência concreta. Pelo ato de se tornarem “uma só carne”, Adão e Eva se conhecem reciprocamente na sua profundidade de pessoa humana, mediante o sexo. O ato conjugal é um meio de união e não um fim em si mesmo; é um instrumento para o conhecimento mútuo dos cônjuges. Não conhecem somente a sexualidade como se fosse uma especificidade somática, mas a pessoal identidade desse outro “eu” feminino e masculino.


 

Se conhecer e amar são uma só coisa, então, o que acima de tudo dá sentido a nossas vidas, ao mesmo tempo orientação e significado, é exatamente o ideal do pensamento alargado.

(Luc Ferry - Aprender a viver)

 

 

"Pensamento alargado" como sentido da vida humana

 

É Kant, na linha de Rousseau, quem lança pela primeira vez a ideia crucial de “pensamento alargado” como sentido da vida humana. O pensamento alargado, para ele, é o contrário do espírito limitado, é o pensamento que consegue se libertar da situação particular de origem para se elevar até a compreensão do outro.

Para lhe dar um exemplo simples, quando você aprende uma língua estrangeira, é preciso que ao mesmo tempo você se afaste de si e de sua condição particular de partida, o francês, por exemplo, para entrar numa esfera mais larga, mais universal, onde vive uma outra cultura e, se não uma outra humanidade, ao menos uma outra comunidade humana diferente daquela a que você pertence e da qual, de algum modo, você começa a se desprender, sem, contudo, renegar.

Desprendendo-se das particularidades iniciais, entra-se, pois, em mais humanidade. Ao aprender uma outra língua, você pode não apenas comunicar-se com um número maior de seres humanos, mas ainda descobre, por meio da linguagem, outras ideias, outras formas de humor, outras modalidades de relação com o outro e com o mundo. Você alarga a visão e afasta os limites naturais do espírito atado à sua própria comunidade — que é o arquétipo do espírito limitado.

Além do exemplo específico das línguas, é todo o sentido da experiência humana que está em jogo. Se conhecer e amar são uma só coisa, você entra, alargando o horizonte, cultivando-se, numa dimensão da existência humana que a “justifica” e lhe dá um sentido — simultaneamente uma significação e uma direção.

De que serve “crescer”, perguntamo-nos às vezes. A isso, talvez, e mesmo se essa ideia não nos salva mais da morte — mas que ideia poderia fazê-lo? —, ela ao menos dá um sentido ao fato de enfrentá-la.

(...)

Essa noção ... assume um significado novo no quadro do pensamento pós-nietzschiano. Ela não designa simplesmente, como em Kant, uma exigência do espírito crítico, uma imposição argumentativa (“colocar-se no lugar dos outros para melhor compreender seu ponto de vista”), mas um novo modo de responder à questão do sentido da vida. Gostaria de lhe dizer uma palavra a respeito, a fim de indicar algumas relações que ela mantém com a problemática da salvação ou, pelo menos, com o que está em seu lugar na perspectiva humanista pós-nietzschiana, liberada dos ídolos da metafísica.

Por oposição ao espírito “limitado”, o pensamento alargado poderia ser definido, num primeiro momento, como aquele que consegue arrancar-se de si para se “colocar no lugar de outrem”, não somente para melhor compreendê-lo, mas também para tentar, num momento em que se volta para si, olhar seus próprios juízos do ponto de vista que poderia ser o dos outros.

 ... para que se tome consciência de si, é preciso situar-se a distância de si mesmo. Onde o espírito limitado permanece envisgado(aprisionado) em sua comunidade de origem a ponto de julgar que ela é a única possível ou, pelo menos, a única boa e legítima, o espírito alargado consegue, assumindo tanto quanto possível o ponto de vista de outrem, contemplar o mundo como espectador interessado e benevolente. Aceitando descentrar sua perspectiva inicial e arrancar-se ao círculo do egocentrismo, ele pode penetrar nos costumes e nos valores diferentes dos seus; em seguida, ao se voltar para si mesmo, tomar consciência de si de modo distanciado, menos dogmático, e com isso enriquecer suas próprias ideias.

É também nesse ponto que eu gostaria que você observasse e avaliasse a profundidade das raízes intelectuais do humanismo: a noção de “pensamento alargado” dá seguimento à “perfectibilidade” que vimos em Rousseau.(ver Diferença entre animalidade e humanidade) Ele encontrava nela o próprio do humano, por oposição ao animal. Ambas supõem, de fato, a ideia de liberdade entendida como a faculdade de arrancar-se da condição particular para aceder a uma maior universalidade, para entrar numa história individual ou coletiva — de um lado, a da educação, de outro, a da cultura e da política — no curso da qual se efetua o que poderíamos chamar de humanização do humano. 

Ora, é também esse processo de humanização que dá todo sentido à vida e que, na acepção quase teológica do termo, a “justifica” na perspectiva do humanismo. 

(...)

Na Bíblia, conhecer significa amar. Falando mais rudemente: quando se diz que alguém “a conheceu biblicamente”, significa que “ele fez amor com ela”. A problemática do sentido é uma secularização dessa equivalência bíblica: se conhecer e amar são uma só coisa, então, o que acima de tudo dá sentido a nossas vidas, ao mesmo tempo orientação e significado, é exatamente o ideal do pensamento alargado. Só ele, de fato, nos permite, ao nos convidar, em todos os sentidos do termo, para a viagem, ao nos exortar a sair de nós mesmos para melhor nos encontrar — e é o que Hegel chamava de “experiência” —, conhecer melhor e amar mais os outros.

Para que serve envelhecer? Para isso, e talvez para mais nada. Para alargar a visão, aprender a amar a singularidade dos seres assim como a das obras e às vezes, quando esse amor é intenso, viver a supressão do tempo que sua presença nos dá. Com isso conseguimos, mas apenas em alguns momentos, como nos sugeriam os gregos, nos libertar da tirania do passado e do futuro para habitar esse presente por fim sem culpa e sereno. Agora você compreendeu que esse presente é como que um “momento de eternidade”, como que um instante no qual o temor da morte finalmente não significa mais nada para nós.

É nesse ponto que a questão do sentido e da salvação se unem.

(...)

afastando-me de mim mesmo para compreender o outro, alargando o campo de minhas experiências, eu me singularizo, já que ultrapasso ao mesmo tempo o particular de minha condição de origem para aceder, se não à universalidade, pelo menos ao reconhecimento cada vez maior e mais rico das possibilidades que são da humanidade inteira.

(...)

... Nunca amamos o particular enquanto tal, tampouco o universal abstrato e vazio. Quem se apaixonaria por um recém-nascido ou por uma fórmula algébrica?

Se continuarmos a seguir o fio da singularidade, ao qual o ideal do pensamento alargado nos conduziu, devemos acrescentar a ele a dimensão do amor: somente ele dá valor e sentido último a todo esse processo de “alargamento” que pode e deve guiar a experiência humana. Como tal, ele é o resultado de uma soteriologia humanista, a única resposta plausível à questão do sentido da vida — e, nesse aspecto, uma vez mais o humanismo não metafísico pode aparecer como uma secularização do cristianismo.

 

 

(Luc Ferry - Aprender a viver, filosofia para os novos tempos)

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publicado às 13:39



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