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Pelofobia

por Thynus, em 18.03.15
As mulheres não se permitem mais ter pêlos em lugar nenhum do corpo. Por quê? 
 

 

 

Não sei qual é a opinião de vocês, mas eu tenho a impressão de que o Brasil se tornou um país histérico com pelos. Na minha geração, que se tornou adolescente nos anos 70, as pessoas já gostavam de pernas lisas e de axilas desfrutáveis — mas hoje em dia vigora uma verdadeira pelofobia. As mulheres não se permitem mais ter pelos em lugar nenhum, em quantidade alguma. Das sobrancelhas ao períneo, tudo tem que estar liso como vidro, deserto como a superfície da Lua — sem as crateras, de preferência.
Quanto tempo se passou desde que a Vera Fischer posou nua exibindo uma versão louro-acastanhada da floresta amazônica? Quantos anos transcorreram desde que pelinhos para fora do biquíni eram a coisa mais sensual que se podia ver em Ipanema? Foi ontem que eu vi Julia Roberts aparecer numa cerimônia pública com pelos nas axilas?
As mulheres europeias — bonitas, sensuais, interessantes — não seguem o código da pele estéril. Antes de sair para passear, numa noite de verão, depilam as axilas para se exibir num vestido sem mangas. Mas essas mesmas mulheres, em outras circunstâncias, não hesitam em levar um homem para cama por causa de alguns pelos no corpo. Sobretudo aqueles pelos que os homens gostam (ou gostavam...) de descobrir.
Claro, me dizem, é cultural. As mulheres no Brasil gostam de andar sem pelos. Mas seria assim tão simples? Eu não acho. Acredito que essas estéticas “perfeccionistas” (meu termo favorito é onanistas) têm sido, na verdade, impostas às mulheres brasileiras, e de uma forma pouco sutil. Por causa das fotos de modelos e atrizes, as mulheres normais foram sendo pressionadas a cuidar do próprio corpo como se trabalhassem peladas numa boate. Acho, inclusive, que a última onda de depilação pubiana radical — que as mulheres afirmam ser dolorosa, degradante e terrivelmente trabalhosa — decorre da popularização dos vídeos pornôs.
Para mim, isso tudo parece uma deformação, um exagero, uma burca ao inverso que as garotas assumem (ou vestem) como se fosse a coisa mais natural do mundo. Quem diz que um púbis sem pelos é mais bonito que um púbis com pelos? Quem diz que um tufo de pelos embaixo do braço é “nojento”? De onde veio essa ojeriza?
A lavagem cerebral fica completa quando a exigência deixa de ser imposta de fora (pelos homens, pela moda ou por quem quer que seja) e passa a ser uma demanda interior das próprias mulheres, que já não se imaginam ou se toleram de outra forma que não seja ultradepiladas. Convencidas, elas passam a policiar as outras, transmitindo a pelofobia de uma forma epidêmica. Se alguma delas estiver fora do padrão, vai ser olhada de lado pelas próprias mulheres, as fiscais mais exigentes do corpo e do comportamento umas das outras. O resultado disso é uma onda crescente de insegurança íntima: será que eu estou depilada o suficiente, ou pintada o suficiente, ou magra o suficiente, ou bronzeada o suficiente, ou durinha o suficiente para provocar o desejo dos homens e a aprovação das outras mulheres?
Parece um pesadelo, e é.
Ao falar sobre isso, uma amiga me disse que abomina essa coisa dolorosa da “depilação íntima” e que adora a estética triangular dos pelos pubianos, mas que a cada dia se sente mais sozinha na sua delicada convicção. Está virando um dinossauro — ou seria um mamute, peludo e extinto? — num mundo de depiladas histéricas. Não se trata apenas de pelos. Uma das minhas colegas de trabalho que faz parte da geração mais atingida por essa onda de perfeição (a das mulheres que ainda não fizeram 30 anos) me contou que uma ex-chefe a achava relapsa por não fazer as unhas toda semana.
Por comparação, acho que vale a pena olhar para o que acontece no mundo masculino. Há uns homens raspando o peito, fazendo a sobrancelha e depilando a barba — além de se submeter a sessões cada vez mais longas de musculação, em busca do corpo perfeito. Muitos chegam a fazer plástica. Mas essa não é a lógica dominante. Os homens, na sua absoluta maioria, continuam peludos, barrigudos, carecas e fora de forma. Somos feios, somos baixinhos, somos magrelos, somos gordos. E assim somos aceitos. E assim somos amados. E assim vivemos: sem nos submeter à tirania do gosto alheio, sem jamais ter nos depilado. Talvez haja algo a ser aprendido com essa diferença, não?

(Ivan Martins - Alguém Especial)

Nu artístico

 

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publicado às 19:25


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