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Páscoa

por Thynus, em 30.01.16
A Bíblia conta que para celebrar a saída do Egito e manter viva a lembrança da escravidão, Iahweh prescreveu uma série de rituais a serem executados pelos hebreus. Tais celebrações levam os nome de Páscoa e Festa dos Ázimos. A Páscoa, no decorrer do tempo, espalhou-se pelo Ocidente para comemorar, no mesmo período, a ressurreição de Jesus Cristo. Embora pareçam festas similares, são, na verdade, distintas e originárias de um culto pagão.
Inicialmente, as festas da Páscoa e dos Ázimos relatadas no Antigo Testamento teriam sido realizadas na época da saída do Egito. Todavia, essas celebrações já eram feitas por diversos outros povos na mesma época, mas com outros sentidos. Como festas realizadas no início da primavera no hemisfério Norte, elas celebravam o renascimento e as colheitas, após o longo período de inverno. Tanto a Páscoa como os Ázimos não são festas originariamente judaicas e nem foram criadas para celebrar a fuga do Egito. A festa dos Ázimos era uma celebração agrícola para comemorar as boas colheitas. Ela tem origem cananeia – mais uma evidência de que as culturas de Canaã e de Judá e Israel são, originalmente, as mesmas – e não foi unida à Páscoa a não ser após a reforma religiosa promovida pelo rei Josias, que implantou o monoteísmo como religião oficial do estado de Judá. A Páscoa, por sua vez, era uma celebração de origem pré-israelita feita por pastores para o bem dos seus rebanhos.[Cf: Nota explicativa constante da Bíblia de Jerusalém (Paulus, 2008), em referência ao Capítulo 12 do livro do Êxodo]
Embora os redatores do Antigo Testamento queiram fazer da Páscoa uma festa judaica, como sendo determinada pelo próprio Deus a Moisés, para que os tempos de escravidão no Egito jamais fossem esquecidos, a Bíblia conta que “foi somente no décimo oitavo ano do rei Josias que semelhante Páscoa foi celebrada em honra de Iahweh em Jerusalém.” (2 Reis, 23:23), como parte das comemorações pela “descoberta” do livro da Lei no Templo. Josias governou Judá entre os anos 640 a 609 a.C. e isso leva à conclusão de que os relatos contidos no Êxodo sobre a Páscoa são acréscimos posteriores, possivelmente da versão do Antigo Testamento denominada Sacerdotal, composta após o exílio na Babilônia.
A Páscoa – que não tinha esse nome entre os outros povos do Oriente e da Grécia - era originalmente celebrada como parte dos rituais de ressurreição do deus Adônis (Tammuz, na Síria e Babilônia)[Joseph Campbell. As Máscaras de Deus: mitologia ocidental, p. 120; Mircea Eliade. História das crenças e das ideias religiosas, volume I: da Idade das Pedras aos Mistérios de Elêusis. p.176.]. Adônis, nas mitologias fenícia e grega, era um jovem de grande beleza que despertou o amor de Perséfone e Afrodite. Elas passaram a disputar a companhia desse homem e submeteram o assunto a Zeus. Este estipulou que Adônis passaria um terço do ano com cada uma delas, mas Adônis, que preferia Afrodite, permaneceria com ela também o terço restante. No entanto, o deus Ares, da guerra, amante de Afrodite, ao saber da traição da deusa, decide atacar Adônis enviando um javali para matá-lo. O animal desferiu um golpe fatal em Adônis. O jovem morto desceu aos infernos, onde já viviam Hades e a sua esposa Perséfone – a rainha do submundo. Como ele foi viver junto a sua rival, isso provocou a ira de Afrodite, obrigando Zeus a intervir mais uma vez, determinando que Adônis seria livre por quatro meses do ano, passaria outros quatro com Afrodite e o último quarto com Perséfone. O deus da beleza tornou-se então símbolo da vegetação que morre no inverno (descendo ao submundo e juntando-se a Perséfone) e regressa à Terra na primavera (para juntar-se a Afrodite), divindade ctônia (que cumpre o ciclo da semente).
A Páscoa Judaica celebra a libertação e o renascimento (ressurreição) de um povo, ao invés de um Deus, tradição esta que foi retomada pelo cristianismo, ao comemorar o retorno de Jesus do mundo dos mortos, tal como Adônis e outros, cujo festival também era celebrado no início da primavera do Hemisfério Norte.

(Élvio Gusmão Santos - As Histórias da Bíblia e os Mitos da Antiguidade)

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publicado às 17:48



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