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Paradoxo da revolução

por Thynus, em 29.09.14
O martírio era o meio mais seguro de os cristãos irem para os céus, mas com a oficialização do cristianismo não houve mais martírio e, então, os cristãos o substituíram pelo autoflagelo, o autossuplício. Depois, para tornar menos sacrificada a vida dos cristãos, o auto-flagelo foi substituído pela penitência, dando origem ao confessionário. Esse medo do Inferno levou os papas a criarem as indulgências e, desse modo, arrecadar dinheiro para construir o Vaticano e enriquecer bispados.
A. J. BARROS - O ENIGMA DE COMPOSTELA

A respeito do comércio das indulgências, ainda praticado no Vaticano,
citemos a resolução do Concilio de Trento 

(Chemnitz Examen Concilii Tridentini):
"Aqueles que compram cartas de indulgência podem
ficar certos da sua salvação; as almas que estão no purgatório,
pela redenção das quais se adquirem as indulgências, logo que

o dinheiro caia no cofre, escapam-se do lugar do tormento e sobem ao céu.”
“A eficácia das indulgências é tão grande que elas
podem apagar os mais monstruosos crimes, inclusive o da
violação da própria Virgem Maria se tal fosse possível" (!!!!!).
Felizmente, Jesus, os apóstolos e a própria Virgem Maria não leram essa
bula porque estavam distraídos com os cânticos celestiais.
Não há no mundo religião ou culto por mais estrambólico que faça do seu
altar tão vergonhoso balcão.
A Igreja Romana vende o perdão que o próprio Jesus pagou com seu
sangue, vende a moral social e seus preceitos, vende os méritos do sangue dos
justos, vende o direito de infringir as regras da moral, vende a justiça de Deus, de
que ela proclama a eqüidade, vende o reino dos céus aos pedaços, por meio do qual
Jesus fechou a corrupção dos ricos e cujas chaves, em vez de abrir suas portas,
abrem as dos vícios vomitados pelo seu inferno, vende chapéus cardinalícios,
púrpuras, mitras e a própria tiara pontificai, vende relíquias de santos, coroas
imperiais e fachadas presidenciais, resgata almas do purgatório por pouco preço e
por muito dinheiro conseguiria tirar do inferno o maior celerado.
Entre Deus e o adepto está erguida a Igreja Católica que, por isso
mesmo, ofusca Deus ao crente.

A. Leterre - A Vida oculta e mística de Jesus

A igreja católica teve no século XV o auge da sua exploração na Europa, quando até nos reis queria mandar. Vendiam indulgências (perdão pelos pecados) por verdadeiras fortunas, e mandavam matar pela “inquisição” aqueles que se manifestassem contrários à sua fé, exatamente como faz o Islã, hoje.
Alfredo Bernacchi - Ateu graças a Deus

 

 

O trabalho mais conhecido de Johannes Gutenberg é sua Bíblia de 42 linhas, um exemplo espetacularmente bonito do início da história da impressão. Mas esse não foi seu primeiro nem seu mais volumoso trabalho. (Ele imprimiu menos de duzentas cópias.) Essa honra fica mesmo com a impressão de indulgências.
Uma indulgência, na teologia católica, é uma forma de reduzir o tempo que uma pessoa passa no purgatório por pecados que já foram perdoados. Pecar, acreditam os católicos, aumenta o tempo pós-morte que você precisa esperar até ingressar no Paraíso. Indulgências são uma forma de reduzir essa espera, e a maneira de consegui-las é fazer doações à Igreja. A prática era vista com desconfiança em alguns círculos teológicos como uma troca de valor que parecia perigosamente muito próxima da compra, mas, enquanto a prática foi permitida, o desejo daqueles que as concediam e dos que as recebiam também existiu.
Na época de Gutenberg, uma indulgência era o registro escrito de uma transação, que também funcionava como um tipo de promissória que validava o futuro de seu portador. A Igreja delegava a determinadas pessoas o direito de reproduzir indulgências e coletar dinheiro em seu nome; o copista recebia pelo trabalho um percentual do valor da transação. (“O vendedor de indulgências” de Geoffrey Chaucer, é contado por um desses copistas.)
Entretanto, a renda das indulgências era limitada pela velocidade com que podiam ser escritas à mão. O resultado era um desequilíbrio entre oferta e demanda; o mundo queria mais indulgências do que a Igreja podia fornecer.
Entra Gutenberg. Consegue um empréstimo para começar o negócio de imprimir indulgências, (A Biblioteca Britânica discute a impressão de indulgências por Gutenberg em sua documentação da Bíblia de Gutenberg: http://www.bl.uk/treasures/gutenberg/indulgences.html (acessado em 9 de janeiro de 2010)) e assim consegue aumentar drasticamente a oferta, expandindo tanto o mercado quanto sua própria fatia. Ele imprimiu indulgências, provavelmente aos milhares (poucas sobreviveram) antes de imprimir a Bíblia. (Uma fonte sugere que ele teve que imprimir suas primeiras Bíblias em segredo, pois já havia assegurado o empréstimo para o trabalho muito mais lucrativo das indulgências.) Se você visse a loja de Gutenberg em 1450, quando seu produto eram indulgências e Bíblias, poderia pensar que a prensa tipográfica foi feita sob medida para fortalecer a posição econômica e política da Igreja. E então algo engraçado aconteceu: o oposto.
A prensa de Gutenberg inundou o mercado. No começo de 1500, John Tetzel, o maior comerciante de indulgências dos territórios germânicos, costumava entrar numa cidade com uma coleção de indulgências já impressas, lançando-as com uma frase normalmente traduzida como “Quando nova moeda o cofre desce / Outra alma no Céu se enobrece” (O lugar de Tetzel na história foi amplamente garantido pelas objeções de Martinho Lutero às indulgências em 1517, mas seu nome reapareceu há pouco tempo, quando a Igreja católica trouxe de volta as indulgências em 2008; discutindo essa mudança, John Allen faz referência à frase de Tetzel no blog Room for Debate, http://roomfordebate.blogs.nytimes.com/2009/02/13/sin-and-its-indulgences (acessado em 7 de janeiro de 2010). O explícito aspecto comercial das indulgências, entre outras coisas, enfurecia Martinho Lutero, que em 1517 lançou um ataque à Igreja na forma de suas Noventa e cinco teses. Ele primeiro pregou as teses na porta de uma igreja em Wittenberg, mas algumas cópias logo foram feitas e amplamente disseminadas. A crítica de Lutero, junto com a difusão de Bíblias traduzidas em línguas locais, levou à Reforma Protestante, jogando a Igreja (e a Europa) numa crise.
A ferramenta que parecia destinada a fortalecer a estrutura social da época, em vez disso, acabou com ela. Do ponto de vista de 1450, a nova tecnologia parecia não fazer nada além de oferecer à sociedade da época uma forma mais rápida e barata de fazer o que já era feito. Em 1550, ficou evidente que o volume de indulgências tinha corrompido seu valor, criando uma “inflação de indulgências” – mais uma prova de que para uma sociedade a abundância pode ser um problema mais difícil de lidar, do que a escassez. Da mesma maneira, a difusão de Bíblias não era um caso de mais do mesmo, e sim de mais e melhor – o número de Bíblias produzidas aumentou a quantidade de tipos de Bíblia produzidos, com Bíblias baratas traduzidas em línguas locais enfraquecendo o monopólio interpretativo do clero, já que agora os fiéis podiam ouvir o que o livro dizia em sua própria língua, e cidadãos alfabetizados podiam lê-lo por conta própria, sem padres por perto. Em meados do século, a Reforma Protestante de Lutero havia prevalecido, e o papel da Igreja como força econômica, cultural, intelectual e religiosa pan-europeia chegava ao fim.
Esse é o paradoxo da revolução. Quanto maior a oportunidade oferecida pelas novas ferramentas, menos completamente alguém consegue projetar o futuro a partir da formação anterior da sociedade. Também é assim atualmente. As ferramentas de comunicação que temos agora, que apenas uma década atrás pareciam oferecer uma melhora no panorama da mídia do século XX, agora o estão desgastando rapidamente. Uma sociedade em que todo mundo tem algum tipo de acesso à esfera pública é diferente daquele tipo de sociedade em que os cidadãos se relacionam com a mídia como meros consumidores.
O começo da revolução da imprensa também nos faz lembrar que, no início da difusão de uma nova ferramenta, é muito cedo para dizer como (e onde e quanto) a sociedade vai mudar por causa de seu uso. Grandes mudanças podem ser lentas. Depois da distribuição inicial de indulgências, o volume maior de sua produção reduziu drasticamente seu valor. As mudanças pequenas podem se espalhar. As Noventa e cinco teses, pregadas numa única porta, foram reimpressas, traduzidas e outra vez reimpressas, espalhando-se amplamente. O que parece ameaçar a uniformidade, na verdade, cria diversidade. Como diz Elizabeth Eisenstein em The Printing Press as an Agent of Change, observadores da primeira cultura da impressão presumiram que a abundância de livros significaria mais pessoas lendo os mesmos poucos textos. (Elizabeth Eisenstein, The Printing Press as an Agent of Change: Communications and Cultural Transformations in Early-Modern Europe (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1980). A imprensa parecia oferecer (ou ameaçar, dependendo do seu ponto de vista) um incremento da monocultura, já que um pequeno grupo de livros se tornaria o patrimônio literário compartilhado de um continente inteiro. Tal como aconteceu, a imprensa acabou enfraquecendo, em vez de fortalecer, a cultura intelectual mais antiga. Como cada leitor tinha acesso a mais livros, o resultado foi a diversidade intelectual, e não a uniformidade. Esse aumento na diversidade de fontes corroeu a fé nas instituições antigas. Quando um estudioso foi capaz de ler Aristóteles e Galeno lado a lado e ver que as duas fontes eram conflitantes, isso corroeu a fé inercial nos antigos. Se não podia confiar em Aristóteles, em quem você poderia confiar?
As mudanças de hoje têm algo daquele sentimento. Quando o público geral começou a usar redes digitais, a ideia de que todo mundo iria contribuir com alguma coisa para a esfera pública foi considerada contraditória à natureza humana (leia-se: comportamentos casuais do século XX). E, ainda assim, nosso desejo de nos comunicarmos uns com os outros se tornou um dos traços mais estáveis do ambiente atual. O uso de ferramentas que apoiam a expressão pública se transformou de pequeno em grande no espaço de uma década. O que parecia um novo canal para a mídia tradicional está na verdade mudando-a; o que parecia ameaçar a uniformidade cultural está na verdade criando diversidade.

 

A maioria dos adultos do mundo de hoje usa redes digitais, por computador ou telefone, e a maioria só começou a fazer isso na última década. Observadores da sociedade tiveram uma oportunidade sem precedentes de examinar o comportamento das pessoas em torno da adoção de ferramentas digitais, e o resultado é exatamente o que você esperaria do aparecimento de um novo e estranho meio: nós somos absolutamente terríveis em prever nosso próprio comportamento futuro. Pesquisa após pesquisa, na década de 1990, perguntou a usuários potenciais o que eles fariam com a internet caso tivessem acesso a ela, e as respostas mais comuns eram do tipo “Vou usá-la para achar informação”, “Vou usá-la para me ajudar com meus deveres da escola”, e por aí vai. Quando uma pesquisa perguntava a pessoas que já estavam on-line o que elas realmente faziam, as respostas eram muito diferentes. “Saber dos amigos e da família”, “Compartilhar fotos com os outros”, “Conversar com pessoas que têm os mesmos interesses que eu” e coisas assim apareciam no topo de toda lista. Como somos péssimos em prever o que vamos fazer com novas ferramentas de comunicação antes que as tentemos usar, essa revolução particular, assim como a da imprensa, está sendo conduzida por uma soma de experiências cujas ramificações nunca são claras à primeira vista.
Consequentemente, criar o valor máximo a partir de uma ferramenta envolve não planos magistrais ou grandes saltos à frente, e sim constantes tentativas e erros. A questão principal para qualquer sociedade que esteja passando por essa mudança é como extrair o máximo desse processo.
A possibilidade de compartilhamento em larga escala – o compartilhamento maciço e contínuo entre vários grupos formados a partir de um total potencial de 2 bilhões de pessoas – já está se manifestando em muitos lugares, desde a globalização da caridade à lógica da educação superior e à condução de pesquisas médicas. A oportunidade que nós coletivamente compartilhamos, no entanto, é muito maior do que possa exprimir um livro cheio de exemplos, porque esses exemplos, sobretudo os que envolvem uma ruptura cultural significativa, poderiam acabar sendo casos especiais. Como em revoluções prévias impulsionadas pela tecnologia – seja o surgimento de uma cultura alfabetizada e científica a partir da difusão da imprensa ou a globalização econômica e social que se seguiu à invenção do telégrafo –, o que importa agora não são as novas capacidades que temos, mas como transformamos essas capacidades, tanto técnicas quanto sociais, em oportunidades. A pergunta que agora enfrentamos, todos nós que temos acesso aos novos modos de compartilhamento, é o que vamos fazer com essas oportunidades. A pergunta será respondida muito mais decisivamente pelas oportunidades que fornecermos uns para os outros e pela cultura dos grupos que formarmos do que por qualquer tecnologia em particular.

 (Clay Shirky - A cultura da participação, Criatividade e generosidade no mundo conectado)

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