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Os três fundamentos das religiões

por Thynus, em 19.02.17
As religiões, nosso principal lembrete social da existência de Deus, têm estado conosco há milênios, desde o início das civilizações humanas. Primeiro, eram as religiões primitivas, que viam dois tipos de causas para os eventos – causas que as pessoas podiam controlar (se alguém esfregasse duas pedras, uma contra a outra, provocaria faíscas que ateariam fogo a folhas secas) e causas que pareciam fora do controle humano (desastres naturais, como terremotos, por exemplo). Nossos ancestrais primitivos atribuíam as causas incontroláveis à ação dos deuses: a causação descendente. O conceito inicial de muitos desses agentes de causação descendente acabou dando origem à ideia de um agente – Deus.

Com a passagem do tempo, observamos que o pensamento religioso foi ficando mais sofisticado. O conceito de Deus e da causação descendente ainda existe; mas há um conceito adicional e não menos importante – o conceito da alma individual, ou corpo sutil (expressão coletiva para força vital, mente e consciência). A alma é não física, feita de substâncias sutis, bem diferentes da substância física.

E finalmente veio a descoberta de que os humanos deviam almejar virtudes divinas: qualidades como bondade, caridade e justiça. Se não fizessem isso, estariam cometendo pecados e suas almas seriam punidas após sua morte.

Desenvolvimentos posteriores no pensamento religioso em muito refinaram a imagem de Deus e da causação descendente, a natureza de nossos corpos sutis e as ideias de virtude e pecado. No entanto, essas três ideias ainda são fundamentais para o pensamento religioso. Hoje, praticamente todas as religiões concordam sobre a causação descendente, corpos sutis não materiais e a ideia de ética e moralidade – a capacidade de distinguirmos entre virtude e pecado e de optarmos pela virtude. Estes são os três pilares da religião.

Digo isto antes de apresentar os dados científicos sobre a existência de Deus, pois os cientistas materialistas, em especial os ocidentais, quase sempre lutam contra um Deus de palha, o Deus “sobre-humano” do cristianismo popular, com ideias como o criacionismo, que são fáceis de se refutar (Dawkins, 2006). Porém, considerando-se a física quântica (Goswami, 1993) e inúmeros dados sobre vida após a morte (Goswami, 2001) e medicina alternativa para o corpo sutil (Goswami, 2004), é consideravelmente mais difícil refutar as ideias da causação descendente e de corpos sutis. E quem, em sã consciência, tentaria desmentir a importância das virtudes e dos valores em nossas vidas? É claro que as religiões têm uma teoria para as virtudes e os valores mais plausível do que os biólogos, para quem as virtudes e valores evoluíram da adaptação darwiniana por meio do acaso e da necessidade.

No entanto, os materialistas afirmam algo importante: que é difícil falar de Deus na ciência antes que as religiões esclareçam a questão “o que é Deus” entre elas. Se as religiões ainda brigam entre si sobre qual Deus é superior, como é possível aplicar a Deus uma abordagem monolítica como a da ciência?

Uma resposta a esse tipo de oposição ao estudo de Deus dentro da ciência é que as grandes tradições do mundo, as principais religiões, estão unidas, pelo menos em seu núcleo esotérico, em sua filosofia
não dualista de Deus. No esoterismo, existe a imagem da mente de Deus ou consciência (ou a Grande Vacuidade) como base de toda existência. Nessa base, há o conceito de corpos díspares, sutis (imateriais) e densos (materiais). Os ideais mais elevados da existência humana – bondade amorosa, por exemplo – definem a alma, que tentamos realizar. Quando o fazemos, ficamos livres, iluminados, e nossa ignorância vai embora (Schuon, 1984).

Mas o esoterismo, em si, mantém-se obscuro. O fato é que, no nível popular, a maioria das religiões, até hoje, ensina o dualismo: Deus como algo separado do mundo. E os detalhes da existência dual são bem diferentes de uma religião para outra. Portanto, o argumento suscitado pelo materialista não é válido? Que, de início as religiões concordem, e depois a ciência leve em consideração a questão de Deus.

Ensino religioso: acrta aberta ao ministro Barroso
 
Multiculturalismo

Mas esses cientistas não respeitaram a lição da antropologia cultural. Há algum tempo, os antropólogos culturais têm dito que o conceito de ciência monolítica pode não ser útil, talvez nem mesmo correto. Segundo eles, a ciência deve ser pluralista, dependente de cada cultura. Os cientistas tendem a rejeitar essa posição porque abominam a ideia do caos que surge de diferentes pontos de vista ao mesmo tempo, afirmando-se como princípios explicativos.

Creio que os antropólogos culturais têm razão no que diz respeito aos fenômenos envolvendo corpos sutis. Também acredito que a ciência multicultural não precisa ser necessariamente caótica.

Em geral, o que se percebe é que existe apenas uma física. Para corpos materiais densos, hoje a ideia de uma abordagem pluralista é desnecessária. O sucesso da abordagem reducionista da física resolveu a questão a favor de uma física monolítica de uma vez por todas. Porém, com certeza, isso não é válido para a ciência da psicologia e da medicina, e tampouco para a biologia.

Na psicologia, permanecem três forças poderosas: a psicologia comportamental-cognitiva de Alfred Adler; a psicologia profunda, baseada no conceito do inconsciente da psicanálise freudiana e da psicologia analítica junguiana; e a psicologia humanista/transpessoal com o conceito do superconsciente. Há inúmeros dados a comprovar essas abordagens. Para a psicologia cognitiva de laboratório, a abordagem comportamental está bem aplicada e costuma funcionar. Para a psicoterapia, porém, a psicologia profunda é uma necessidade. E, para a psicologia do bem-estar, a abordagem humanista/transpessoal tem seus atrativos e êxitos. Assim, a área da psicologia é um pouco caótica. Não existe uma maneira adequada de definir o domínio de cada uma dessas três forças, e nenhuma tentativa da psicologia conseguiu integrá-las em um todo coerente.

Na medicina, há duas abordagens bem-conhecidas e bem-sucedidas: a medicina alopática convencional e os diferentes paradigmas da medicina alternativa. Há muita provocação, muito caos e pouca concordância quanto à validade dos diferentes domínios e seus respectivos paradigmas. Será que estamos presos ao caos de uma abordagem pluralista?

Entre biólogos, embora exista uma concordância quase universal sobre um paradigma cujos dois pivôs são a biologia molecular e o (neo)darwinisno, ninguém conseguiu vincular este paradigma e a física, ou distinguir de forma inequívoca a vida da não vida. Mais especificamente, ninguém conseguiu explicar as lacunas nos registros fósseis da evolução. Portanto, uma abordagem da evolução envolvendo o criacionismo e o desígnio inteligente continua a ter apelo popular, até mesmo com o apoio de biólogos sérios. Existem outros pensamentos alternativos de paradigma, e estes estão ganhando força. Um baseia-se na importância do organismo como um todo e o chamamos modelo paradigma organísmico. Contudo, ninguém conseguiu fazer uma conexão entre os paradigmas materialista e organísmico, muito menos uma conexão entre essas duas abordagens e o paradigma do desígnio inteligente.

Afirmo que essas dificuldades da psicologia, da medicina e da biologia são provenientes do fato de que nessas ciências tanto o corpo material denso está envolvido quanto nossos corpos sutis. E, assim, nossas imagens dos corpos sutis ainda não foram refinadas o suficiente para desenvolvermos uma ciência monolítica útil. Agora que temos uma base, o novo paralelismo psicofísico (Figura 1.5, p. 38), para tratar o denso e o sutil com a mesma base, temos a oportunidade para uma abordagem muito necessária, como será demonstrado neste livro.

Eis, portanto, segundo acredito, a resposta à pergunta: “Por que as religiões diferem tanto em seus detalhes?” Porque, diferentemente da física monolítica, as religiões não lidam com o aspecto denso da realidade, ou matéria. Seu tema envolve aquilo que há de mais sutil, ou seja, Deus e alma.

Os materialistas se preocupam e acham que a multiplicidade de crenças religiosas sobre Deus é uma coisa ruim. Diz Sam Harris em The end of faith: religion, terror, and the future of reason: “O ideal da tolerância religiosa – nascida do conceito de que todo ser humano deveria ser livre para acreditar no que quisesse sobre Deus – é uma das principais forças que nos impelem para o abismo”. Esta preocupação surge do foco sobre as diferenças entre as religiões.

Não deveríamos nos preocupar com essas diferenças; deveríamos, na verdade, nos concentrar nas preocupações comuns a todas as religiões, ou seja, os seus três fundamentos: a causação descendente, os corpos sutis e a aquisição do estado divino. Há um núcleo comum nos conceitos religiosos sobre Deus, e é esse núcleo comum que abre espaço para uma abordagem científica.

Novos dados e perspectivas para uma abordagem integrada

Nas partes 2, 3 e 4, abordarei dados científicos a favor de todos os três fundamentos já apresentados, dentro do paradigma maior da ciência dentro da consciência definida no Capítulo 1. Anteriormente, disse que os dados são de dois tipos. Um tipo consiste nas “assinaturas quânticas do divino, escritas com tinta indelével”. O outro tipo pertence ao grupo “perguntas impossíveis exigem respostas impossíveis”, ou corpos sutis. Na verdade, em muitos dos dados atuais, as duas ideias se entrelaçam, ou seja, pertencem ao mesmo tempo aos corpos sutis e também são assinaturas quânticas do divino.

Quando incluímos em nossa ciência os corpos sutis e o pensamento quântico a seu respeito, todas as controvérsias da biologia, medicina e psicologia – o caos criado pelo pensamento “multicultural” e pluralista – dão m

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argem a um novo ponto de vista científico e integrado em cada campo. O multiculturalismo ainda tem sua utilidade, mas o domínio de cada cultura está claramente definido, e pode haver intercâmbio entre eles. Não é melhor assim?

E isto reacende a esperança em mim. Se as diversas abordagens multiculturais para essas ciências da vida podem ser integradas debaixo de um guarda-chuva, a ciência dentro da consciência, então por que as religiões também não podem? Talvez, a nova ciência baseada em Deus, explorada aqui, com todas as evidências de apoio a seu favor, estimule as grandes religiões do mundo a começarem seriamente a dialogar. Talvez, esteja próximo o dia em que teremos conceitos universais de espiritualidade, aplicáveis em benefício da humanidade, na qual cada uma das religiões atuais será um aspecto bem-definido e terá um domínio bem-definido de validade. E, dessa maneira, haverá um intercâmbio ilimitado entre as religiões.

Nos séculos XV e XVI, a religião era o grande inquisidor e a causa de muitas atrocidades cometidas na tentativa de silenciar a ciência. Hoje, porém, em uma irônica inversão de papéis, a ciência sob a influência do materialismo tornou-se o grande inquisidor, exibindo sua arrogância e declarando arbitrariamente Deus e o sutil como sobrenaturais e supérfluos. Mas, como disse antes, essa posição não levará a nada.

Como os políticos influenciados pela ciência materialista começam a forçar uma mudança excessivamente rápida das tradições mais antigas, o efeito é o oposto do esperado. Em vez de realizarem mudanças muito necessárias (como, por exemplo, um tratamento igual para homens e mulheres), participantes dessas religiões tornam-se defensivos e ultraconservadores, e pior: sob a influência materialista, os líderes dessas tradições tornam-se cínicos e abrem mão do significado e da ética, optando pelo poder. Se, em vez disso, a ciência materialista entrar em harmonia com suas próprias deficiências e aceitar o cenário mais amplo da ciência dentro da consciência, pode iniciar um novo diálogo entre materialismo e espiritualidade, duas forças gravitacionais que dividiram a humanidade ao longo de milênios. As consequências sutis desse diálogo provocarão ventos de mudança até mesmo nas antigas tradições religiosas.

(Amit Goswami - Deus não está morto,evidências científicas da existência divina)

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