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Os sentidos da vida e da Vida

por Thynus, em 04.09.14
A palavra desejo tem bela origem. Deriva-se do verbo desidero, que, por
sua vez, deriva-se do substantivo sidus (mais usado no plural, sidera),
significando a figura formada por um conjunto de estrelas, isto é, as
constelações. Porque se diz dos astros, sidera é empregada como palavra de
louvor — o alto — e, na teologia astral ou astrologia, é usada para indicar a
influência dos astros sobre o destino humano, donde sideratus, siderado:
atingido ou fulminado por um astro. De sidera, vêm considerare — examinar
com cuidado, respeito e veneração — e desiderare — cessar de olhar (os
astros), deixar de ver (os astros).

(Marilena Chaui, Desejo, Paixão e Ação na Ética de Espinosa)

A vida de uma pessoa é sua existência no mundo, na qual estão incluídas todas as dimensões e experiências possíveis. A Vida contempla as existências, as coisas, o espaço, o tempo e as leis que regem o universo. A primeira, com v minúsculo, é singular, a segunda, com V maiúsculo, é plural. A primeira se insere na segunda.
O sentido da vida é uma espécie de bússola orientadora do destino humano, que constantemente deve ser observada, visando uma melhor orientação. A ausência de um sentido para a própria vida promove um vazio existencial que torna a pessoa suscetível à desorientação psíquica. Deve-se, inclusive, ter mais de um sentido para a vida, a fim de que não se frustre quando ele se torna difícil ou impossível de ser alcançado.
A vida, definida como o existir, tem seu sentido de acordo com o que se pensa dela. O sentido da vida pode ser chamado de: amar, evoluir, educar-se, ser feliz, fazer o bem, atingir a perfeição, etc. Os nomes podem ser muitos, porém é fundamental a consciência de que esses são expressões de um sentido coletivo, óbvio e necessário. Devem estar na consciência, ser seguidos e tornarem-se determinantes do destino pessoal. Não são, porém, práticos. Cada ser humano deve ter seu próprio sentido de vida, em paralelo ao coletivo, e conectado a ele. Esse sentido pessoal deve estar relacionado à vida prática e cotidiana. Encontrar o sentido da vida pessoal é considerar que ele deve ser traduzido em objetivos a curto, médio e longo prazo.
O sentido de viver, que chamo de existência, deve estar sempre presente na consciência. Quanto mais presente na consciência, mais intensamente suas conseqüências positivas interferem no inconsciente. O sentido de viver é um conjunto de motivos para a vida. Esse sentido não deve ser confundido com o da Vida, pois este último é muito complexo à consciência. O sentido da vida é aquele que se dá à própria existência da pessoa. É algo particular e não deverá estar atrelado exclusivamente a uma consciência espiritual ou confissão religiosa. Não se refere a um futuro remoto, no qual os objetivos maiores se realizarão. É algo mais próximo, mais imediato, que motiva e impulsiona para a existência. Não se trata de imediatismo, mas de um pragmatismo consciente, visando alcançar aqueles objetivos maiores da vida.
Pode-se pensar em sentidos imediatos para a vida, não apenas um. Objetivos materiais, profissionais, afetivos, religiosos, físicos, dentre outros, devem fazer parte do leque de opções para os sentidos buscados por cada pessoa.
O sentido da Vida é diferente do sentido da própria vida.  Costumo dizer que o sentido da Vida é simplesmente viver. É, portanto, um sentido coletivo, igual para todos. Geralmente a pessoa afirma que o sentido é ser feliz, é amar ou é evoluir. Tais respostas não contribuem para uma maior compreensão da própria vida que se leva. Por outro lado, o sentido da vida é algo pessoal, singular, próprio de cada pessoa. É importante ampliar os objetivos que se tem na vida. O sentido que se tem da Vida e da própria existência deve estar sempre na consciência, para que ela não deixe de projetar luz sobre eles.
Na depressão, o sentido da vida fica obscurecido, aparecendo, de forma leve, o sentido da Vida, que também parece estar se perdendo. A consciência entra no coletivo, quase esquecendo de sua própria individualidade. A perda ou o trauma obscurecem a consciência a ponto de motivações objetivas sucumbirem em seu valor.
A depressão ocorre de forma sutil, sem que seu portador perceba quando começa e qual o sintoma preponderante. Sua sutileza se deve ao descuido em relação aos conteúdos inconscientes, os quais assumem parcialmente a consciência. A própria pessoa é, às vezes, alertada por terceiros quanto ao seu estado depressivo. Esse alheamento de seu próprio estado é característico da doença, que não surge como uma dor pontual e cujos sintomas aparecem em tempos diferentes, de maneiras distintas a depender de cada pessoa.
O casamento entre o sentido da Vida e o da existência deve acontecer, sobretudo, na idade adulta, quando já se teve as experiências naturais da vida comum. A consciência deve estar atenta aos objetivos imediatos da vida para que eles concorram para o sentido da Vida. A realização pessoal decorre da consecução positiva daquele casamento. Depressão é também ausência, na consciência, de um sentido para a vida. A frustração de não ter alcançado alguns objetivos podem retirar aquele sentido anteriormente presente. Colocar de volta o mesmo, ou acrescentar outro, é desejável e deve ser feito de forma gradativa e pragmática. Alienar-se da própria noção do destino pessoal é perigoso. Por isso, toda inserção de motivos para viver deve ser feita de forma consciente, atentando-se para suas reais possibilidades de serem alcançadas, a fim de não se alimentar novas fantasias infantis.
A vida consciente precisa ter pelo menos um sentido, mesmo que seja querer algo material ou hedonista, para que dele o indivíduo encontre o significado maior de sua existência. Melhor seria que seus objetivos de vida fossem mais espirituais que materiais. O sentido que atribui à sua vida fortalece a consciência da própria existência, evitando a sucumbência ao inconsciente, sem o domínio do ego.
Quando o sentido da vida perde sua força e seu poder atrativo ao ego, as possibilidades de depressão são maiores. É necessário recompor o controle interno, a segurança em si mesmo, buscando uma reconfiguração da própria vida.

(Adenáuer Novaes - Alquimia do Amor, Depressão, Cura e Espiritualidade)

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publicado às 16:58


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