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1.
Antes de refletirmos sobre os muitos problemas que o sexo nos traz, vale a pena desviar para o lado oposto e considerar a questão – não tão óbvia como pode parecer – de por que o sexo deveria, em raras ocasiões, ser uma atividade tão profundamente prazerosa e gratificante.
Na medida em que nossa época está interessada nesse tópico, ela tende a propor uma explicação geral que deriva da biologia evolutiva. Essa disciplina, onipresente no mundo moderno, nos diz que os seres humanos, como todos os outros animais, são geneticamente programados para se reproduzirem e precisam dos prazeres do sexo como uma recompensa para o enorme esforço de se juntar a um parceiro e com ele criar os filhos.
Segundo a biologia evolutiva, o que achamos sexy é, na realidade, apenas um reflexo de algo que dará continuidade à espécie. Podemos nos sentir atraídos para a inteligência porque ela nos indica uma qualidade importante para garantir a sobrevivência de nossos jovens. Gostamos de ver pessoas dançando bem porque isso indica um vigor que será útil para proteger a próxima geração. O que a sociedade chama de pessoa “atraente” é, na realidade, alguém cuja intuição inconsciente será boa no combate a infecções e entrará em trabalho de parto sem complicações.
A tese da biologia evolutiva claramente não está errada. No entanto, é obtusa, desconectada de nossas efetivas experiências com o sexo – e, no fim das contas, meio entediante. Embora ela consiga explicar por que o sexo existe, nem ao menos começa a esclarecer nossas motivações conscientes para querer dormir com certas pessoas ou sobre a variedade de prazeres que extraímos dele. A biologia evolutiva pode nos apresentar uma motivação geral para nossas ações, mas não desenvolve nenhuma das motivações que efetivamente tenhamos em mente quando convidamos alguém para jantar e, mais tarde, tentamos desabotoar seu jeans no sofá – e, portanto, não oferece um relato satisfatório de por que o sexo deveria realmente importar para nós como seres humanos reflexivos.
 
2.
Em busca de uma explicação com a qual possamos nos identificar mais diretamente, podemos começar focando em um momento particular no ritual de namoro que dificilmente é evocado (mesmo anos depois) sem uma sensação única de excitação: a primeira vez que beijamos e, portanto, admitimos física e abertamente nossa atração por determinada pessoa.
Pode ter sido dentro de um carro após um longo jantar durante o qual mal nos atrevemos a comer. Ou no corredor, no fim de uma festa, ou de repente, antes de nos despedirmos numa estação de trem, sem qualquer preocupação com os muitos passageiros pressionando de todos os lados. Podemos não ser brilhantes na maneira de falar, mas quando descrevemos o modo como nos encontramos e os momentos que antecederam nosso primeiro beijo, raramente somos enfadonhos.
Esse primeiro momento, que decisivamente nos transforma de relativos estranhos em pessoas com uma intimidade sexual, nos excita porque marca uma superação da solidão. Nosso prazer não tem a ver apenas com o estímulo a terminações nervosas e a satisfação de um impulso biológico. Ele também brota da alegria que sentimos ao emergir, mesmo que brevemente, de um isolamento em um mundo frio e anônimo.
Passamos a conhecer bem esse isolamento após o fim da infância. Se tivermos sorte, nosso início nesse mundo é confortável, em um estado de união íntima física e emocional com alguém que cuida de nós. Nós nos deitamos nus sobre sua pele, ouvimos seu batimento cardíaco, podemos sentir o prazer em seus olhos ao nos ver fazendo nada mais do que bolinhas de cuspe – em outras palavras, nada mais do que simplesmente existindo. Podemos bater a colher contra a mesa e provocar gargalhadas. Nossos dedos são acariciados e nossos finos cabelos, afagados, cheirados e beijados. Não precisamos nem falar. Nossas necessidades são cuidadosamente interpretadas; o seio está lá quando precisamos dele.
Então vem o outono. O mamilo é retirado. Somos encorajados alegremente a passar para o arroz e para pedacinhos de frango seco. Nosso corpo deixou de agradar ou não pode ser mostrado com a mesma naturalidade. Passamos a ter vergonha de nossas particularidades. Cada vez mais partes de nosso exterior já não devem ser tocadas pelos outros. Começa com os genitais, passa para a barriga, a nuca, as orelhas e axilas… até que tudo o que podemos fazer ou receber é dar um abraço ocasional em alguém, apertar as mãos ou dar beijinhos no rosto. Os sinais de satisfação dos outros pela nossa existência diminuem e seu entusiasmo passa a estar ligado a nosso desempenho. Agora, o que importa é o que fazemos, e não o que somos. Nossos professores, antes tão entusiasmados com nossos desenhos de joaninhas e nossos rabiscos das bandeiras do mundo, passam a se interessar apenas pelo nosso resultado nas provas. Pessoas bem-intencionadas sugerem brutalmente que está na hora de começar a ganhar nosso próprio dinheiro, e a sociedade passa a ser boa ou má conosco de acordo com o nosso êxito nessa tarefa. Começamos a ter de medir nossas palavras e cuidar de nossa aparência. Há aspectos de nossa aparência que nos revoltam e aterrorizam, e que achamos que precisamos esconder dos outros, gastando dinheiro em roupas e cortes de cabelo. Tornamo-nos criaturas desajeitadas, de movimentos pesados, vergonhosas e ansiosas. Tornamo-nos adultos, definitivamente expulsos do paraíso.
Mas, no fundo, não esquecemos as necessidades com as quais nascemos: sermos aceitos, independentemente de nossos feitos, sermos amados por meio de nossos corpos, sermos recebidos nos braços de alguém, agradarmos pelo cheiro de nossa pele – todas essas necessidades inspiram nossa busca interminável e apaixonadamente idealista por alguém para beijar e com quem dormir.
 
3.
Vamos imaginar algumas etapas incrementais na história de um casal seduzindo-se pela primeira vez – e, assim, analisar seus prazeres em relação a esta tese sobre a solidão. Vamos imaginar o casal em um café, às onze da noite de um sábado, numa cidade grande, tomando sorvete depois de assistir a um filme.
Há uma explicação biológica para a excitação sexual que esse casal está sentindo, relacionada a uma narrativa inconsciente sobre reprodução e genética, mas o homem e a mulher também se excitam pela superação de muitas barreiras à intimidade que existem na vida normal – e é nesta dimensão que podemos nos focar para explicar a maior parte do erotismo que eles vão experimentar a caminho do 
quarto.
 
O beijo – Aceitação
 
Com a colher na mão, a mulher fala sobre as férias que passou recentemente na Espanha com sua irmã. Em Barcelona, foi a um pavilhão projetado por Mies van der Rohe e a um restaurante especializado em frutos do mar com influência marroquina. Ele pode sentir a perna dela ao lado da sua, em particular a elasticidade de sua meia-calça preta que afunila na altura da bainha de uma saia cinza e amarela. Enquanto ela fala, em meio a uma anedota sobre Gaudí, ele move o rosto para junto do dela, alerta a qualquer sinal de medo ou desagrado. Mas para seu arrebatamento, ele detecta apenas um sorriso suave e receptivo. A mulher fecha os olhos e os dois registram nos lábios a combinação única e inesperada de umidade e pele.
O prazer do momento só pode ser compreendido quando consideramos seu contexto mais amplo: a esmagadora indiferença contra a qual qualquer beijo se coloca. Nem é preciso dizer que a maioria das pessoas que encontramos não apenas não está interessada sexualmente em nós, mas sente-se absolutamente avessa à ideia. Não temos escolha senão manter uma distância de 60, ou melhor, 90 centímetros delas, o tempo todo, para ficar claro que não temos qualquer intenção de invadir seus espaços.
Então vem o beijo. O domínio profundamente íntimo da boca – essa cavidade escura e úmida onde ninguém entra além do nosso dentista, onde nossa língua reina suprema numa área tão silenciosa e desconhecida quanto a barriga de uma baleia – agora se prepara para se abrir a outro. A língua, que não tinha nenhuma expectativa de encontrar um compatriota, aproxima-se timidamente de outro membro de sua espécie com a reserva e a curiosidade de um ilhéu dos mares do sul ante a chegada dos primeiros aventureiros europeus. Recortes e texturas na parte interna das bochechas, antes consideradas apenas pessoais, revelam ter duplicatas. As línguas se cumprimentam numa dança hesitante. Um pode alisar os dentes do outro como se fossem os seus.
Poderia parecer repugnante – e é exatamente essa a questão. Não existe nada erótico que também não seja, com a pessoa errada, repugnante; e é precisamente isso que torna os momentos eróticos tão intensos: na conjuntura exata em que o nojo poderia estar no seu auge, encontramos apenas recepção e permissão. A natureza privilegiada da união entre duas pessoas é selada por um ato que, com outra pessoa, teria horrorizado a ambas.
Por outro lado, se vivêssemos em outra cultura na qual a aceitação fosse assinalada de outras formas – por exemplo, em que um casal que quisesse mostrar um ao outro sinais de afeição comeria junto um mamão ou tocaria os dedos dos pés um do outro –, essas ações também poderiam tornar-se erotizadas. Um beijo é prazeroso por causa da receptividade sensorial de nossos lábios, mas não devemos ignorar o fato de que boa parte de nossa excitação nada tem a ver com a dimensão física do ato: ela decorre da simples constatação de que alguém gosta muito de nós, uma mensagem que nos encantaria mesmo que fosse passada por outro meio. Por trás do beijo em si, é seu significado que nos interessa – motivo pelo qual a necessidade de beijar alguém pode ser decisivamente reduzida (como talvez seja necessário, por exemplo, quando dois amantes já são casados com outras pessoas) por uma declaração desse desejo – uma confissão que pode ser por si só tão erótica que torna o beijo supérfluo.
 
O despir – Um fim à vergonha
 
O casal vai para o apartamento dela em uma parte da cidade que ele não conhece bem e sobe silenciosamente até o terceiro andar. Dentro do apartamento, as cortinas estão abertas e o quarto está iluminado pela luz amarelada da rua. Eles se beijam mais uma vez ao lado do armário da cozinha e agora são encorajados pela privacidade. Ele abre os fechos da blusa bege dela; ela desabotoa a camisa azul dele. Seus movimentos tornam-se mais impacientes. Ele alcança a parte de trás do sutiã dela e começa desajeitadamente a tentar soltá-lo. Com um sorriso indulgente ante a sua inépcia, ela o ajuda. Alguns minutos depois, eles se olham nus pela primeira vez, acariciando delicadamente as coxas, nádegas, ombros, estômagos e mamilos um do outro.
Não é coincidência que no Gênesis uma das principais punições de Deus a Adão e Eva em sua expulsão do Paraíso tenha sido a sensação de vergonha física. A divindade judaico-cristã decreta que estes dois ingratos devem se sentir eternamente constrangidos em expor seus corpos. Seja o que for que pensemos das origens bíblicas da vergonha corporal, é evidente que usamos roupas não apenas para nos aquecer, mas em grande parte por medo de que nosso corpo provoque repulsa nos outros. Nossos corpos nunca são exatamente como gostaríamos que fossem. Mesmo nos momentos mais sedutores e atléticos da juventude, é raro não termos uma longa lista de coisas que gostaríamos de mudar. No entanto, a ansiedade é mais profunda e existencial do que um desagrado cosmético. Há algo fundamentalmente constrangedor em revelar a uma testemunha qualquer tipo de corpo adulto nu – ou seja, um corpo capaz de fazer sexo.
Não foi sempre assim. A vergonha começa na adolescência. Quando nos tornamos aptos a fazer sexo, nossos corpos também correm o risco de parecerem obscenos diante dos olhos errados. Começa a haver uma divisão entre o nosso eu comum e público e nosso eu sexual e privado. Boa parte de quem somos como adultos, desde nossas fantasias sexuais até nossas pernas abertas, torna-se impossível de ser revelada a quase todos que conhecemos.
Voltemos ao nosso amante masculino, que nesse momento chupa apaixonadamente os dedos de sua parceira. Para ele, a divisão dos eus e a sensação de vergonha começaram em meados dos seus 14 anos. Um mês ele se sentia feliz em brincar de índio e caubói no jardim com seu irmão e visitar sua querida vovó; no mês seguinte, tudo o que ele queria era ficar em casa, em seu quarto, com as cortinas fechadas, masturbando-se à lembrança da silhueta de uma mulher que viu a caminho da banca de jornal. Não havia como conciliar seus desejos com o que os outros esperavam dele. Sua idade sugeria que ele talvez desejasse segurar a mão ou beijar uma menina de quem gostasse, mas isto nada tinha a ver com a macabra depravação que se desdobrava diariamente em sua imaginação solta. Em pouco tempo ele estava sonhando com orgias e sexo anal, baixava pornografia pesada e fantasiava amarrar e possuir sua professora de matemática. Como ele poderia ainda ser uma boa pessoa? Em resposta a essa vergonha, desenvolveu um eu interior que temia jamais poder apresentar a alguém.
Algo semelhante havia acontecido à sua parceira, que agora está de joelhos diante dele. Aos 13 anos ela também passou por uma transformação. Antes disso ela gostava de bordado, de andar a cavalo e de fazer bolo de banana. Então, de repente, todos os seus passatempos passaram a ocupar cada vez menos tempo em sua vida e deram lugar a ir ao banheiro, trancar a porta, deitar no chão, tirar as calças e ver-se masturbando no espelho de corpo inteiro. Como uma atividade assim poderia se ajustar ao que outras pessoas sabiam dela? Será que alguém poderia aceitá-la na totalidade? Nos momentos exaustos e cheios de culpa após o orgasmo, ela conheceu um pouco da dor da Eva de Masaccio, expulsa do Paraíso por uma divindade punitiva.
Portanto, o que agora acontece com o nosso casal no quarto é um ato de mútua reconciliação entre dois eus sexuais secretos, finalmente emergindo da pecaminosa solidão. O casal silenciosamente concorda em não mencionar a estonteante estranheza de suas formas físicas e desejos carnais; eles aceitam, sem qualquer vergonha, o que antes era vergonhoso. Admitem por meio de suas carícias que são atraídos a direções incomuns, porém compatíveis. O que estão fazendo é absolutamente oposto ao comportamento que o mundo civilizado espera deles – choca-se, por exemplo, com a lembrança de seus avós – mas já não parece perverso ou incomum. Finalmente, na semiescuridão, o casal pode confessar as muitas maravilhas e insanidades que o fato de terem um corpo os leva a querer.
Durante o sexo, vamos (brevemente) para o outro lado.
Masaccio, A expulsão de Adão e Eva do paraíso, c. 1427
 
Excitação – Autenticidade
 
Eles se deitam na cama e acariciam-se ainda mais. Ele leva a mão para o meio das pernas dela e faz uma delicada pressão, percebendo, com intensa alegria, que ela está molhada. Ao mesmo tempo, ela o toca e fica satisfeita de forma equivalente ao sentir a extrema rigidez do pênis.
Se estas duas reações fisiológicas são emocionalmente tão satisfatórias (o que significa, simultaneamente, tão eróticas) é porque sinalizam um tipo de aprovação que está totalmente além da manipulação racional. Ereções e lubrificações simplesmente não podem ser estimuladas somente pela força de vontade e são, portanto, indícios de interesse particularmente verdadeiros e honestos. Em um mundo em que falsos entusiasmos são frequentes, em que é muitas vezes difícil dizer se as pessoas estão nos dizendo a verdade ou se estão sendo delicadas apenas por educação, a vagina molhada e o pênis rígido funcionam como agentes inequívocos de sinceridade.
Essas reações involuntárias são tão prazerosas que, depois de fazer amor, nosso casal voltará a discuti-las em relação à primeira parte da noite, no café. Ele perguntará, com o olhar um pouco malicioso, se ela já estava molhada durante a história de sua ida a Barcelona, com sua irmã. E ela responderá, com um sorriso, que sim, claro que estava, o tempo todo, desde o momento em que se sentaram para pedir suas bebidas e seus sorvetes. Ele, por sua vez, confessará que seu pênis estava duro dentro das calças – produzindo uma nova onda de excitação mútua ante a ideia de que, por trás de sua conversa sensata, seus corpos já estavam experimentando um desejo que antecedia radicalmente suas interações sociais superficiais.
Os momentos em que o sexo domina nosso ser racional costumam ser altamente eróticos. Daqui a algumas semanas, nosso casal irá para o litoral passar o fim de semana. No sábado à noite, no hotel, depois de um dia de sol e banhos de mar, eles se deitarão juntos e começarão a conversar e, eventualmente, o assunto sobre fantasias sexuais irá surgir. Ambos admitirão que gostam muito de uniformes. Ele revelará quanto gosta da ideia de um recatado avental branco numa enfermeira séria e austera; ela lhe dirá – com um sorriso provocador enquanto olha para fora da janela – que às vezes se sente excitada por homens em elegantes ternos de lã, em particular o tipo de jovens executivos bem-vestidos que parecem concentrados e sérios ao caminharem pelas ruas da cidade, carregando suas pastas e exemplares do Financial Times.
O erotismo de uniformes como esses parece brotar da lacuna entre o controle racional que eles simbolizam e o desejo sexual que pode, momentaneamente, mesmo que na fantasia, ganhar vantagem sobre ele. Claro que, na maior parte do tempo, quando as pessoas conversam conosco – de médicos e enfermeiras a gerentes de investimento e contadores –, elas não estão molhadas ou com ereções; elas quase não nos notam e com certeza não estão dispostas a interromper um procedimento médico ou atrasar uma teleconferência por nossa causa. Essa indiferença profissional pode ser dolorosa e humilhante para nós. Daí o poder peculiar da fantasia de que a vida pode ser virada de cabeça para baixo e suas prioridades normais podem ser revertidas. Em nossos jogos sexuais, podemos reescrever o roteiro: agora a enfermeira deseja tanto fazer amor conosco que se esquecerá totalmente de que está ali para tirar uma amostra de sangue, assim como o capitalista, pela primeira vez, deixará de lado toda a sua consideração por dinheiro, tirará os computadores da mesa e nos beijará imprudentemente. Ao transarmos apaixonadamente em uma cabine de banheiro de um hospital imaginário ou em um armário, a intimidade, ao menos simbolicamente, prevalece sobre o status e a responsabilidade.
Muitos ambientes formais podem ser inesperadamente eróticos em si mesmos. Assim como os uniformes podem inspirar desejo por seu caráter transgressor, também, pelo mesmo motivo, pode ser excitante imaginar-se fazendo sexo em um canto discreto da biblioteca da universidade, na chapelaria de um restaurante ou em um vagão vazio de trem. Nossa transgressão insolente pode nos dar uma sensação de poder que vai além do puramente sexual. Transar no fundo de um avião cheio de viajantes executivos é experimentar inverter a hierarquia normal das coisas, é tentar introduzir o desejo em um ambiente onde a fria disciplina geralmente predomina sobre os nossos desejos. A 10 mil metros de altura, assim como no escritório, a vitória da intimidade parece maior, e nosso prazer aumenta na mesma proporção. Dizemos que o cenário no banheiro do avião é “sexy”, mas o que realmente queremos dizer é que estamos excitados por termos superado um tipo de alienação do contrário opressiva.
O erotismo é, portanto, manifesto de forma mais clara na interseção entre o formal e o íntimo. É como se precisássemos ser lembrados das convenções para apreciar de maneira adequada as maravilhas de se estar desprevenido ou para continuar a ultrapassar os limites do nosso ser vulnerável a fim de sentir com real intensidade as qualidades especiais do local ao qual nos foi permitido acesso. Isso explica o apelo das lembranças da nossa primeira noite com alguém, quando os contrastes eram mais nítidos. Por outro lado, mais tristemente, também explica a falta de erotismo que sentimos numa praia de nudismo ou com um parceiro de longa data que se esquece de esconder sua nudez contra os constantes perigos de nossa predatória ingratidão.
Um lugar promissor para fazer amor.
 
Brutalidade – Amor
 
Enquanto fazem amor, a mulher faz com que o homem saiba, daquela maneira sutil, quase sem palavras, com que os amantes às vezes se comunicam, que ela gostaria que ele puxasse seus cabelos. A princípio ele hesita. Não lhe parece uma coisa “legal” de fazer, mas está claro que ela já não está mais interessada em nenhuma definição padrão desse termo. Então ele toma seus fios castanhos nas mãos e puxa-os brutalmente ao ritmo do ato sexual. Encorajado por seu entusiasmo, ele se atreve a insultá-la, em parte porque sente muita ternura por ela. Com igual afeição, e tomada de excitação, ela o chama de canalha, de intruso monstruoso e degradante. Ele a agarra agressivamente pelos ombros. No dia seguinte haverá marcas visíveis de arranhões nas costas dela.
A vida cotidiana exige continuamente que sejamos educados. Em geral não conseguimos ganhar o respeito ou a afeição de ninguém sem reprimir severamente tudo o que é ostensivamente “mau” dentro de nós: nossa agressividade, nossa negligência, nosso impulso para a ganância e nosso desdém. Não podemos pertencer à sociedade e, ao mesmo tempo, mostrar o completo espectro do que pensamos e sentimos. Daí o interesse erótico que sentimos (que é, na realidade, uma satisfação emocional, quando o sexo permite que nosso eu secreto seja testemunhado – e então endossado.
Na presença de alguém extraordinariamente confiante de nossa virtuosidade, atrevemo-nos a partilhar aquilo que normalmente recearíamos mostrar e do qual nos envergonharíamos. Usamos linguagem e gestos que no mundo exterior nos rotulariam de tarados. Pode ser um sinal de amor poder esbofetear alguém com força ou colocar nossas mãos vigorosamente no seu pescoço. Com isso nosso parceiro está nos dizendo que ele está convencido de que somos essencialmente honrosos. Para ele não importa que tenhamos um lado sombrio; como um pai ideal, ele pode ver o todo e nos reconhecer como fundamentalmente bons. Temos a extraordinária oportunidade de nos sentir confortáveis em nossa própria pele quando, graças a um parceiro disposto e generoso, somos convidados a dizer e fazer as piores coisas que podemos imaginar.
Quando estamos na condição de receptor dessa violência e grosseria, talvez encontremos um prazer paralelo, no sentido da força que vem do fato de sermos capazes de decidir por nós mesmos quão insultados, machucados e subjugados podemos ser. Passamos tanto tempo sendo maltratados pelos outros no mundo, há tantas ocasiões em que temos de nos submeter ao desejo malevolente de nossos superiores, na hora em que eles querem, que é profundamente libertador transformar a dinâmica do poder numa performance teatral própria, conseguir subjugar alguém em circunstâncias inteiramente de acordo com a sua vontade – e com uma pessoa essencialmente dócil e boa. Resolvemos o medo de nossa fragilidade ao sermos esbofeteados e insultados ao nosso próprio comando, apreciando a impressão de resiliência e poder alcançados ao encontrarmos o pior que alguém pode pensar em nos infligir – e sobrevivermos.
O laço de lealdade de um casal está apto a se aprofundar a cada aumento de brutalidade. Quanto mais acreditamos que nosso comportamento horroriza a sociedade crítica em que normalmente vivemos, mais podemos sentir como se estivéssemos construindo um paraíso de aceitação mútua. Tal brutalidade não faz sentido do ponto de vista biológico e evolutivo; é somente por meio de uma lente psicológica que sermos esbofeteados, semiestrangulados, amarrados a uma cama e quase estuprados começa a fazer sentido: começa a parecer uma prova de aceitação.
O sexo nos libera temporariamente da punitiva dicotomia, bem conhecida para todos nós desde a infância, entre sujo e limpo. O sexo nos purifica ao envolver em sua prática os lados mais aparentemente poluídos do nosso eu em seus procedimentos, e assim os consagra novamente como dignos. A maior prova disso é quando pressionamos nosso rosto, a parte mais pública e respeitável de nós mesmos, ansiosamente contra partes mais privadas e “contaminadas” de nosso amante, beijando, chupando e enfiando a língua um dentro do outro – dando com isso simbolicamente nossa aprovação a seu eu inteiro, assim como um penitente, culpado de tantas transgressões, é aceito de volta ao rebanho da Igreja católica pelo casto beijo na testa dado por um sacerdote.
 
Fetichismo – Bondade
Nosso casal tem fetiches e, enquanto fazem amor, eles os notam e mesclam à sua crescente excitação. A palavra fetiche está normalmente associada a extremismo, até a patologia, e a certas peças de roupa ou características físicas – como unhas compridas, roupas de couro, máscaras, correntes e meias-calças. No entanto, nenhuma dessas aparece na lista de tendências de nosso casal.
Num sentido clínico, um fetiche é definido como um ingrediente, de natureza tipicamente incomum, que precisa estar presente para que alguém atinja um orgasmo. O mais antigo e mais conhecido pesquisador dos fetiches foi o médico e sexólogo austro-germânico Richard von Krafft-Ebing, que em seu livro Psychopathia Sexualis, publicado em 1886, identificou cerca de 230 tipos diferentes de fetiches, entre eles a estigmatofilia (a atração por tatuagens e piercings), a lacrimofilia (atração por lágrimas), a podofilia (atração por pés), a estenolagnia (atração por músculos) e a thilpsosis (atração por ser beliscado).
O extremo destes exemplos pode dar a impressão de que apenas os loucos têm fetiches, mas isto, claro, está longe de ser verdade. Os fetiches não precisam ser extremos ou incompreensíveis. Todos nós somos fetichistas de um tipo ou de outro, mas a maioria é branda, sendo capaz de fazer sexo mesmo sem recorrer aos objetos preferidos. Os fetiches são apenas detalhes normalmente relacionados a roupas ou a partes do corpo do outro que evocam lados desejáveis da natureza humana. As origens exatas dos fetiches podem ser obscuras, mas quase sempre podem remeter a um aspecto importante da nossa infância: ou reencontramos em um amante um aspecto atraente de uma figura parental ou, ao contrário, porque de alguma forma nos ajudam a esquecer ou escapar de uma lembrança de humilhação ou terror surgida na infância.
A tarefa de compreender nossas preferências nesse sentido deveria ser reconhecida como parte importante de qualquer projeto de autoconhecimento ou biografia. O que Freud disse sobre os sonhos também se aplica aos fetiches sexuais; eles são uma estrada real para o inconsciente.
O nosso amante masculino tem um fetiche por um estilo específico de sapato. No início da noite, ele notou com considerável excitação que a mulher estava usando um par de delicados mocassins pretos sem salto (do tipo normalmente associado a uma bibliotecária ou estudante, neste caso confeccionados por uma empresa de design italiana, a Marni), e agora, enquanto fazem amor na cama, embora estejam inteiramente nus, ele pergunta se ela os calçaria para aumentar seu prazer.
Para compreender por que ele tem prazer com esses sapatos será preciso invocar todo o seu passado. Sua mãe era uma atriz de sucesso que se vestia com roupas extravagantes e indecentes. Adorava padrões de oncinha, unhas violeta e saltos muito altos. Decididamente, também deixava claro que não gostava muito do filho. Nunca o elogiava nem era carinhosa; dava toda sua atenção à irmã mais velha e aos vários amantes que tinha. Ela não lia histórias para ele na hora de dormir nem tricotava coletes para seus ursinhos de pelúcia. Mesmo agora, adulto, o homem sente-se secretamente aterrorizado diante de mulheres que o fazem lembrar de sua egoísta e antipática matriarca.
Embora sem saber, sua história psicológica é o filtro onipresente através do qual ele olha os sapatos e, por extensão, a mulher que os veste. O encontro de hoje, por exemplo, teria tomado um rumo bastante diferente se sua companheira tivesse chegado num par de sapatos Manolo Blahnik ou Jimmy Choo. Se chegassem a ir para a cama, ele poderia ter ficado impotente. Mas os mocassins eram, e são, perfeitos. Eles concentram as qualidades que ele mais busca numa parceira. Nas duas peças estreitas de couro bem-trabalhado, com 22 centímetros de comprimento, ele detecta a identidade de sua mulher ideal: alguém calma, com bom-senso, contida, decorosa, modesta e com um grau de timidez que se ajuste ao seu próprio. Ele é capaz de fazer amor com a dona do sapato, mas se as circunstâncias pedissem ou permitissem ela sair numa viagem de trabalho, ele conseguiria, e sem dificuldade, atingir o orgasmo com os próprios sapatos.
A mulher, enquanto isso, também tem seus próprios fetiches. Ela adora o relógio do homem: antiquado, de segunda mão, com uma pulseira de couro bem gasta. Ela mantém os olhos fixos no relógio enquanto fazem amor e, em certo ponto, aperta o braço do homem entre suas pernas e sente especial prazer no contato do metal e do vidro contra sua pele. O relógio é do tipo que seu pai costumava usar. Ele era um médico brilhante, delicado e brincalhão, que morreu quando ela tinha 12 anos, deixando um insubstituível buraco em seu coração, e desde então ela tem procurado homens que de alguma forma reúnam seu jeito e seu cheiro. A imagem do relógio faz seus mamilos endurecerem porque envia um sinal subliminar de que ela talvez tenha encontrado um homem que possui algumas das qualidades da pessoa que ela mais admirou no mundo.
Por falar em coisas ao redor dos pulsos, o homem tem outro fetiche nessa área. Depois de beijar a mulher pela primeira vez, notou que ela tinha um elástico ao redor do pulso esquerdo. Krafft-Ebing nunca chegou a discutir isso: não existe ainda nenhum fenômeno reconhecido de elasticofilia – mas isso só mostra o quanto o campo do fetichismo ainda é desconhecido e quanto trabalho os pesquisadores ainda têm a fazer (e quanto trabalho há para os pornógrafos, porque os fetiches que aparecem em sites e filmes pornográficos refletem uma gama restrita de coisas que nos excitam. Ainda há muitos sites a serem criados: para mencionar apenas alguns, sites para pessoas que têm tesão em cardigãs, em pessoas ruborizadas, pessoas dirigindo e pessoas lendo). O homem gosta do elástico porque ele parece ter sido colocado ali num gesto atrevido, casual, andrógino e robusto. O elástico sugere uma pessoa que não se incomoda com os cânones da moda, que se sente interiormente livre o bastante para explorar um objeto de pouco valor. Mais uma vez, ele se excita com algo que o livra da sombra de sua mãe, que só usava joias caras (muitas delas compradas para ela por um homem que não era seu pai).
Há uma interessante explicação para os fetiches encontrada inesperadamente no famoso banquete de Sócrates onde foi discutido o amor, descrito em O simpósio, de Platão. Usando Aristófanes como porta-voz, Platão articulou o que veio a se tornar conhecido como a Escada do Amor, que argumenta que tudo aquilo que achamos desejável por meio dos olhos nos leva, finalmente, para longe do meramente visual, do material, a uma categoria mais positiva, conhecida por Platão como “O Bem”. Esta escada que conecta o mundo dos objetos ao mundo das ideias e das virtudes pode ser largamente utilizada para resgatar nossos fetiches da deprimente interpretação alternativa que sustenta que eles são triviais e inconsequentes porque meramente sexuais. Graças à filosofia de Platão, um par de belos mocassins, um elegante relógio vintage ou um elástico usado casualmente já não precisam ser descartados como insignificantes e incapazes de produzir outra coisa senão irrelevantes pontadas de desejo. Antes, esses e outros fetiches se encontram aos pés de uma escada ligados ao que mais podemos amar em outro ser humano. Eles nos excitam porque são símbolos do Bem.
Objetos nos excitam porque são indicadores do Bem.
 
Orgasmo – Utopia
 
Os orgasmos que nosso casal representativo acaba por desfrutar nesses primeiros momentos são, portanto, muito mais do que sensações físicas geradas pela fricção e pressão de órgãos sexuais obedecendo a um comando biológico de reprodução da espécie. O prazer do sexo está envolto no reconhecimento e na concessão de um distintivo selo de aprovação dos ingredientes de uma boa vida cuja presença detectamos em outra pessoa. Quanto mais analisamos o que consideramos “sexy”, mais reconhecemos que o erotismo é a sensação de excitação ao encontrar outro ser humano que partilha os nossos valores e a nossa percepção do sentido da existência.
O orgasmo em si é o momento supremo no qual nossa solidão e nossa alienação são momentaneamente superadas. Tudo o que apreciamos em nossos amantes – os comentários que fizeram, os sapatos que estão usando, o humor que emana de seus olhos ou rosto – combinam-se em uma distilação concentrada de prazer que deixa as duas partes incomparavelmente ternas e vulneráveis em relação ao outro.
Existem, é claro, caminhos para o orgasmo que pouco têm a ver com encontrar um propósito comum com outra pessoa, mas eles devem ser entendidos como uma traição maior ou menor do verdadeiro propósito do sexo. Isto explica o sentimento de vazio e solidão que normalmente acompanha a masturbação, bem como a repulsa gerada por casos de bestialidade, estupro e pedofilia – atividades em que o prazer é unilateral e, portanto, sem reciprocidade.
 
4.
Uma das dificuldades do sexo é que – no quadro mais amplo – ele não dura muito tempo. Mesmo em seus extremos, estamos falando de um fenômeno que pode ocupar apenas raramente duas horas, ou a duração aproximada de uma missa católica.
O ânimo, depois disso, tende a ser deprimido. A tristeza pós-coito normalmente se instala no casal. Pode haver um impulso de um ou ambos para dormir, ler o jornal ou fugir. O problema, em geral, não é o sexo em si, mas o contraste entre sua inerente ternura, violência, energia e hedonismo e os aspectos mais mundanos do resto de nossa vida, o eterno tédio, repressão, dificuldade e frieza. O sexo pode dar um alívio quase insuportavelmente grande aos desafios que enfrentamos. Além disso, com nossa libido gasta, nossos entusiasmos anteriores podem parecer inibidoramente estranhos e desconectados do nosso eu cotidiano e de nossas preocupações triviais. Esforçamo-nos para ser sensíveis, mas um momento antes – é isso mesmo? – estávamos desesperados para chicotear nosso amante. Vivemos contentes num moderno mundo democrático, mas agora mesmo passamos parte da noite dando asas ao nosso desejo de ser um sádico nobre que aprisiona uma donzela numa masmorra medieval.
Nossa cultura nos encoraja a reconhecer bem pouco de quem normalmente somos no ato sexual. Parece um processo puramente físico, sem importância psicológica. Mas, como vimos, o que acontece quando se faz amor está ligado a algumas de nossas ambições mais importantes. O ato do sexo acontece pelo roçar de órgãos, mas a excitação não é uma reação fisiológica grosseira; é um êxtase pelo encontro de alguém que pode ser capaz de solucionar alguns de nossos maiores temores e nos ajudar a construir uma vida em comum calcada em valores partilhados.
 
(Alain de Botton - Como pensar mais sobre sexo)

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