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I.
Dizer que gostamos de alguém porque ele ou ela parecem “sexy” soa como se avaliássemos outro ser humano por critérios insultantementes superficiais. Nossa cultura é rígida nesse ponto: declarar que aprovamos as pessoas somente por sua aparência não cai bem em meios civilizados. Antes de declarar sua preferência por alguém, espera-se que você venha a conhecê-la gradualmente e por meio de palavras; não devemos cair de amores (ou tesão) à primeira vista. Parece uma traição da humanidade alguém julgá-lo principalmente por sua aparência, algo que a pessoa não pode mudar de maneira radical, em vez de seu caráter, que (supostamente) ela pode alterar. Entendemos que as pessoas são constituídas por eus interior e exterior, e privilegiamos o primeiro ao segundo.
No entanto, é difícil negar que nosso invólucro físico tenha um papel extremamente importante em nossos destinos e desejos. O desejo de dormir com certas pessoas pode surgir antes que tenhamos a oportunidade de conhecê-las melhor – isto é, antes de termos a chance de nos sentar com elas e conversar sobre seu caráter, história e interesses. Podemos chamá-las imediatamente de “sexy” a partir de uma fotografia ou de um olhar rápido na rua, e imaginar os prazeres que teríamos ao passar férias com elas não por motivos intelectuais, mas porque são bonitas.
Isso é chocante, mas, em um livro sobre sexo, difícil de ignorar. Então, antes de descartarmos todo apelo físico como sem sentido, deveríamos ao menos perguntar o que estamos dizendo quando declaramos que alguém é um tesão só pela aparência. O que é que nos atrai nelas? A que exatamente a pessoa atraente está nos atraindo?
Mais uma vez, é a biologia evolutiva que nos oferece respostas poderosas e sedutoras. Seguindo sua lógica, somos atraídos para a beleza por uma razão simples e definitiva: ela é uma promessa de saúde. O que chamamos de uma pessoa “bonita”, ou, se formos mais informais, uma pessoa “sexy”, é, essencialmente, alguém com um forte sistema imunológico e grande vigor físico. Gostamos delas (ou podemos dizer que elas nos dão tesão) porque achamos – àquela maneira intuitiva que a natureza nos concedeu para tomarmos decisões rápidas em situações complexas e urgentes – que com elas temos chances teóricas excepcionalmente boas de produzir filhos saudáveis e resistentes.
Uma impressionante gama de estudos mostra que, quando grupos aleatórios de pessoas ao redor do mundo têm acesso a fotografias de diferentes rostos masculinos e femininos e são convidadas a avaliá-los em termos de beleza, os resultados são surpreendentemente similares em todos os meios sociais e culturais. O consenso vem dos tipos de rosto que consideramos mais atraentes. Desses estudos, os biólogos evolutivos concluem que uma pessoa sexy, de um sexo ou de outro, longe de ser uma noção abstrata e não classificável, é, em essência, alguém cujo rosto é simétrico (isto é, cujos lados direito e esquerdo correspondem perfeitamente) e cujas características são equilibradas, proporcionais e sem distorções.
A sensualidade, ao que parece, não está no olhar do observador: em um
estudo, 97% dos participantes responderam que estavam mais propensos
a dormir com a (mais simétrica) mulher da direita.
 
O rosto do homem à direita tem a quantidade ideal de gordura em
relação a altura e peso; na figura à esquerda, o mesmo rosto tem excesso
de gordura. O que chamamos de “sensualidade” é sinônimo do que os
biólogos chamam de “saúde”.
 
2.
Pode ser um tanto perturbador que alguém preveja com quem gostaríamos de dormir antes mesmo de termos a chance de formar nossa própria opinião. Os experimentos dos biólogos evolutivos parecem um daqueles truques em que um mágico venda nossos olhos e acerta misteriosamente que carta vamos tirar do meio de um conjunto de cartas bem embaralhadas. Mas, ao contrário dos ilusionistas, os biólogos evolutivos não lidam com o sobrenatural; eles argumentam que existem motivos científicos bem-fundamentados por trás de nossa preferência por determinados rostos. A simetria e o equilíbrio são tão importantes para nós porque seus opostos – assimetria facial e desequilíbrio – são indicativos de doenças que teriam ocorrido no útero da mãe ou nos primeiros anos de vida, quando muitos traços de uma pessoa estão sendo moldados. Um feto cujo DNA tenha sido corrompido por micróbios ou que sofreu doses debilitantes de estresse nos primeiros meses de gestação revelará essas adversidades na disposição de suas características. Nossa aparência é um indicador do nosso destino genético.
É difícil contestar o argumento da biologia evolutiva de que para um segmento primitivo de nosso cérebro, obcecado com a sobrevivência, a beleza é a principal marca da saúde. A biologia evolutiva também parece estar correta ao atribuir considerável importância mesmo aos menores aspectos na aparência facial – argumentando, por exemplo, que um milímetro a mais ou a menos em nossas narinas ou entre nossas sobrancelhas pode ter consequências significativas no modo como as pessoas reagem a nós. A disciplina absolve a atração física das acusações de mera superficialidade. Julgamos as pessoas pelas aparências, mas as aparências não são nem um pouco triviais; de fato elas nos direcionam a qualidades relativamente profundas. Sentir-se atraído por alguém é estar fascinado por algum aspecto importante da pessoa; desejo sexual e apreciação da beleza estão interligados a um dos maiores projetos da vida: ter filhos.
3.
No entanto, após um tempo, essa análise dos biólogos evolutivos começa a se esvaziar e torna-se um pouco deprimente, pois parece limitar nosso interesse sexual por outras pessoas a um único critério: quão saudáveis elas parecem ser.
Não é que não devamos nos preocupar nem um pouco com isso. É apenas que, dada a extensão de requisitos imposta por uma vida em comum, nossos sentimentos positivos sobre a aparência de um parceiro em potencial deve ir além de apenas seu bem-estar físico.
O romancista francês Stendhal nos oferece um meio de escapar desse beco sem saída com a máxima “A beleza é a promessa de felicidade”. Essa definição tem a vantagem de ampliar nossa percepção de por que podemos achar uma pessoa bonita. Vai muito além de ela parecer saudável: antes, lhe atribuímos o adjetivo porque percebemos em seu rosto uma gama de traços interiores que intuímos ser de algum benefício no estabelecimento de um relacionamento bem-sucedido. Podemos, por exemplo, perceber em sua aparência virtudes tais como determinação, inteligência, confiança, humildade e um senso de humor suavemente subversivo. Se nos é subconscientemente possível encontrar evidências de um forte sistema imunológico pelo formato de um nariz, por que não também identificar nos lábios um sinal de paciência ou, na testa, uma inclinação catártica para rir dos próprios absurdos da vida?
4.
A quantidade de informações contida em nosso rosto torna-se evidente quando estudamos quadros em que pessoas atraentes e que não conhecemos em carne e osso são representadas por grandes pintores. Vejamos, por exemplo, a interpretação de Ingres de uma certa Madame Devaucay. Ela tem, claramente, uma boa aparência – portanto é saudável, segundo a interpretação da biologia evolutiva. Mas, se quisermos explicar seu encanto com algum grau de complexidade, teremos de ir além de dizer que seu DNA está em boa forma. Ela nos intriga, e até pode nos excitar, porque seu rosto sugere uma gama de qualidades além da saúde. Qualidades que (sem pretensão de precisão científica) talvez possam ser traduzidas em palavras, e que talvez desejamos encontrar em um parceiro.
Alguma coisa na boca e no sorriso de Madame Devaucay insinua uma tolerância carnal. É fácil acreditar que a essa boca poderíamos dizer quase tudo (que não pagamos os impostos, que fizemos algo ruim na Revolução Francesa, ou que tínhamos preferências sexuais incomuns), e sua dona dá a impressão de que não nos chamaria sutilmente à responsabilidade, não demonstraria surpresa, moralismo nem censura provinciana; saberia quanto nossa alma é capaz de ficar perturbada sem deixar de reivindicar um mínimo de decência. Seu nariz parece o repositório de uma dignidade original. De alguma forma indica que ela é privilegiada, mas não mimada, conhecedora do sofrimento, mas propensa a manter a elegância em circunstâncias difíceis. No entanto, seu penteado imediatamente sugere disciplina e uma comovente sensatez. Ela talvez tenha aprendido a arrumar o cabelo dessa forma na escola do convento, onde certamente era uma das preferidas das bondosas freiras. Quanto a seus olhos, eles denunciam uma sedutora ousadia; ela encararia um inquisidor brutal e nunca desviaria o olhar. Ela não abriria mão de crenças nem trairia amigos por conveniência.
Mais do que apenas “boa saúde”: a sensualidade é uma promessa de felicidade.
Jean-Auguste-Dominique Ingres, Madame Antonia Devaucay de Nittis, 1807.
 
Se apreciamos a beleza de Madame Devaucay, certamente não é porque a consideramos saudável, mas porque somos tocados por todo o seu caráter, habilmente transmitido pelas características de um rosto.
Como vários outros notáveis exemplos do gênero, o retrato de Ingres nos ensina que a aparência pode ser portadora de significados autênticos. Pinturas de retratos são instrutivas precisamente porque muito de uma pessoa está logo em sua superfície. O eu exterior, corpóreo, nem sempre tem que estar em desacordo com o eu interior, profundo, espreitando abaixo da pele; ambos podem estar integrados e em comunhão. Nosso desejo de dormir com determinadas pessoas porque as achamos fisicamente atraentes não necessariamente significa, portanto, que estamos ignorando quem elas “realmente são”. Na verdade, nos excitamos e nos sentimos ávidos a ficar perto de um tipo estimulante de bondade – ou, como observa Stendhal, uma promessa de felicidade – que corretamente percebemos em seus lábios, pele, boca e olhos.

5.
O aspecto psicológico de uma impressão de “sensualidade” é também evidente no contexto das roupas, particularmente na alta-costura. Mais uma vez, do ponto de vista da biologia evolutiva, um desfile de moda pode ser comparado ao tipo de exibição de acasalamento dos pássaros tropicais. Assim como a qualidade da plumagem desses pássaros pode indicar a presença ou ausência de determinados parasitas no sangue e, portanto, comunicar rapidamente uma mensagem sobre a saúde de um potencial parceiro, a moda também pode, ao menos a distância, parecer estar cuidadosamente focada em acentuar sinais de aptidão biológica, especialmente porque estas se manifestam nas pernas, nos quadris, seios e ombros.
No entanto, a moda seria um negócio um tanto unidimensional se nos falasse apenas de saúde. Não haveria as intrigantes diferenças entre os produtos de empresas como Dolce & Gabbana e Donna Karan, Céline e Marni, Max Mara e Miu Miu. Chamar a atenção para a saúde pode ser uma parte da missão da moda, mas num nível mais ambicioso, essa forma de arte também oferece às mulheres roupas que sustentam uma gama de visões sobre o que significa ser uma pessoa interessante e desejável. Em todas as suas infinitas permutações, as roupas transmitem mensagens sobre valores, ética e disposições psicológicas – e as julgamos “bonitas” ou “feias” na medida em que concordamos ou não com as mensagens que elas carregam. Considerar “sexy” uma determinada roupa não é apenas ressaltar a possibilidade de que seu usuário seja capaz de produzir filhos saudáveis, é também um sinal de que nos excitamos com a filosofia de vida que ela representa.
Podemos observar a coleção de qualquer designer em uma dada estação e considerar como ela nos está estimulando a pensar em virtude. A Dior, por exemplo, pode propor que nos lembremos da importância de elementos como artesanato, sociedade pré-industrial e modéstia feminina; Donna Karan poderia estar enfatizando a necessidade de independência, competência profissional e as agitações da vida urbana; e Marni pode estar defendendo a excentricidade, a imaturidade calculada e a política de esquerda.
A excitação é um processo que envolve todo o ser. É um selo de aprovação que damos, por meio de nossos órgãos sexuais, a sugestões surpreendentemente articuladas de como podemos viver.
Marni (esquerda), Dolce & Gabbana (direita). Quando afirmamos que roupas são
“sexy”, não estamos dizendo apenas que as pessoas que as estão usando parecem saudáveis.
Estamos insinuando que gostamos do modo como elas encaram o mundo.
 
 
 
(Alain de Botton - Como pensar mais sobre sexo)

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publicado às 18:26



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