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Os Pés

por Thynus, em 19.05.16
No ponto mais distante da cabeça encontra-se o que temos de mais humano no corpo, a abóbada do pé. Enquanto compartilhamos todas as outras estruturas e todos os outros órgãos, inclusive o cérebro, com outras criaturas, as abóbadas de nossos pés são a única garantia de nossa postura ereta - e recebem pouca atenção e reconhecimento por isso. A maneira como lidamos com nossos pés traem nosso estilo de vida. Embora tenhamos tido contato direto da pele com a terra durante a maior parte da história de nosso desenvolvimento, nós o evitamos desde há alguns séculos. Andar descalço ainda desempenha um pequeno papel somente no começo da história da vida do individuo. A tendência posterior de usar sapatos com salto mostra a intenção inconsciente de distanciar-nos o máximo possível da Mãe Terra. Ao colocar sapatos de salto alto, as mulheres usam algo que tire seus calcanhares de Aquiles da zona de perigo (da serpente). A distância da terra é, além disso, elegante, e por isso a perda de estabilidade é suportada de bom grado.
o.
Sapatos de salto mexem com a líbido: entenda por quê?

Fazer os pés entrarem à força em sapatos extremamente estreitos, chegando até ao antigo costume chinês de impedir o crescimento dos pés por meio de bandagens rígidas, lança uma luz característica sobre o martírio de nossas "raízes". Essa preferência por pés pequenos existe até hoje, razão pela qual não é raro que os pés sejam metidos em sapatos demasiado pequenos. A mutilação intencional das raízes na China antiga e entre nós contrasta com a preferência de viver à larga. Pois a experiência ensina que raízes fortes são o fundamento de uma vida bem-sucedida. Pode-se permitir algumas coisas quando se tem raízes bem desenvolvidas. Quando, ao contrário, elas são trancafiadas em prisões demasiado estreitas, o preço disso terá de ser pago em um plano mais elevado.
Segundo a lei "Assim acima como abaixo", todo o corpo está reproduzido na planta do pé sob a forma de zonas reflexas, sendo que as zonas correspondentes à cabeça estão localizadas na região dos dedos dos pés. É de supor que o suplício da parte anterior dos pés em sapatos muito apertados tenha correspondência no aumento vertiginoso das dores de cabeça. Nas chamadas culturas primitivas, onde as pessoas somente se movem descalças, as dores de cabeça são tão desconhecidas como o costume de arrebentar a cabeça ou arremetê-la contra a parede.
A capacidade de estar estabelecido, ter pé firme na vida e erguer-se sobre os próprios pés mostra como somos dependentes de nossas raízes e como não tem sentido menosprezá-las. A constância e a estabilidade partem deles e nos permitem agüentar a vida. Neste ponto vale a pena notar que, segundo Herman Weidelener, somos uma sociedade doente dos pés, que corre o perigo de perder o chão sob os pés porque ainda se ocupa somente da cabeça. Assim, cada afirmação está baseada em um fundamento, e a razão e a compreensão do mundo dependem evidentemente do contato com o solo. O problema está onde o sapato aperta, já diz o ditado.
O pé saudável de uma personalidade estável consiste de uma abóbada dupla com duas pontes e três pontos de contato com a terra. A pequena abóbada anterior está apoiada em dois pontos à altura dos dedos grande e pequeno, sendo que a grande apóia-se adicionalmente no calcanhar. Conseqüentemente, nosso pé é um tripé e se destaca pela estabilidade e pela elasticidade. Apesar disso, já não são muitas as pessoas modernas que ainda têm esse contato perfeitamente equilibrado com o solo. A situação da maioria é mais balouçante, já que em vez de três, posicionam-se somente sobre um ou dois pontos de apoio. Quem tem os dois pés no chão e estes, por sua vez, o tocam em três pontos, tem confiança pois está sobre uma base segura e tem um sentido de realidade fundamentado. Quem, ao contrário, desliza pelo chão apoiado em uma superfície mais larga, gosta também de oscilar em relação às coisas, alheio à realidade. Sua vida é algo inconsistente e descansa, ou seja, resvala sobre pés fracos.
O achatamento da pequena abóbada do pé (pés alargado.) retira um dos pilares da ponte anterior e reduz o contato com o solo a dois pontos. Caso a abóbada longa também se achate, a voz popular fala de pé chato. O molejo e os pontos de apoio diferenciados se perdem. Apoiados sobre as largas superfícies achatadas, os afetados deslizam por aí quase como se estivessem com patins de gelo, sem encontrar estabilidade ou consistência. Isso muitas vezes se reflete em uma vida sem compromissos, à qual falta o enraizamento. A posição ampla, superficial e algo desastrada não é firme, movendo-se livremente. Devido a esse modo de vida infundado e muitas vezes insondável, eles não gostam de se comprometer ou de assentar-se. Pessoas com os pés pesados, que grudam no chão, são opostas aos "patinadores". Elas acentuam sua posição mais do que o necessário e também mal erguem os pés do chão ao andar. O passo arrastado já ocorreu no caso das pernas gordas, mas fracas. Eles também mal levantam os pés do chão em sentido figurado, e portanto tampouco chegam muito longe nas regiões aéreas do mundo do pensamento, onde a criatividade e a espontaneidade estão em casa. Por essa razão, eles são confiáveis e constantes, razoáveis e bem fundamentados. Nada acontece com eles facilmente, e menos ainda os derruba. Onde os pés chatos têm algo de inconstante, nos pesados tudo permanece quieto. Aqui a estabilidade precede a mobilidade. Entretanto, quando os pés se transformam em chumbo, eles puxam seu proprietário para baixo e impedem qualquer escapada para outras dimensões. Uma vida que se limita somente ao chão dos fatos pode tornar-se bastante aborrecida. Muito diferentes são os príncipes (princesas) que flutuam pelo mundo e especialmente pelo mundo dos sonhos nas pontas dos pés, como se quisessem colocar-se acima das depressões da terra. No melhor estilo de balé, eles dançam pela vida. Andar nas pontas don pés é a variante natural dos sapatos de salto alto e mostra quão pouco seus proprietários ligam para o contato com o chão e até mesmo para a estabilidade. Eles não lançam raízes em nenhuma parte, já que estas somente atrapalhariam suas existências levianas (de artista). Em vez de sentido de realidade, eles cultivam a fantasia. Eles optaram pelas alturas em ambos os lados do mundo polar, deixando a profundidade para os que têm os pés pesados. Em vez de raízes, eles têm sonhos de alto vôo, impulso criativo, ímpeto considerável, fantasia em abundância e nenhuma firmeza. Eles são ainda mais difíceis de derrubar que os que têm os pés pesados, pois no mundo de fadas dos seres flutuantes nada é firme e tudo flui. Mas a leveza de tais seres feitos de nuvens também tem seu lado sombrio na negligência freqüentemente extensa da existência material. No pólo oposto estão assentados os pés em forma de garra, com os quais seus proprietários se aferram à superfície da Terra. Os dedos curvados como garras buscam apoio convulsivamente. Tais pés falam de uma existência ameaçada, um forte desejo de encontrar paragem e de não ceder. Não somente os dedos dos pés, mas também os músculos dos pés e das pernas, estão muitas vezes cronicamente tensos e deixam entrever uma postura semelhante em relação à vida. Pés inquietos, ao contrário, revelam a tendência de caminhar constantemente e, em geral, de escapar. Seus proprietários estão sempre dando no pé e, freqüentemente, ocultam também tendências de fuga por trás de sua compulsão e interesse pelo movimento.
Uma inclinação extrema para trás, que pertence a um tipo de andar que se apóia nos calcanhares, aponta para uma direção semelhante. A postura apoiada nos calcanhares indica um recuo diante da vida e garante contragolpes nas costas e na nuca. Por essa razão, tanto mais fácil é derrubar pela frente os representantes dessa posição. Apesar de assegurar-se medrosamente, eles tendem a cair. Um leve vento lateral já é suficiente para levantá-los pelos pés.
1. O astrágalo
Quem torce o tornozelo não pode mais, como Hefestos, o ferreiro dos deuses, dar grandes saltos. Ele quebrou seus dois astrágalos quando sua mãe o arremessou do céu para a Terra, e a partir de então ele ficou coxo. Algo semelhante acontece com aqueles que dão saltos grandes demais e aterrissam com demasiada dureza sobre o chão dos fatos. A exigência é clara: permanecer no chão e escalar degrau a degrau, lenta e constantemente. Os grandes saltos estão vetados pelo destino. Para as pessoas que estavam sempre saltando para diante, ficar coxo é uma dura terapia. Quando eles aprendem a abrir caminho avançando penosamente pelos vales da vida, o gesso que têm no pé parece uma bola de ferro. Mas ele pode tornar-se também a âncora que o mantém preso ao corpo e o impede de pular fora fisicamente e sair da raia. Justamente o corpo preso ao chão pode transformar-se na base ideal para saltos aéreos espirituais e vôos de altitude.
O astrágalo, que se encontra sobre a abóbada do pé, é a origem de nossa postura ereta, mas também da possibilidade de negá-la. O salto para o plano dos deuses somente pode ser bem-sucedido a partir daqui. Mas aqui são também vingados os passos em falso. Quando torcemos o pé, estamos sendo repreendidos severamente, na fratura nós temos um estalo. A lição a ser aprendida resulta do acidente: os afetados precisam admitir que estão apoiados em falso, que aterrissam de forma muito pouco flexível quando saltam, que após seus altos vôos levam uma bronca da realidade, ou seja, que o contato entre o mundo dos pensamentos e a realidade não é harmônico e trilha caminhos perigosos. Eles estão sendo desafiados a retirar seu corpo do duro confronto com a realidade, garantir melhor suas rotas de fuga e amortecer as aterrissagens, testar em pensamento os caminhos pouco claros e ousados antes de executá-los na materialidade. Os ferimentos por ela causados os forçam ao descanso e os levantam pelos pés. É preciso poupar o corpo e, nesse descanso externo, empenhar-se mais na mobilidade e nos saltos espirituais internos. O coxo Hefestos, impedido de progredir fisicamente, tornou-se um criativo inventor e conquistou assim o lugar no céu que antes lhe era negado.

(Rüdger Dahlke - "A doença como linguagem da alma") 
Dor no calcanhar? Por que isso ocorre?

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publicado às 03:40



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