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Por mais que surjam embusteiros melhoradores do mundo e prometedores de salvação ou de paraísos ideais, sempre estaremos condenados ao limite de sermos humanos. O super-homem ao qual se refere o grande pensador alemão Friedrich Nietzsche não é aquele super-herói salvador, mas o homem que vive a vida na vida e não recorre a neuroses metafísicas para justificar suas ações.


E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.
E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra.
Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio.
E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?
E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.

(João 8, 7-11)

 

 

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Jesus e a mulher adúltera

 

Na verdade, após o meu encontro pecaminoso com a moça, os outros terríveis acontecimentos tinham-me quase feito esquecer aquele fato, e por outro lado, logo depois de ter-me confessado com frei Guilherme, o meu ânimo ficou desagravado do remorso que sentira ao despertar, após minha culposa fraqueza, tanto que me parecera ter confiado ao frade, com as palavras, o próprio fardo de que elas eram a voz significativa. Para qual outra coisa serve com efeito o benéfico banho da confissão, senão para descarregar o peso do pecado, e do remorso que comporta, no próprio seio de Nosso Senhor, obtendo com o perdão uma nova leveza aérea da alma, de modo a esquecer o corpo torturado pela maldade? Mas não me libertara completamente. Agora que passeava ao sol pálido e frio daquela manhã invernal, circundado pelo fervor dos homens e dos animais, começava a recordar os acontecimentos passados de modo diferente. Como se de tudo o que acontecera não sobrassem mais o arrependimento e as palavras consoladoras do banho penitencial, mas apenas imagens de corpos e membros humanos. Vinha-me à cabeça superexcitada o fantasma de Berengário inchado de água, e ficava arrepiado de repugnância e de piedade. Depois, como para afastar aquele lêmure, a minha mente se revolvia a outras imagens de que a memória era recente receptáculo, e não podia evitar de ser, evidente aos meus olhos (aos olhos da alma, mas quase como se aparecesse antes aos olhos carnais), a imagem da moça, bela e terrível como exército disposto para batalha.

Prometi a mim mesmo (velho amanuense de um texto nunca escrito antes de agora, mas que durante longos decênios falou em minha mente) ser cronista fiel, e não só por amor à verdade, nem pelo desejo aliás digníssimo de amestrar os meus leitores futuros; mas também para libertar a minha memória sem viço e cansada de visões que a inquietaram durante a vida inteira. E assim mesmo devo dizer tudo, com decência mas sem vergonha. E devo dizer, agora, em letras redondas, o que pensei então e quase tentei esconder de mim mesmo, passeando pela esplanada, pondo-me às vezes a correr para poder atribuir ao movimento do corpo as batidas repentinas do meu coração, detendo-me para admirar o trabalho dos aldeões e iludindo-me que me distraía na sua contemplação, aspirando o ar frio a plenos pulmões, como faz quem bebe vinho para esquecer o temor ou a dor.

Em vão. Eu pensava na moça. A minha carne esquecera o prazer, intenso, pecaminoso e passageiro (coisa vil) que me tinha dado o conjugar-me com ela; mas minha alma não esquecera o seu rosto, e não conseguia ver perversidade nessa recordação, antes palpitava como se naquele rosto resplandecessem todas as doçuras da criação.

Percebia, de modo confuso e quase negando a mim mesmo a verdade do que sentia, que a pobre, conspurcada, impudente criatura que se vendia (quiçá com que insolente constância) a outros pecadores, aquela filha de Eva que, demasiado fraca como todas suas irmãs, fizera tantas vezes comércio da própria carne, era todavia algo de esplêndido e mirífico. O meu intelecto a sabia fonte de pecado, o meu apetite sensitivo a percebia como receptáculo de todas as graças. É difícil dizer o que eu estava experimentando. Poderia tentar escrever que, ainda preso nas tramas do pecado, desejava, culpadamente, vê-la aparecer a todo instante, e quase espiava o trabalho dos operários para observar se, do canto de uma cabana, do escuro de um curral, não apareceria aquela figura que me seduzira. Mas não estaria escrevendo a verdade, ou seja, estaria tentando pôr um véu na verdade para atenuar-lhe a força e a evidência. Porque a verdade é que eu “via” a moça, eu a via nos ramos da árvore desfolhada que palpitavam ligeiramente quando um pássaro enrijecido voava à procura de abrigo; eu a via nos olhos das novilhas que saíam do curral, e a ouvia nos balidos dos cordeiros que cruzavam o meu passeio. Era como se toda a criação me falasse dela, e desejava, sim, muito, revê-la, mas estava pronto no entanto a aceitar a idéia de não revê-la nunca mais, e de não me conjugar nunca mais a ela, contanto que pudesse gozar o gáudio que me percorria aquela manhã, e tê-la sempre perto, mesmo se estivesse, e para a eternidade, distante. Era, tento agora entender, como se todo o universo mundo, que claramente é como que um livro escrito pelo dedo de Deus, em que cada coisa nos fala da imensa bondade do seu criador, em que cada criatura é como escritura e espelho da vida e da morte, em que a mais humilde rosa se faz glosa de nosso caminho terreno, tudo em suma, de outra coisa não falava a não ser do rosto que a custo entrevira nas sombras odorosas da cozinha. Tendia a essas fantasias porque me dizia a mim mesmo (ou melhor, não dizia, porque naquele momento não formulava pensamentos em palavras) que se o mundo inteiro é destinado a falar-me da potência, bondade, e sabedoria do criador, se aquela manhã o mundo inteiro me falava da moça que (pecadora que fosse) era porém sempre um capítulo do grande livro da criação, um versículo do grande salmo cantado pelo cosmo — dizia-me (agora digo), que se isso acontecia não podia não fazer parte do grande desígnio teofânico que rege o universo, disposto em modo de cítara, milagre de consonância e de harmonia. Quase inebriado, gozava então da sua presença nas coisas que via, e através delas desejava-a, satisfazendo-me à vista delas. E, no entanto, sentia uma dor, porque ao mesmo tempo sofria por uma ausência, mesmo sendo feliz com tantos fantasmas de uma presença. É difícil para mim explicar esse mistério de contradição, sinal que o ânimo humano é demasiado frágil e nunca segue diretamente pelas veredas da razão divina, que construiu o mundo como um perfeito silogismo, porém desse silogismo colhe apenas proposições isoladas e freqüentemente desconexas, de onde a nossa facilidade em cair vítima das ilusões do maligno. Era ilusão do maligno o que naquela manhã me deixava assim comovido? Penso hoje que sim, porque era noviço, mas penso que o sentimento humano que me agitava não era mau em si, mas apenas em relação ao meu estado. Porque de per si era o sentimento que move o homem em direção à mulher para que um se conjugue com a outra, como quer o apóstolo das gentes, e ambos sejam carne de uma só carne, e juntos procriem novos seres humanos e se assistam mutuamente da juventude à velhice. Só que o apóstolo assim falou aos que buscam o remédio para a concupiscência e a quem não queira queimar, lembrando porém que bem mais preferível é o estado de castidade, ao qual eu, monge, me consagrara. E por isso eu padecia naquela manhã do que para mim era mal, mas que para outros talvez fosse bem, e bem dulcíssimo, pelo que compreendo agora que a minha perturbação não era devida à maldade de meus pensamentos, dignos e suaves em si, mas à gravidade da relação entre meus pensamentos e os votos que pronunciara. E portanto fazia mal em gozar de uma coisa boa sob uma certa razão, má sob outra, e o meu defeito estava em tentar conciliar com o apetite natural os ditames da alma racional. Agora sei que estava sofrendo do contraste entre o apetite ilícito intelectivo, onde deveria se manifestar o império da vontade, e o apetite elícito sensitivo, sujeito das paixões humanas. De fato actus appetitus sensitivi in quantum habent transmutationem corporalem annexam, passiones dicuntur, non autem actus voluntatis. E o meu ato apetitivo era justamente acompanhado de um tremor do corpo inteiro, de um impulso físico para gritar e para me agitar. O angélico doutor diz que as paixões em si não são más, mas que devem ser moderadas pela vontade guiada pela alma racional. Mas a minha alma racional estava naquela manhã adormecida pelo cansaço, o qual punha freio no apetite irascível, que se volta para o bem e para o mal enquanto termos de conquista, mas não no apetite concupiscível, que se volta para o bem e para o mal enquanto conhecidos. Para justificar a minha irresponsável leviandade de então direi, hoje, e com palavras do doutor angélico, que estava indubitavelmente tomado de amor, que é paixão e lei cósmica, porque mesmo a gravidade dos corpos é amor natural. E por essa paixão fora naturalmente seduzido, porque nessa paixão appetitus tendit in appetibile realiter consequendum ut sit ibi finis motus. Pelo que naturalmente amor facit quod ipsae res quae amantur, amanti aliquo modo uniantur et amor est magis cognitivus quam cognitio. De fato, agora eu via melhor a moça do que a tinha visto na noite anterior, e a entendia intus et in cute, porque nela entendia a mim e em mim ela própria. Pergunto-me agora se aquilo que estava provando era o amor de amizade, em que o semelhante ama o semelhante e quer apenas o bem do outro, ou amor de concupiscência, em que se quer o próprio bem e o carente quer apenas aquilo que o completa. E creio que o amor de concupiscência tinha sido o da noite, no qual queria da moça algo que nunca tivera, enquanto naquela manhã da moça eu não queria nada, e queria apenas o seu bem, e desejava que ela fosse retirada da cruel necessidade que a obrigava a se dar por um bocado de comida, e fosse feliz, nem queria eu pedir-lhe mais nada, mas apenas continuar a pensá-la e a vê-la nas ovelhas, nos bois, nas árvores, na luz serena que envolvia de gáudio a muralha da abadia. Agora sei que a causa do amor é o bem e aquilo que é bem se define por conhecimento, e não se pode amar a não ser aquilo que se aprendeu como bem, enquanto a moça eu a aprendera, sim, como bem do apetite irascível, mas como mal da vontade. Mas então estava presa de muitos e muitos contrastantes impulsos da alma porque o que eu provava era semelhante ao amor mais santo, justamente como o descrevem os doutores: ele provocava-me o êxtase, em que amante e amado querem a mesma coisa (e por misteriosa iluminação eu naquele momento sabia que a moça, em qualquer lugar que estivesse, queria as mesmas coisas que eu próprio queria), e por ela eu tinha ciúme, mas não aquele mal, condenado por Paulo na primeira aos coríntios, que é principium contentionis, e não admite consortium in amato, mas aquele de que fala Dionísio nos Nomes Divinos, em que mesmo Deus é dito ciumento propter multum amorem quem habet ad existentia (e eu amava a moça justamente porque ela existia, e estava contente, não invejoso, que ela existisse). Era ciumento no modo em que para o angélico doutor o ciúme é motus in amatum, ciúme de amizade que induz a mover-se contra tudo aquilo que prejudica o amado (e eu outra coisa não fantasiava naquele instante, senão libertar a moça do poder de quem lhe estava comprando as carnes, conspurcando-a com as suas paixões nefastas).

Agora sei, como diz o doutor, que amor pode prejudicar o amante quando é excessivo. O meu era excessivo. Tentei explicar o que experimentava então, não tento por nada justificar o que experimentava. Falo dos que foram os meus culpáveis ardores da juventude. Eram maus, mas a verdade me obriga a dizer que então os percebi como extremamente bons. E isto sirva para instruir quem, como eu, cair nas malhas da tentação. Hoje, ancião, saberia mil modos de escapar a tais seduções (e me pergunto se deva sentir-me orgulhoso disso, uma vez que estou livre das tentações do demônio meridiano; mas não livre de outras, tanto que me pergunto se o que estou fazendo agora não é culpável aquiescência à paixão terrestre da rememoração, tola tentativa de escapar ao fluxo do tempo e à morte).

Então, salvei-me como por instinto milagroso. A moça me aparecia na natureza e nas obras humanas que me circundavam. Procurei por isso, por um feliz intuito da alma, mergulhar na livre contemplação dessas obras. Observei o trabalho dos vaqueiros que estavam conduzindo os bois para fora do estábulo, dos porqueiros que levavam comida aos porcos, dos pastores que instigavam os cães a reunirem as ovelhas, dos camponeses que traziam farro e milho miúdo aos moinhos e dali saíam com sacos de boa comida. Mergulhei na contemplação da natureza, procurando esquecer os meus pensamentos e procurando apenas enxergar os seres como eles nos aparecem, e esquecer-me da visão deles, alacremente.

Como era belo o espetáculo da natureza não tocada ainda pela sabedoria, freqüentemente perversa, do homem!

Vi o cordeiro, a quem foi dado esse nome como em reconhecimento de sua pureza e bondade. Na verdade o nome agnus deriva do fato de que esse animal agnoscit, reconhece a própria mãe e reconhece a sua voz em meio ao rebanho enquanto a mãe, no meio de muitos cordeiros de forma idêntica e de idêntico balido, reconhece sempre e somente o seu filho, e o alimenta. Vi a ovelha, que ovis é dita ab oblatione, porque servia desde os primeiros tempos aos rituais de sacrifício; a ovelha que, como é seu costume, no decorrer do inverno, procura a erva com avidez e se enche de forragem antes que os pastos sejam queimados pelo gelo. E os rebanhos eram vigiados pelos cães, assim chamados de canor por causa do seu latido. Animal perfeito entre os demais, com superiores dotes de argúcia, o cão reconhece o próprio dono, e é adestrado para a caça às feras no bosque, para a guarda dos rebanhos contra os lobos, protege a casa e os pequenos do seu patrão, e às vezes, em tal função de defesa, é morto. O rei Garamante, que fora capturado por seus inimigos, fora reconduzido à pátria por uma matilha de duzentos cães que atravessaram as fileiras adversárias; o cão de Jasão Lício, após a morte do dono, continua a recusar comida até morrer de inanição; o do rei Lisímaco jogou-se na fogueira do próprio patrão para morrer com ele. O cão tem o poder de curar as feridas lambendo-as com a língua e a língua de seus filhotes pode curar as lesões intestinais. Por natureza costuma utilizar a mesma comida duas vezes, após tê-la vomitado. Sobriedade, que é símbolo de perfeição de espírito, assim como o poder taumatúrgico de sua língua é símbolo da purificação dos pecados, obtida através da confissão e da penitência. Mas que o cão volte ao que vomitou é também sinal de que, após a confissão, retorna-se aos mesmos pecados de antes, e essa moralidade foi-me bastante útil naquela manhã para admoestar o meu coração, enquanto eu admirava as maravilhas da natureza.

Entretanto os meus passos levaram-me aos estábulos dos bois, que estavam saindo em quantidade, guiados por seus vaqueiros. Pareceram-me logo tal qual eram e são, símbolos de amizade e bondade, porque todo boi no trabalho vira-se para procurar seu companheiro de arado, se por acaso ele nesse momento está ausente, e para ele se dirige com afetuosos mugidos. Os bois aprendem obedientes a retornar sozinhos ao estábulo quando chove, e enquanto se abrigam na manjedoura esticam continuamente a cabeça para olhar se lá fora o mau tempo passou, porque ambicionam voltar ao trabalho. E com os bois estavam saindo naquele momento os vitelos que, machos e fêmeas, trazem o seu nome da palavra viriditas ou mesmo de virgo, porque nessa idade eles estão ainda frescos, jovens e castos, e fiz mal e fazia, eu me disse, em ver em seus movimentos graciosos uma imagem da moça não casta. Pensei nestas coisas, em paz novamente comigo e com o mundo, observando o alegre trabalho da hora matutina. E não pensei mais na moça, ou seja, esforcei-me por transformar o ardor que experimentava por ela numa sensação de alegria interior e de paz devota.

Disse a mim mesmo que o mundo era bom, e admirável. Que a bondade de Deus é manifestada também pelas bestas mais horrendas, como explica Honório Augustodunense. É verdade, há serpentes tão grandes que devoram os cervos e nadam pelo oceano, existe a besta cenocroca de corpo de asno, chifres de cabrito montês, peito e fauces de leão, pé de cavalo, mas bipartido como o de boi, um talho da boca que chega até às orelhas, a voz quase humana e, no lugar dos dentes, um único osso sólido. E existe a besta mantícora, de cara de gente, uma tripla fileira de dentes, o corpo de leão, a cauda de escorpião, os olhos glaucos, a cor de sangue e a voz semelhante ao sibilo da serpente, ávida de carne humana. E existem monstros com oito dedos em cada pé, e focinhos de lobo, unhas aduncas, pele de cordeiro e latido de cão, que, em vez de brancos, tornam-se pretos com a velhice, e excedem em muito a nossa idade. E existem criaturas com olhos nos ombros e dois furos no peito em lugar das narinas, porque falta-lhes a cabeça, e outras mais, que moram no rio Ganges, que vivem somente do cheiro de um certo pomo, e quando dele se afastam, morrem. Porém mesmo essas bestas imundas cantam em sua variedade os louvores do criador e a sua sabedoria, como o cão, o boi, a ovelha, o cordeiro e o lince. Como é grande, disse-me então, repetindo as palavras de Vicente de Beauvais, a mais humilde beleza deste mundo, e quão agradável é para o olho da razão o considerar atentamente não só os modos e os números e as ordens das coisas, tão decorosamente estabelecidas por todo o universo, mas também o desenrolar dos tempos que incessantemente se deslindam através de sucessões e quedas, marcados pela morte daquilo que nasceu. Confesso, pecador que sou, com a alma há pouco ainda prisioneira da carne, que fui movido então por uma doçura espiritual para com o criador e a regra do mundo, e admirei com alegre veneração a grandeza e a estabilidade da criação.

 

Nessa boa disposição de espírito encontrou-me meu mestre quando, arrastado por meus pés e sem me dar conta, completando quase o périplo da abadia, achei-me de novo onde nos havíamos deixado duas horas antes. Ali estava Guilherme e o que me disse distraiu-me de meus pensamentos e fez voltar de novo minha mente aos tenebrosos mistérios da abadia.

Guilherme parecia muito contente. Trazia na mão o fólio de Venâncio, que tinha decifrado finalmente. Fomos à sua cela, longe de ouvidos indiscretos, e ele traduziu-me o que lera. Depois da frase em alfabeto zodiacal (secretum finis Africae manus supra idolum age primum et septimum de quatuor), eis o que dizia o texto grego:

 

O veneno tremendo que dá a purificação...
A melhor arma para destruir o inimigo...
Usa as pessoas humildes, vis e feias, tira prazer do defeito delas...
Não devem morrer... Não nas casas dos nobres e dos poderosos, mas

nos vilarejos dos camponeses, após abundante pasto e libações...

Corpos atarracados, rostos disformes.

Estupram virgens, e deitam-se com meretrizes, não malvados, sem temor.
Uma verdade diferente, uma diferente imagem da verdade...
Os venerandos figos.
A pedra desavergonhada rola pela planície... Debaixo dos olhos.
É preciso enganar e surpreender enganando, dizer as coisas ao contrário

do que se acreditava, dizer uma coisa e entender outra.

Para eles as cigarras cantarão da terra.

 

Mais nada, a meu ver, muito pouco, quase nada. Pareciam os delírios de um demente, e disse-o a Guilherme.

“Pode ser. E parece sem dúvida mais demente do que é por causa da minha tradução. Conheço o grego demasiado aproximadamente. E mesmo assim, posto que Venâncio fosse louco, ou fosse louco o autor do livro, isso não nos diria por que tantas pessoas, e nem todas loucas, se deram ao trabalho, primeiro de esconder o livro e depois de recuperá-lo...”

“Mas o que está escrito aqui vem do livro misterioso?”

“Trata-se sem dúvida de coisas escritas por Venâncio. Podes vê-lo também tu, não se trata de um pergaminho antigo. E devem ser apontamentos tomados na leitura do livro, de outro modo Venâncio não teria escrito em grego. Ele certamente recopiou, abreviando, as frases que encontrou no volume roubado do finis Africae. Trouxe-o para o scriptorium e pôs-se a lê-lo, anotando o que lhe parecia digno de nota. Depois alguma coisa aconteceu. Ou sentiu-se mal, ou ouviu alguém subindo. Então recolocou o livro, com os apontamentos, embaixo de sua mesa, provavelmente pensando em retomá-lo na noite seguinte. Em todo caso, só partindo deste fólio é que podemos reconstruir a natureza do livro misterioso, é somente da natureza daquele livro que será possível inferir a natureza do homicida. Porque em todo crime cometido para possuir um objeto, a natureza do objeto deveria nos fornecer uma idéia, ainda que pálida, da natureza do assassino. Caso mate por um punhado de ouro, o assassino será pessoa ávida, se, por um livro, estará ansioso por guardar para si os segredos daquele livro. É preciso portanto saber o que diz o livro que nós não temos.”

“E tereis condições, com essas poucas linhas, de saber de que livro se trata?”

“Caro Adso, essas parecem palavras de um texto sagrado, cujo significado vai além da letra. Lendo-o de manhã, após termos falado com o celeireiro, tocou-me o fato de que também aqui se faz menção aos simples e aos camponeses, como portadores de uma verdade diferente daquela dos sábios. O celeireiro deu a entender que alguma estranha cumplicidade o ligava a Malaquias. Que Malaquias tivesse escondido algum perigoso texto heretical que Remigio lhe entregara? Então Venâncio teria lido e anotado alguma instrução misteriosa concernente a uma comunidade de homens grosseiros e vis em revolta contra tudo e contra todos. Mas...”

“Mas?”

“Mas dois fatos estão contra essa minha hipótese. O primeiro é que Venâncio não parecia interessado em tais questões: era um tradutor de textos gregos, não um pregador de heresias... O outro é que frases como aquela dos figos, da pedra ou das cigarras não seriam explicadas por essa primeira hipótese...”

“Quem sabe sejam enigmas com um outro significado”, sugeri. “Ou tendes outra hipótese?”

“Tenho, mas está confusa, ainda. Parece-me, lendo esta página, já ter lido algumas dessas palavras, e vêm-me à mente frases quase iguais que vi algures. Parece-me, antes, que este fólio fala de alguma coisa da qual já se falou nos dias passados... Mas não lembro o quê. Preciso pensar sobre isso. Quem sabe tenha que ler outros livros.”

“Como assim? Para saber o que diz um livro deveis ler outros?”

“Às vezes pode-se proceder assim. Freqüentemente os livros falam de outros livros. Freqüentemente um livro inócuo é como uma semente, que florescerá num livro perigoso, ou, ao contrário, é o fruto doce de uma raiz amarga. Não poderia, lendo Alberto, saber o que poderia ter dito Tomás? Ou lendo Tomás saber o que tinha dito Averroes?”

“É verdade”, disse admirado. Até então pensara que todo livro falasse das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Percebia agora que não raro os livros falam de livros, ou seja, é como se falassem entre si. À luz dessa reflexão, a biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era então o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminho e pergaminho, uma coisa viva, um receptáculo de forças não domáveis por uma mente humana, tesouro de segredos emanados de muitas mentes, e sobrevividos à morte daqueles que os produziram, ou os tinham utilizado.

“Mas então”, eu disse, “de que serve esconder os livros, se pelos livros acessíveis se pode chegar aos ocultos?”

“No decorrer dos séculos não serve para nada. No arco dos anos e dos dias serve para alguma coisa. Vê como nos encontramos de fato perdidos.”

“E então uma biblioteca não é um instrumento para divulgar a verdade, mas para retardar sua aparição?” perguntei estupefato.

“Não sempre e não necessariamente. Neste caso é.”

 

(Umberto Eco - O Nome da Rosa)

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