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Qual animal anda com quatro patas pela manhã, com duas ao meio-dia e com três à noite, e que, contrariando a regra geral, fica mais fraco à medida que tem mais patas?
 
“Decifra-me ou Devoro-te!” – Édipo diante da Esfinge

É um fato pouco duvidoso: os humanos nem sempre merecem as calamidades que lhes caem em cima e devastam suas vidas. As catástrofes naturais, os acidentes e as doenças mortais afetam homens bons e maus, indiferentemente. Não escolhem e, exceto se apelarmos para a superstição religiosa mais obscurantista, a desgraça não pode nem deve ser interpretada como um castigo divino. A partir disso, não se pode eludir a questão: num mundo em que se imagina que reinem a justiça e a harmonia, num universo no coração do qual os deuses estão onipresentes e se metem em tudo, como compreender tanta injustiça? Que sentido dar ao escândalo que é a infelicidade humana quando ela parece perfeitamente injusta? Mesmo tendo muitas outras conotações — outras “figurações harmônicas” —, é antes de tudo a essa questão que o mito de Édipo responde. Seu estudo se revela então um complemento indispensável para os capítulos precedentes. Ele particulariza a significação e sobretudo os limites dessa famosa harmonia cósmica que ocupa o centro da visão grega do mundo, pelo menos dessa que a teogonia e a mitologia vão legar à maior parte da filosofia antiga.
A vida de Édipo vira um pesadelo — apesar de seus erros, se é que os cometeu, não terem sido “de propósito”, como dizem as crianças. É um homem de inteligência excepcional, com uma coragem e senso de justiça fora do comum. Em vez de ganhar uma recompensa, não apenas a sua existência vai se tornar um verdadeiro inferno, mas, apesar de toda sua clarividência, ele se torna o objeto de acontecimentos e de forças cegas que o ultrapassam e das quais ele nunca vai compreender — pelo menos até que seu fim trágico ponha um termo a seus terríveis sofrimentos. Como é possível uma tal denegação da justiça? Como contemplar um destino tão trágico quanto injusto sem achar que o mundo, longe de ser um cosmos harmonioso, não passa de um tecido de loucuras organizadas por deuses maus que brincam com os homens como fazem as crianças que se divertem em arrancar asas de moscas e esmagar formigas? Para tentar dar uma resposta à questão — que você entende que deve ter se colocado num ou noutro momento, no âmbito da cosmologia grega — proponho começar olhando mais de perto as histórias de Édipo e de sua filha, Antígona. Num segundo momento, vamos tentar compreender seu sentido profundo, com a finalidade de completar a visão do mundo que os outros mitos nos permitiram construir progressivamente.
Indico entretanto, já de início e antes de voltarmos a isso mais profundamente, o princípio geral da solução: se o cosmos porventura se desregra, é impossível que a ordem se restabeleça sem causar consideráveis estragos colaterais. Por essa razão, por exemplo, quando o pai comete um crime atroz, pode ser necessário que as gerações seguintes paguem por ele, não por serem propriamente responsáveis ou culpadas, mas porque a ordem não pode voltar de uma só vez. É claro, não temos que prestar contas daquilo que nossos pais fizeram, mas não deixa de ser verdade que as suas ações nos comprometem e que o jeito de eles conduzirem as suas vidas pode ter repercussões consideráveis na nossa, sem nosso consentimento ou conhecimento. Se, por exemplo, eles pecaram gravemente por hybris, é possível que a ordem do mundo se ressinta e, caso o cosmos tenha sido abalado, o reparo não vem num piscar de olhos. Leva tempo, e esse tempo é exatamente aquele da infelicidade dos homens, mesmo inocentes. Por isso é necessário, para quem quiser realmente compreender o mito de Édipo sem se limitar aos clichês habituais da psicanálise ou da filosofia moderna, voltar para analisar a própria personagem. É no que antecede seu nascimento que se encontra a origem dos seus males.
Tal concepção do mundo pode parecer bem ultrapassada. Pode realmente ser chocante sob o ponto de vista dos critérios morais de hoje. De fato, adquirimos o hábito de considerar que um castigo nunca deve recair sobre alguém que nada fez de mal; exceto nos países totalitários, ninguém pensa em punir filhos pelo comportamento dos pais. No entanto, veremos que essa concepção não é assim tão absurda, sendo possível dar um número infinito de exemplos que ilustram, ainda hoje, o fato de que um mundo desregulado, no plano social assim como no natural, aniquila seres que nada têm a se censurar em particular. Todos sabem, aliás, como se diz na língua familiar dos provérbios, que lorsque les parents boivent, les enfants trinquent...(“Quando os pais bebem, os filhos brindam” (bebem ainda mais, significando que pagam as consequências))
Mas não vamos nos antecipar e vejamos primeiramente em que consiste, segundo a lenda, a história do infeliz Édipo e de sua filha, Antígona — sendo os dois mitos inseparáveis um do outro.

“Édipo e Antígona exilados em Tebas”, por Eugene-Ernest Hillemacher (1843)
 
 Édipo e Antígona: o arquétipo do destino trágico, ou como a desgraça pode se abater cegamente sobre os mortais

Como sempre na mitologia, existem várias versões para essa narrativa, e cada episódio da vida de Édipo gera uma quantidade de variantes. Dispomos entretanto de uma fonte arcaica principal que são as tragédias gregas, sobretudo as de Sófocles: Antígona, Édipo rei e Édipo em Colono (nome da cidade em que ele se refugia após a série de catástrofes que vou contar). É claro, em determinados momentos o melhor é ter em mente também outras versões que podem às vezes trazer esclarecimentos interessantes,(No que concerne ao período arcaico — até o século V a.C. —, encontram-se algumas preciosas menções ao mito de Édipo em Homero, Hesíodo e Píndaro. As Fenícias, de Eurípides, sob determinados ângulos fornece um ponto de vista bem diferente do de Sófocles. Mais tardiamente, devemos nos remeter, é claro, a nossos dois mitógrafos “habituais”, Apolodoro e Higino, assim como a Pausânias e a Diodoro de Sicília) mas é quase sempre a Sófocles que a literatura se remete para contar e interpretar esse mito que se situa entre os mais célebres. No essencial, então, é a sua trama que vou seguir.
Antes, algumas palavras sobre o período que precede o nascimento do pequeno Édipo. Ele é um descendente direto do famoso Cadmos, rei de Tebas que várias vezes já mencionei — irmão de Europa, que, por sua vez, é mãe de Minos, rei de Creta, de quem Zeus era o pai. Depois de se casar com Harmonia, filha de Ares e Afrodite, Cadmos fundou a cidade em que a parte essencial do drama se desenvolve. O pai de Édipo se chama Laio e sua mãe, Jocasta. No momento em que nossa história começa, eles acabam de ter conhecimento de um terrível oráculo, dizendo que, se por acaso tiverem um filho, ele mataria o pai e, segundo alguns, ainda por cima causaria a destruição de Tebas. Como era frequente na época nesse tipo de situação, os pais tomam a triste decisão de abandonar a criança — “expô-la”, como se dizia então, porque eram em geral amarradas numa árvore e expostas ao apetite de animais selvagens, mas também, eventualmente, à clemência dos deuses. Laio e Jocasta entregam o bebê a um dos seus empregados, um pastor, para que ele o abandone em algum lugar. O homem trata o infeliz como se fosse uma caça: fura-lhe os tornozelos para passar uma corda e transportá-lo mais facilmente nas costas, para em seguida pendurá-lo numa árvore e deixá-lo “exposto”. É de onde vem o nome de Édipo, que em grego significa simplesmente “pés inchados” (oidos, que por exemplo dá origem à palavra “edema” e quer dizer “inflado”, com pous significando “pé”). No caminho, o empregado de Laio cruza “por acaso” — mas o espectador da tragédia de Sófocles sabe que esse suposto acaso é apenas outro nome que se dá à vontade dos deuses — com os homens do rei de uma outra cidade, Corinto. Esse rei, chamado Políbio, não consegue gerar filhos e, justamente, adoraria ter um. Como o bebê é bem bonitinho, os homens de Políbio se propõem a ficar com ele. Por que não? Afinal, se Laio preferiu expô-lo em vez de matá-lo, foi por querer lhe dar uma chance. Pensam levá-lo a Políbio, que certamente há de querer adotá-lo. É como se passam as coisas e o bebê é salvo in extremis.
Édipo cresce na cidade de Corinto, longe de Tebas, onde nasceu, na corte do rei e da rainha que ele evidentemente acredita serem seus pais. Tudo se passa bem para ele. Um dia, porém, numa brincadeira de criança, ele briga com um colega. Algo totalmente banal, que acontece com todo menino. Só que o pequeno rival diz uma palavra que vai ressoar por muito tempo em seu ouvido, se afigurando terrível: ele o chama “bastardo”, insinuando que seus pais não são seus pais “de verdade”, que ele não passa de uma criança abandonada para a qual sempre se mentiu. Ele volta correndo para casa e interroga Políbio, o pai “oficial”, e este, pego de surpresa, nega de modo um tanto frouxo, deixando em Édipo uma sensação difusa, uma vaga desconfiança ou dúvida. Ele decide tirar isso a limpo e, com essa finalidade, vai a Delfos para também consultar a célebre pítia de Apolo, como fizeram seus pais “biológicos”, Laio e Jocasta. Perguntalhe quem ele é, de onde vem, quem são seus pais. Seguindo sua maneira habitual, a pítia responde obliquamente, não com indicações em torno do passado, mas, pelo contrário, com uma previsão do futuro. E a previsão é terrível: de acordo com o oráculo, Édipo haveria de matar o próprio pai e se casar com a mãe. Foi de onde, é claro, Freud tirou o nome do famoso “complexo de Édipo”, aquela atitude infantil que, segundo ele, invariavelmente leva os meninos a inconscientemente desejar a mãe e a rejeitar com violência o pai, em determinado momento da vida. Porém, como você vai ver mais adiante, mesmo que esta dimensão esteja presente no mito grego, está infinitamente distante de poder nos dar a sua chave. De um jeito ou de outro, claro está que, ao ouvir o oráculo, Édipo se sente arrasado. Para evitar que o vaticínio se cumpra, ele resolve deixar Corinto para sempre. É a cidade, continua ele a achar, apesar das dúvidas, em que moram seus pais, Políbio e Periboea (é o nome da rainha). Deixando o local, não correria o risco de matar o pai nem de dormir com a mãe. Só que o rei Políbio não é seu pai, nem Periboea é sua mãe, pelo menos no sentido biológico do termo, e se afastando de Corinto o infeliz Édipo vai de forma inexorável, de maneira totalmente cega, fazer justo o contrário do que quer — ele se aproxima ainda mais do cumprimento da previsão oracular. Ou seja, tentando evitar, ele inconscientemente prepara a sua realização — contradição em que se baseia um dos melhores atrativos da tragédia de Sófocles. É claro, nesse contexto em que tudo já foi previsto pelos deuses, como comprovam os dois oráculos que não passam de tradução da vontade divina, Édipo se dirige a Tebas, a cidade de seus pais originais, Laio e Jocasta. Acontece que naquela época, vindo “apimentar” o caso, a cidade de Tebas estava sendo vitimada por uma terrível epidemia a dizimar sua população. Mais uma vez, o espectador é levado a supor, mesmo sem ser explicitamente dito, tratar-se de um flagelo enviado pelos deuses. Ele deve se perguntar por qual razão. Mas continuemos: dentro desse contexto catastrófico, Laio também decide, assim como Édipo, ir a Delfos, para novamente consultar o oráculo quanto ao que deve ser feito para salvar os habitantes da cidade.
Nesse momento, estamos no cerne do nó trágico que certamente comovia todo o público. Imagine o pai, convencido de que o filho morreu, e o filho, convencido de que seu pai está em Corinto, indo, sem saber, um ao encontro do outro! Os destinos se cruzam, nos sentidos próprio e figurado: os coches de Laio e de Édipo se encontram frente a frente, no cruzamento de três estradas tão estreitas que ambos são obrigados a parar seus veículos e equipagem. Um dos dois precisa dar marcha a ré e se colocar fora do caminho, para que o outro passe, mas os dois são orgulhosos, cada um achando estar em seu direito, ou mesmo prioridade: o rei Laio por ser rei de Tebas, e Édipo por ser príncipe de Corinto. O conflito se agrava. Os criados se insultam e, pelo relato, o próprio rei Laio dá uma bengalada em Édipo. Eles partem para a briga e, tomado pela raiva, Édipo mata seu pai, assim como o cocheiro e os guardas que o acompanham. Apenas um dos empregados escapa, fugindo a correr, mas que contudo, pois isso vai ser importante mais tarde, testemunhou toda a cena. E cumpre-se assim a primeira parte do oráculo! Sem que Édipo — nem Laio, aliás — tenha já se dado inteiramente conta do que acaba de acontecer, ele matou o próprio pai...
Na total ignorância de sua identidade — sua e também a do adversário —, Édipo continua o caminho na direção de Tebas. É claro, o violento episódio que acaba de acontecer é desagradável, mas os dois lados estavam errados, e Édipo se sente desculpado pela legítima defesa. Afinal, não partiu dele a agressão. Ele acaba então esquecendo o caso e chegando à sua cidade natal, após longa e sinuosa viagem. A epidemia aparentemente acabara, mas outra calamidade, com origem certamente também divina, se abate sobre a cidade, cujo novo rei, no trono desde a morte de Laio, é Creonte, irmão de Jocasta e consequentemente tio de Édipo. Essa nova calamidade tem um nome: Esfinge, a Esfinge, pois trata-se de uma mulher que tem um corpo de leão e asas de abutre. E ela literalmente aterroriza a cidade, propondo um enigma para todos os seus habitantes jovens. Como eles não conseguem decifrar, ela os devora, de forma que a cidade começa a ficar bastante deserta. Cito uma das versões — há outras formulações, com mais ou menos o mesmo resultado — do enigma em questão:
 Qual animal anda com quatro patas pela manhã, com duas ao meio-dia e com três à noite, e que, contrariando a regra geral, fica mais fraco à medida que tem mais patas?
Édipo ouve falar da Esfinge e não hesita: apresenta-se a ela e pede que lhe proponha a fatídica adivinhação. Assim que o problema é enunciado, ele não tem a menor dificuldade para responder: trata-se evidentemente do homem, que, na manhã da sua vida, ainda bebê, engatinha, usa as duas pernas quando é adulto e, enfim, estando mais fraco, no crepúsculo da existência, usa três — uma vez que precisa se apoiar numa bengala. De acordo com uma antiga profecia, a Esfinge morreria se algum ser humano chegasse a resolver algum dos seus enigmas. Diante de Édipo, ela se joga do alto dos muros da cidade e se espatifa no chão. A comunidade fica livre do monstro. Como se pode imaginar, Édipo é recebido como verdadeiro herói. O povo inteiro o festeja e oferece suntuosos presentes. A multidão aplaude quando ele passa, e como a rainha Jocasta está livre — é uma viúva bem jovem, pois Laio acaba de ser morto —, Creonte, agradecido, oferece a Édipo a irmã em casamento e, junto, o trono de Tebas. Passa-lhe o lugar que ele, na verdade, ocupava apenas interinamente.
Cumpre-se então a segunda parte do oráculo. Édipo, que continua na total ignorância daquilo que guia a sua vida, tendo já matado o pai, casa-se com a mãe. Tem com ela quatro filhos: dois meninos que um dia irão disputar até a morte sua sucessão no poder, Etéocles e Polinice, e duas meninas, Ismênia e Antígona. Por cerca de vinte anos, no entanto, tudo se passa bem. Édipo administra com sabedoria a cidade de Tebas, ao lado da esposa e mãe Jocasta, criando os filhos com cuidado.
Infelizmente, quando esses últimos se aproximam da idade adulta, uma terrível epidemia de peste volta a fazer estragos na cidade. Nada parece remediá-la. Para ainda piorar tudo, se isso for possível, ocorrem muitos acidentes incompreensíveis, como mulheres dando à luz crianças natimortas ou monstruosas, e multiplicam-se mortes súbitas e inexplicáveis — de forma que Édipo envia de novo um mensageiro para consultar o oráculo de Delfos. Este último responde, de forma excepcionalmente clara, que o flagelo só vai deixar de devastar a cidade quando se tiver capturado e castigado quem matou Laio. Semelhante crime, de fato, não pode permanecer impunemente em aberto — o que mais uma vez prova, diga-se de passagem, que os deuses seguem todo o caso, desde o início e em detalhe, como indica de maneira indubitável o fato de todos os reflexos serem anunciados pela boca dos representantes diretos de Apolo.
Édipo continua sem ter a menor ideia de ser ele o culpado e pretende de fato seguir o oráculo. Organiza a investigação e manda chamar, a conselho de Creonte, o adivinho mais célebre do reino, o famoso Tirésias, que já encontramos várias vezes em outros mitos. Tirésias naturalmente tem conhecimento de toda a verdade — ou ele não seria adivinho. Sente-se porém pouco à vontade, para não dizer horrorizado, com os segredos que descobre e se mostra muitíssimo reticente em divulgá-los publicamente, na presença de Édipo, que continua na mais total ignorância. Este último então se zanga, acusa Tirésias de ter montado tudo aquilo com a cumplicidade de Creonte, ou seja, cria um caso tamanho que o adivinho acaba cedendo. Conta a história inteira: muito bem, se quer realmente saber, foi ele, Édipo, quem matou Laio e este, segundo o oráculo, era pura e simplesmente o seu pai, de forma que, no mesmo embalo, se podemos assim dizer, veio a se casar com a própria mãe! Jocasta, prostrada, nega, tenta persuadir-se e também a Édipo de que o adivinho delira. Para convencê-lo, oferece detalhes sobre a morte do primeiro marido, sobre a encruzilhada em que se deu o drama: não foi um homem sozinho que o matou, mas um grupo de bandidos, não podendo então se tratar dele propriamente! Para nada esconder, ela revela que realmente teve um filho no passado, mas que foi “exposto”. Édipo não se sente totalmente tranquilizado: a descrição da tal encruzilhada traz recordações inquietantes, mas tudo permanece ainda bastante confuso.
Nesse ínterim, um mensageiro chega de Corinto: anuncia a Jocasta e a Édipo a morte daquele que ele acredita ainda ser seu pai, Políbio — o que entristece Édipo, mas ao mesmo tempo o alivia: pelo menos ele não matou o pai! Só que o mensageiro não deixa de acrescentar uma funesta precisão: Édipo não precisa ficar tão aflito, diz ele, pois de qualquer maneira Políbio não era realmente seu pai. Édipo foi uma criança exposta, encontrada por acaso e adotada pelos soberanos de Corinto. E zás! O quebra-cabeça inteiro se monta de uma vez só. Para limpar a consciência, Édipo convoca o pastor que havia exposto o filho de Laio e Jocasta. Por coincidência, o pastor é o mesmo servidor que acompanhava Laio no momento em que foi morto. Desde então, ele buscara refúgio na montanha e também havia declarado, para que o deixassem em paz, que o rei de Tebas tinha sido morto por bandidos — o que levara Jocasta a achar que Édipo não podia ser o culpado. Mas o ex-pastor e servidor confessa toda a mentira: Tirésias e o mensageiro de Corinto dizem a verdade; a criança exposta é mesmo Édipo e foi uma única pessoa e não um bando de bandidos que matou Laio. Cada um fez seus cálculos e pôde reconstituir toda a história: finalmente se reconhece que se cumprira o terrível oráculo de Apolo. É em plena tragédia que nos encontramos. E não espere que as coisas melhorem. Pelo contrário, elas só pioram. Jocasta se suicida assim que descobre a conclusão da história. Édipo, vendo-a enforcada no quarto, pega o broche que prendia o vestido da mulher e fura irremediavelmente os olhos. Faz isso com raiva e, como sempre, o castigo está diretamente ligado a seu “crime” — ponho a palavra entre aspas porque ele, na verdade, nada quis de tudo aquilo que aconteceu. Mas seu drama, justamente, é nada ter visto. Apesar da sua grande inteligência, manteve-se do início ao fim cego. E como pecou por completa falta de visão, de clarividência, é igualmente como deve ser punido. À sua cegueira mental passa a se equiparar a cegueira física.
Seu fim de vida é igualmente triste. Se continuarmos seguindo a versão de Sófocles — há várias outras, mas esta se tornou canônica —, Édipo imediatamente deixa o trono, que de novo é assumido de forma interina por Creonte. Refugia-se em Colono, onde ele, rei durante vinte anos por todos homenageado como o salvador de Tebas, passa a viver miseravelmente como vagabundo. Sua filha, Antígona, boa e com profundo senso de família, o acompanha, cheia de cuidados. Depois ele se dirige a Atenas, onde reina um excelente rei, o magnânimo Teseu. Na estrada, perto de um pequeno bosque, ele reconhece o lugar em que deve morrer: de fato, o bosque pertence às Erínias, as terríveis divindades nascidas do sangue de Urano, espalhado sobre Gaia, a terra, depois da sua castração cometida pelo filho, Cronos. As Erínias, é preciso que se lembre, por essa sua origem receberam a missão prioritária de punir os crimes cometidos no seio das famílias. Desse ponto de vista, o pobre Édipo, apesar de não ter procurado nem desejado, é um campeão em todas as categorias. É normal, assim, que seja nas mãos dessas famosas “benfeitoras” que ele termine sua infeliz existência. Mas o bosque é sagrado. Servidores do rei de Atenas acreditam estar agindo corretamente ao expulsar Édipo daquele lugar maldito. Ele ordena então que busquem Teseu, e o rei, sempre bem-intencionado, vem imediatamente. Com real generosidade, se apieda de Édipo e o acompanha na morte: a terra se abre, as Erínias o levam, mas ninguém nunca saberá o local exato do seu desaparecimento. Teseu cumpre as honras fúnebres de Édipo, em sinal de amizade e de perdão por seus crimes involuntários. É este, grosso modo, o roteiro básico, a trama fundamental do mito. É preciso ainda acrescentar algumas palavras sobre as últimas consequências relacionadas aos filhos do infeliz herói. Podemos encontrá-las em parte em Antígona, de Sófocles, mas também na única peça de Ésquilo que chegou até nós e que trata desse assunto (há muitas outras, infelizmente perdidas): Os Sete contra Tebas . Etéocles e Polinice, os dois filhos de Édipo, se comportaram mal com o pai ao saber a verdade da sua história. Humilharam-no e maltrataram, a ponto de este último acabar invocando para eles a ira dos deuses. Com sucesso; os dois irmãos se tornam os piores inimigos do mundo. Para tentar resolver a disputa referente ao poder, herdado com a morte de Édipo, eles decidem se revezar anualmente no governo do reino: Etéocles ocuparia o trono de Tebas no primeiro ano, Polinice no segundo, Etéocles de novo no terceiro e assim em diante. Só que, uma vez no poder, Etéocles recusa entregá-lo ao irmão. Este último organiza um exército para retomar Tebas e garantir o acordo feito. Esse exército é dirigido por sete chefes, que correspondem às sete portas da cidade que Polinice quer sitiar — donde o título da peça de Ésquilo: Os Sete contra Tebas.
Para resumir o final: Tebas, bem protegida por suas muralhas, resiste bravamente aos assaltos dos sete e esse exército perde lamentavelmente a batalha. Os dois irmãos inimigos se enfrentam diante da sétima porta e, num combate singular, um mata o outro. Creonte, que com isso se mantém no poder, decreta que se enterre com honrarias quem defendeu a cidade, no caso Etéocles, enquanto Polinice, que a atacou, ficará sem sepultura, o que se considera uma suprema humilhação. Ele deve ser abandonado aos cães e aos pássaros. Se porventura alguém for contra o decreto, estará automaticamente condenado à morte!
É nesse ponto que começa a tragédia de Antígona. Apesar de muito breve, muito se escreveu sobre ela, numa infinidade de comentários. A intriga no entanto é bastante simples: Antígona declara — se seguirmos a peça de Ésquilo — que deve assumir seu lugar na sua comunidade de origem, a família, quaisquer que tenham sido os infortúnios sofridos. A seu ver, a esfera privada deve se sobrepor à lei da cidade. Ela contraria então as ordens do tio, Creonte, e enterra o irmão, Polinice. Evidentemente, é presa e condenada à morte. A peça de Ésquilo para aí. Se continuarmos a história a partir de Sófocles, descobrimos que Creonte, de início, se mantém inflexível. Depois, por pressão dos seus próximos, ele volta atrás e pede que soltem Antígona, que acabava de ser jogada na prisão, aguardando a execução da sentença de morte. Tarde demais! No momento em que vêm libertá-la, descobre-se que ela se enforcou. Para acrescentar alegria em tudo isso, a mulher de Creonte se suicida também, e deixa o velho rei meditando sozinho as consequências das más decisões. Mais tarde, os filhos dos sete, que serão chamados “Epígonos”, vão querer vingar seus pais. Retomam as armas, e a cidade de Tebas é destruída.
Assim termina o sinistro ciclo das lendas tebanas. Do destino de Édipo e da revolta de Antígona foram dadas dezenas de interpretações. O mito fascinou durante séculos e ainda hoje não se passa um ano sem que se publiquem novas obras eruditas a seu respeito. Em tais condições, parece muita presunção arriscar o menor comentário. É impossível, no entanto, não prosseguir. Com a maior prudência, proponho, em vez de acrescentar mais uma leitura moderna, voltar à maneira como os próprios gregos deviam considerar o mito — pelo menos se acreditarmos no que diz Ésquilo, que faz discreta, mas clara, alusão às narrativas a respeito do nascimento de Tebas. No fundo, o que dizem essas diferentes histórias? Primeiro e com toda evidência, que Édipo não é “culpado”, no sentido em que nossa concepção moderna de justiça entende. Édipo, fica claro, nada soube nem desejou nada daquilo que aconteceu. Também fica evidenciado, visto o lugar crucial ocupado pelos oráculos e, com isso, pelos deuses, que ele é manipulado por um destino superior que lhe escapa por todos os lados. Acrescentemos, pois seria um erro esquecer os “pequenos” nesse caso, que os tebanos também não são, de perto nem de longe, responsáveis — em todo caso, não o povo — pelas calamidades e outros flagelos que invariavelmente se abatem sobre eles, até a destruição final da cidade, pelos Epígonos.
A verdade é que uma maldição antiga pesa já de início sobre toda a linhagem dos reis de Tebas, e essa maldição, ligada a uma desordem inicial, só pode terminar após um reordenamento da família e da cidade. Esta última, no fim, mais ou menos como nos mitos de Deucalião ou de Noé, passa pela destruição total dos protagonistas. Os infelizes habitantes nada podem contra o que lhes ocorre, e isso sim é trágico. São envolvidos por um destino que lhes escapa e esmaga, façam eles o que for, pois a maldição se remete a um tempo longínquo. Está ligada, se começarmos pela geração imediatamente anterior à de Édipo, ao crime cometido por seu pai, Laio, contra o filho de Pélops. É preciso saber que Pélops havia anteriormente hospedado e criado Laio como se fosse um membro da sua família. Por motivos sobre os quais não vou entrar em detalhes, o menino passa toda a sua infância na casa dele. Um dia, porém, Laio se apaixona pelo jovem Crísipo, filho de Pélops, e tenta violentá-lo. O rapaz, horrorizado, se suicida, e Pélops, louco de raiva e de dor, lança uma terrível invocação aos deuses: se um dia Laio tiver um filho, que este o mate — sempre a mesma proporção entre o erro e a punição — e que a cidade de Tebas seja destruída. Segundo alguns mitógrafos, Hera e Apolo nunca perdoaram os tebanos de terem posto Laio à frente da cidade, sem em momento algum terem pensado em punir seu crime. Todo o restante se engrena de maneira implacável. Apolo, através do seu oráculo, previne os esposos Laio e Jocasta sobre a catástrofe que cairá sobre eles, caso tenham um filho. Laio, aliás, não gosta muito de mulheres, preferindo de longe os rapazes. De acordo com a maioria das versões do mito, foi por ter bebido e já em estado avançado de embriaguez que ele faz amor e gera o pequeno Édipo.
Veja o que diz o Coro, com relação a isso, na tragédia de Ésquilo:
De fato, penso no antigo erro, logo punido, mas com efeitos que duram até a terceira geração, no desvio de Laio, surdo à voz de Apolo que, três vezes, em seu trono fatídico de Pito, umbigo do mundo, declarou que ele devia morrer sem filhos, se quisesse salvar sua cidade. Cedendo porém ao insensato desejo (Laio está sob o domínio do álcool ao fazer amor com Jocasta), ele engendra sua própria morte, Édipo, o parricida que, no rego sagrado da mãe que o nutriu, ousou plantar uma raiz sangrenta. O delírio havia unido os esposos ensandecidos (ainda o álcool explicando o esquecimento da recomendação de Apolo). Um mar de males lança sobre nós as suas vagas. Cada uma que rebenta ergue outra, três vezes mais forte, a estrondear fervilhando contra a popa da nossa cidade [...] Pois aqui se cumpre o terrível acerto de contas de antigas imprecações.
Um pouco mais adiante, descobre-se, dentro da mesma estrita lógica, que Polinice, “o augusto sétimo chefe”, é morto pelo irmão, ainda por efeito direto da vontade de Apolo. O deus reservou para si o direito de ocupar ele próprio a sétima porta, aquela em que se dá o combate mortal entre os dois irmãos, para que se cumpra, na raça de Édipo, o castigo do antigo erro de Laio. As coisas não podem ser ditas de maneira mais clara e é inútil procurar mais além, em quaisquer considerações psicológicas. A peça em seguida volta a insistir nisso várias vezes: todos os descendentes de Laio são vítimas de um destino que lhes foge, do qual não são responsáveis, que responde à vontade dos deuses, neste caso representados por Apolo. O mesmo vale para Antígona, que explica de maneira direta sua vontade de desobedecer às ordens de Creonte e enfrentar a morte como uma escolha, com certeza livre, mas no entanto decidida dentro de um contexto em que nada é livre, em que tudo é imposto, predeterminado pelo destino cósmico e pelos deuses. Ela diz:
Forçosamente estamos ligados à comunidade no seio da qual nascemos, filhos de uma mãe miserável e de um pai infortunado. Assim minha alma voluntariamente aceita sua involuntária infelicidade e, viva, demonstra ao morto (Polinice) seus fraternais sentimentos. Seus restos não serão repasto de lobos de barriga vazia; que ninguém imagine isso, pois eu posso, mulher que sou, dar-lhe um túmulo e enterrá-lo.
Belo paradoxo, que resume perfeitamente o trágico da história: Antígona age livremente, por sua vontade. Toma por si mesmo sua decisão, com plena consciência do perigo a que se expõe, mas o que faz se situa dentro de um contexto em que tudo também lhe foge; na verdade, ela sente não poder agir de outra forma. Pertence à sua família, muito mais do que a família lhe pertence. Com isso, está ligada à maldição que desde as origens pesa sobre ela, e nada pode lhe fazer mudar o rumo.
Do mesmo modo que a psicanálise, em suas interpretações do mito, realçou o inconsciente, os feministas — e também os antifeministas, pois o texto de Ésquilo pode ser lido nos dois sentidos — muito especularam sobre o fato de Antígona ser mulher, encarnando com isso, por assim dizer “naturalmente”, a lei do coração, da esfera privada contra aquela, seca e racional dos homens e da cidade, dos machos e do coletivo etc. Uma vez mais, não é impossível que essas conotações de hoje estejam de certa maneira presentes no mito. É inclusive provável. Os gregos não eram mais bobos do que nós e tinham suas ideias próprias sobre homens e mulheres, sobre o inconsciente, sobre a vida das paixões e outros temas caros à psicologia contemporânea. Mas certamente não é onde se encontra a chave do mito, e tais preocupações nada têm de essencial senão para os nossos olhos modernos, “deformados” por uma visão até mesmo, quem sabe, legítima, mas com certeza diferente da que tinham os gregos.
Não há por que não acreditar em Ésquilo. Não se trata nessa tragédia de psicologia, e sim de cosmologia e de destino cego — muito diferente do inconsciente pessoal — que restabelece a ordem quando o sistema é, por um ou por outro motivo, revirado. E desde que os homens existem, desde que Pandora e Epimeteu os engendraram, as desordens abundam. São inevitáveis, pois constituem, como agora já sabemos, o estímulo mesmo da vida, da história como tal. Se não existissem as gerações, o cosmos estaria eternamente paralisado num completo tédio. Mas a existência das gerações representa também o constante risco de trágicas derrapagens. Por isso, na verdade, seria preciso percorrer toda a história de Tebas, desde sua fundação por Cadmos, para compreender em suas raízes a maldição que se abate sobre Édipo. Até aqui me fixei em Laio e no crime por ele cometido contra o filho de Pélops. Mas o fruto estava bichado desde as origens.
De início, Cadmos se casou com Harmonia, que, apesar do nome, vinha a ser fruto de uma certa desordem, sendo filha de Ares e Afrodite, de uma união capenga e proibida — Afrodite é oficialmente casada com Hefesto — entre a guerra e o amor. Mas há mais, muito mais. Você se lembra de que, para fundar sua cidade, Cadmos teve que recorrer aos préstimos dos “semeados”, aqueles famosos spartoi nascidos dos dentes do dragão que vigiava a fonte de Ares e que Cadmos matou, para ter a água necessária ao sacrifício da vaca que lhe indicara o lugar onde fundar sua cidade. Esses famosos “semeados”, no entanto, os cinco que restaram, são homens de guerra, forças arcaicas, próximas do Caos original, da terra, dos Titãs, de Tífon. Temos aí um tema cosmológico maior, sem o qual é impossível compreender qualquer coisa em lendas como a de Édipo e todas mais que cercam a cidade de Tebas. Aliás, um dos “semeados” que participam da fundação da linhagem de Édipo se chama Equíon, nome que infalivelmente lembra o monstro Equidna, a famosa companheira semimulher, semivíbora de Tífon. O destino dos descendentes de Cadmos será frequentemente terrível, sempre agitado, à imagem do de Penteu, o neto que o sucede no trono de Tebas e que vai terminar dilacerado pelas Bacantes de Dioniso.
Sem entrar nos detalhes dessa longa história, é claro que o destino a pesar sobre Édipo e Antígona vem de muito longe, e eles nada rigorosamente podem fazer contra; nenhum dos dois pode, e nem podem os jovens devorados pela Esfinge ou as populações dizimadas pela peste. Assim são as coisas. As calamidades foram afastadas do Olimpo pelos deuses, pelo menos desde a vitória sobre os Titãs, desde que Zeus efetuou a partilha original, dividindo o mundo segundo a justiça, para enfim torná-lo um cosmos harmonioso e bom. Foram afastadas lá em cima, no Olimpo, mas não embaixo! Em nossa terra é preciso que haja alguma desordem, pois existem o tempo e a vida; isso é inevitável. E uma prova disso é que se quisermos a qualquer preço impedir que haja na terra um pouco de caos e consequentemente de injustiça, o único meio seria suprimir a história e as gerações, ou seja, os mortais humanos. Por esse motivo, desde a repartição original, todas as infelicidades nos foram reservadas. E não pode ser de outra forma. Na verdade, alguns dizem inclusive querer ainda mais dificuldades, por conta própria. E, como se diz familiarmente, é bem feito para eles! É o caso de todos que pecam por hybris. Mas há outros, sendo de longe o caso da maioria, que não têm responsabilidade alguma nisso tudo. Há males que se transmitem às vezes de geração em geração como uma doença, um fardo genético — exceto que, no caso, é um fardo ligado a uma desordem cósmica que, eventualmente, foi causada por algum ancestral, mas que sempre relembra a ameaça representada pelo caos inicial e que nunca vai desaparecer completamente. Ela é consubstancial à vida e à história dos homens. Às vezes pode acontecer, mesmo parecendo injusto e cruel, que os deuses precisem fazer uma reparação no sistema, repor a ordem começando pela aniquilação de toda a linhagem dos herdeiros daquela ruptura inicial do equilíbrio. Isso certamente explicava, pelo menos para os espectadores da tragédia, como e por que os males mais atrozes se abatem como chuva sobre a humanidade. Eu disse, no início deste capítulo, que assim como as gotas não escolhem a quem molhar, caindo indiferentemente sobre bons e maus, nem todos os infortúnios humanos são merecidos — longe disso. É simplesmente como as coisas se passam e nada podemos fazer, pois em sua essência tais aflições pertencem à nossa condição: a de mortais imersos na vida e na história que comportam incessantemente a possibilidade do mal. E nós devemos aprender a conviver com isso.
É uma sinistra lição de vida, talvez você ache, e entendo que essa espécie de capitulação diante do presente, do mundo tal como ele se apresenta, possa parecer desesperadora. Mas na realidade deve-se ver que, se aprofundarmos um pouco as coisas sem nos limitarmos à nossa visão de Modernos, o ponto de vista da tragédia tal como explicitado em seu estado quimicamente puro pelo mito de Édipo, de maneira quase caricatural, está repleto de verdade e de sabedoria. Vou tentar dizer por que em poucas palavras, tentar também explicar por quais razões temos, a meu ver, todo interesse de ainda hoje meditar sobre essa lição.
Para começar, por ela simplesmente ser baseada em fatos. Sim, a existência humana é às vezes, para não dizer sempre, trágica, no sentido de o infortúnio acontecer sem que possamos lhe dar um sentido. É um erro querer a todo custo esquecer disso. Hoje em dia, assim que o mal injustamente se abate sobre nós, de imediato cedemos à mania moderna que consiste em procurar “os responsáveis”. Um rio transborda e afoga pessoas que acampavam? É claro, a culpa é do prefeito, do governador, do ministro, que são no mínimo incompetentes, para não dizer criminosos! Um avião cai? Vamos rápido abrir um processo para identificar os culpados e levá-los ao pelourinho. Seja um telhado de escola que afunda, uma tempestade que arranca árvores, um túnel que se incendeia, queremos a todo custo uma explicação humana, um erro moral para urgentemente estigmatizá-la. Vamos falar com toda franqueza: nessa atitude é que melhor se enxerga a loucura dos Modernos. Você pode se perguntar por que estou falando de “Modernos” com letra maiúscula, como se, por assim dizer, se tratasse de uma categoria à parte, de uma outra espécie de humanidade, diferente da dos “Antigos”. É um exagero, claro, mas é para que você compreenda um traço característico do tempo presente que, nesse ponto preciso, se opõe totalmente ao mundo antigo: o humanismo de que eu gosto e que defendo em outras situações se tornou tão onipresente e estamos, nós seres humanos, tão convencidos de sermos os senhores absolutos do mundo, os donos de todos os poderes, que insensivelmente, sem sequer pensar, achamos que temos controle sobre tudo, inclusive as forças naturais, as catástrofes e os acidentes! Isso, no entanto, é puro delírio, no sentido próprio do termo: uma denegação da realidade. Pois a verdade é bem diferente. Apesar de todos os poderes, de fato gigantescos, que a ciência nos dá, mesmo assim o destino nos escapa e sempre há de nos escapar, por todos os lados! Não somente o acaso faz parte da vida, não somente a contingência é inerente à história, mas, além disso, estamos ligados a contextos tão variados, tão complexos e ramificados, que pretender tudo controlar do que pode acontecer com os homens é pura e simplesmente grotesco!
Para pegar um exemplo extremo mas evidente, a última guerra mundial causou 53 milhões de mortes. Pode-se, de maneira séria, achar que, entre toda essa gente, havia apenas “culpados”; responsáveis; pessoas do bem ou do mal? A verdade, claro, é que a adversidade chega, como no mito de Édipo, sem que nada se tenha feito e bate tremendamente forte, inclusive no campo social e político — o que se poderia imaginar mais sob controle do que o da natureza. Dependendo do lugar em que nascemos, as chances não são as mesmas e as diferenças são às vezes abissais — algo que ninguém pode negar. Como não ficar então tentado a encontrar uma explicação, como fizeram os gregos com esse mito? A ideia de que um mundo desregrado produz desgraças injustas é simplesmente verdadeira e, em pelo menos boa parte, não vejo por que contestá-la. Porém existe no fundo uma sabedoria — é verdade que não cristã e por isso inicialmente mais estranha a nossos olhos pré-formados por séculos de cristianismo, mesmo que isso não seja do nosso conhecimento ou consentimento — que merece reflexão. Um cristão, acreditando que tudo se faz por vontade de Deus, ou pelo menos sob sua vigilância, tem uma propensão quase inevitável a procurar um sentido na loucura dos homens, uma explicação que de certa forma os torne responsáveis. Sendo Deus todo-poderoso e bom, a miséria do mundo não se explica de outra maneira. Deve-se supor que ela vem da maldade dos homens, da liberdade mal-utilizada, de modo que eles são coletivamente responsáveis pelas catástrofes que os abalam. Beiramos com isso os limites da superstição e, para não cair nessa armadilha, os cristãos precisam lançar mão de astúcias dialéticas — e elas são sabidamente inúmeras. E não vou querer, eu, culpá-los disso.
Os gregos pensam de outra forma. Trata-se para eles de aceitar o absurdo do mundo do jeito que ele é e tentar amá-lo assim. Uma sabedoria no presente, de certa maneira, e que nos encoraja a lidar com isso. Não uma resignação, mas uma incitação a desenvolver nossa capacidade de acolhida, de abertura para o mundo, aproveitando a vida como tal, enquanto vai bem, e que pressupõe uma certa relação com o tempo que perdemos em grande medida. Uma vez mais: sou um Moderno, um “humanista”, como se diz, inclusive passei a vida elaborando o que chamo um “humanismo pósmetafísico” ou pós-nietzschiano. Mesmo assim, não podemos nos manter insensíveis à grandeza do mundo antigo nem, menos ainda, ao fato de os seus pontos fortes coincidirem muitas vezes com os nossos pontos fracos. Ali onde acreditamos, erradamente, poder tudo controlar, os Antigos nos oferecem um outro olhar, no qual devemos nos inspirar.
Do que se trata, exatamente? De algo que já expus a respeito do estoicismo, no primeiro volume de Aprender a Viver , e que é preciso retomar por um instante nesse contexto mitológico. Sem dúvida, a principal convicção que a mitologia vai legar à filosofia antiga, e sobretudo ao estoicismo, é a de que os dois males que pesam sobre a existência humana, os dois freios que a bloqueiam e impedem o acesso ao pleno desabrochar resultante da vitória sobre o medo, são a nostalgia e a esperança, ou seja, a vinculação ao passado e a preocupação com o futuro. O passado permanentemente nos puxa para trás, graças ao terrível poder que têm sobre nós o que Espinosa inspiradamente chamou “paixões tristes”: nostalgia, quando o passado foi feliz, mas culpa, remorso e arrependimento, quando foi doloroso. Tomamos refúgio então em miragens do futuro, como as que Sêneca tão bem descreveu em Cartas a Lucíolo. Imaginamos que trocando uma coisa ou outra, casa, carro, sapatos, corte de cabelo, férias, MP3, aparelho de televisão, trabalho ou o que quer que se possa imaginar, as coisas vão melhorar. Verdade, porém, é que os atrativos do passado e as miragens do futuro, na maior parte do tempo, não passam de engodos. O tempo todo nos desviam do instante presente, nos impedem de viver plenamente. Além disso, são focos permanentes de angústia e de medo, com a primeira surgindo quase sempre do passado e o segundo, do futuro. E não há obstáculo maior para a vida boa do que o temor. É esta a convicção simples e profunda que se exprime na sabedoria grega e que principalmente o estoicismo vai tornar popular(Ver em Luc Ferry - Aprender a Viver I o capítulo sobre o estoicismo). Para nos salvarmos, para termosacesso à sabedoria que reside na vitória sobre o medo, precisamos aprender a viver sem nostalgia do passado nem receio supérfluo com relação ao futuro, o que significa que devemos parar de habitar permanentemente essas dimensões do tempo que, aliás, não têm existência alguma (o passado não existe mais e ainda não há futuro) e nos limitarmos, tanto quanto possível, ao presente. Como diz Sêneca em Cartas a Lucíolo:
Devem ser eliminadas essas duas coisas: o receio com relação ao futuro e a lembrança de antigos males. Estes últimos não me concernem mais e o futuro não me concerne ainda.
E ele acrescenta ainda que, de tanto se preocupar com essas dimensões fictícias do tempo, a gente simplesmente acaba “deixando de viver”.
Uma vez mais, talvez você ache que essa sabedoria do presente não se sustenta tanto e, de qualquer forma, nem se tem tanto a impressão de que esteja bem clara no espírito de Édipo — nem, aliás, no de Antígona —, que, manifestamente, acha que o destino a ambos reservado é imundo, insuportável, para não dizer revoltante. No mais, pode-se imaginar que o espectador da tragédia pensasse mais ou menos o mesmo. Certamente se dizia que toda essa história é horrível e que o mundo real, mesmo sendo da maneira que queriam e guiavam os deuses, continuava pouco tranquilizador e nada cordial. Em outras palavras, como fazer concordar a sabedoria grega do amor pelo real, da reconciliação com o presente, com o sentimento trágico que segue inversamente e nos deixa achar que, mesmo assim desejado pelos deuses e certamente, no final das contas, harmonioso, o mundo não é aceitável para muitos de nós?
Com essa questão bem simples, tocamos, creio, o cerne das maiores dificuldades inerentes à visão cosmológica e divina do universo. Parece-me que três respostas diferentes podem ser dadas.
A primeira, que sem dúvida é a que melhor concilia a sabedoria do amor pelo mundo e a realidade do trágico, consiste em mais ou menos dizer o seguinte: saibam, pobres humanos, que assim como se viu com Édipo, o destino não lhes pertence e pode sempre transcorrer mal, tomando de volta o que deu. Durante vinte anos, sendo rei de Tebas, feliz com Jocasta e seus filhos, Édipo viveu em plena glória e felicidade. Tudo isso lhe foi retirado. Pior ainda, a base da construção da sua felicidade, isto é, o fato de ele ter matado o pai e casado com a mãe, se tornou o princípio fundamental da absoluta catástrofe. Moral da história: deve-se aproveitar a vida enquanto ela é boa, enquanto se está bem, e sem estragá-la com tormentos inúteis. Sabendo que ela termina mal de qualquer maneira, deve-se aproveitar o presente, os vinte anos resplandecentes em Tebas, seguindo o famoso princípio do Carpe diem de Horácio. Devemos aceitar e amar cada dia como ele vem, sem colocar questões inúteis. Sábio é quem vive no presente, não por falta de inteligência ou por ignorar o que pode acontecer, mas, pelo contrário, por muito bem saber que, mais cedo ou mais tarde, tudo vai piorar e deve-se aproveitar desde já tudo que nos é dado. De certa forma, é a versão minimalista da sabedoria estoica.
A versão maximalista, como é de se esperar, vai muito mais longe: também nos convida a amar o real, mas sob facetas bem diversas e mesmo que seja trágico e dilacerante. Nessas condições, o sábio não se limita a amar apenas o que é amável. Disso todo mundo é capaz. Ele é aquele que, em qualquer circunstância, consegue “esperar um pouco menos, lamentar um pouco menos e amar um pouco mais”, como me disse um dia o filósofo André Comte-Sponville para resumir o espírito dessa sabedoria grega em uma frase. De fato, o enunciado traduz de maneira perfeita a serenidade e a força de personalidade que se deve ter para enfrentar as catástrofes que cegamente ocorrem aos humanos. É uma ideia que atravessa os séculos. Podia ser vista já atuante entre os epicuristas tanto quanto com os estoicos, mas se encontra também em Espinosa e até em Nietzsche, que igualmente nos convida de maneira explícita a amar o mundo tal como ele é, não só quando é amável — seria muito fácil —, mas também quando é atroz, como é o caso na tragédia de Édipo:
Minha expressão para o que é grandioso no homem é amor fati: nada querer além do que é, nem diante nem atrás de si, nem nos séculos dos séculos. Não se contentar em suportar o inelutável e menos ainda ocultá-lo — todo idealismo é uma maneira de mentir a si mesmo diante do inelutável —, mas amá-lo.(Ecce homo, “Por que sou tão sábio”)
Em outros termos, que poderiam ser os da sabedoria antiga, naquilo que por comodidade chamo sua versão “maximalista”, nunca se deve permanecer nas dimensões não reais do tempo, no passado e no futuro, mas, pelo contrário, tentar habitar, tanto quanto possível, no presente, dizendo-lhe “sim” com amor, mesmo que seja terrível — com uma “afirmação dionisíaca”, como diz Nietzsche, se referindo ao deus do vinho, da festa e da alegria.
Eu bem que apoiaria essa ideia, mas, para dizer a verdade, nunca nem por um segundo acreditei que fosse minimamente praticável, e que seja possível dizer “sim” com alegria diante da morte de uma criança, diante de uma catástrofe natural ou diante da guerra. À sua maneira, o triste fim de Édipo prova bastante bem que o trágico grego não tem muito a ver com essa visão das coisas, que sem dúvida é grandiosa no papel, mas absurda na vida cotidiana. Pessoalmente, nunca pude compreender como é possível, à maneira de Nietzsche, de Espinosa ou dos estoicos, dizer “sim” a tudo que acontece. Nem mesmo tenho certeza de que isso seja desejável. O que significaria dizer “sim” a Auschwitz? Vão me dizer que o argumento é vulgar. Sejamos então assumidamente vulgares: na verdade, nunca tive o menor embrião de resposta minimamente plausível para essa interrogação, de fato trivial, por parte dos meus amigos estoicos, espinosistas ou nietzschianos, e é o que me impede, ainda hoje, de aceitar tal pensamento. Além disso, repito, o próprio Édipo não consegue, como nem você nem eu, aderir ao horror.
Resta-nos então, entre a sabedoria minimalista, que, diga-se de passagem, me parece muito bonita e já bem difícil de se praticar na medida necessária, e a maximalista, sem sentido algum na realidade humana, tentar pensar na última alternativa, que a meu ver a tragédia grega paralelamente traça, de maneira quase implícita ou oculta. Por toda evidência Édipo não diz tranquilamente “sim” à sua sina, e é preciso boa dose de máfé para supor que os espectadores se alegravam de ver o cosmos, a ordem divina, retomar seus direitos legítimos contra os pequenos seres humanos, esmagados no percurso de maneira tão brutal. Isso significa, supondo que Édipo não pensa nem age como certamente faria um perfeito estoico, espinosista ou nietzschiano, que ele não seja um sábio? Não estou certo disso. Pois me parece que nos transmite uma mensagem bem mais interessante do que a do amor fati. É claro, como grego que acredita em seu mundo e em seus deuses, ele aceita em parte o seu destino, como comprova o fato de se punir. Ele fura os olhos e deixa o trono, para terminar na maior infelicidade. Assim, com a própria vida, com o sofrimento exposto que nada tem de amor pelo presente, ele se revolta, protesta, grita que algo não está direito. E sua filha, Antígona, mais ainda, mas no mesmo sentido que ele, retoma o processo. Uma vez mais, não que eles contestem — pelo menos de maneira explícita — o universo em que estão mergulhados. Pelo contrário, Antígona diz claramente pertencer à sua família e que nada pode fazer contra isso. Mas, justamente, há um ruído. Essas pessoas são formidáveis, Édipo é sábio, inteligente, generoso e honesto; Antígona é corajosa, leal, fiel a ideais que manifestam uma nobre ética — e os dois no entanto são triturados. É difícil de aceitar, e deve ser meditado mais profundamente.
Essa triste história nos ensina, antes de tudo, a compreender melhor a condição humana, a melhor perceber de que maneira a desgraça faz parte integrante e inevitável da vida dos mortais e por que, também, ela é sempre injusta, absurda e insensata. Percebemos dessa forma os motivos a favor de uma sabedoria do amor pelo mundo porque devemos evitar, tanto quanto possível, ruminar lembranças desagradáveis e elaborar fantasias sobre futuros cintilantes. Mas, para além dessa primeira lição que se remete à sabedoria “minimalista”, se Édipo e Antígona se tornam para nós, como já eram para os gregos, heróis, personagens lendários com uma conotação positiva, é por confirmarem como nenhum outro, pelo próprio sofrimento, o quanto é singular a condição humana no coração da ordem cósmica. Há nisso uma espécie de fermento para o humanismo futuro. Assim como Prometeu, na peça de Ésquilo, se revolta contra os deuses em nome do homem, o espectador das tragédias de Sófocles não pode deixar de pensar, mesmo que fugidiamente, que se deveria poder afinal mudar o mundo, melhorá-lo, transformá-lo e não apenas interpretá-lo. Em todo caso, com certeza, há um grão de areia que arranha o bom funcionamento do sistema, e ele tem um nome: essa pedra no sapato é o homem. Antígona, mesmo falando em nome dos deuses, em defesa de uma moral do coração, é uma revolucionária, uma humanista — é, nesse caso, a mesma coisa — que talvez não saiba disso, mas nós mesmos não podemos deixar de saber. Bem mais do que ao amor fati, à capitulação com relação ao encaminhamento do mundo, ela nos incita a criticar o que está estabelecido. E isso é especificamente humano nela, que não é redutível à ordem, nem assimilável pelos deuses nem pelo cosmos. Será preciso esperar o nascimento do humanismo, com Rousseau, Kant e a Revolução Francesa para plenamente fazer justiça a essa ideia prometeica — e o termo ganha aqui todo o seu sentido, pois foi mesmo Prometeu que, antes de todos, segundo Platão, viu nos humanos seres que nada são de início, mas para os quais tudo é possível em seguida, inclusive a revolta contra a ordem do mundo. É onde reside, a meu ver, toda a grandeza da tragédia de Édipo e de Antígona: a primeira, sem dúvida, a abrir espaço, no próprio coração da cosmologia grega, para a ideia de humanidade, com um potencial subversivo virtualmente ilimitado.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos MItos Gregos)

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