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OS FILHOS DA SERPENTE

por Thynus, em 25.12.16
1 Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: "Foi isto mesmo que Deus disse: 'Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim'?"
2 Respondeu a mulher à serpente: "Pode­mos comer do fruto das árvores do jardim,
3 mas Deus disse: 'Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão' ".
4 Disse a serpente à mulher: "Certamente não morrerão!
5 Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal".
6 Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e ­o deu a seu ma­rido, que comeu também.
7 Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de figueira para cobri­r-se.
 
Foi o próprio Deus que ao fim de sua obra se disfarçou de serpente indo se deitar sob a árvore do conhecimento: assim ele se restabeleceu do fato de ser Deus... Ele havia feito tudo demasiadamente belo... O diabo é apenas a ociosidade de Deus a cada sétimo dia...
 
 
 
Segundo evidências antropológicas e arqueológicas, os antigos caçadores-coletores eram animistas, isto é, não acreditavam na existência de uma distância necessária entre os humanos e os outros animais. O mundo — isto é, o vale local e as cadeias de montanhas ao redor — pertencia a todos os seus habitantes, e todos seguiam um conjunto de regras comum. Essas regras envolviam uma negociação incessante entre todos os seres aos quais concerniam. As pessoas falavam com animais, árvores e pedras, e também com fadas, demônios e fantasmas. Dessa rede de comunicações emergiam os valores e as normas que comprometiam igualmente humanos, elefantes, carvalhos e assombrações.7
Essa visão animista do mundo ainda orienta algumas comunidades de caçadores-coletores que sobreviveram na era moderna. Uma delas é representada pelo povo Nayaka, que vive nas florestas tropicais no sul da Índia. O antropólogo Danny Naveh, que estudou os Nayaka durante vários anos, relata que, quando um deles caminha pela floresta e depara com um animal perigoso, como um tigre, uma serpente ou um elefante, dirige-se ao animal e diz: “Você vive na floresta. Eu também vivo na floresta. Você veio até aqui para comer, e eu vim até aqui para juntar raízes e tubérculos. Não vim aqui para machucá-lo”.
Uma vez um Nayaka foi morto por um elefante macho que era chamado de “o elefante que sempre caminha sozinho”. Os Nayaka recusaram-se a ajudar os funcionários do departamento florestal indiano na captura do animal. Eles explicaram a Naveh que aquele elefante era muito chegado a outro elefante macho com o qual sempre andava. Um dia o departamento florestal capturou esse segundo elefante e o “elefante que sempre caminha sozinho” passou a demonstrar um comportamento raivoso e violento. “Como se sentiria se sua esposa fosse tirada de você? Foi exatamente isso que aquele elefante sentiu. Os dois às vezes se separavam à noite, cada um seguindo o próprio caminho… mas pela manhã tornavam a se reunir. Naquele dia, o elefante viu seu camarada cair, estirado no chão. Se os dois estavam sempre juntos e alguém atira em um deles, como o outro deveria se sentir?”8
Essa postura animista causa estranheza em muitos povos industrializados. A maioria de nós, de maneira automática, considera os animais essencialmente diferentes e inferiores. Isso decorre do fato de nossas tradições mais antigas terem sido criadas milhares de anos após o fim da era dos caçadores-coletores. O Antigo Testamento, por exemplo, foi escrito no primeiro milênio a.C., e suas histórias mais antigas refletem a realidade do segundo milênio anterior a Cristo. Mas no Oriente Médio a era dos caçadores-coletores havia terminado mais de 7 mil anos antes. Não surpreende, portanto, que a Bíblia rejeite crenças animistas e que sua única história com essa característica apareça logo no início, como uma ameaça de calamidade. A Bíblia é um longo livro repleto de milagres, eventos assombrosos e maravilhas. Entretanto, a única ocasião em que um animal entabula uma conversa com um ser humano é quando a serpente incita Eva a comer do fruto proibido do conhecimento. (A mula de Bil’am também pronuncia algumas palavras, porém ela está apenas transmitindo uma mensagem de Deus.)
No Jardim do Éden, Adão e Eva viveram como coletores. A expulsão do Paraíso tem uma semelhança notável com a Revolução Agrícola. Em vez de permitir a Adão que continue a coletar frutas silvestres, um Deus irado o condena a “comer o pão com o suor de seu rosto”. Talvez não seja coincidência, então, o fato de os animais na Bíblia só falarem com humanos na era pré-agrícola do Éden. Que lições a Bíblia extrai desse episódio? Que não se devem dar ouvidos a serpentes e que geralmente é melhor evitar falar com animais e plantas. Isso só pode levar ao desastre.
 
Paraíso perdido (Capela Sistina). A serpente, que ostenta torso e cabeça humanos, dá início a toda a sucessão de eventos. Enquanto os dois primeiros capítulos do Gênesis são dominados por monólogos divinos (“e Deus disse… e Deus disse… e Deus disse…”), no terceiro capítulo finalmente temos um diálogo — entre Eva e a serpente (“a serpente disse para a mulher… e a mulher disse para a serpente…”). Essa conversa singular entre um humano e um animal leva à queda da humanidade e à nossa expulsão do Éden.
Mas a história bíblica tem camadas mais profundas e mais antigas de significado. Na maioria das línguas semitas “Eva” significa “serpente” ou mesmo “serpente fêmea”. O nome de nossa mãe bíblica ancestral oculta um mito animista arcaico, segundo o qual as serpentes não são nossas inimigas, e sim nossas antepassadas.(Howard N. Wallace, “The Eden Narrative”, Harvard Semitic Monographs 32 (1985) Muitas culturas animistas acreditam que os humanos descendem de animais, inclusive de serpentes e outros répteis. A maior parte dos aborígines australianos acreditava que a Serpente Arco-Íris era a responsável pela criação do mundo. Os povos Aranda e Dieri sustentavam que suas tribos especificamente eram originárias de lagartos ou serpentes primordiais que foram transformados em humanos.(David Adams Leeming e Margaret Adams Leeming, Encyclopedia of Creation Myths (Santa Barbara: ABC-Clio, 1994), p. 18; Sam D. Gill, Storytracking: Texts, Stories, and Histories in Central Australia (Oxford: Oxford University Press, 1998); Emily Miller Bonney, “Disarming the Snake Goddess: A Reconsideration of the Faience Figures from the Temple Repositories at Knossos”, Journal of Mediterranean Archaeology 24:2 (2011), pp. 171-90; David Leeming, The Oxford Companion to World Mythology (Oxford e Nova York: Oxford University Press, 2005), p. 350.) Na verdade, os ocidentais modernos também acham que evoluíram de répteis. Nosso cérebro é construído em volta de um cerne reptiliano, e a estrutura de nossos corpos corresponde essencialmente à de répteis modificados.
Os autores do livro do Gênesis podem ter preservado um resquício de crenças animistas arcaicas ao escolher o nome de Eva, mas tiveram grande cuidado em ocultar outros traços. O Gênesis diz que, em vez de descender de serpentes, os humanos foram criados divinamente a partir de matéria inanimada. A serpente não é nosso progenitor: ela nos seduz a nos rebelarmos contra nosso Pai celestial. Os animistas consideram os humanos somente outro tipo de animal, ao passo que a Bíblia alega que os humanos são uma criação única e que toda tentativa de reconhecer o animal em nós acaba por negar o poder e a autoridade de Deus. De fato, quando humanos modernos descobriram que efetivamente descendiam de répteis, rebelaram-se contra Deus e deixaram de ouvi-Lo — e até mesmo de acreditar em Sua existência.
 
(Yuval Noah Harari - Homo Deus, uma breve história do amanhã)

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publicado às 15:43



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