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Os animais sentem dor?

por Thynus, em 12.02.16
“Oh, minha perna!”, gritou ele. “Oh, minha pobre canela!” Ele sentou-se na neve e segurou a perna com as patas dianteiras. “Pobre Toupeira velha!”, disse o Rato em tom gentil. “Você parece não estar tendo sorte hoje, não é mesmo? Vamos dar uma olhada nessa perna.” “Sim”, continuou o Rato, ajoelhando-se para olhar, “você machucou a canela, com certeza. Espere eu pegar meu lenço, vou amarrá-lo no seu ferimento.”

“Devo ter tropeçado num galho ou num toco de madeira”, disse a Toupeira, choramingando. “Ai ai ai!”
“É um corte limpo”, disse o Rato, examinando de novo a ferida atentamente. “Não parece ter sido feito por um galho ou um toco…”
“Não importa o que machucou eu”, disse a toupeira, esquecendo a gramática por causa da dor. “Dói do mesmo jeito, não importa o que me cortou.”
Os animais de verdade sentem dor, ou só os da ficção, como a toupeira do livro O vento nos salgueiros? Podemos ter uma razoável certeza de que os animais não humanos não falam, mas não temos como saber muito mais que isso.
O modo como respondemos à questão da dor animal, e à questão mais abrangente da consciência animal, tem uma influência direta sobre outras perguntas mais urgentes:
• É certo usar dezenas de milhões de ratos, camundongos e até primatas em pesquisas médicas, testes de produtos etc.?
• É correto que toupeiras e outros animais considerados daninhos sejam envenenados, asfixiados ou exterminados de várias outras maneiras?

A virada linguística
Por analogia com nossa própria mente, podemos inferir algumas semelhanças entre a experiência consciente dos humanos e a de (alguns) animais, mas quão longe podemos ir além disso? A experiência subjetiva de um animal deve estar intimamente ligada ao seu modo de vida e ao ambiente ao qual adaptou-se evolutivamente; e, como indicou Thomas Nagel, não temos a menor ideia de como é ser um morcego (veja a página 36). Esse problema tornou-se mais crítico com a “virada linguística” que passou a dominar boa parte da filosofia da mente no século XX. De acordo com essa virada, nossa vida mental é essencialmente sustentada ou mediada pela linguagem, e nossos pensamentos são necessariamente representados, em nosso interior, por termos linguísticos. Tal visão, aplicada com rigidez a animais não linguísticos, nos obrigaria a negar que eles têm qualquer tipo de pensamento. Essa postura foi abrandada, e muitos filósofos já aceitariam que (alguns) animais não humanos têm pensamentos, mas de um tipo mais simples.


• É certo matar bilhões de animais como vacas e frangos para fornecer alimento para nós?

A maioria dos filósofos concorda que a consciência (em especial, a dor física) é crítica na hora de decidir que consideração moral deveríamos ter em relação aos animais. Se concordamos que alguns animais são capazes de sentir dor e que causar dor desnecessária é errado, devemos concluir que é errado infligir dor desnecessária a eles. Aprofundar o assunto – decidir, especificamente, o que poderia contar como justificativa adequada para infligir dor aos animais – torna-se então uma questão moralmente urgente.
Dentro da mente dos animais O que sabemos sobre o que se passa na cabeça dos animais? Eles têm sentimentos, pensamentos, crenças? São capazes de raciocínio? A verdade é que sabemos muito pouco sobre a consciência animal. Nossa falta de conhecimento nesse campo é, na verdade, uma versão generalizada do problema de não sabermos nada sobre outras mentes humanas (veja Cèrebro numa cuba).


« Dizemos às vezes que os animais não falam por falta de capacidade mental. E isso significa: ‘eles não pensam, por isso não falam’. Mas… eles simplesmente não falam. Melhor dizendo: eles não usam linguagem – se excluirmos as formas mais primitivas de linguagem. » 
Ludwig Wittgenstein, 1953

Não podemos, parece, saber com certeza se as outras pessoas experimentam as coisas da mesma maneira que nós ou, de fato, se experimentam qualquer coisa, por isso é pouco surpreendente que não estejamos em melhor situação (é provável que estejamos em pior) em relação aos animais não humanos.
No caso da mente dos humanos e dos animais, o melhor que podemos fazer é usar um argumento da analogia com o nosso próprio caso. Mamíferos parecem reagir à dor do mesmo modo que os humanos, encolhendo-se diante de uma fonte de dor, soltando gritos e gemidos etc. Em termos psicológicos, também existe uma uniformidade básica nos sistemas nervosos dos mamíferos; e semelhanças também são encontradas no código genético e na origem evolucionária. Dadas tantas similaridades, é plausível supor que também haveria semelhanças no campo da experiência subjetiva.

O cachorro de Crisipo
No mundo antigo, a opinião filosófica dividia-se em questionar quanto (ou se) os animais podiam pensar e raciocinar. Uma discussão muito interessante tratava do caso do cão de Crisipo. Atribuída a Crisipo, filósofo estoico do século III a.C., a história fala de um cão de caça que, ao perseguir uma presa, chega a uma trifurcação; sem conseguir encontrar o cheiro da presa nos dois primeiros caminhos, o cão segue o terceiro caminho sem maiores hesitações, tendo supostamente seguido o silogismo “A ou B ou C; nem A nem B, logo C”. Tais casos de lógica canina não convenceram todos os filósofos que surgiram depois, e muitos classificam a racionalidade como a faculdade essencial que separa os humanos dos animais. Descartes, em particular, tinha péssima opinião sobre o intelecto animal, considerando os animais como quase autômatos, sem qualquer tipo de inteligência. A ideia de que a capacidade de sofrer é fundamental para que os animais sejam admitidos na comunidade moral – o critério mais invocado em recentes discussões sobre ética animal – foi expressa pelo filósofo utilitarista Jeremy Bentham: “A questão não é ‘Eles conseguem raciocinar?’ nem ‘Eles podem falar?’, mas ‘Eles são capazes de sofrer?’”




Experimentos com animais: são corretos e funcionam?
A moralidade do uso de animais em pesquisas médicas e testes de produtos pode ser encarada de dois modos. O primeiro é perguntar se é correto tratarmos animais não humanos puramente como um meio para alcançar nossos próprios fins; se é ético causar sofrimento (assumindo que eles sofram) e infringir seus direitos (supondo que tenham direitos) para melhorar a nossa saúde, testar medicamentos; e assim por diante. Esse é um aspecto da grande questão concernente à postura moral que deveríamos adotar em relação aos animais (veja a página 108). A outra consideração é mais prática.
Testar a toxicidade de um produto num rato só vale a pena (supondo-se que seja ético fazer isso) se ratos e homens forem suficientemente semelhantes em aspectos fisiológicos importantes a ponto de conclusões úteis para os humanos poderem ser tiradas de informações originadas de ratos. O problema é que a segunda consideração, pragmática, encoraja o uso de mamíferos superiores, como macacos e símios, porque estão fisiologicamente mais próximos dos humanos; mas é precisamente o uso de tais animais que tem mais probabilidade de despertar a mais séria objeção do ponto de vista ético.


E, quanto maiores forem as similaridades fisiológicas e outros aspectos relevantes, é mais seguro supor que existem também similaridades na experiência subjetiva.
Desse modo, parecemos caminhar em terreno seguro ao tirar conclusões sobre nossos parentes mais próximos, macacos e símios; o terreno se torna mais pantanoso no que se refere a mamíferos mais distantes de nós, como ratos e toupeiras A analogia é mais fraca, mas ainda plausível no caso de outros vertebrados (aves, répteis, anfíbios e peixes) e torna-se precária quando falamos dos invertebrados (insetos, lesmas e águas-vivas). Não que tais animais não sejam conscientes, não sintam dor etc., mas é difícil fazer tal afirmação pensando numa analogia com a nossa própria consciência. A dificuldade é saber em que outros fatos poderíamos basear essa afirmação.
 
a ideia resumida:
 Crueldade animal?

(Dupré, Ben - 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer)

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publicado às 02:04



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