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ÓRION E ENOPIÃO

por Thynus, em 30.11.15
A possessividade de um pai em relação à filha
Este triste mito grego é sobre a tentativa de um pai de ser dono de sua filha e sobre a destruição que ele desencadeia quando surge um pretendente para ela. A narrativa revela as obscuras correntes subterrâneas que podem existir no laço entre pais e filhos. Mas, embora retrate emoções violentas e situações extremadas que não tendemos a encontrar na vida cotidiana, ela esclarece a confusão e a cegueira emocionais que nos afligem quando, consciente ou inconscientemente, tentamos ser donos de nossos filhos.
Órion e Enopião, “o que bebe vinho”
 
Órion, o caçador, tinha a reputação de ser o homem mais belo da Terra. Um dia, apaixonou-se por Mérope, filha de Enopião, rei de Quio. Mas Enopião não era um simples mortal; filho de Dioniso, o deus do vinho e do êxtase, tinha ascendência imortal, e abrigava em seu íntimo as paixões intensas do pai.
Enopião prometeu ao caçador Órion a mão de Mérope em casamento, mas só se ele conseguisse livrar suas terras das feras assustadoras que ameaçavam a vida dos habitantes. Isso não era problema para um caçador experiente, e Órion aceitou o desafio de bom grado. Concluída sua tarefa, voltou a se apresentar a Enopião, ansioso por receber sua recompensa. Mas o rei de Quio encontrou motivos para adiar o casamento — ainda havia outros ursos, lobos e leões espreitando nas montanhas. Na verdade, Enopião não tinha intenção de dar a mão de sua filha em casamento, porque estava secretamente apaixonado por ela.
Órion ficava cada vez mais frustrado com a situação. Percorreu novamente as montanhas à procura de animais ferozes, e novamente Enopião arranjou motivos para retardar o casamento. Certa noite, Órion embebedou-se com o mais fino vinho do rei (e o vinho de um filho de Dioniso era realmente bom, e mais forte do que a maioria) e, completamente bêbado, invadiu o quarto de Mérope e a estuprou. Como resultado desse ato de violência, Enopião sentiu-se justificado para se vingar do rapaz. Obrigou-o a beber mais vinho, até o caçador cair num estupor de embriaguez. Em seguida, arrancou-lhe os olhos e o atirou na praia, cego e inconsciente. Com a ajuda dos deuses, Órion recobrou a visão e viveu para buscar muitas novas aventuras. Não sabemos o que aconteceu com a pobre Mérope, violentada e abandonada, e aprisionada por um pai que não tinha nenhuma intenção de deixar que ela se tornasse mulher.
 
Diana junto do cadáver de Órion
 
COMENTÁRIO: A história de Órion não diz respeito apenas aos padrões afetivos patológicos na família. Um vínculo sadio de amor e afeição entre pai e filha, se exacerbado pela inconsciência, pode levar a problemas. O pai costuma ser o primeiro amor da filha, e na filha pequena muitos pais veem uma imagem mágica de beleza e juventude, que abriga todos os seus mais acalentados sonhos românticos. Isso é natural e agradável, e de modo algum implica abuso ou doença. Mas, quando o casamento do pai é infeliz, ou quando ele não consegue aceitar as satisfações de um casamento humano comum e insiste em querer a magia de uma “alma gêmea”, pode buscar na filha essa fantasia do amor perfeito. Nesse caso, talvez lhe seja difícil permitir que ela tenha vida própria. É preciso um coração generoso para deixar que uma filha tão amada parta, especialmente com um jovem tão belo quanto Órion. A beleza e a virilidade juvenis do rapaz funcionam como um doloroso lembrete de que Enopião já não é tão jovem, e de que sua menininha é agora uma mulher que quer para si um homem moço e forte. Não há referência à mãe de Mérope no mito. Esse pai e essa filha vivem num mundo próprio, o que constitui a realidade psicológica de muitos pais que se relacionam melhor com as filhas do que com a mulher.
O pai que tenta transformar a filha numa alma gêmea pode infligir-lhe, sem querer, prejuízos para a vida toda. Isso às vezes se revela na antiquíssima tática de insistir em que o parceiro escolhido pela filha “não é bom o bastante”. Quando um pai cria ideais impossíveis para a filha, como ela pode deixá-lo e viver feliz com seu próprio parceiro? Quanto maior o amor, maior o prejuízo potencial que pode, inconscientemente, decorrer dele, pois a filha que ama e admira o pai dá ouvidos a sua aparente “sabedoria” e vê em cada pretendente falhas intoleráveis.
Aparentemente Enopião quer que Mérope tenha um marido. Esse marido deve satisfazer certos padrões. E quem pode culpar um pai por querer o melhor para seus filhos? Assim, a possessividade inconsciente do pai se esconde sob a máscara das boas intenções, e ele consegue garantir que ninguém jamais seja bom o bastante para a filha. Com isso, justifica a destruição de todos os potenciais relacionamentos que ela possa ter — sutil ou escancaradamente —, pois acredita estar pensando no bem dela. Órion se enfurece porque Enopião está sempre mudando as metas a serem atingidas, e acaba violentando Mérope. Isso dá ao pai a desculpa perfeita para se livrar do criminoso. Mas, ao longo de toda a história, Enopião não pretende deixar que sua preciosa filha se vá, porque a quer para si mesmo.
O grande poeta Kahlil Gibran (1883-1931) escreveu, certa vez, que nossos filhos nascem através de nós, mas não nos pertencem. Um pai solitário, contudo, pode sentir-se justificado para tratar a filha como um objeto precioso, a ser possuído apenas por ele. Os jovens só podem progredir na vida quando os mais velhos lhes dão asas. Quando, movida pelo ciúme do pai, a filha é levada a escolher entre o pai e o amado, sua felicidade é destruída e as recompensas de seu amor, estragadas. Os filhos não devem ser obrigados a fazer essas escolhas; qualquer um fica com o coração dilacerado pelas imposições do ciúme. Todo pai tem nas mãos a chave da realização das filhas, ao lhes permitir que desfrutem o amor do pai e do marido. Trata-se de um desafio difícil para qualquer pai, mas são enormes as recompensas. Para isso, porém, é preciso reconhecermos e contermos nossa inveja e ciúme secretos. Como nos diz o mito, esses sentimentos são antigos, universais e quintessencialmente humanos. Mas a possessividade, a rigor, tem tudo a ver com o poder, e o amor e o poder não podem coexistir.

 (Liz Greene & Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos)

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publicado às 06:11



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