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Vamos começar com Orfeu, cujo mito é um dos raros a ter marcado a religião cristã, talvez por contar uma história centrada numa questão que viria a ocupar um lugar fundamental nos Evangelhos: a contradição inelutável e insolúvel entre o amor e a morte,(Mais um detalhe, antes de entrar no cerne do assunto: apesar de muito antigo, o mito de Orfeu nos infernos não se encontra em Homero, nem em Hesíodo. Sabe-se que é conhecido desde o século VI a.C., mas foram sobretudo os romanos, no século I, com Virgílio e Ovídio, que nos deixaram as versões mais coerentes e detalhadas. No essencial, é a elas que recorro, apesar de, às vezes, para completá-las, buscar tais versões também do lado de autores gregos mais antigos, principalmente em Alceste de Eurípides e nas obras de Apolônio de Rodes, Diodoro e até mesmo Platão. Como sempre, a Biblioteca de Apolodoro se revela uma preciosa ferramenta) contradição que sempre dá aos humanos a ideia, e em seguida o ardente desejo, da ressurreição. Quem de nós não gostaria, do fundo do coração, que alguns seres muito amados voltassem a viver? No Evangelho, por exemplo, ao saber da morte do amigo Lázaro, Jesus chora: apesar de divino, ele passa pela experiência dessa dor infinita que o desaparecimento de um ser amado sempre causa, como qualquer um de nós. Mas, é claro — e Cristo necessariamente sabe disso, pois é a base da crença cristã —, de acordo com o seu ensinamento, “o amor é mais forte do que a morte”. E para provar isso ele traz o amigo de volta à vida, apesar de ele estar morto há tempo bastante para, pela precisão do texto evangélico, suas carnes já terem entrado em decomposição. Nada disso importa, pois o amor triunfa sobre tudo e o milagre da ressurreição se faz.
Com o mito de Orfeu, porém, é com os gregos que estamos e não com os cristãos, e tal ressurreição parece absolutamente fora de cogitação para os mortais. Ao perder a companheira, que morre sob seus olhos mordida por uma serpente venenosa, o pobre Orfeu fica inconsolável. Mas não vamos nos antecipar e, antes de entrar no principal da história, vejamos um pouco mais de perto com quem estamos lidando.
 
Orfeu é um músico, antes de tudo. É inclusive o maior de todos os tempos, segundo os gregos, superior até mesmo a Apolo, que, aliás, o acha tão admirável, tão excepcional em sua arte, que o presenteia com a famosa lira inventada pelo irmão caçula, Hermes. A lira é um instrumento de sete cordas, e Orfeu, julgando não ser o suficiente para produzir belos acordes, acrescenta duas outras, suplementares — o que, ao mesmo tempo, “acorda” seu instrumento ao número das musas, as nove divindades, filhas de Zeus, que têm fama de haver inventado as principais artes e inspirarem os artistas. Deve-se lembrar que Calíope, a rainha das musas, é simplesmente a mãe de Orfeu. Ele teve então a quem puxar. Dizem que, ao cantar acompanhado por seu instrumento, os animais selvagens, até mesmo leões e tigres, se acalmam e ficam mansos como cordeirinhos; os peixes saltam para fora d’água ao ritmo da lira divina, e os próprios rochedos que, como se sabe, têm um coração de pedra, derramam lágrimas de emoção. O que prova que sua música é mágica e, com as nove cordas que aumentam ainda mais a harmonia do seu canto, nada lhe resiste. Ao participar da expedição dos Argonautas numa embarcação construída por Argos (donde o nome) e sob a liderança de Jasão, em busca do Tosão de Ouro, foi Orfeu quem a todos salvou das Sereias, aquelas mulheres-pássaros cujo canto atrai os infelizes marinheiros sob seu encanto, empurrando-os para impiedosos recifes em que eles infalivelmente naufragam. Orfeu é o único ser no mundo que consegue encobrir suas vozes maléficas.
Voltemos, porém, ao que vai levá-lo aos infernos.
Orfeu se apaixonou loucamente por Eurídice, uma sublime ninfa que alguns dizem, inclusive, ser filha de Apolo. Tem uma beleza incomparável, mas, além disso, trata-se de um verdadeiro amor, e Orfeu literalmente não consegue mais ficar sem ela. Sem Eurídice, sua vida deixa de ter qualquer sentido. Segundo Virgílio, que em seu poema Geórgicas evoca longamente essa história, um dia em que passeava à beira de um belo rio, Eurídice é perseguida pelo insistente assédio de um certo Aristeu. Ela corre para escapar, olhando de vez em quando para trás, para ver se Aristeu se aproxima. Com isso, não vê uma víbora, em que acaba pisando com seu pezinho delicado. A morte é quase instantânea, e Orfeu fica, no sentido próprio do termo, inconsolável. Nada pode fazê-lo parar de chorar. A tal ponto que resolve tentar o impossível: ir ele próprio buscar Eurídice nos infernos, onde faria tudo para convencer Hades e sua mulher, Perséfone, a deixarem que leve consigo a bem-amada.
As descrições de Virgílio e de Ovídio da travessia dos infernos por Orfeu valem a pena ser lidas. Ainda hoje inspiram pintores, músicos e escritores. A primeira coisa que ele deve fazer é encontrar a entrada do subterrâneo, o que não é tão fácil. Orfeu consegue isso tomando como referência uma fonte que brota do chão no lugar onde um dos quatro rios infernais sai das profundezas. Ele vai precisar cruzar ou percorrer todos os quatro. O primeiro é o Aqueronte, o rio que todos os mortos precisam atravessar para entrar na morada de Hades. É onde o horrível Caronte, o barqueiro, um velho repugnante e sujo, pede um óbolo para levar as almas mortas para o outro lado do rio. Por essa razão, como disse antes, os antigos colocavam uma moeda nos olhos ou na boca dos mortos, para que eles pudessem pagar ao barqueiro, sem o que permaneceriam cem anos errando pelas margens, à espera da vez. Depois, é preciso percorrer o Cócito, rio glacial que carrega blocos de gelo, em seguida o aterrorizador Flagetonte, uma gigantesca torrente de fogo e de lava em fusão, e, finalmente, o Estige, pelas águas do qual os deuses fazem seus juramentos.
Mas essa paisagem assustadora é povoada por seres ainda mais horríveis. Há primeiro os próprios mortos, lamentáveis fantasmas sem rostos, irreconhecíveis, extremamente inquietantes para o visitante. Como se fosse possível piorar as coisas, Orfeu se defronta com monstros infernais: Cérbero, o horrível cão com três cabeças, Centauros, Cem-Braços, abomináveis hidras cujo assobio basta para gelar o sangue, Harpias que torturam indiscriminadamente, Quimera, Ciclopes... Ou seja, a descida aos infernos supera em horror tudo que um ser humano possa imaginar de mais atroz. Pelo amor de Eurídice, Orfeu está disposto a tudo. Nada pode fazê-lo parar. Aliás, a lira o acompanha ao longo de todo o terrível périplo e, como sempre, a música produz os melhores efeitos. Sob a doçura do seu canto, até os supliciados encontram algum repouso, pois dizer felicidade seria um exagero. Por um instante, Tântalo deixa de ter fome e sede, a roda de Íxion para de girar, a pedra de Sísifo suspende sua corrida retrógrada. Até Cérbero se deita como um cachorrinho de estimação. Por pouco não se teria vontade de lhe fazer um carinho. As Erínias cessam por um momento sua imunda tarefa, e o tumulto que habitualmente agita o lugar infernal se acalma. Os senhores desse reino, Hades e Perséfone, caem também sob o encanto. Ouvem Orfeu com atenção, talvez até com ternura. Sua coragem impressiona, seu amor por Eurídice, tão autêntico e incontestável, fascina as duas divindades, conhecidas por normalmente serem inacessíveis a qualquer sentimento humano.
Perséfone, ao que parece, é a primeira a se convencer. Orfeu poderá voltar à vida e à luz com Eurídice, sob uma condição: que ela o siga em silêncio e, principalmente, que ele não olhe para trás querendo vê-la, até saírem do inferno. Louco de alegria, Orfeu aceita. Leva Eurídice, que, como combinado, o segue docilmente alguns passos atrás. Mas sem que se saiba muito bem por quê — Virgílio supõe que uma espécie de loucura o tenha invadido, um ímpeto amoroso que não pode mais esperar. Já Ovídio sugere uma surda angústia que o faz duvidar da promessa dos deuses. De um jeito ou de outro, Orfeu comete o erro irreparável: não consegue deixar de se virar para ver Eurídice, e dessa vez os deuses são inflexíveis. Eurídice vai ficar para sempre no reino dos mortos. Nada mais a fazer, nada mais a se discutir, e a infeliz morre pela segunda vez, agora em definitivo e sem recurso possível.
Como você pode imaginar, Orfeu fica mais uma vez inconsolável. Desesperado, ele volta para casa e se tranca. Recusa-se a ver outras mulheres — para quê? Ele é homem de um amor único, o amor de Eurídice. Nunca mais vai poder amar como antes. Mas, ao que dizem nossos poetas latinos, Orfeu com isso acaba irritando todas as damas da cidade. Não entendem que um homem tão encantador e com um canto tão sedutor as deixe de lado. Ainda mais porque, segundo dizem, Orfeu não somente se desinteressa pelo belo sexo, mas também passa a se interessar por rapazes. Inclusive convida à sua casa maridos da vizinhança para que compartilhem a sua nova atração por jovens. As mulheres acham que isso ultrapassa toda a medida do tolerável. Nessa versão do mito, Orfeu morre literalmente despedaçado pelas esposas furiosas. Armadas de pedras, porretes e alguns instrumentos agrícolas deixados pelos camponeses nos campos, elas o atacam e o dilaceram vivo, jogando em seguida os pedaços, os diferentes membros do corpo e a cabeça decepada no rio mais próximo, que os carrega então para o mar. Seguindo o fluxo das águas, a cabeça e a lira de Orfeu vão parar na ilha de Lesbos, onde os habitantes erigem um túmulo em sua homenagem. De acordo com alguns mitógrafos, a lira de Orfeu foi transformada (por Zeus?) em constelação, e sua alma transportada para os Campos Elísios, que é mais ou menos o equivalente grego do paraíso ou, melhor dizendo, uma espécie de volta à idade de ouro.
Esse detalhe não deixa de ter sua importância, pois nos permite compreender melhor como e por que o mito de Orfeu acaba gerando um culto, para não dizer uma religião, justamente chamada “orfismo”. A teologia órfica diz se inspirar nos segredos que Orfeu teria descoberto em sua viagem e permitido, apesar de seu funesto destino nessa terra, que finalmente encontrasse a paz na morada abençoada pelos deuses. Como você vai ver logo adiante, isso estabelece uma ligação entre a história de Orfeu e essa que vou contar agora, a respeito de Deméter e dos assim chamados “mistérios de Elêusis”, a cidade onde Deméter estabeleceu seu templo e seu culto.
Mas antes devemos nos questionar sobre o sentido exato desse combate empreendido por Orfeu contra a morte. Como compreender sobretudo a estranha prescrição de Perséfone a Orfeu, de não olhar para trás? Mais estranho ainda, como pôde Orfeu ser tão burro, ao olhar, já chegando ao fim de tantas provações desagradáveis? Estranhamente, nenhum dos textos dedicados a esse mito dá a menor explicação plausível. Virgílio deixa tudo por conta do amor, impaciente e cego. Mas mesmo que assim eventualmente se explique o erro de Orfeu, a hipótese em nada esclarece quanto ao sentido da exigência imposta pelos deuses. De fato, por que olhar para trás seria fatal aos dois amantes?
Deu-se todo tipo de resposta a essa questão, e seria longo demais, e bem cansativo, enumerá-las aqui. Até porque, na verdade, nenhuma delas me pareceu realmente convincente. Muitas vezes se aplicou um olhar cristão ao mito, explicando que Orfeu se vira por duvidar da palavra divina e quem perde a fé está perdido, pois só a fé salva. Creio, no final, que se deve muito simplesmente manter o eixo principal do mito: a contradição entre o amor e a morte, insuperável para os mortais, apesar de toda a esperança investida na tentativa de Orfeu. Orfeu perde Eurídice pela segunda vez se virando para trás, e ela deve absolutamente se manter atrás dele e, de forma alguma, à frente. Isso mostra, com toda evidência, que os deuses impuseram essa série de obrigações sabendo pertinentemente que não seriam cumpridas (de outra forma, por que a prova?), pela simples razão que, olhando para trás, Orfeu deve compreender que o que está atrás está para trás e que o passado já passou. Isto é irreversível e todo mortal deve aceitar, como Ulisses na ilha de Calipso, sua condição própria, a condição da humanidade que vê sua vida transcorrer, a exemplo do rochedo de Sísifo, entre o ponto de partida e o ponto de chegada, do qual ninguém pode modificar uma vírgula sequer.
Nosso nascimento e nossa morte não nos pertencem, e, para nós mortais, o tempo é decididamente irreversível. O irremediável é o nosso quinhão comum, e a infelicidade não é conciliável. No melhor dos casos ela se acalma, se apazigua e se suaviza o bastante para que possamos retomar o curso da existência, nunca mudá-lo ou partir novamente de algum ponto situado aquém, atrás de nós. Como é frequente, apesar da proximidade com o cristianismo na colocação do problema — o amor querendo a qualquer preço se mostrar mais forte do que a morte —, a atitude grega vai no sentido inverso: é sempre a morte quem vence o amor, e temos todo interesse em saber disso logo de saída, se quisermos chegar à sabedoria que talvez seja a única maneira de chegar a viver uma vida boa. Nada pode mudar o que quer que seja nessa cartada inicial que constitui o pilar mais sólido da ordem cósmica — esse em torno do qual se constrói a diferença entre mortais e Imortais, entre os homens e os deuses. Quanto aos mistérios que os sacerdotes órficos pretendem poder revelar a seu rebanho, receio que permaneçam para sempre, como sempre acontece em casos semelhantes, o que eram no início; isto é, mistérios.
O que me leva diretamente aos de Elêusis, quer dizer, ao mito de Deméter, a deusa das colheitas e das estações. Nele você verá como o fato de ser imortal muda tudo: para os deuses bem-aventurados, diferentemente do que se passa com os infelizes mortais, é sempre possível deixar o reino de Hades, mesmo que este último esteja decidido a manter consigo o visitante.

 (Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

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publicado às 10:42



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