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O reino dos céus é uma condição do coração e não algo que cai na terra ou
que surge depois da morte.
(Nietzsche)
 
O triste mito grego de Orfeu e Eurídice nos fala da dor agridoce do desgosto e da perda, e sobre a inevitabilidade do fim, por mais que tentemos nos agarrar ao que se vai de nossa vida. Esse mito não oferece nenhuma solução simplista para lidarmos com a perda, mas há sugestões delicadas, que talvez nos ajudem a compreender a maneira misteriosa como as coisas das quais conseguimos abrir mão continuam a viver, enquanto aquelas a que insistimos em nos agarrar poder morrer dentro de nós.
 
Orfeu, da Trácia, era célebre por tocar a música mais suave do mundo. Era filho da musa Calíope e do rei traciano Ôiagro, embora corressem boatos de que, na verdade, seria filho de Apolo, o deus sol. Era tão hábil na lira de ouro que Apolo lhe dera que até as correntezas dos rios paravam para escutar, e as pedras e árvores se soltavam do chão para seguir sua música melodiosa.
Esse cantor, capaz de instilar um sopro de vida numa pedra, não teve dificuldade para conquistar o amor da bela Eurídice e, a princípio, seu casamento foi abençoado. Porém, infelizmente, sua alegria durou pouco, pois Eurídice foi picada por uma cobra e não houve remédio capaz de mantê-la no mundo dos vivos. Arrasado, Orfeu acompanhou-a a sua sepultura tocando árias pungentes, que comoveram profundamente todos que assistiram ao cortejo fúnebre. Depois, como a vida sem Eurídice parecia não ter razão para ele, Orfeu se dirigiu aos próprios portões de Hades, indo buscar seu amor perdido onde nenhum ser humano tem permissão de entrar até o dia de sua morte.
A música tocada por Orfeu foi tão pungente que o severo barqueiro Caronte, que transporta as almas dos mortos na travessia do rio Estige, esqueceu-se de verificar se Orfeu trazia na língua a moeda necessária. Encantado com as notas mágicas, o velho barqueiro transportou o poeta pelo tenebroso rio que separa o mundo ensolarado das frias regiões do inferno, sem questionamento. Tão comoventes foram as notas da lira dourada de Orfeu que as barras de ferro dos portões da morte se abriram sozinhas, e Cérbero, o cão de três cabeças que guarda os sombrios portais da morte, encolheu-se sem sequer mostrar os dentes, amansado pela melodia tranquilizadora. E foi assim que Orfeu conseguiu penetrar no mundo das sombras sem ser detido. Por alguns abençoados momentos, os condenados do Tártaro foram aliviados de seus tormentos infindáveis, e até o coração frio de Hades, senhor do mundo subterrâneo, abrandou-se momentaneamente. Com humildade, Orfeu ajoelhou-se diante do trono do rei e da rainha dos mortos, rezando e implorando, com suas mais místicas melodias, que Eurídice pudesse retornar com ele para a terra dos vivos. Perséfone, a rainha do mundo subterrâneo, sussurrou algumas palavras no ouvido do marido, e a lira de Orfeu foi interrompida por uma voz surda e profunda. Todas as regiões daquele mundo silenciaram para ouvir o decreto de Hades.
 — Pois que seja, Orfeu! Retorna ao mundo superior, e Eurídice te acompanhará como tua sombra! Mas não pares, não fales e, acima de tudo, não olhes para trás, até chegares à camada superior do ar. Pois se o fizeres, nunca mais voltarás a ver seu rosto. Vai sem demora, e confia em que não estarás sozinho em tua trilha silenciosa.
Orfeu, assombrado e grato, voltou as costas para o trono da morte e caminhou pelos ermos sombrios e gélidos, em direção ao tênue lampejo de luz que marcava a trilha para o mundo da luz solar. Atravessou os salões silenciosos, onde seus passos produziam um eco assustador de seu caminhar apressado para a luz, que brilhava cada vez mais clara, à medida que ele se aproximava de seu destino. Então, no exato momento em que ia penetrar na luz, ele foi atormentado por uma dúvida angustiante. E se Hades o tivesse enganado? E se Eurídice não estivesse realmente atrás dele? Orfeu não conseguiu evitar: virou-se para trás e, ao fazê-lo, viu Eurídice desaparecendo na distância, com seus braços suplicantes estendidos, morrendo pela segunda vez. Dessa vez, os portões do mundo subterrâneo fecharam-se para ele, e Orfeu voltou só e inconsolável para o ensolarado mundo superior, onde, por muitos anos, nenhum sol brilharia.
Com o tempo, Orfeu foi ordenado sacerdote, ensinando os mistérios da vida e da morte e pregando aos homens da Trácia sobre os males do assassinato sacrificial. Levou alegria a muita gente, com sua música, e curou e consolou muitos mais, mas não pôde se curar de seu próprio desespero, pois perdera sua única oportunidade de enganar a morte. Sua morte foi violenta, pois o deus Dioniso ressentiu-se de que um mortal fosse cultuado e adorado como só cabia aos deuses. As adoradoras que seguiam Dioniso despedaçaram Orfeu, membro a membro, e as Musas sepultaram seu corpo destroçado aos pés do Monte Olimpo, onde dizem que o canto dos rouxinóis é mais melodioso do que em qualquer outro lugar do mundo.
 
COMENTÁRIO: O mito de Orfeu toca-nos profundamente. Ele estimula nossa esperança de talvez conseguirmos enganar a morte e contornar a perda inevitável e, em seguida, destrói essa esperança. Orfeu é muito talentoso e especial — ao menos ele, certamente, deveria ser uma exceção à regra de que todos os seres humanos têm que morrer um dia. É comum acreditarmos que, se conseguíssemos nos tornar suficientemente talentosos ou especiais — talvez aperfeiçoando uma obra de arte, ou vindo a ser muito ricos e poderosos, ou dotados de grande beleza, ou sendo bondosos e íntegros o suficiente —, de algum modo poderíamos ficar isentos da tristeza e da perda. A música de Orfeu repercute em nós porque, como ele, sentimos — secreta, se não conscientemente — que somos exceções. “Sei que todos temos que morrer”, dizemos, “mas, nesse caso, decerto eu e aqueles a quem amo poderíamos ser poupados. Não posso acreditar que isso vá acontecer comigo e com meus entes queridos.” Não queremos acreditar que esses terríveis sentimentos de pesar ou tristeza sejam inevitáveis e que as experiências de separação e perda não fazem diferença entre os homens por seu mérito.
No entanto, a história de Orfeu e sua Eurídice nos ensina que, por sermos humanos, estamos condenados a enfrentar a perda e a morte. É a condição humana de Orfeu e Eurídice que torna inevitável que eles sofram, percam e morram. A natureza da morte de Eurídice sublinha a injustiça e a imprevisibilidade da vida, da qual a morte é uma parte inevitável. A princípio, as possibilidades de Orfeu parecem muito animadoras, pois sua música consegue abrandar até o severo Hades. Mesmo assim, no último instante ele perde a confiança e olha para trás — e vai por água abaixo. “Ah, se ele não tivesse olhado para trás…”, pensamos. No fundo, porém, sabemos que isso era inevitável, porque Orfeu é humano, e nenhum homem é capaz dessa confiança absoluta no invisível. Até a história da crucificação de Jesus nos diz que a dúvida é inevitável, e que chegará um momento, nascido da extrema exacerbação da dor, em que a fé se dissolverá e as trevas cairão. Há nessa história um paradoxo perturbador. Não devemos olhar para trás, pois assim sofremos novamente nosso desgosto e nossa perda; contudo, se não olharmos para trás, poderemos realmente enganar a morte? E por acaso algum ser humano é realmente capaz de se abster de olhar para trás? Se compreendermos a prometida ressurreição de Eurídice em termos psicológicos, talvez possamos perceber a sabedoria que se esconde nesse mito. Ao voltarmos os olhos para trás e desejarmos a retificação do passado — o perene “se” que sempre nos aflige, num ou noutro momento —, condenamo-nos a uma repetição de nossa tristeza e a uma renovação do sentimento de impotência diante do inevitável. Se aceitarmos o que perdemos e mantivermos o rosto voltado para o futuro, as pessoas que perdemos ficarão conosco para sempre, pois nos lembraremos da alegria e do amor. Essas lembranças são indestrutíveis, e carregamos dentro de nós todos aqueles a quem amamos e cujo amor nos modificou de algum modo. Talvez esse seja o significado mais profundo do retorno de Eurídice ao mundo da luz — não como um ser que ressuscitou por completo, mas como uma parte viva do coração e da alma de Orfeu. Nesse sentido, remoer nossas perdas nos condena a viver com nosso sofrimento, sem ajuda ou libertação, e nossa perda é maior do que se pudéssemos suportá-la, confiando em que a vida continua a ter um propósito.
Talvez seja inevitável que, ao sofrermos uma perda, tenhamos que viver nas trevas por algum tempo e elaborar as etapas do luto, que têm seu tempo e ciclo próprios. O luto é um processo complexo e pode envolver raiva, desespero, idealização, negação, culpa, autoacusações, responsabilização de terceiros e um período de depressão e entorpecimento, até que a vida volte a pulsar em nós. Ele não é um processo coerente, pois nossa dor pode surgir e nos inundar em momentos inesperados, e temos de estar dispostos a permitir que isso aconteça. Essa talvez seja também uma forma de compreender a ordem de Hades, “não olhes para trás!” É que, na verdade, ao olharmos para trás, tentamos cristalizar o momento e abreviar o processo de luto, que só traz em si o potencial de cura quando deixamos que ele siga seu próprio curso. Ficamos incomodados quando outras pessoas prolongam o luto por mais tempo do que nos parece cabível. Temos alguma ideia do prazo que é razoável para o luto e do que devemos sentir a respeito dos que perdemos. Entretanto, cada pessoa é diferente das outras, e esse processo se dá de maneira diversa em cada um de nós. Parar de olhar para trás exige que renunciemos à crença cega em que a vida abrirá uma exceção para nós; e devemos confiar no processo natural do luto, seja qual for sua duração, e por mais inaceitáveis que sejam as emoções que ele desperta em nós. Dessa maneira, descobrimos de fato uma vida eterna, no amor compartilhado com aqueles que perdemos. E por fim chegamos ao outro lado do luto, descobrindo que a aceitação serena, e não a resignação amarga, permitiu que a vida tornasse a fluir dentro de nós.

(Liz Greene & Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos)

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publicado às 21:54



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