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OLHAR TEÓRICO: A AGONIA DO MUNDO

por Thynus, em 30.05.16
“SONHAMOS EM SER
IMORTAIS MAS
SEMPRE ACABAMOS
POR EXPERIMENTAR O
MUNDO FINITO E
O LIMITE DE NOSSOS
SONHOS.”

 
Senso comum e olhar científico
Antes de avançar, um reparo teórico importante. Não lido com a ideia de uma história “integrada” ou “orgânica”, portadora de um “telos” (sentido) como é a História para Hegel ou Marx; prefiro abordagens como a do sociólogo americano Daniel Bell em sua obra magistral The Cultural Contradictions of Capitalism. Se você pensa, como eu, que o mundo contemporâneo tem problemas, mas não crê na religião de Marx, leia esse livro. Penso que a esquerda só atrapalha nosso esforço de compreensão das contradições do capitalismo, justamente porque ela é infantil e mitológica em sua visão de mundo.
Para Bell, a sociedade e a História são “disjuntivas em suas dimensões constituintes”, ou seja, não está indo para lugar nenhum e é bem contraditória se somarmos todos os elementos que compõem a sociedade e a vida como um todo. Não há integração ou organicidade nenhuma, nem essa bobagem de que está na moda falar: vivemos numa “sociedade em rede” em que as pessoas se comunicam cada vez mais construindo um mundo melhor. O fato das pessoas se comunicarem e de haver relações econômicas globais e computadores “que se comunicam”, não implica “redes” de significado integrado ou processual, isto é, não há nenhum avanço total da sociedade. Cada pessoa ou grupo se move em culturas de significado e valores distintos e conflitantes, como diria o filósofo britânico Isaiah Berlin, no século XX. Cada um vê o mundo de um jeito e muitas vezes de formas antagônicas e excludentes. No Brasil, essa bobagem atingiu mesmo o nível político partidário (“A Rede”) para fingir que não é partido. Como se darmos as mãos imaginariamente num grande círculo de “boa vontade” fosse um ato possível. Até Jesus, aquele visionário ingênuo, não acreditaria em “abraçar” o planeta como forma de amor. Essa ideia é um caso típico de bens invisíveis de consumo que os inteligentinhos adoram cultuar em seu jantares seguros e chiques na zona oeste de São Paulo. O “bem” virou mais um objeto de consumo.
A disjunção da qual fala Bell (o fato de a história não estar indo para lugar nenhum e viver em conflito consigo mesma) se dá entre as dimensões que, segundo ele, compõem a sociedade, a saber:
1. Estrutura tecnoeconômica, responsável pela geração e distribuição da produção que visa reduzir a escassez natural da condição humana (a vida é pobre e frágil e lutamos contra isso o tempo todo).
2. Política, instância que gera e administra o poder e a violência legítima numa sociedade (a organização de quem manda e quem obedece de forma legal).
3. Cultural, dimensão que produz, organiza e distribui os significados que tornam uma sociedade uma identidade de sentido (as religiões, assim como as tendências de comportamento, nascem nessa dimensão, apesar de se materializarem também nas duas anteriores). Essa identidade de sentido nos diz quem somos e por que vivemos do modo que vivemos.
A disjunção dessas três dimensões se dá dentro das sociedades modernas avançadas (conceito muito mais geopolítico e cultural do que geográfico ou temporal), gerando conflitos contínuos dentro da estrutura, causando problemas intermináveis a serem administrados pelas instâncias responsáveis por cada uma delas ou pelo conjunto disjuntivo (ou desintegrado) da vida social, política e cultural.
Assumo essa disjunção como pano de fundo amplo do que chamo “era do ressentimento” e de “contemporâneo”. Ambos os conceitos se estendem pelas três dimensões, apesar de que nascem na cultural e é prioritariamente nela que me movo ao longo desses ensaios e aforismos, mesmo quando resvalo em temas tecnoeconômicos ou políticos. O fato de a sociedade contemporânea ser cada vez mais disjuntiva (conflituosa, contraditória, sem nenhuma cura possível) em sua operação, faz com que o movimento de nossa História tenda cada vez mais ao conflito e jamais a um “mundo de paz e igualdade”, como falam os idiotas do bem. Estamos mais no âmbito do agon grego (conflito, agonia) do que do messianismo barato que sustenta o marxismo hegeliano.
Não há nenhuma metafísica nesse mundo em que me movo (como há no marxista), apenas homens e mulheres numa batalha cotidiana para lidar com essa disjunção que atravessa a nós todos, do trabalho ao amor, do consumo às crenças religiosas, dos sonhos noturnos aos pesadelos da vigília diurna.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

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 O olhar que evita as posturas relacionadas ao senso comum é o olhar do estranhamento.

 

 
 

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