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ULISSES: para alguns, filho de Laertes, para outros, filho de Sísifo. Um dos maiores heróis gregos e
célebre pela engenhosidade e esperteza. Esteve na Guerra de Tróia, tendo sido o autor do
embuste do cavalo de madeira que pôs fim à guerra. No regresso, enfrentou uma série de
percalços para poder chegar a salvo em sua Ítaca natal, onde teve ainda de enfrentar os
pretendentes à mão de sua esposa Penélope, que por pouco não dilapidaram todos os seus bens.

(Mário da Gama Kury - Dicionário de mitologia grega e romana)

 

Ligado à fundação de Lisboa desde os autores greco‑latinos, devido a uma falsa etimologia (Ulisses > Olissipo), muito habilmente explorada, por motivos políticos, pelos nossos humanistas do Renascimento, num propósito de afirmar a existência de Portugal como país independente e autónomo face às ambições de Castela –, o mito de Ulisses tem uma presença muito forte na épica, desde Os Lusíadas (1572), até aos poemas epigónicos de Gabriel Pereira de Castro e de António Sousa Macedo, como Ulisses ou Lisboa Edificada (1636) e Ulyssipo (1640), respectivamente.

Toda esta tradição literária iria o Fernando Pessoa da Mensagem (1934) metê‑la num só e curto poema. Nele, Ulisses, como fundador de Lisboa, inaugura, qual pórtico emblemático, a galeria de figuras heróicas e simbólicas da História de Portugal, esculpidas numa escrita densa, críptica, ocultista, sibilina, recortada nos moldes epigramáticos da Antologia Grega, que o poeta conhecia pela tradução do inglês Paton.

O mito de Ulisses como fundador de Lisboa não escapou a Eça de Queirós, que a ele alude com ironia e em tom paródico. Mas em A Cidade e as Serras, Zé Fernandes, ouvindo a leitura da Odisseia por Jacinto, embalado pela imaginação, recria, entre a vigília e o estado onírico, esse mítico e fantástico mundo mediterrânico, teatro das aventuras e errâncias do mítico herói, na demanda da Ítaca natal, tudo recortado num «Amar muito azul», como pano de fundo. Bem mais sério e importante que este efeito de evasão no espaço e no tempo, foi a leitura que dessa figura mítica fez Eça de Queirós, apresentando‑o como paradigma e imagem especular da humanitas, de uma condição humana de que o homem abdica, hipotecando a sua identidade a ídolos alienantes. Ao revelar ao homem a maneira como deve recuperar e assumir a humana condição, Ulisses toma‑se em Eça de Queirós o fundador não da cidade física, mas da polis humana, a cidade dos homens. É o que acontece no conto «A Perfeição» (1902: 313‑344).
MANUEL DOS SANTOS ALVES - O Mito de Ulisses ou a queda na História

 

ULISSES 

O mito é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mito brilhante e mudo –

O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.

Este que aqui aportou,

Foi por não ser existindo.

Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo

E nos criou.

Assim a lenda se escorre

A entrar nas realidade,

E a fecundá-la decorre.

Em baixo, a vida, metade

De nada, morre.
(Fernando Pessoa)

 

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Nausicaa e Ulisses 

Certa manhã, na Ilha de Feácia, a princesa Nausícaa divertia-se à beira do mar com suas damas de companhia. Era filha do rei Antínoo, governante da ilha. Ela tinha ido lavar roupas com suas servas no rio.
Terminada a tarefa, as moças se divertiam jogando bola na espuma das ondas. Às vezes, a princesa lançava um olhar melancólico ao horizonte. Tudo o que enxergava era água e mais água: a Feácia era um país isolado, perdido nos mares que cercam a Grécia.
Nausícaa perguntava-se se algum dia conheceria outro lugar além de sua ilha natal.
Era improvável. Estava em idade de se casar, e todos os seus pretendentes eram rapazes obtusos e acomodados. Subitamente irritada, Nausícaa chutou a bola para longe. “Chega de brincadeiras”, disse às servas. Nausícaa lançou um último olhar ao horizonte azul, à areia branca da praia – e, nesse momento, todas as moças levaram um grande susto. Um vulto desgrenhado e coberto de lama havia saído do meio dos arbustos e caminhava em direção a elas.
O homem tinha olhos azuis e havia muito não aparava a barba. Seu único arremedo de vestimenta era um ramo de oliveira, que ele segurava junto à cintura. Apesar da lama que o cobria, Nausícaa pôde ver que tinha mãos grandes e fortes. As damas de companhia debandaram, apavoradas. Mas Nausícaa se manteve onde estava. Era uma princesa da Casa Real da Feácia. Não seria tão fácil fazê-la correr.
– Apresente-se, estranho – ela ordenou. Para seu espanto, a assustadora figura não falou com voz rouca ou sinistra – mas com palavras suaves, empostadas e convincentes.
– Sou um pobre náufrago, e estou à sua mercê – disse. – Eu me jogaria a seus pés e beijaria seus joelhos agora mesmo se não estivesse paralisado diante de sua beleza, e se não estivesse tão sujo.
 Aquelas palavras imediatamente arrefeceram a desconfiança de Nausícaa. O forasteiro contou-lhe que esteve durante dias ao sabor das ondas, vindo da Ilha de Ogígia, a muitas léguas de distância. Os ventos da tempestade destruíram sua frágil jangada e o lançaram ali, naquela terra para ele desconhecida. A Feácia era um país tão isolado que poucos viajantes haviam aportado em suas praias. Ainda assim, os feácios tinham o costume de tratar os raros visitantes com a maior cortesia e hospitalidade. Seguindo a tradição, Nausícaa ordenou às servas que dessem ao estranho uma das roupas que haviam lavado. Depois, sugeriu sutilmente ao forasteiro que se banhasse no rio. Minutos mais tarde, o náufrago estava limpo e bem vestido. Era um homem maduro, com o rosto marcado por intempéries e peripécias – um rosto de quem correu o mundo e já viu muitas coisas na vida. Mentalmente, Nausícaa comparou aquele belo espécime com os tolos garotos que lhe faziam a corte. De novo, sentiu-se irritada. – Vamos – ela disse, chutando uma pedrinha sobre a areia –, meus pais irão recebê-lo.
O hóspede era estranhamente esquivo em relação à própria identidade – mas sua lábia e seu cavalheirismo compensavam o mistério.
Mesmo sem dizer seu nome, o forasteiro caiu nas graças do rei, da rainha e de toda a corte. O rei Antínoo empolgou-se tanto com o hóspede anônimo que lhe ofereceu um grande banquete. Todos os nobres da Feácia compareceram. Para divertir os convivas, o soberano convocou um aedo – espécie de bardo da Grécia antiga, que contava histórias ao som da harpa. Dedilhando as cordas do instrumento, o aedo começou a cantar uma história que já era famosa: a do Cavalo de Tróia. A mais célebre das guerras havia terminado cerca de dez anos antes – as façanhas de Odisseu, Aquiles e Ájax já eram conhecidas em toda a Grécia. A audiência feácia sabia de cor o nome dos heróis da Guerra de Troia e também seu destino – Aquiles fora morto por uma flecha no calcanhar; Agamênon fora assassinado pela esposa, Clitemnestraa, ao retornar para casa; Menelau descansava agora em Esparta, com sua esposa, Helena, a causa de tanta mortandade. Havia apenas um herói cujo destino permanecia obscuro: Odisseu. Sabia-se apenas que ele desaparecera no mar, tentando retornar à sua Ítaca natal. A esposa, Penélope, o pai, Laertes, e o filho Telêmaco o aguardavam em vão. Todos os convivas estavam com os olhos e os ouvidos fixos na canção do aedo, que falava da construção do cavalo de madeira e do ataque noturno liderado por Odisseu e Aquiles. Nesse momento, o rei Antínoo percebeu algo estranho: o forasteiro sem nome escondera o rosto sob o manto, e seus ombros se mexiam convulsivamente. Estava chorando.
O rei decidiu que estava na hora de acabar com o mistério. Quando terminou a canção, ele se levantou e disse: – Agora chega de artimanhas, meu amigo! Com certeza, não existe no mundo nenhum homem sem nome. Afinal de contas, quem é você?
O estranho se ergueu, com a face molhada de lágrimas. Agora todos os rostos se voltavam para ele.
 Pois bem – disse o estranho. – Sou Odisseu, filho de Laertes, célebre em todo mundo por minhas façanhas e por minha astúcia. Agora, ouçam minha história: vou lhes contar o estranho trajeto que os deuses traçaram para mim, começando naquele momento, dez anos atrás, em que parti de Tróia rumo ao lar.
E, com isso, o mais estranho, charmoso e ambíguo dos heróis gregos começou a narrar suas desventuras e trapaças, diante da atônita audiência, e olhando de tempos em tempos para a princesa Nausícaa, que o fitava cheia de deliciada perplexidade.
As aventuras de Odisseu no cerco de Tróia são narradas na Ilíada – mas suas desventuras no mar são o tema de outro poema também atribuído a Homero, a Odisseia. Após conquistarem Tróia, os guerreiros helenos entraram em seus navios e zarparam para suas terras. Todos chegaram lá em questão de meses – mas a frota de Odisseu, soprada pelos ventos do destino, acabou perdendo-se em uma fantástica geografia de perigos, maravilhas e tentações. Uma ironia perfeita: de todos os heróis gregos, Odisseu era o menos interessado em grandes feitos e durante dez anos desejou apenas retornar a casa. Havia destruído Troia apenas para poder voltar a Ítaca. Mas estava fadado a passar outros tantos anos perambulando pelo mundo, arrastado de desventura em desventura, e contando apenas com sua famosa astúcia para conseguir reencontrar o caminho tantas vezes perdido - numa inexplicável mistura de sorte, esperteza e azar que o transformou no maior viajante dos antigos mitos.
A primeira parada nessa mirabolante travessia foi a Ilha dos Lotófagos. O país tinha esse nome porque seus habitantes se alimentavam do lótus: um fruto mágico que apagava todas as lembranças. Os lotófagos eram criaturas desmemoriadas e felizes: viviam num eterno presente, desconhecendo o passado e sem pensar no futuro. Alguns dos marujos de Odisseu experimentaram a guloseima local: imediatamente, esqueceram-se do lar e resolveram ficar para sempre naquela maravilhosa amnésia. Odisseu teve de arrastá-los à força de volta aos navios e partiu dali o mais rápido possível. Ele ainda passaria por muitos perigos, mas o primeiro talvez tenha sido o maior deles: as delícias do esquecimento são uma tentação à qual é difícil resistir.
Após alguns dias de viagem, a frota avistou uma ilha rochosa, coberta por névoas. De longe, escutavam-se balidos de cabras e ovelhas e vozes ásperas ecoando entre os penhascos. Sombras colossais moviam-se em meio à neblina. Odisseu e seus marujos já tinham ouvido falar daquela ilha: era o país dos Cíclopes, gigantes de um olho só, que viviam afastados de todas as outras criaturas, pastoreando seus rebanhos.
Odisseu estava decidido a ver de perto aquelas criaturas. Após desembarcarem numa praia, ele e seus companheiros se aventuraram até uma caverna nas vizinhanças. Como de praxe naqueles tempos, Odisseu levava consigo um presente para oferecer a possíveis anfitriões. Era um vinho fortíssimo e de sabor indescritível, que trouxera da Ilha de Ismaura. Acompanhado de alguns marinheiros, e com sua dádiva etílica em mãos, Odisseu entrou na caverna. Junto às paredes de pedra, havia grandes cestas de vime cheias de lã e imensas tigelas com leite fresco. Pelo chão, havia uma sortida coleção de cajados de pastor – cada um deles do tamanho de um mastro de navio.
Então uma sombra cobriu a entrada da caverna. O proprietário da monstruosa residência estava chegando. O Cíclope entrou tangindo seu rebanho. Tão logo o último cordeirinho passou, o gigante lacrou a boca da caverna com um pedregulho. Ao ver os intrusos, ele franziu o cenho de forma nada hospitaleira. Odisseu pigarreou e deu um passo à frente. Falando em palavras açucaradas e suaves, como sempre, lembrou o gigante sobre as leis da hospitalidade, respeitadas por deuses e por mortais. O cíclope soltou uma gargalhada furiosa.
– Eu sou Polifemo, filho de Posêidon! Em minha caverna, não há outra lei além de minha vontade.
E, transformando suas palavras em ações, apanhou dois gregos, esmigalhou suas cabeças e devorou-os. Horrorizados, Odisseu e os demais marujos se encolheram no fundo da caverna, enquanto o sangue dos companheiros espirrava pelo chão.
As sinistras refeições tornaram-se rotina. Todos os dias, o cíclope levava seus rebanhos para pastar, deixando a caverna selada. Voltava de tardezinha, e matava a fome degustando dois gregos antes de dormir.
Odisseu, tentando manter a racionalidade no meio daquele espetáculo de horrores, cogitou trespassar o coração do gigante durante o sono. Mas como fariam para abrir a porta da caverna? Se matassem o cíclope, ficariam presos para sempre. Odisseu ponderou tudo isso e, certa manhã, concebeu um estratagema.
Quando o cíclope partiu novamente para apascentar suas ovelhas, Odisseu apanhou um dos cajados colossais, com a ajuda dos companheiros, e afiou-lhe a ponta a golpes de espada. Naquela noite, ofereceu ao captor antropófago o odre com o vinho de Ismaura.
– Isso vai lhe ajudar a digerir – disse o herói.
O gigante secou o odre. O vinho era tão forte que até a dantesca cabeça do Ciclope ficou estonteada.
– Um presente magnífico – exclamou o gigante em meio a sua bebedeira. – Agora me diga o seu nome, para que eu lhe devolva essa gentileza em espécie.
– O meu nome – responde Odisseu – é Ninguém.
– Excelente, meu caro Ninguém! Agora, eis o meu presente para você: vou devorá-lo por último. – E com isso, o Cíclope mergulhou num sono profundo.
Odisseu não perdeu tempo. Com a ajuda dos cinco marujos sobreviventes, ergueu a lança improvisada e atravessou o olho do seu captor. Com um grito, Polifemo arrancou o chuço da órbita: estava cego. Seus berros de raiva chamaram a atenção dos compatriotas.
Em breve, vozes chegaram de fora da caverna:
– Polifemo, que mal o aflige? Quem o feriu? – perguntavam os Cíclopes.
– Ninguém! – gritou Polifemo. – Ninguém me feriu! Ninguém está escondido em minha caverna! Ninguém quer me matar! Convencidos de que seu primo havia enlouquecido, os demais Cíclopes foram embora.
Polifemo urrou, esbravejou, bateu as mãos na parede – tudo em vão. Os gregos estavam bem escondidos em um recanto da caverna. O Cíclope cego não conseguiu encontrá-los. Na manhã seguinte, as ovelhas começaram a balir de fome. Sem outra alternativa, o pantagruélico pastor teve de abrir a caverna para deixá-las pastar. Na medida em que o rebanho saía, ele ia apalpando os lombos lanudos – sem desconfiar de que seus prisioneiros arrastavam-se sob as barrigas das ovelhas. Finalmente livres, Odisseu e seus companheiros voltaram aos navios.

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Polifermo e Ninguém
Vendo afastar-se a Ilha dos Cíclopes, Odisseu não imaginava que naquele momento sua frota era observada pelos olhos irados de Posêidon, deus dos mares e pai de Polifemo. O senhor dos oceanos planejava uma longa e dolorosa vingança. A curiosidade de Odisseu haveria de custar-lhe anos e anos vagando pelo mar, longe de casa, sem destino certo, sem família, sem fortuna – como se fosse mesmo ninguém.
Logo após a assustadora parada na Ilha dos Cíclopes, Odisseu desembarcou na Eólia, terra governada pelo rei Eolo. Era um soberano tão justo e ponderado que os deuses o haviam transformado em Guardião dos Ventos. Em uma alta torre, ele mantinha aprisionados os ventos Norte, Sul, Leste e Oeste, libertando-os apenas sob ordem divina. Odisseu entreteve o rei com histórias sobre a Guerra de Tróia. Agradecido e encantado, Eolo lhe deu um presente: os irritadiços ventos Norte, Sul e Leste, bem presos em um saco.
– Mantenha-os encerrados aí dentro e não os solte sob hipótese alguma. Assim, você chegará com segurança e sem tempestades à Ítaca.
Eolo deixou solto apenas o suave Zéfiro, o vento Oeste, que se encarregou de soprar a frota de Odisseu rumo à terra natal. Odisseu passou a viagem encerrado em sua cabine, agarrando com força o saco que continha os ventos. Temia que um deles escapasse por engano e soprasse a frota para longe. Quando estava apenas a algumas horas de viagem de Ítaca, o comandante da esquadra caiu no sono. Sua tripulação havia dias vinha arrastando o olho para aquele presente. – O que haverá de tão precioso naquele saco? – perguntavam-se alguns marujos. – Se é um tesouro tão valioso, nosso capitão deveria dividi-lo conosco.
Aproveitando-se do sono exausto de Odisseu, os marinheiros abriram o saco. E um uivo ensurdecedor encheu a terra e o céu. Os três ventos escaparam, enredando-se uns nos outros e formando um repentino furacão.
Odisseu acordou a tempo de ter um vislumbre de sua terra natal: entreviu as colinas verdes e os camponeses acendendo fogueiras. Mas logo em seguida a frota foi arrebatada por enormes vagalhões. Empoleirados nas cristas espumosas, os navios foram arrastados para longe, e o lar afastou-se, afastou-se, afastou-se até desaparecer no encapelado horizonte.
Após a quase chegada a Ítaca, as desgraças passaram a se acumular sobre a pobre frota de Odisseu – era Posêidon, que ia dosando sua vingança com calculada crueldade, jogando Ninguém de uma catástrofe para outra. Nem bem escapou à fúria dos ventos, a esquadra grega foi parar na terra dos Lestrigões – uma feroz nação de canibais que acabou devorando 11 das 12 tripulações de Odisseu. Os poucos sobreviventes escaparam num único barco. Após algumas semanas em alto-mar, chorando a triste sina dos amigos devorados, eles aportaram em uma ilha aparentemente tranquila e acolhedora. Havia colinas suaves e florestas serenas, e a terra emanava uma luz tênue e docemente fantasmagórica, como se o lugar estivesse mergulhado em um eterno crepúsculo. Estonteados e exauridos pelos últimos eventos, os marinheiros se convenceram de que a maré de azar finalmente estava recuando: além da aparência paradisíaca, a ilha recém-descoberta contava com uma fauna abundante e suculenta. Após um dia inteiro caçando veados e javalis, Odisseu e seus amigos se refestelaram com um pródigo churrasco. Mais tarde, contudo, ficou evidente que aquele éden zoológico escondia algum tipo de pesadelo. Um grupo de gregos se aventurou no interior da ilha. Apenas um deles retornou ao acampamento, trazendo uma história escabrosa.
– Encontramos um palácio de inacreditável beleza e fomos acolhidos por uma ninfa deslumbrante – contou o marinheiro, chamado Euríloco. – Ela disse ser a rainha desta ilha e nos convidou para um banquete. Serviu-nos uma bebida saborosa, mas estranha. Em seguida, fez alguns gestos com uma varinha, disse meia dúzia de palavras que não compreendi e todos os nossos amigos se transformaram em porcos! Consegui fugir, apavorado. Olhei para trás, vi a feiticeira trancafiar nossos companheiros em uma pocilga, escutei sua gargalhada. Então corri como louco até chegar aqui.
Odisseu logo compreendeu: aquela ninfa cruel e caprichosa certamente era Circe, temível feiticeira, conhecida pelo passatempo de transformar homens em animais.[Há quem diga que os transformava a todos em porcos antes mesmo de perguntar como se chamavam; quem por sua vez afirma que, antes de ir com eles para a cama ou depois, transformasse um em leão, outro em touro ou em rã ou em galo. Outros dizem, finalmente, que na realidade não os transformava, mas, simplesmente conseguia revelar aquilo que já eram fazendo aflorar a sua natureza escondida de porcos ou de burros.
Filha do sol e de uma ninfa, ambiguamente oscilante entre deusa e maga, femme fatale e dama socorredora, amante vingativa e divindade benigna, prostituta e mãe de heróis, senhora da natureza selvagem e mestra de refinados luxos, desde há séculos a figura de Circe modula-se sobre a dupla natureza dos fármacos a que está confiado o seu poder: poções potentes, em grau de produzir lúgubres degradações, mas também luminosas sublimações, capazes de tornar o indivíduo melhor ou talvez de transformá-lo em deus. A figura de Circe como pérfida sedutora continuará a ser composta e recomposta por séculos até às imagens fin de siècle de mulher «besta», pronta a enganchar os machos na sua sexualidade omnívora e felina. O lado positivo do poder de Circe será por sua vez redescoberto pelas artistas do Novecentos, para as quais Circe torna-se figura da mulher moderna, livre e consciente, capaz de contestar os estereótipos da cultura heróica patriarcal («Não estás cansado de matar? - pergunta a Odisseo a Circe de Atwood. - Não estás cansado de dizer Avante?»), mas também símbolo dos riscos de isolamento e das dificuldades de comunicação com o outro sexo ínsitas na nova condição feminil]

Decidido a salvar seus amigos daquele destino, Odisseu pegou sua espada e partiu sozinho rumo ao palácio de Circe. No meio do caminho, foi abordado por uma aparição: um jovem com sandálias aladas e rosto luminoso. Era o deus Hermes, que se compadecera vendo tantas desventuras e, às escondidas de Posêidon, resolvera dar uma ajuda ao nosso herói.
– Beba isso – ele disse, entregando um frasco a Odisseu. – É um antídoto contra a poção mágica de Circe. E não deixe que ela saque a varinha encantada. Outro conselho: ela tem uma queda por homens rudes. Use isso em seu proveito. – Hermes piscou um olho matreiro e desapareceu como um raio no espaço.
Bem provido e bem aconselhado, Odisseu chegou ao palácio. Circe o recebeu com falsa cortesia e o convidou para um jantar a dois. Serviu-lhe a poção encantada, dissimulando um sorriso, mas Odisseu estava protegido pelo antídoto de Hermes. Nem bem a feiticeira fez menção de levantar sua varinha, o grego saltou sobre ela de espada em punho e a apertou contra a parede. Circe, que realmente gostava de homens rudes, apaixonou-se na hora. Deixando cair a varinha, ela convidou o rústico hóspede para uma visita íntima ao seu quarto – onde Odisseu demonstrou ter outras habilidades além da eloquência.

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Após várias noites bastante ocupadas, Circe concordou em libertar os amigos de Odisseu e devolvê-los a sua forma original. Com efeito, a ninfa estava tão deleitada com a performance de seu hóspede que resolveu ajudá-lo em sua viagem de volta. Entregou-lhe um mapa dos mares vizinhos e fez uma profecia: antes de chegar a Ítaca, Odisseu teria de viajar para o mais extremo e perigoso dos destinos – o Hades, reino subterrâneo habitado pelos mortos.(1) Lá, Odisseu deveria falar com o espírito do cego Tirésias, o mais célebre adivinho da Grécia antiga.

Seguindo os conselhos de Circe, Odisseu dirigiu seu navio na direção do Sol poente. Navegou até os confins ocidentais do mundo, terras soturnas, cobertas por uma noite eterna – e chegou ao Rio Oceano, um gigantesco anel de águas que envolvia toda a Terra. Lá, desembarcou em um promontório coberto por bosques negros. No fundo da floresta, estava a entrada do Hades. Odisseu penetrou na cinzenta região dos mortos.(2)
Atravessou os três rios infernais: o Aqueronte, o Estige e o Letes. Chegou a uma planície tétrica e silenciosa, habitada por sombras espectrais, e invocou o fantasma de Tirésias. O adivinho aproximou-se em meio aos nevoeiros do além, apoiado em seu cajado.
– Odisseu, já conheço sua variada fama e seus muitos descaminhos – disse o vate em voz rouca. – Agora escute meu conselho. Para levar seus homens de volta a Ítaca, você deve ficar longe da Ilha de Hélios, onde o deus do Sol guarda seus rebanhos sagrados. Não pise nessa terra, Odisseu, pois ela será a ruína de seus companheiros.
Após essas enigmáticas palavras, o fantasma do adivinho lhe deu as costas e voltou a mergulhar na nebulosa distância. Odisseu estreitou os olhos e divisou uma multidão de espectros. Pouco a pouco, foi reconhecendo feições familiares: lá estava o orgulhoso Agamênon e o feroz Aquiles, seus irmãos em armas; lá estava Heitor, seu nobre inimigo; e também Anticleia, sua mãe, que morrera a esperá-lo em vão. Com o coração pesado de sombras, o herói voltou as costas aos fantasmas e retornou ao perigoso mundo dos vivos.
Após a visita ao Inferno, a nau de Odisseu seguiu em direção a Ítaca. No entanto, Circe o havia prevenido: no caminho, passariam pela Ilha das Sereias. Com seus cantos hipnóticos, elas atraíam marinheiros extraviados para sua ilha – e lá os pobres náufragos morriam à míngua, sem pensar em outra coisa além da melodia mortalmente bela de suas captoras. À medida que o vento empurrava o barco rumo à Ilha das Sereias, Odisseu urdiu outro de seus planos. Primeiro, ordenou a todos os marinheiros que tapassem os ouvidos com cera de abelha. Assim, ficariam imunes ao canto. Odisseu, contudo, era curioso demais. Queria ouvir aquelas vozes que haviam conduzido tantos marinheiros à morte e escapar com vida. Por isso, ordenou aos marinheiros que o amarrassem ao mastro.
– Se eu ordenar que me soltem, não obedeçam.
O vento impeliu o navio para a costa rochosa da ilha. Subitamente, toda a brisa cessou. Dos altos rochedos, vozes melódicas e irresistíveis começaram a ecoar. Chamavam Odisseu pelo nome, convidavamno a se aproximar e lhe prometiam o conhecimento de todas as coisas entre os céus e a terra.
Tomado de súbito êxtase e loucura, Odisseu gritou para que seus marujos o soltassem. Naquele momento, seu único desejo era atirar-se às águas, nadar loucamente em meio àquelas notas musicais, entregar-se ao encantamento que o dominava. Mas os gregos, com os ouvidos tapados, continuaram a remar. Odisseu gritou até ficar rouco. Desmaiou. E o canto e as promessas das Sereias se perderam ao longe, entre os sussurros do mar.
Logo após escaparem à sedução das cantoras marinhas, os viajantes tiveram de enfrentar o mais horripilante obstáculo da jornada: o Estreito de Cila e Caríbdis. Era uma passagem entre dois paredões de pedra escarpada – de um lado, estava Caríbdis, um redemoinho capaz de engolir embarcações inteiras, e, do outro, espreitava Cila, um monstro com 12 tentáculos e dez cabeças de cão raivoso, que vivia empoleirado em um alto penedo. Primeiro, a nau de Odisseu soçobrou à beira de Caríbdis: o torvelinho de águas espumantes abria-se feito uma bocarra com léguas de largura – tão grande que lá embaixo se podia entrever as pedras esbranquiçadas do leito do mar. Os remadores conseguiram impulsionar o barco na direção contrária – mas, tão logo se afastaram de Caríbdis, os tentáculos de Cila apanharam uma dezena de marinheiros e os ergueram no ar. Gritando em desespero o nome de seu comandante, os marujos foram puxados para o alto do penhasco e destroçados pelas presas ferozes do monstrengo, entre rolos de neblina borrifada de sangue.
Após o pavoroso ordálio nas mandíbulas de Cila e Caríbdis, a nau grega encontrou uma praia calma e aprazível para descansar. Era um lugar verde, ensolarado, soprado por uma brisa suave e quente. Nas baixas colinas, pastavam bois de chifres enrodilhados.
Os marinheiros estavam deleitados após tanto sofrimento. Mas Odisseu, que já se acostumara a desconfiar do destino, não se deixou enganar pela aparente calmaria. Consultando o mapa de Circe, constatou que estavam na Ilha de Hélios, o deus do Sol. Lembrou-se imediatamente da profecia de Tirésias.
– Temos de partir agora mesmo – ele ordenou. Mas seus marinheiros, que já não aguentavam rodar de um lado para outro sobre as ondas, ameaçaram amotinar-se: não arredariam pé daquela ilha antes de estarem todos bem descansados e alimentados. Odisseu nada pôde fazer. Com as mãos na cabeça e olhar ominoso, ele assistiu impotente a seus amigos se lançarem com voracidade sobre os bois sagrados do Sol. Repimpados após uma orgia de carne assada, os marinheiros voltaram ao navio, que balançou docemente sobre as ondas calmas – até que um relâmpago desceu do céu azul, incinerou a embarcação e matou todos os marinheiros. Era a vingança de Zeus, que recebera as queixas indignadas do deus do Sol. Apenas Odisseu sobreviveu, agarrado a um pedaço de mastro chamuscado. E foi assim que chegou à Ilha de Ogígia, governada pela ninfa Calipso. A deusa-rainha já ouvira falar dos dotes masculinos de Odisseu (Circe não era muito discreta com esses assuntos). O pobre herói foi mantido em uma espécie de prisão amorosa na Ilha de Ogígia por nada menos que sete anos – tendo de atender aos desejos insaciáveis de Calipso noite e dia, sem descanso. Finalmente saciada, ela deixou que Odisseu partisse em uma jangada improvisada. As tempestades de Posêidon o haviam lançado, finalmente, nas praias da Feácia.
– E aqui estou – disse Odisseu, por fim, sentando-se após a longa narrativa, com um suspiro de profundo, interminável, indescritível cansaço.
Com seu relato, Odisseu comoveu e fascinou toda a corte da Feácia – especialmente o rei e sua filha. Naquela mesma noite, enquanto o banquete prosseguia, Antínoo chamou o ilustre hóspede para uma conversa a sós. Pondo-lhe a mão no ombro, foi tecendo comentários sobre as aventuras de Odisseu e elogios à sua temperança – ao mesmo tempo, pouco a pouco, foi moldando, à base de indiretas, uma proposta sutil. “Que grande honra para Nausícaa se, em vez dos verdes garotões feácios, ela tivesse por marido um homem experiente, sofrido e testado nas agruras do mundo”, o rei disse, como quem não quer nada. E Odisseu – que já havia sobrevivido ao canto das Sereias, que escapara à voracidade de Cila e Caríbdis e que passara de coração incólume pelos possessivos afetos de duas semideusas – viveu naquele instante seu maior desafio. Estava cansado, infinitamente cansado. Para falar a verdade, não sabia que tipo de recepção o esperava em Ítaca – e se sua esposa, Penélope, houvesse cedido aos avanços de outro homem?(3) Afinal de contas, 20 anos haviam-se passado desde que Odisseu partira de casa. E a princesa Nausícaa, com sua inteligência, modéstia e simplicidade, fizera aquilo que as divinas Circe e Calíope haviam tentado sem conseguir: lançara na alma do herói vagamundo o desejo de ficar.
Resistir àquela tentação foi uma proeza que exigiu mais força e determinação do que todas as outras juntas. A última grande façanha de Odisseu em sua jornada pelo mundo foi recusar a mão da doce Nausícaa – a primeira pessoa, em toda aquela viagem, que o recebera sem tentar prendê-lo, matálo, devorá-lo e sem lhe dar presentes traiçoeiros. Alguns dias depois, na praia, a princesa observou um barco que se afastava pelo mar liso e sem ondas. A luz do Sol brilhou por um instante na vela branca. Depois a embarcação desapareceu no horizonte. Odisseu fora embora de Feácia. Fora para nunca mais voltar.
Vinte anos são 20 anos. Ao desembarcar em sua terra natal, Odisseu mal a reconheceu. Árvores agora cresciam onde antes havia só campinas. Em outros pontos, bosques tinham desaparecido para dar lugar a plantações. Mas o herói logo divisou algo familiar: os contornos de sua fortaleza, entre dois montes verdes. Respirou fundo e pôs-se a caminho. Nesse momento, contudo, sentiu-se envolver por uma espécie de neblina luminosa – sentiu um misto de medo e exaltação – e soube que sua amiga e protetora, a deusa Atena, estava nas vizinhanças.
– Eis-me aqui – disse Atena, surgindo diante de Odisseu com seus olhos verde-azulados e seu ar de elegante sabedoria.
– Já não era sem tempo – murmurou Odisseu, ousando introduzir uma leve reprovação no tom de voz. Ele e Atena eram velhos amigos – mas, nos últimos anos, ela havia desaparecido de sua vida. Deixara-o à mercê das intempéries e aos caprichos da fatalidade. Atena baixou os olhos brevemente e levou a mão aos cabelos, dissimulando o embaraço atrás de uma refulgente madeixa ruiva. Atena era tão bela e curvilínea quanto todas as deusas olímpicas – mas, diferentemente da maioria de suas parentas, vivia no mais completo celibato. Dedicara sua imortalidade ao culto da sabedoria e ao exercício das armas, jamais se entregando a deus ou a um mortal. Odisseu era a única criatura na Terra, no Olimpo ou nos Infernos capaz de deixá-la, vez por outra, com as pernas bambas.
– Perdoe-me, caro Odisseu, semelhante aos deuses – ela disse (“semelhante aos deuses” era o elogio que os heróis gregos mais gostavam de ouvir). – Mas, acredite, a culpa não foi minha. – Logo tratou de explicar que a ira de Posêidon é que a mantivera afastada. Por mais poderosa que fosse, Atena não era páreo para seu tio, cujas sísmicas oscilações de humor podiam sacudir os alicerces da terra e as profundezas do mar. Por sorte, Posêidon havia partido em uma longa viagem aos confins do mundo – fora visitar os Hiperbóreos, seus servos mais queridos, que viviam nas últimas margens do Oceano. A providencial ausência do deus dos mares havia permitido que Odisseu voltasse para casa.
Em seguida, a deusa contou-lhe o que andara acontecendo no palácio real nos últimos anos. Penélope estava cercada por insistentes e agressivos pretendentes. Mais de 100 nobres cortejavam a mão da rainha e o trono de Ítaca. Furioso, o príncipe Telêmaco partira na tentativa de encontrar o pai, mas voltara frustrado. Juntos, Odisseu e Atena urdiram um plano para livrar a casa real da praga dos pretendentes e, ao mesmo tempo, testar a fidelidade de Penélope. Num desses atos mágicos que parecem tão corriqueiros entre os deuses gregos, Atena alterou as feições de Odisseu, mudando-lhe o formato da barba e encurvando-lhe um pouco o nariz. E cobriu-o com roupas de mendigo. Assim, disfarçado pelo truque divino, Odisseu entrou no pátio de sua casa. Ninguém o reconheceu. Ou melhor – nenhum humano. Nem bem pisou a soleira do grande portão, o herói escutou um suave ganido. Olhou para o lado. Uma forma esquálida e de patas trêmulas estava a seus pés. Era Argos, o cachorro que havia acompanhado Odisseu em muitos passeios e caçadas. Já tinha quase 30 anos – um verdadeiro Matusalém canino. Durante duas décadas, havia aguardado o retorno do mestre. E o reconhecera, apesar do artifício de Atena. Segurando as lágrimas, Odisseu f1230054,14ez uma breve carícia na cabeça esfalfada do amigo. Argos esticou a cabeça, fechou os olhos e morreu.
Ninguém igualou a façanha de Argos.
Odisseu hospedou-se na própria casa sem que o disfarce fosse percebido. Para todos os efeitos, ele era apenas um mendigo andarilho. (Naquela época, os ricos tinham o costume de acolher e alimentar os pobres – já se vê que eram mesmo outros tempos.) Durante dias, engoliu a raiva observando os debochados e vorazes pretendentes que enchiam as peças de sua casa, bebendo o seu vinho, comendo a sua comida e jogando olhares cobiçosos para sua mulher. Diversas vezes, os jovens e arrogantes invasores lançaram injúrias àquele mendigo anônimo, que comia silenciosamente ao pé da lareira. Penélope – que continuava bonita após tantos anos decorridos – parecia resistir aos avanços com a mais perfeita dureza. Certo dia, o mendigo conseguiu aproximar-se da rainha e disse: “Seu marido está perto”. Nos olhos de Penélope, Odisseu divisou o mais sincero alívio e a mais profunda alegria. Sim, ela ainda me ama, ele concluiu. Antes de fazer a limpeza geral da casa, Odisseu revelou-se ao filho Telêmaco, que havia deixado quando era apenas um menino.
Nos 20 anos que se passaram, Telêmaco ficara obcecado com o paradeiro do pai. Enquanto muitos diziam que Odisseu só poderia estar morto, o jovem percorrera várias ilhas e mares buscando notícias dele – mas voltara a Ítaca sem nada descobrir. Lá, teve de suportar a petulância dos pretendentes que cobiçavam sua herança paterna. Agora, após uma longa conversa, pai e filho planejaram vingança. Aliciaram dois servos leais a Telêmaco – e começaram a afiar espadas.
Penélope havia decretado um desafio público. Na sala do trono, havia um grande arco que ninguém além de Odisseu jamais conseguira disparar. Não pela força – mas pelo jeito. Apenas Odisseu conhecia o modo correto de encurvar o arco e encaixar a flecha.
– Quem conseguir disparar este arco – declarou a rainha – terá a minha mão. O desafio era só uma artimanha para ganhar tempo: ela sabia que ninguém conseguiria usar a arma além do legítimo rei de Ítaca. Mas todos os pretendentes se candidataram a tentar – e, além deles, o mendigo sem nome.
Da turba de aristocratas ergueu-se uma retumbante gargalhada de desdém. Num canto, Telêmaco sorriu: “Vocês não perdem por esperar”.
Um por um, os candidatos tentaram e falharam. Chegou a vez do mendigo – que não apenas dobrou o arco como disparou a flecha no coração do pretendente mais próximo. Nisso, os dois servos leais entraram na sala carregados de armas e trancaram as portas. E a matança começou.
Odisseu, Telêmaco e os dois criados lutaram contra mais de 100 inimigos. Foi uma luta desigual. Desigual ao extremo: os pretendentes não tiveram a menor chance, pois Odisseu tinha do seu lado ninguém menos que Atena. Enquanto o arco era disparado repetidas vezes, Telêmaco e os servos derrubavam os inimigos que tentavam alcançar as portas – e Atena conferia força e precisão redobrada ao braço de seus protegidos.
Só após lavar a honra da casa e da família em um banho de sangue, o herói que mais rodou pelo mundo se revelou a sua esposa – a mais paciente das mulheres. E, naquela noite, o homem chamado Ninguém dormiu profundamente em sua cama, com a mulher que amava aconchegada em seu peito. Com que terá sonhado Odisseu naquela noite? Nenhuma canção, nenhum poema ou epopeia revela esse detalhe.
Talvez tenha sonhado com o mar.(4)

(José Francisco Botelho, Maurício Horta, Salvador Nogueira - Mitologia: Deueses, Heróis e Lendas)
 

 

NOTAS:


(1) Hades, o senhor do inferno. Ele também é chamado “Plutão”, que
significa “rico” e é como os romanos vão chamá-lo: ele reina sobre os mortos — de
longe a população mais numerosa, uma vez que a humanidade se compõe muito mais de
mortos do que de vivos. Se medirmos a riqueza de um rei pelo número dos seus
súditos, de fato, com certeza o senhor dos infernos é o soberano mais opulento do
universo.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

(2) - Para os gregos, o que caracteriza a morte é a perda da identidade. Os mortos são,
antes de mais nada, “sem-nome” ou mesmo “sem-rosto”. Todos que deixam a vida se
tornam “anônimos”, perdem a individualidade, deixam de ser pessoas. Ulisses, durante
a sua viagem, ao ser obrigado a descer aos infernos (Hades), onde estão aqueles que não têm mais
vida, é tomado por surda e terrível angústia. Contempla horrorizado todo aquele povo no
Hades. O que mais o preocupa é a indistinta massa de sombras que nada mais identifica.
Aterroriza-o o barulho que fazem: um barulho confuso, um burburinho, uma espécie de
rumor surdo dentro do qual não se pode reconhecer voz alguma e menos ainda qualquer
palavra que faça sentido. É essa despersonalização que caracteriza a morte aos olhos dos
gregos, e a vida boa deve ser, tanto quanto possível e pelo tempo que se puder, o contrário
absoluto desse tom acinzentado infernal.
Pois a identidade de uma pessoa passa por três pontos cruciais, sendo o primeiro a
sua inclusão em uma comunidade harmoniosa — um cosmos. Uma vez mais, o homem
só é de fato homem entre os homens e, em exílio, ele nada é — por isso, aliás, o
banimento da cidade, para os gregos, corresponde a uma condenação à morte, o castigo
supremo que se inflige aos criminosos. Mas há uma segunda condição: a memória, as
lembranças, sem as quais uma pessoa não sabe quem ela é. É preciso saber de onde
viemos para saber quem somos e para onde devemos ir. O esquecimento se revela,
com relação a isso, a pior forma de despersonalização que se possa conhecer em vida.
É uma pequena morte em plena existência, e o amnésico é o ser mais infeliz da terra.
Por último, deve-se aceitar a condição humana, isto é, apesar de tudo, a finitude. O
mortal que não aceita a morte vive em hybris, em descomedimento e com uma forma de
orgulho que beira a loucura. Ele se imagina o que não é, um deus, um Imortal, como um
louco se imagina César ou Napoleão.
Ulisses aceita — já lhe contei como, ao recusar a oferta de Calipso — sua condição
de mortal. Guarda tudo na memória e tem uma única ideia fixa: recuperar seu lugar no
mundo e repor sua casa em ordem. Nisso, ele é um modelo, um arquétipo da sabedoria
dos antigos.
(Luc Ferry - A Sabedoria dosMitos Gregos)

(3) Enquanto isso, Penélope aguardava, na esperança de que seu amado
encontrasse o caminho de volta para ela e Telêmaco. Na ausência dele,
chegaram a Ítaca muitos pretendentes, que tentaram convencê-la a desistir
de esperar Ulisses e casar-se com um deles. Todos cobiçavam a ilha, e além
disso Penélope ainda era muito bonita. Ela teve que descobrir um modo de
recusar os pretendentes (há quem diga que eles não eram menos de cento e
doze) e prometeu que, quando tivesse terminado de tecer uma mortalha para
seu sogro, escolheria um deles. Entretanto, embora tecesse arduamente por
longas horas durante o dia, à noite ela desfazia em segredo o trabalho diurno,
e com isso nunca terminava sua tarefa. Embora lhe fosse difícil continuar
acreditando no retorno seguro de Ulisses depois de vinte anos,
Penélope conseguiu manter sua confiança e sua fidelidade, e foi recompensada
com o retorno do marido e com seu feliz reencontro.
(Liz Greene, Juliet Sharman-Burke  Uma Viagem através dos Mitos, O significado dos mitos
como um guia para a vida)

(4) O mito de Ulisses e Penélope mostra um relacionamento
que resiste ao tempo, à tentação e à longa separação. Mas isso ocorre
unicamente porque os dois mantêm sua confiança um no outro, recusandose
a abrir mão de seus ideais comuns. Ambos são duramente testados e, vez
por outra, cometem erros; em algumas versões do mito, tanto Penélope
quanto Ulisses se entregam a outros amores, o que talvez seja
compreensível, considerando-se uma separação de vinte anos. Mas seu
amor e interesse um pelo outro e pelo filho os une de maneira absoluta e
sustenta a ambos em seus momentos mais difíceis. Na grande epopeia de
Homero, a Odisseia, Ulisses pensa em Penélope e Telêmaco todas as vezes
que corre o risco de se deixar apaixonar pelas várias mulheres que o tentam
ao longo do caminho. Elas conseguem seduzi-lo, mas não tocar seu coração
realmente, pois este já foi entregue.
A imagem de Penélope tecendo prendeu a imaginação dos leitores por
mais de dois mil anos. O que ela tece de dia e desfaz à noite é uma mortalha.
O que isso pode significar, como imagem do que sustenta sua
lealdade, mesmo ao lhe serem oferecidas companhias que poderiam pôr fim
à sua solidão? A mortalha traz o tema da morte — a morte do amor, o abandono
do passado, o rompimento de laços e vínculos antigos. Embora, nos
momentos em que está à vista de todos, ela continue a fazer seu trabalho,
Penélope o desfaz quando está sozinha, recusando-se a abrir mão do amor,
da lembrança e do passado tecido e compartilhado com o marido ausente.
Tecer é também uma imagem arquetípica da própria vida, uma trama
feita de muitos fios, experiências, sentimentos e acontecimentos diferentes.
Cada um de nós tem uma história singular, que começamos a tecer no nascimento
e concluímos na morte. Penélope se recusa a aceitar que a trama e a
tessitura de sua vida pregressa estejam completas; não busca o passado nem
o futuro; vive no aqui e agora, fiel a seus instintos e sentimentos, recusandose
a ser pressionada a abandonar a esperança, mas se recusando igualmente
a se tornar presa de fantasias infrutíferas. Na verdade, ela vive o momento,
plena e profundamente, e a mortalha que finge tecer é apenas um meio de se
proteger da importunação dos pretendentes. Essa capacidade de aceitar cada
momento tal como é, e de continuar fiel ao próprio coração, a despeito do
que os outros insistam em dizer que é a realidade, talvez seja a verdadeira
chave da capacidade de resistência desse casamento mítico. Para Ulisses, a
lembrança da mulher e do filho é o que o mantém comprometido com seus
valores e desejos mais profundos; a capacidade de Penélope de se manter
serena e calma no presente, recusando-se a dizer a si mesma que “o amor
acabou”, é algo que talvez tenhamos um imenso trabalho para encontrar. A
natureza do amor desafia o tempo, a distância e a perda física e, ao lado da
arte superior e dos momentos de visão mística, talvez seja a única coisa,
dentre as que podem ser experimentadas por nós, mortais, que nos permite
vislumbrar o eterno. Quando o encontramos, mesmo por breves instantes,
no contexto de uma relação próxima, descobrimos um dos grandes segredos
da imortalidade.
Também é interessante pensar que talvez seja o espaço entre essas duas
figuras míticas que possibilita sua fidelidade. Será que o amor de Ulisses e
Penélope teria sobrevivido à vida mundana corriqueira de Ítaca por vinte
anos, ou será que seus ideais um do outro, alimentados pela ausência e pela
saudade, ajudaram a manter vivo seu romance? Em seu livro O Profeta,
Kahlil Gibran (1883-1931) afirma a propósito do casamento:
Deixai que haja espaços em vossa união …
E permanecei juntos, porém não perto demais.
Pois as colunas do templo são separadas,
E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.

(Liz Greene, Juliet Sharman-Burke  Uma Viagem através dos Mitos, O significado dos mitos
como um guia para a vida)

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publicado às 22:07



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