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O VINHO E SUA CIVILIZAÇÃO

por Thynus, em 05.06.15
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Símbolo de uma civilização
Tão antigos quanto a história das civilizações, a vinha e o vinho sempre existiram, indissociáveis de nossas mitologias. (A mitologia pode ser definida como uma “filosofia em imagens” (BOTTÉRO J. “Le plus vieux récit du Déluge”, L’Histoire, n. 31, Paris, fev. 1981, p. 118)) A vinha é primeiro cultivada às margens do Cáucaso (vitis caucasica) e depois na Mesopotâmia (na região do atual Iraque). Depois é plantada no Egito, a partir do III milênio a.C., para a fabricação de vinhos funerários. Os gregos, pioneiros do vinho na Europa, transplantam a vinha para a Sicília e para a Itália meridional; mais tarde, apresentam a viticultura aos romanos que, por sua vez, transmitem suas habilidades vitícolas aos gauleses.

I. Uma bebida mítica
“Um mito é um conto de caráter especial, uma narração em que as divindades assumem um ou mais papéis principais”. (KRAPPE, A.H.. Mythologie universelle. Paris: Payot, 1930. p. 11) Ninguém duvida de que o vinho esteja totalmente de acordo com essa definição.
Na mitologia egípcia, é Rá, o deus solar criador do mundo, quem introduz o vinho e a embriaguez na Terra. Para preservar a espécie humana da ira da deusa Hathor, que os gregos identificaram com Afrodite, Rá prepara um licor inebriante cor de sangue. Em alusão ao estratagema divino, os egípcios colocavam o vinho, e todas as festas a ele ligadas, sob a égide da deusa de cabeça de vaca. Na mitologia grega, a vinha é dada por Dionísio, deus helênico do vinho e da embriaguez, ao rei Eneias como recompensa por ter-lhe emprestado sua mulher. A tradição grega também conta outra história, segundo a qual o pastor do rei Eneias, Stafilos (o cacho de uva, em grego), percebera que uma de suas cabras ficara alegre depois de comer uvas. Stafilos tomou então o cuidado de esmagar o fruto da vinha e recolher seu suco, inventando assim o vinho. Na mitologia romana, a introdução do vinho é atribuída a Saturno, deus das Sementes e da Vinha. Os romanos representavam Saturno com a foice do ceifeiro e a tesoura de podar do viticultor.
Quanto à mitologia gaulesa, esta coloca o tonel com aros de carvalho, invenção celta, sob os auspícios de Sucellus. Divindade céltica da floresta assimilada pelos romanos como o deus Silvano, representado com uma coroa de hera, uma tesoura de podar na mão e um martelo de tanoeiro nos ombros, Sucellus protegia, por assim dizer, a bebida líquida.
Nesses exemplos, a cultura da vinha aparece, mitologicamente falando, como o testemunho de uma era fabulosa em que os deuses viviam sobre a terra e o próprio vinho era considerado um mito vivo.

II. Na origem das civilizações
Os mitologistas e os filólogos estão de acordo quando dizem que o vinho está na origem das civilizações. Além da raiz sânscrita vena (amado), presente na etimologia da palavra “vinho” das diferentes línguas de origem indoeuropeia, as sociedades antigas consideravam o fruto da vinha uma bebida civilizatória. A exemplo das religiões pagãs à sua volta, a tradição bíblica sacraliza o vinho e faz dele um dom de Deus (Gênesis 27, 28).
A Escritura nos diz (Gênesis 8, 4) que o uso do vinho só é conhecido depois do Dilúvio. A Arca de Noé (o Noah hebreu) encalhara no monte Ararat, Buyut Agri em turco, o ponto culminante (5.165 m) das muralhas do Cáucaso, situadas entre a Turquia e a Armênia. Noé, “que era agricultor”, diz o Livro, foi o primeiro a plantar a vinha. (Uma canção popular do século XIX resume graciosamente o episódio bíblico: Noé, nosso Patriarca / Seria célebre pela Arca? / Não, seu título é mais belo, / É por ter plantado a vinha. / Convenha que foi digno, / De não morrer sob a água.) E o primeiro viticultor provou sua produção (Gênesis 9, 21):
Bebendo vinho, embriagou-se e ficou nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai e advertiu, fora, a seus dois irmãos. Mas Sem e Jafé tomaram o manto, puseram-no sobre os seus próprios ombros e, andando de costas, cobriram a nudez de seu pai; seus rostos estavam voltados para trás e eles não viram a nudez de seu pai. Quando Noé acordou de sua embriaguez, soube o que fizera seu filho mais jovem. E disse: “Maldito seja Canaã! Que ele seja, para seus irmãos, o último dos escravos!” (Em A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1989.)
A terra de Canaã, situada para além do deserto de Sinai, na costa oriental do Mediterrâneo, será portanto designada ao povo hebreu pelo profeta Moisés como a terra prometida por Deus. Os rituais da Páscoa judaica sempre evocam a saída do Egito e a passagem (Pessach, Páscoa, que quer dizer “passagem” em hebraico) dos filhos de Israel da escravidão à liberdade. A refeição da Páscoa judaica, ou Seder, é o fundamento da Ceia cristã (do latim cena, refeição da noite) e, portanto, do sacramento da Eucaristia. A comunhão cristã tem como origem direta os sacrifícios simbólicos que os helenos faziam durante uma refeição em grupo (o grego eukharistia – ação de graças – designa esse tipo de cerimônia pagã). A identificação da vinha com a Terra Prometida permanecerá, até se tornar o sinal tangível de uma aliança renovada entre Deus e os homens.
Mais tarde, a vinha mítica pouco a pouco sairá da Terra Prometida para por último representar a eleição de Israel. A transplantação simbólica da vinha das terras dos faraós à Terra Prometida era de fato percebida pelos hebreus como a prefiguração do Reino de Deus que, segundo o Evangelho de São Mateus (20, 1), é “semelhante a uma vinha”.
No início da era cristã, a esperança messiânica do judaísmo é expressa através de uma vinha mítica. Símbolo (Etimologicamente e originalmente, o símbolo é “um sinal de reconhecimento feito das duas metades complementares de um mesmo objeto. Por extensão de sentido, ele qualifica uma entidade, um conceito, um objeto, uma pessoa ou um relato representando outra entidade através de uma analogia essencial ou de uma convenção arbitrária.” [L. Benoist, Signes, symboles et mythes, Paris, 1975, p. 124. (Coleção “Que sais-je?”, n. 1605).]) do Reino de Deus, a vinha é também a personificação do Messias: “Eu”, dirá Jesus Cristo nas palavras de São João (15, 1), “sou a verdadeira videira, e meu pai é o agricultor”.
Tema recorrente da profecia bíblica (Na Bíblia, se fala 441 vezes da videira e do vinho, e, das 24 parábolas de Cristo, quatro evocam esse tema), o vinho é acima de tudo a origem da civilização de Israel.

III. A civilização do vinho
A partir de suas raízes caucasianas, a vinha estende seus dons da bacia mediterrânica às costas do Pacífico. Foram os egípcios, sobretudo consumidores de cerveja, que nos legaram os relatos mais minuciosos da vida social da vinha e do vinho.
Baixos-relevos nas mastabas (As mastabas são construções funerárias do Antigo Império no Egito, túmulos de formato retangular que precedem às pirâmides), que remontam a 2.500 a.C., mostram como os egípcios cultivavam a vinha e depois transportavam as uvas para serem espremidas, bem como mil e uma maneiras de beber o vinho. Sob o reinado de Tutankhamon, quase vinte séculos antes da era cristã, já existiam jarros sobre os quais eram especificados a variedade da vinha, a designação do solo, o “ano de colheita” do vinho, o nome do proprietário e do mestre da cave – que correspondiam a uma denominação de origem controlada.
A rotulação também permitia ao soberano e à elite governante a composição precisa de uma carta de bons vinhos do Egito: do delta do Nilo, claro, mas também da região de Mênfis (os vinhos de Letopólis e de Peluse, por exemplo), muito apreciados por Pepi II, faraó da VI dinastia (por volta do III milênio antes da era cristã). Os egípcios, como os gregos fariam com Dionísio, ofereciam vinho a Osíris, que primeiro simboliza o ciclo da vegetação para depois personificar os mistérios da vida depois da vida.
Para os gregos, falar em civilização do vinho seria um pleonasmo. Uma sociedade civilizada, digna desse nome, teria o dever de louvar a vinha e glorificar o vinho. Rei de Ítaca (uma ilha perto de Corfu) e pai de Ulisses, Laerte sentia um orgulho pessoal, por exemplo, de suas cinquenta fileiras de vinhas de espécies diferentes. O esperto Ulisses zomba, inclusive, do vinho rústico do ciclope Polifemo, indigno do mundo grego que representa. Os romanos são os primeiros a usarem o nome “grego” (graeci) para falar dos helenos.
A Hélade (Hellas) era para esse povo uma abstração semelhante à “cristandade” na época medieval ou à “nação árabe” de hoje. A Hélade representava acima de tudo uma comunidade cultural que se expressava em sua plenitude na arte da vinha e se manifestava no mito de Dionísio, pai fundador da civilização do vinho.
Filho de Zeus, o deus dos deuses gregos, e de Sêmele, uma princesa tebana, Dionísio nasce em condições extraordinárias: passa seis meses no ventre de sua mãe e os três últimos meses na coxa de seu pai. Essa maneira pouco comum de vir ao mundo seria suficiente para consolidar o mito desse semideus por nascimento. Ao chegar à idade adulta, uma incrível errância o faz percorrer o Oriente Médio e a Ásia Menor, onde é iniciado nas religiões secretas. Depois de uma viagem para o Cáucaso, seguida de uma estranha estada na Índia, Dionísio introduz em todos os países banhados pelo Mediterrâneo a cultura da vinha e seu culto-civilização.
Após inúmeras peregrinações, o deus do vinho chega em solo grego. Dionísio personifica a persistência da vegetação com o passar das estações, simbolizada sobretudo pelo tirso, espécie de bastão rematado com pinhas e enfeitado com folhas de videira ou de hera, planta que permanece verde enquanto toda a natureza parece morrer. A representação do ciclo natural evolui para a celebração da vida feliz e para a consagração do “eterno retorno” do deus.
No entanto, por ter nascido duas vezes, ele é muitas vezes chamado de “Dithyrambos” (o nascido duas vezes), o que significa que, desde o início, Dionísio estava associado, de maneira implícita, à morte e à ressurreição. Sob influência dos cultos orientais secretos, em particular o da deusa egípcia Ísis, irmã e esposa de Osíris, por sua vez o arquétipo do deus morto e ressuscitado, Dionísio cada vez mais será confundido com a divindade dos defuntos, cuja sobrevivência assegura.
De resto, esse filho de Zeus não figurava entre os deuses do Olimpo. Talvez por isso Dionísio não apareça nos cantos homéricos. Mas talvez isso também ocorra porque o povo grego o adorava. Ele era de fato popular ao extremo, e os gregos, sentindo-se muito próximos desse deus, o louvavam e celebravam com unanimidade.
O simpósio, ou reunião de pessoas que bebem (Simpósio corresponde mais ou menos à palavra “banquete” em português. Esse termo vem do italiano banchetto, ou “pequeno banco”, que designava no início do século XV os bancos dispostos ao redor de uma mesa, sendo a cadeira de uso pouco comum), era uma típica instituição dionisíaca através da qual os cidadãos gregos manifestavam sua solidariedade:
Bebe comigo, joga comigo, ama comigo, usa comigo uma coroa: comigo, quando sou louco, sejas louco, e sábio comigo quando o sou.
Esse fragmento de canção de beber poderia ilustrar à perfeição o simpósio que Jean-François Revel define, em Un festin en paroles, como uma “cerimônia regulamentada”.
Na Grécia, o jantar quase sempre acontecia ao cair da noite e podia ser dividido em duas partes: a refeição propriamente dita, momento de comer, e o simpósio, momento de beber taças de vinho. A “reunião de bebedores” era o pretexto para todas as conversas, das mais jocosas às mais metafísicas, chistes e espetáculos de variedades.
Distrair seus comensais, saciar sua sede, alimentar a discussão, essa era a missão do dono da casa.
Na Eneida, o poeta romano Virgílio conta que foi o príncipe troiano Eneias quem primeiro se instalou na província do Lácio, onde fica a cidade de Roma. No início, Roma ainda não fazia parte da civilização do vinho. Plínio, o Velho, indica que Rômulo fazia as libações com leite e não com vinho. O naturalista latino acrescenta que “por muito tempo os romanos fizeram apenas um uso moderado do vinho”. A lei Postumia, atribuída ao legendário rei Numa, dizia: “Não borrife vinho na lenha”, que era destinada aos defuntos.
Em Roma, nos primeiros tempos, não era permitido aos jovens com menos de trinta anos beber vinho. Também era proibido às mulheres (Catão aconselhava: “Se surpreenderes tua mulher bebendo vinho, mata-a!”). Além disso, o simples fato de tocar nas chaves da despensa já era motivo para punição. A discriminação se explica primeiro pela origem mítica, depois pelo papel místico do vinho.
A vinha reinava na Itália bem antes do surgimento de Roma. Depois da fundação da cidade, em 753 a.C. (criação da cidade-fortaleza Roma quadrata, por Rômulo), as libações com vinho tiveram um papel de culto muito importante.
Numa Pompílio (c. 715-672 a.C.), sucessor de Rômulo como rei de Roma, exigiu que o vinho das libações fosse proveniente de vinhas podadas de maneira específica. Como as mulheres não eram admitidas em cerimônias religiosas, o vinho lhes era ipso facto proibido. O pater familias podia inclusive beijar na boca (jus osculi) as mulheres da casa para verificar se cheiravam ou não a vinho.
Mais tarde, essa interdição será justificada pela crença (que os cristãos dogmatizarão) segundo a qual o vinho estava vivo e era comparável ao sangue (quase sempre de natureza divina). A mulher, considerada na época essencialmente uma mater genitrix, de certa forma se tornava adúltera ao beber um corpo vivo, superpondo um “sangue de natureza divina” ao feto que por ventura carregasse. Dessa função reprodutora deriva a proibição baseada no sangue menstrual. O vinho, comparado ao bom sangue divino (que o cristianismo às vezes chamará de Santo Sangue), se opõe ao sangue ruim, sujo e impuro, da menstruação.
Por isso, durante as ágapes (Ágape é a palavra grega e latina utilizada para falar do amor ou da caridade, sendo também utilizada para denominar as refeições fraternas entre os primeiros cristãos. Aos poucos, essas reuniões foram degenerando em festins e banquetes, e acabaram proibidas pela cristandade), apenas as tocadoras de flauta, as dançarinas e as cortesãs consumiam vinho. Essas “reuniões de bebedores”, chamadas com o passar dos séculos de banquetes “à romana”, se assemelham muito mais a um festim do que a um ritual grego. É provável que a associação entre a “mulher leviana”, a prostituta e o vinho date dessa época, alcançando o futuro desenvolvimento literário e artístico que conhecemos.
A sociedade antiga também censurava a ação de beber vinho puro, “à maneira dos citas” (povo de origem iraniana que vivia nas estepes ao norte do Mar Negro), como disse o historiador grego Heródoto. Esse costume deplorável só podia ser coisa de “bárbaros indignos de Baco”, acrescenta o latino Virgílio nas Geórgicas.
Horácio, cujos escritos são quase todos dedicados a Baco, a suas pompas e obras, celebrou os vinhos gregos (em especial o de Metimna e o de Quíos, com seu famoso “néctar”) mas também os vinhedos romanos. O poeta báquico cantou o “fogoso” vinho Falerno, o Massique, “que faz esquecer”, e o Cécube, considerado o melhor vinhedo da Itália, acabando por designar todo vinho velho e generoso. Os vinhos romanos não eram bebidos durante as refeições propriamente ditas, mas durante a comissatio, isto é, depois do jantar ou durante a noite. Os convivas bebiam “à grega” (more graeco) segundo um ritual consagrado: um magister, presidente eleito ou designado pelos dados, determinava as proporções segundo as quais o vinho deveria ser diluído e o volume que poderia ser bebido. O vinho era então transferido das ânforas para as crateras (craterae), onde era misturado com água. Dali, os romanos passavam à diluição segundo o gosto de cada um e nas proporções fixadas pelo magister. A mistura com água podia ser acrescida de gelo, como imaginara o voluptuoso Nero, batido com água recém-fervida.
O uso de água quente (calida) para a diluição era considerado mais higiênico e recomendado para os velhos e doentes. No entanto, no banquete organizado pelo rico e emancipado Trimalquião, descrito por Petrônio no Satíricon, um indivíduo de aparência sadia, apesar de bêbado, irrompe no festim gargantuesco exigindo imediatamente “vinho e água quente!”
Apenas os ricos romanos tinham direito de guardar vinho na adega de suas casas (cella vinaria, quase sempre localizada numa peça – fumarium – situada no alto da construção). O resto da população precisava recorrer aos vendedores de vinho (negotiatores vinarii) ou aos numerosos comerciantes da cidade e, sobretudo, aos cabarés especializados, chamados tavernae vinariae ou apenas vinariae ou, de maneira mais comum, thermopolia. Palavra de origem grega, as thermopolia designavam em Atenas os locais públicos onde o vinho era consumido em companhia agradável. Assim, as thermopolias eram pouco frequentadas pelos cidadãos gregos de qualidade.
Em Roma, a clientela das thermopolias formava um submundo suspeito onde reinava a prostituição e o jogo.
O mais popular jogo de azar era o cótabo.
Esse jogo originário da Magna Grécia, mais precisamente da Sicília, “o país de eleição de Dionísio” segundo Sófocles, era praticado desde o século V a.C. sob o nome grego de kottabos. O jogador deveria despejar o resíduo de sua taça de vinho pronunciando o nome da bem-amada. Se o jato atingisse o alvo designado, o presságio era favorável. Outra variante do jogo fazia o participante beber tantas taças de vinho quanto as letras do nome da mulher amada. Para poder beber até a embriaguez, o jogador, é claro, preferiria que sua bela se chamasse Sulpiciana a Pia. Pouco a pouco, ao perder seus ares de espelunca, as thermopolias se tornam cada vez mais procuradas por um público familiar que queria apenas descansar tomando um vinho fresco ou quente. De resto, os vinhos da península italiana, que Virgílio, nas Geórgicas, dizia serem tão numerosos “quanto os grãos de areia que o vento levanta nos desertos da Líbia”, invadem progressivamente o mercado de todo o Império Romano, inclusive a Grécia e a própria Índia.
Segundo Plínio, somente por volta do ano 600 a.C. os romanos começaram a apreciar o vinho e, por isso, se dedicaram à cultura da vinha. Essa data é a mesma da fundação de Massalia (Marselha) pelos fócios, que, vindos da Fócida, uma antiga colônia grega da Ásia Menor, plantaram as primeiras vinhas cultivadas da Gália céltica. Para os gauleses, o vinho era parte integrante da alimentação. Nas regiões onde a vinha era cultivada, as sementes eram muito associadas aos grãos alimentares. Durante os banquetes da Gália céltica, escravos ou crianças serviam taças de vinho de importadas da Itália (não havia copos individuais) ou os famosos chifres de auroques, descritos por Júlio César no livro VI de seus Comentários (De Bello Gallico).
Na Gália romana, apesar de ainda se beber muita cerveja, em particular a cervoise (produzida a partir do trigo vermelho), o uso do vinho é cada vez mais difundido, desenvolvendo-se com isso todo um conjunto de recipientes: cântaros, jarros, frascos, vasilhas especiais para a diluição, copos (pocula) mais ou menos trabalhados e decorados, conchas e coadores. Durante as refeições galo-romanas, as especiarias (anis, cominho, tomilho) serviam para realçar o sabor das bebidas e dos alimentos, ou para mascarar seus sabores fortes, e também podiam ser usadas para ajudar na digestão, que Plínio chamava de “os horrores do estômago”. Os próprios pratos eram muitas vezes acompanhados por uma espécie de licor (chamado garum) resultante da decomposição de peixes salgados, muito próximo do nuoc-mam vietnamita.
Aliás, o uso combinado do salgado e do doce faz com que muitas vezes os pratos galo-romanos sejam comparados à cozinha do Extremo Oriente.
A partir de 125 a.C., os romanos anexam a seus territórios o corredor do Ródano e o Languedoc (a Provincia, Provença). Criam novos centros comerciais, dentre os quais se destacam, na região de Béziers (Julia Biterrae), Portus Veneris (Port-Vendres) e Narbo Martius (Narbona), na época portos de intensa atividade por onde a Via Domitia passava ligando o Império Romano à Espanha. Narbonne se torna a “capital” da região, que por isso passa a ser chamada de Gália Narbonense. A metrópole regional comercializava com a Aquitânia e, através do corredor do Ródano, proporcionava à província um novo mercado em direção à Europa Central.
O poeta latino Sidônio Apolinário escreverá sobre a Narbonne: “Única legítima, cultuas ao mesmo tempo Baco, Ceres e Minerva, possuindo tanto cepas de videira, espigas de trigo, pastagens e moinhos de óleo”. Prosperidade que Plínio, o Velho, formulará nos seguintes termos: “Não é uma província, mas a própria Itália!”.
A Narbonense matou a sede de toda a Gália, e logo começou a ameaçar os vinhos romanos. Sua expansão provocou a derrocada das exportações de vinhos italianos. Apenas os grands crus (A expressão grand cru designa o vinho de qualidade superior produzido por uma região específica. A expressão varia de significado segundo as regiões – na Borgonha, por exemplo, grand cru é a mais alta denominação de origem controlada), em especial o Cécube e o Falerne, resistiram à invasão dos vinhos gauleses. Mas cada vez mais os vinhedos sufocavam o trigo, e o pão logo se tornaria escasso. Segue-se uma grave crise econômica que sacode o Império Romano a partir dos anos 90 d.C.
Em A vida dos doze césares, o historiador Suetônio escreve que, em 92, o imperador Tito Domiciano (51-96), “vendo que uma grande abundância de vinho coincidia com uma escassez de trigo, concluiu que as vinhas eram cuidadas em detrimento dos campos. Proibiu então que se plantassem novos vinhedos na Itália e ordenou que fossem arrancadas as vinhas que ficavam nas províncias” (em especial as da Narbonense). Segundo Suetônio, “esse édito não entraria em vigor”.
Será o “sábio e valente” Probo, como o chamou Chaptal (Jean-Anoine Chaptal (1756-1832): químico e estadista francês que escreveu tratados sobre o vinho e a vinificação e que descobriu e deu nome à “chaptalização”, processo de aumento do teor alcoólico dos vinhos através do uso do açúcar), que, em 270 d.C., anulará formalmente o édito de 92. O imperador Marco Probo (232-282), depois de inúmeras guerras, estabelece no Império uma paz duradoura e emprega seu exército em diversos trabalhos de interesse coletivo. A exemplo do general cartaginês Aníbal, que outrora utilizara seus soldados para plantar oliveiras na África por medo de que eles se rebelassem, Probo encorajava suas tropas a semear as colinas da Gália.
Passando a Narbonense, “em direção ao Atlântico e aos mares setentrionais, César conquistou um país que desconhecia a viticultura”, afirma Roger Dion (DION, R. Le Paysage et la Vigne, Essais de géographie historique. Paris: Payot, 1990, p. 193), citando um erudito do século XVIII, crítico dos Comentários. Pouco depois do estabelecimento da Pax Romana (A Pax Romana refere-se ao longo período de relativo equilíbrio e tranquilidade vivido pelo Império Romano nos dois primeiros séculos da era cristã, mantido por governantes fortes e força militar disciplinada, jamais permitindo que as regiões dominadas recuperassem sua liberdade), a viticultura gaulesa disporá de duas cepas resistentes ao frio: a allobrogica, na Borgonha e no vale do Rhône, “cuja uva amadurece com a geada”, escreve Plínio, e que seria a ancestral da atual cepa pinot; e, na Aquitânia, a biturica, segundo o nome de uma tribo celta, os bituriges vivisques (os “reis do mundo”), que, depois de fundarem Bourges, se instalam, no século V a.C., nos arredores do estuário da Gironda, bem como nas margens da Dordonha e da Garona, para por fim se fixarem em Burdigala (Bordeaux) duzentos anos depois. A biturica seria a mãe da cepa cabernet e teria originado “bitúrige”, bêbado, “visitar bitúrico”, fazer a turnê dos bares, e estaria na origem da expressão popular “tomar uma boa bitúria”, isto é, embriagar-se. (Em francês: biturige, visiter la Biturie e prendre une bonne biture)
A queda do Império Romano do Ocidente, no ano de 476, marca por certo tempo o fim do desenvolvimento da viticultura gaulesa. A unidade criada pelo Império será substituída pelo universalismo do cristianismo: “Onde estiver a Igreja, ali estará Roma” (ubi ecclesia, ibi Roma).
A Idade Média cristã materializará sua fé sobre os vestígios vinícolas da Antiguidade. Pagão ou cristão, o vinho é o alfa e o ômega das civilizações.

IV. Do Olimpo a Napa Valley
No ano 313, o imperador romano Constantino proclama o livre exercício da religião cristã através do Édito de Milão. Em 392, Teodósio I, o Grande, concede ao cristianismo o estatuto de religião única do Império Romano. A civilização cristã, pouco a pouco, graças à Eucaristia, se confunde com a civilização do vinho. Quando da conquista do México no século XVI, por exemplo, os missionários espanhóis utilizarão a cultura da vinha para implantar a religião cristã, e portanto a civilização do vinho, no que se tornará o Novo Mundo vinícola.
A América, do nome do navegador italiano Américo Vespúcio, dado ao continente pelo monge cartógrafo alemão Martin Waldseemüller em 1507, teria sido descoberta no ano 1000 pelos primeiros europeus (milênios depois de tribos asiáticas, os “ameríndios”, terem cruzado a pé o estreito de Bering). Da mesma forma que os gregos viram “uma terra coberta de videiras selvagens” quando abordaram a península italiana, uma crônica nórdica do século XIII intitulada Saga da Groenlândia (ou terra verde, em escandinavo) conta que o navegador viking Leif Erikson, filho do famoso Erik, o Vermelho, descobrira “um país fértil em vinhas” (Vinland hit goda). Um dos homens do barco viking, um alemão de nome Tyrkir, relata da seguinte forma o que diz ter visto no interior dessa terra até então desconhecida: “Fiz uma grande descoberta: encontrei videiras e uvas em grande quantidade!” Leif, chamado de Sortudo, batiza de Vinland ou terra do vinho essa terra nova (é provável que se tratasse do Canadá) que um mapa de 1440 localizará a oeste da Groenland (terra verde, em dinamarquês), chamando-a de Vinlanda Insula (Ilha de Vinland). A autenticidade desse “mapa viking”, que provaria que a América fora descoberta seis séculos antes do navegador genovês Cristóvão Colombo, é bastante contestada. Para alguns pesquisadores, em particular a partir de 2002, com a publicação dos trabalhos do professor de química Robin Clark, do University College de Londres, e de sua assistente Katherine Brown, o “mapa de Vinland” seria falso porque conteria um tipo de tinta inexistente antes de 1923.
Depois da descoberta oficial da América pelo espanhol Cristóvão Colombo, em 12 de outubro de 1492, seu compatriota Hernan Cortez parte para a conquista do México, em 1518, logo sendo seguido pelos missionários franciscanos e jesuítas, que se instalam nesse país a fim de converter ao cristianismo a população indígena e, também, para produzir o vinho necessário a seu sacerdócio. Expulsos do México em 1767, os missionários espanhóis emigram primeiro para a Baja California. Em 1769, o padre franciscano Junipero Serra funda sua primeira missão em San Diego de Alcalá. Sob o nome de “uvas da Missão” (mission grapes), as cepas de origem espanhola foram utilizadas até o final do século XIX pela indústria vinícola californiana. Até o dia em que a filoxera (identificada em 1868 pelo botânico francês Jules Planchon sob o nome de Phylloxera vastatrix (A filoxera é um gênero de inseto que apresenta duas formas: uma vive sobre folhagens (formação de galha) e a outra sobre as raízes (formação de nodosidades ou tuberosidades). A potência da vinha diminui rapidamente, e a morte, em ambiente filoxérico, acontece dentro de três a dez anos)), que já destruíra os vinhedos europeus e da costa leste dos Estados Unidos, chega à Califórnia pelos vagões da estrada de ferro transamericana. O inseto devastará os vinhedos californianos, na época plantados com cepas europeias. Para os mesmos males, os mesmos remédios da França: a solução virá do sulfeto de carbono e do enxerto das variedades atingidas em cepas indígenas resistentes ao pulgão.
À interdição dogmática do Islã, que considera o vinho “uma abominação e uma obra do Demônio” (Corão V, 90), fará eco a Lei Seca americana. A primeira “sociedade de temperança” é fundada em 1789 por duzentos fazendeiros do estado de Connecticut. Meio século depois, as associações desse tipo ultrapassavam o número de oito mil. John D. Rockefeller, o homem mais rico do mundo na época, criava, em 1895 a The anti-saloon league, que se tornaria um grupo de pressão muito influente junto à administração federal e ao Congresso americano.
Em 18 de dezembro de 1917, em plena guerra mundial, o Congresso americano submete aos Estados da União, para confirmação, a 18ª emenda à Constituição: 43 estados contra três (Nova Jersey, Rhode Island e Connecticut) a ratificam em 1918 e 1919. O Volstead Act (segundo o nome de seu promotor, Andrew Volstead), por sua vez, será votado em 16 de janeiro de 1920 sob influência das ligas de virtude e das sociedades bíblicas, pressão alimentada por toda uma literatura edificante (como o famoso John Barleycorn, de Jack London (Publicado inicialmente como folhetim no Saturday Evening Post, em 1913, John Barleycorn (João Grão de Cevada) é um romance autobiográfico (traduzido para o português como Memórias alcoólicas) no qual Jack London conta seu calvário de alcoólatra. Esse relato influenciará grandemente a opinião pública e seus representantes)). O Volstead Act interpretava a 18ª emenda declarando que a Lei Seca deveria ser estendida ao vinho, à cerveja e a todas bebidas com mais de 0,5% de álcool por volume. Poupados os vinhedos monásticos necessários à celebração da Eucaristia e o vinho comprado em virtude de uma prescrição médica (à razão de meio litro a cada dez dias), a viticultura americana será interrompida em plena ascensão, e o mercado dos Estados Unidos se fechará aos vinhos do mundo inteiro... mas se abrirá aos bandos de gângsteres de todos os tipos que abasteceram o país: foi a época dos bootleggers (Bootlegger viria de bootleg, palavra que designa a parte superior das grandes botas nas quais os traficantes americanos do século XVII escondiam garrafas de álcool para vendê-las clandestinamente aos índios) (traficantes de álcool), dos speakeasies (bares clandestinos) e do Rum Row (o famoso “bulevar do Rum”).
Em 6 de dezembro de 1933, Franklin Delano Roosevelt, 32º presidente dos Estados Unidos (1882-1945), decide pela suspensão da proibição do álcool e anula o Volstead Act. A Lei Seca traz graves consequências, tanto quantitativas quanto qualitativas, para a economia vitivinícola. Essa situação dramática levou os profissionais do ramo, sob a direção dos viticultores californianos de Napa Valley, inspirados talvez pela criação um ano antes, na França, das denominações de origem controlada (DOC) (Em francês, appellations d’origine contrôlée (DOC)), a adotar, em 1936, normas de qualidade para os vinhos americanos.
Depois disso, a produção dos Estados Unidos (em especial de Sonoma (Sonomo significaria, em língua indígena, “vale das sete luas” pois, segundo conta uma lenda local, a lua apareceria e desapareceria sete vezes seguidas atrás das sete colunas do vale) e de Napa Valley, ou dos vinhedos da costa leste) não cessará de se aperfeiçoar, atingindo, em nossos dias, os píncaros enológicos até então exclusivamente reservados aos grands crus europeus.

(Jean-François Gautier - Vinho)

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