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O vampiro como sujeito contemporâneo

por Thynus, em 09.11.14
 
Com exceção de Drácula, que era um velho quando a história de Stoker inicia, é tradição dos vampiros serem jovens e belos. Mas até os cabelos esbranquiçados do conde haviam escurecido e ele parecia ter remoçado quando chegou a Londres. Uma das interpretações mais óbvias para a popularidade dos vampiros é a manutenção do corpo como eternamente jovem. Ora, se nosso ideal contemporâneo é um corpo jovem, trabalhado com exercícios, lapidado com dietas, vitaminado com substâncias naturais ou químicas, sem falhas, por que não permanecer no ápice para sempre, não é isso que fazemos adiando o envelhecimento a qualquer custo? Temos aqui a fantasia de manutenção de um corpo que nunca se corrompe, que os anos não alteram. A conversão em vampiro congela a juventude, ganha-se não só a imortalidade, como essa permanência na melhor fase, afinal, quem iria querer ser eternamente velho?
A religião mudou; mesmo que sigamos religiosos, ela foi obrigada a ceder parte de seu espaço para a ciência. A religiosidade clássica está em declínio, especialmente em sua visão de mundo, um sistema que tudo explicava. Vivemos em um mundo mais laico e é provável que isso não seja sem consequências sobre como encaramos as velhas promessas da religião. Uma das suas crenças fundamentais é a vida após a morte, quase todas as religiões consideram que estamos de passagem por esse mundo, em uma espécie de provação, e depois vamos para outro.
O vampiro se contrapõe a essa crença sob a forma de uma imortalidade mundana. Como vampiros, viveríamos eternamente neste mesmo planeta, além disso, pertencendo a uma elite, pois os vampiros sempre são ricos e poderosos. Isso talvez não seja tão mau negócio, até porque, quem nos garante que haja outro mundo? A vampiromania revela uma fragilidade da crença nessa grande promessa da religião. Isso explicaria a força e a popularidade de seus personagens, seriam como anjos do mal, uma aristocracia do mundo inferior, mas com as vantagens da do mundo superior.
Decididamente ser um vampiro é fazer parte de uma aristocracia, ao tornar-se vampiro entra-se em um clube muito exclusivo. Ganha-se uma distância do homem comum, que não é nada mais do que o pasto, o rebanho do qual agora ele se alimenta. Mesmo que exista um preço, pois ele estaria restrito à vida noturna, ela é considerada muito melhor que a diurna. O dia foi feito para o trabalho, a noite para o descanso e lazer, portanto, isso quer dizer que a vida de vampiro é mais divertida, aberta ao gozo e aos prazeres. Vale a pena abrir mão do sol se soubermos que não precisamos mais acordar cedo para trabalhar. O vampiro não tem um ofício, não gera riquezas, isso é coisa para os humanos e sua dura labuta diurna. Na dicotomia entre trabalho e desprazer versus ócio e prazer, o vampiro fica com a segunda opção.
Entre as mais variadas formas, o vampiro é sempre rico, ou não dá a mínima importância para essa questão, mas nunca lhe faltam meios materiais. Geralmente, além da vida de suas vítimas, ele pode se apossar também de seus bens, o que lhe dá uma boa fortuna. Isso não pode ser considerado trabalho, afinal ele só pega, colhe, o que já está no seu caminho.
Várias interpretações colocam o vampiro como o burguês explorador, ou, antes disso, como o senhor feudal, já que eles roubam de fato a vida e o “sangue” dos outros e disso tiram sua força. A interpretação é correta, mas é parcial, o vampiro é muito mais do que isso. O vampiro é o aristocrata entre os aristocratas, pois ele tem o que o dinheiro não pode comprar: a juventude eterna e a imortalidade.
Joseph Campbell tem uma boa teoria sobre essa questão da hierarquia e do vampiro: para esse antropólogo uma das nossas contradições, da qual não conseguimos uma síntese, é que as criaturas vivas sempre se alimentam de outro ser vivo. O mundo biológico é um eterno entredevorar-se. Nas suas palavras: “Pois bem, um dos grandes problemas da mitologia é conciliar a mente com essa pré-condição brutal de toda a vida, que sobrevive matando e comendo vidas. Você não consegue se ludibriar comendo apenas vegetais, tampouco, pois eles também são seres vivos. A essência da vida, pois, é esse comer-se a si mesma! A vida vive de vidas” (CAMPBELL, Joseph. O poder do Mito. São Paulo, Palas Athena, 1988, p 44). Nesse sentido, seríamos todos vampiros, afinal, todos nós sacrificamos outras vidas pela nossa. A vantagem em ser vampiro é ser aquele que está no alto da cadeia alimentar, aquele que só come e não é comido.
 
Sangue e drogas
Os dilemas do sexo não afligem os vampiros, sendo homens ou mulheres eles não vão em busca de uma satisfação com o corpo do outro. Este corpo encontrado ao acaso só serve como doador de sangue, pouco importa a idade ou o sexo, ele é uma comida apenas, um objeto descartável facilmente substituível. Se existe uma satisfação ela é oral. A modalidade de “sexo” que ele possui, se é que podemos falar assim, seria regressiva, oral. Afinal, é sugando que um corpo se alimenta de outro e o “possui”, em outras palavras, que um corpo “come” o outro.
Como o vampiro está fora do sistema produtivo e fora das preocupações com o sexo, sua única preocupação é se alimentar, ele vive para sua boca. Nesse sentido, o vampiro tem uma vida simplificada, afinal, ele só tem o alimento como objeto de interesse. Existe um paralelo entre ele e um quadro clínico que também simplifica a vida: os toxicômanos, estes também sempre sabem o que lhes falta, em qualquer momento, para todas as ocasiões, a droga lhes supre e de nada mais fazem questão. Os dois compartilham uma economia filosófica interessante, não precisam se esforçar muito para dar uma razão para sua vida, basta providenciar o que falta, e eles sempre sabem o que é.
Por viver em função do consumo de um objeto, o toxicômano é considerado um subproduto indireto da economia capitalista, mas ele foge a toda significação, inclusive essa. Ele de fato é um obcecado pelo seu objeto de consumo, a droga, como o vampiro o seria por sangue. O toxicômano ignora toda a circulação de mercadorias, da qual nossa economia de futilidades e supérfluos depende para continuar existindo. Ele só tem olhos para sua razão de viver, que são os momentos em que está sob efeito da substância que o satisfaz.
Nossa forma de vida baseia-se em uma crença em que os objetos são imprescindíveis, assim como é fundamental possuí-los em grande número. Mais do que mostrar posses, importa-nos provar nossa capacidade de adquiri-las. Nesse sentido nos assemelharíamos aos drogados, sempre em busca de mais. Mas é nessa semelhança que encontramos a diferença mais radical: o consumidor é um inquieto, um eterno insatisfeito que nunca sabe o que quer. Por isso tem que ter a seu serviço agências de publicidade, meios de comunicação e inúmeras formas de seduzi-lo para que eleja, nem que seja por um tempo exíguo, um determinado bem de consumo. O toxicômano, ao contrário, é um sujeito estável, como nenhum outro. Ele está sempre à beira da insatisfação, sempre quer mais porque o gozo da droga se esgota, mas ele nunca duvida, nem jamais almeja outra coisa do que mais droga. A dificuldade em tratar toxicômanos está justamente nessa “estabilidade”, o que temos a oferecer para ele? Retornar à deriva da busca do objeto de satisfação?
A economia capitalista nutre-se da nossa insatisfação, do desejo que temos de sempre mais, sempre diferente. Nosso querer é mutante e, principalmente, inventivo, como um anzol que se joga na água cada vez mais distante, em busca de peixes novos, nunca antes pescados. Já no gozo do drogado, basta pescar no mesmo charco, pois não há dúvida do que gerará satisfação. Nesse sentido, a subjetividade dos homens vivendo em regimes capitalistas encontrou nos toxicômanos sua contradição e seu pior pesadelo, ele concentra toda sua satisfação em um único objeto que nem ao menos paga impostos.
Onde essa questão da toxicomania fica mais transparente é em Blade, um vampiro do cinema que caça outros vampiros, uma espécie de justiceiro que tenta livrar o mundo desses parasitas (Blade nasceu nos quadrinhos, como personagem da Marvel Comics, criado por Marv Wolfman e desenhado por Gene Colan para The tomb of Drácula - 1973. No cinema estreou em 1998, dirigido por Stephem Norrington, estrelado por Wesley Snipes, o filme recebeu o nome do personagem: Blade, que posteriormente ganhou continuações). Aliás, Blade é um ser inclassificável, pois estava no ventre da mãe quando foi contaminado e por isso nasceu híbrido. É forte como um vampiro, mas sem as fraquezas desse, ele é “aquele que caminha de dia”, pois não sofre com o sol. Sua juventude foi de vampiro, pois tem a “sede” deles, a necessidade de sangue. Adotado por um mortal especialista em caçar vampiros, ele é transformado no mais temível adversário de sua própria espécie. Porém, para distanciar-se dos vampiros ele precisa de uma droga que aplaca sua sede de sangue, e ele vive graças a ela, sua força reside em conseguir novas doses que estão sempre no limite da eficácia. Para sair do vampirismo ele se tornou um dependente químico. Como vemos, nessa personagem do filme a convergência simbólica entre toxicomania e vampirismo fica bem explícita.
Que um grande matador de vampiros seja um vampiro, como Blade, não nos deve espantar; no folclore eslavo e cigano, na região dos Bálcãs, temos algo similar. Dizia-se que às vezes os vampiros tinham relações sexuais e se dessas nascesse uma criança ela teria poderes especiais em relação aos vampiros, particularmente a capacidade de ver o vampiro mesmo que ele estivesse invisível. Ora, esse filho de vampiro com um mortal era naturalmente apto para ser caçador de vampiros e muitos seguiam essa profissão. Eram conhecidos pelo nome de “dhampir”.
O vampiro, como um drogado qualquer, buscará obsessivamente renovadas vítimas para obter sua substância, além disso, ambos têm a sua vida erótica esvaziada, mas aqui terminam as comparações. Drácula e todos os que o sucederam têm ambições maiores. Eles sempre querem algum tipo de prestígio, ou mesmo reverberar em uma sociedade ou época distinta. Vampiros são ambiciosos, por isso, apesar de não trabalharem, de serem sanguessugas sociais, eles ainda mantêm em si uma parte importante do espírito protestante que fundou o capitalismo. Mesmo sendo aristocratas, ricos e poderosos, os vampiros sempre são movidos por uma pretensão maior, nesse sentido, eles “trabalham” por seus objetivos. O conde Drácula, por exemplo, não mediu esforços para efetivar a complicada operação logística de sua mudança para Londres. Na época desse vampiro, a cidade escolhida por ele era o centro do mundo, capital do império britânico. Se fosse hoje, sua meta seria Nova York. Não é que lhe faltasse sangue na Transilvânia, ele parecia muito cômodo em seu castelo, com um grande rebanho de humanos submissos e apavorados à sua mercê. Mas ele quis ganhar o mundo, fazer outros como ele entre pessoas que lhe interessassem. Vampiros também têm sede de influência.

(Diana Lichtenstein Corso, Mário Corso - a Psicanálise na Terra do Nunca)

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publicado às 09:41



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