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O tempo existe apenas na mente?

por Thynus, em 15.08.14


No livro XI das suas Confissões, Agostinho apresenta a sua famosa investigação sobre a natureza do tempo. A discussão baseia-se numa pergunta de um objector: que fazia Deus antes do começo do mundo?
Rejeitando a resposta «Preparava o inferno para aqueles que fazem perguntas indiscretas», Agostinho defende que antes da criação do céu e da terra não havia tempo. Não podemos perguntar que fazia Deus nessa altura, porque, não existindo tempo, «essa altura» também não existia. Do mesmo modo, não podemos perguntar por que motivo o mundo não foi criado mais cedo, porque «mais cedo» não existia antes do mundo. É até enganador dizer que Deus existia num tempo anterior à criação do mundo, pois não há sucessão em Deus. Nele o hoje não toma o lugar do ontem, nem dá lugar ao amanhã; tudo o que existe é um eterno presente.
De modo a defender a sua noção de eternidade, Agostinho teve de desenvolver a ideia de que o tempo é irreal. «O que é o tempo?», pergunta.
«Se ninguém mo perguntar, sei; se pretendo explicá-lo a alguém, não sei.» O tempo consiste em passado, presente e futuro.
Mas só o presente existe, pois o passado já não é, e o futuro não é ainda. Mas um presente que é apenas presente não é tempo, mas eternidade.
Falamos de períodos de tempo mais longos e mais curtos; mas como podemos medir o tempo? Suponhamos que dizemos que um período de tempo passado foi longo: queremos dizer que foi longo enquanto passado ou enquanto presente? Só a segunda resposta parece fazer sentido; mas como pode algo ser longo no presente, já que aquilo que é presente é instantâneo? Uma série de instantes não somam mais que um instante. As fases de um período de tempo jamais coexistem; como podem ser somadas para formar um todo?
Qualquer medida que façamos tem de ser feita no presente: como podemos então medir algo que já passou ou que não existe ainda?
A solução de Agostinho para estas perplexidades é dizer que o tempo existe apenas na mente. O passado não existe; se eu o considero, é porque está, neste momento, na minha memória. O futuro não existe; não passa da minha previsão presente. Em vez de dizer que existem três tempos, passado, presente e futuro, deveríamos dizer que existe um presente das coisas passadas (a memória), um presente das coisas presentes (a visão) e um presente das coisas futuras (a expectativa).
Uma extensão de tempo não é de facto uma extensão de tempo, mas uma extensão de memória ou de expectativa.
A explicação de Agostinho não resolve verdadeiramente as perplexidades que suscitou; nem ele pretende que assim seja. Mas Agostinho não foi o último filósofo a avançar com uma teoria subjectiva do tempo, e os argumentos que utilizou para a defender são tão subtis como qualquer um dos posteriormente propostos.

(Anthony Kenny -  História Concisa da Filosofia Ocidental)

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publicado às 15:37



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