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O surgimento da beleza

por Thynus, em 03.07.16
Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece.
 
O belo é o esplendor da ordem.
 
O surgimento da beleza paralisa tudo.
A respiração se modifica, os olhos se completam numa outra luz e o corpo inteiro se alça da pequenez do instante.
E aquela mulher ali na praia, em pé dentro d’água, não pediu licença alguma, mas invadiu minha vida e a de quantos a contemplam em pura epifania e devoção.
Paro de caminhar. Sou um contemplador do instante. Todos nos concentramos naquelas formas onde a harmonia se condensou em pernas, braços e cabelos ao vento. A beleza tem isto: quando irrompe, alicia a todos. E ali estamos conferindo nos olhos uns dos outros a mesma admiração. Estamos todos coniventes diante da beleza que surgiu no mar.
A tirania da beleza industrial e o reviralho
 Mas a beleza, quando surge, mais do que imprevista, é imperiosa e exige dedicação. Se aquela mulher virasse para o seu público e dissesse: “Matem-se por amor a mim!”, todos nos atiraríamos na eternidade. Se dissesse: “Escalem o Himalaia!”, subiríamos voando como querubins.
Por isto, é muito perigoso o encontro com a beleza. A alguns ela devora docemente. A outros ela desarma totalmente e petrifica. Ela não pede nada e, no entanto, parece o tempo todo ordenar. Deve ser por isto que os gregos queriam vinculá-la à Verdade e ao Bem. A beleza perversa seria o nosso fim. Olhei um girassol no meu terraço outro dia no exato momento de sua maior glória. O que ele me oferecia naquele instante era de uma eternidade penetrante. Examinei-lhe a geometria luminosa, que nenhum Vassarely jamais conseguiria reproduzir em seus painéis, apesar do computador. O girassol, tanto quanto eu, sabia que aquele era o seu instante de beleza aguda e se oferecia a mim extasiado em sua doçura, como só se extasia nele a perdida abelha.
Há dias que saio pelas ruas e festas faminto de beleza. Abro livros procurando certas passagens, leio poemas que sei de cor, de novo ouço uma flauta, um oboé, procuro aquele movimento de cordas de um determinado concerto. Eu sei onde encontrar a beleza. Vivo com ela. Tenho seu endereço secreto e a frequento amiúde na montanha ou beira-mar.
Um dia surpreendi-a numa pracinha medieval em Antibes, outro numa ruazinha barroca em Minas. Ela me foi servida em alguns museus, a reconheci em alguns objetos e se eu olhar bem firme nos olhos do semelhante, às vezes, a posso achar.
Aquela mulher ali na praia, por exemplo, não sabe que iluminou meu dia para sempre. Ao seu lado está sua amiga. Seu corpo é correto, sadio e humano. Mas não passa de uma sombra junto ao Sol. Em vão agita os braços nas águas, fala alto. Não adianta. A bela mulher ao seu lado sequestrou para sempre a atenção de todos nós.
É assim com o bailarino ou bailarina que irrompe em pleno palco. À passagem de seu corpo, os outros se obscurecem consentidamente. Há um pacto entre o belo e o menos belo. Um pacto entre o ser e o contemplar.
Mas a beleza não é só mulher. Ela é andrógina. Se assim não fosse, como explicar que também os homens se extasiassem ante outros homens? E há homens tão potentemente belos que podem submeter exércitos só com o olhar.
Porém, se a beleza é assim tão urgente e relevante, por que nos aparece tão raramente? Se é assim tão necessária e pungente, por que é de natureza tão avara? Se dela carecemos tanto, por que nos deixa nesse exílio e incompletude?
A ausência da beleza é uma condenação. É um lapso. É a não história. Tudo que os homens fazem é por ela. Fazem excursões à Europa, vão à Grécia, constroem estradas, lançam passarelas entre as estrelas e inventaram a arte para apreendê-la. Tivéssemos que viver constantemente em contemplação do belo, no entanto, e ninguém trabalharia. Seríamos estátuas petrificadas na admiração. O mundo não careceria de mais nada. Viveríamos num orgasmo luminoso e contemplativo, e aqui se instalaria de vez a eternidade.
A ausência da beleza é quando o tempo se inaugura. E o tempo é falha e ruptura. A ausência de beleza é o erro, o pecado. A beleza é alegria e o avesso do que é triste. A beleza é notícia de que Deus existe.

(Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)
A tirania da beleza
 
 
 

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publicado às 17:19



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