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O sobrenatural

por Thynus, em 14.01.17
Ainda estamos no terreno da religião e da metafísica quando falamos de sobrenatural. A palavra não tem o mesmo pedigree como tem metafísica, porque quando pensamos em sobrenatural, pensamos em filme de terror ou almas penadas à noite na casa da fazenda. Mas ela também tem uma origem digna na filosofia, e essa origem tem a ver com a ideia do que seria além ou acima da natureza ou do natural no homem e no mundo, o que se confunde com a ideia de ação de Deus no mundo. Podemos dizer que a palavra tem um significado na filosofia e outro nas religiões, sendo o primeiro mais ligado à ação de Deus no comportamento humano por meio da graça divina (como dizia Santo Agostinho no início do século V) e o segundo mais ligado a crenças espíritas que associam o sobrenatural a manifestações de espíritos desencarnados no mundo dos homens. Acho este mais importante para pessoas comuns e o anterior mais ligado ao universo filosófico e teológico profissional, por isso vou dar mais atenção ao sentido religioso da expressão: sobrenatural como manifestação do mundo dos mortos. Você já viu alma penada? Ou acredita nelas? Eu não, mas gostaria de conhecer uma.

Na peça Hamlet, de Shakespeare (século XVII), vemos na primeira cena um exemplo que pode nos ajudar a entender o que se quer dizer com manifestação do sobrenatural no sentido do senso comum. O pai do Hamlet assassinado pelo irmão e pela esposa pede vingança ao filho. Não precisamos ir adiante no enredo. A ideia mais comum de sobrenatural é que ele seja o mundo dos mortos que se relacionam com os vivos. Há sempre um vínculo moral entre esses dois mundos em que um influencia o outro. Grande parte das crenças em espíritos se alimenta dessa forma de vínculo. Esse tipo de crença implica uma economia moral entre os dois mundos e também o destino daqueles que morrerão um dia e dos que já morreram. A questão essencial aqui é: por que esses mortos “precisam de nós, meros vivos?”. Porque não existem e são criações humanas. Esses espíritos nunca sabem além do que sabemos: precisamos amar uns aos outros, fazer menos guerra, ter menos poluição e combater o apego material. Quem precisa de espíritos do além para saber que estamos num atoleiro moral neste mundo dos vivos?

Em outra chave, esses mortos nos atormentam porque eles mesmos são uns desgraçados, e a situação deles, talvez, não tenha a ver diretamente conosco, mas com a vida deles enquanto estavam vivos. E eles se envolvem conosco porque podemos lembrar, por exemplo, alguém com quem tiveram vínculos enquanto vivos, como no caso de Drácula e sua esposa reencarnada na personagem do romance Drácula, de Bram Stoker (século XIX), chamada Mina. De qualquer forma, a temática moral se impõe, assim como a da felicidade versus infelicidade. É interessante perceber como os afetos são a marca no mundo do sobrenatural. A crença nessa dimensão pode ocupar a vida de muitas pessoas, mesmo que seja pelo medo que as faz sentir. Resta nos perguntarmos a razão de, depois de tanto conhecimento científico acumulado, tanta gente ainda se sentir atormentada e atraída por esse tipo de coisa. A primeira conclusão é que permanecemos, em alguma medida, na pré-história, amedrontados pela escuridão do mundo e de nós mesmos. Sem dúvida, o materialismo e sua afirmação de que a vida depois da morte é uma ilusão me parecem uma opção mais tranquila do que a ideia de permanecer existindo infinitamente e sob ação de afetos tão fortes, apesar de que acho mais dramática e bela a ideia de uma existência atormentada para sempre do que o repouso na pedra, como afirma o materialismo.

Ninguém em sã consciência pode dizer a última palavra nesse terreno do sobrenatural. A crença, sendo pré-histórica, está fincada em solo humano, e não será um pouco de ciência que a fará desaparecer, mesmo porque, yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

  (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos) 

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publicado às 23:30



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