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Para os gregos, o que caracteriza a morte é a perda da identidade. Os mortos são, antes de mais nada, “sem-nome” ou mesmo “sem-rosto”. Todos que deixam a vida se tornam “anônimos”, perdem a individualidade, deixam de ser pessoas. Ulisses, durante a sua viagem (direi mais adiante em quais circunstâncias), ao ser obrigado a descer aos infernos, onde estão aqueles que não têm mais vida, é tomado por surda e terrível angústia. Contempla horrorizado todo aquele povo no Hades. O que mais o preocupa é a indistinta massa de sombras que nada mais identifica. Aterroriza-o o barulho que fazem: um barulho confuso, um burburinho, uma espécie de rumor surdo dentro do qual não se pode reconhecer voz alguma e menos ainda qualquer palavra que faça sentido. É essa despersonalização que caracteriza a morte aos olhos dos gregos, e a vida boa deve ser, tanto quanto possível e pelo tempo que se puder, o contrário absoluto desse tom acinzentado infernal.
 
“Não é a morte que rouba o sonho dos homens, mas o medo de cair no esquecimento antes mesmo de ser sepultado.”
Valeria Nunes de Almeida e Almeida
 
 
Esquecimento do Ser que somos: o pecado original

O SEQUESTRO DO CORPO É UMA PESTÍFERA modalidade contemporânea de violência. Ritual de profundo desrespeito à condição humana, o sequestro consiste em retirar uma pessoa do local de sua identificação, de seus significados, subordinando-a a um tratamento que tem por finalidade fragilizá-la, facilitando assim um estado de total dependência e rendição ao sequestrador. O sequestro do corpo é uma privação daquilo que chamamos de horizonte de sentido. O que vem a ser isso? É simples. Todo ser humano, ainda que esteja integrado ao grande mundo, sempre possui um contexto particular feito de significados e significantes. O horizonte de sentido é o território onde não nos sentimos estrangeiros. É o estreito do universo onde descobrimos o sentido mais profundo do que somos. Sentido é tudo aquilo que favorece coerência, liga, orienta e estrutura. É a partir desse horizonte de sentido que pensamos, agimos, amamos, desejamos, vivemos. Somos e estamos estruturados a partir de realidades que significam, isto é, realidades que nos revelam e que nos motivam a desbravar outros horizontes. Esses significados desempenham os mais diversos papéis em nossa aventura humana. São eles que nos sustentam e que definem nosso caráter. Sim, os valores nascem dos significados. Por isso se tornam flmdamentais para a qualidade de nossa atuação no mundo. Podemos dizer, sem medo de errar, que são os significados que aprendemos a amar que qualificam nossa existência.
A nossa inteireza como pessoa depende da junção harmoniosa dos significados que constituem o nosso horizonte de sentido. É como construir um mosaico. Creio que a metáfora seja interessante e pode facilitar nossa compreensão. Um mosaico é feito de partes; essas partes se conjugam e compõem uma única peça. São inúmeros e pequenos detalhes que constroem a trama do mosaico. A pequena peça é fimdamental para a construção do todo, e por isso não pode ser negada, separada. A regra se aplica também a nós. Se pensarmos no espaço humano em que vivemos como peças de um mosaico, nós entraremos no ceme dos significados que nos constituem; nós estaremos no coração de nosso horizonte de sentido.
Quando nos referimos aos significados, estamos tratando de realidades materiais e imateriais. Estamos falando do quarto onde dormimos com nossos travesseiros e lençóis, mas também das pessoas que nos rodeiam e dos amores que nos despertam. O quarto nos identifica; os amores também. O horizonte de sentido é uma conjugação desses valores. A cidade onde moramos, a história já vivida, a casa que nos abriga, os lugares que frequentamos, os amigos que amamos, as crenças que professamos, as relações cotidianas, os ritos que realizamos, enfim, tudo isso compõe o nosso mundo particular, o nosso horizonte de sentido. Veja bem, quando uma pessoa é sequestrada, o primeiro rompimento é com a materialidade de seus significados. O cativeiro é o oposto de tudo aquilo que lhe atribui sentido. O sequestro a privará de estar no mundo que lhe pertence. Não dormirá em sua casa, estará privada dos sabores de sua predileção, de seus ambientes, coisas particulares, de seu travesseiro, de seus livros, de seus perfumes, de suas paredes.
Será violentamente exposta a uma outra realidade que não a sua. O corpo sofrerá a violência de não poder ir e vir.
Terá de obedecer às ordens do recémchegado, daquele que até então não pertencia ao seu mundo. Uma pessoa estranha, que definitivamente não faz parte de seus significados, mas que agora lhe acorrenta o corpo e a faz experimentar uma privação para a qual não estava preparada.
Trata-se de um sofrimento extremamente doloroso. Ao ser afastado dos locais de sua identificação, e passando a viver num ambiente estranho, inóspito e distante de tudo que o realiza, o sequestrado mergulha num profundo estado de solidão. Não se trata de uma solidão comum, dessas que experimentamos ocasionalmente e que faz parte do cotidiano de todos nós. Trata-se de uma solidão muito mais proflmda, caracterizada como ausência de si mesmo.
Ao ser afastado de seu mundo particular e de tudo o que ele representa, o sequestrado sente-se privado de ser ele mesmo. O mundo que agora lhe é oferecido não lhe pertence. O cativeiro lhe nega o direito de ser e estar em seu horizonte de sentido. Esse profundo estado de ausência pode agravar-se com o tempo e evoluir para o que chamamos de esquecimento do ser.

(Fábio de Melo - "Quem me roubou de mim")
 

O homem técnico e o esquecimento do ser

 
 
Quando partires em direção a Ítaca,
que a tua jornada seja longa
repleta de aventuras, plena de conhecimento.
 
Não temas Laestrigones e Ciclopes nem o furioso Poseidon
não irás encontrá-los no caminho, se o pensamento estiver elevado,
se a emoção jamais abandonar o teu corpo e o teu espírito.
Laestrigones e Ciclopes e o furioso Poseidon
não estarão no teu caminho
se não os levares na tua alma,
se a tua alma não os colocar diante dos teus passos.
 
Espero que a tua estrada seja longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
que o prazer de ver os primeiros portos
traga alegria nunca vista.
Procura visitar os empórios da Fenícia
recolhe o que há de melhor.
Vai às cidades do Egipto,
aprende com o povo que tem tanto a ensinar.
 
Não percas Ítaca de vista,
pois chegar lá é o teu destino.
Mas não apresses os teus passos;
é melhor que a jornada dure muitos anos
e o teu barco só ancore na ilha
quando já estiveres enriquecido
com o que conheceste no caminho.
 
Não esperes que Ítaca te dê mais riquezas.
Ítaca já deu uma bela viagem;
sem Ítaca jamais terias partido.
Ela já te deu tudo, e nada mais te pode dar.
 
Se, no final, achares que Ítaca é pobre,
não penses que ela te enganou.
Porque te tornaste um sábio, viveste uma vida intensa,
e este é o significado de Ítaca.
 
Poema de Konstantinos Kavafis

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publicado às 19:39



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