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“A elevação dos direitos a benefícios tangíveis
leva as pessoas, inevitavelmente, a uma mentalidade
vil que oscila entre ingratidão, na melhor
das hipóteses – pois por que razão elas deveriam
ser gratas por receberem algo que é um direito – e,
na pior das hipóteses, ressentimento.
O ressentimento, a única emoção humana que
pode durar a vida inteira, provê infinitas
justificativas para suas más ações.”

Theodore Dalrymple
 
"Quando as pessoas não são
capazes de recusar compromissos que não
desejam, é frequente o surgimento de
doenças físicas, precisamente por se tratar
de uma maneira mais "aceitável" de dizer
não. Nessa altura não resta nenhuma alternativa
senão recusar, porque o corpo se encarrega
de dizer não por elas. Nestas circunstâncias,
ser afirmativo é muito mais
saudável. Uma vez vi uma frase estampada
numa T-shirt que resume esta questão de um
modo humorístico: Stress é quando a sua
mente diz que não, mas a sua boca se abre e
diz que sim."
Brian Weiss
 
“A coragem não lhes salvará,
mas mostrará que suas almas ainda vivem.”

Bernard Shaw
 
Tire o seu sorriso do caminhoQue eu quero passar com a minha dor
No futuro, não seremos lembrados como a era do iPad, nem da Apple, mas como a era do ressentimento. Provavelmente, considerarão os gregos e romanos mais importantes para as civilizações do futuro do que a nossa presente, pautada por pequenas intenções narcísicas.
O narcisismo não é a marca de alguém que se ama muito, mas a marca de alguém que vive lambendo suas feridas porque é um miserável afetivo. Mas por viver se lambendo, pensamos ser ele alguém que se ama muito, sendo que, no entanto, é justamente o contrário. Incapaz de ter vínculos, o narcisista vive a serviço de si mesmo. Pobre diabo que enche nossas ruas e nossas camas.
Não será a coragem, a disciplina, o medo, o desespero existencial que farão a história das mentalidades de nossa era, mas o sentimento de que merecemos mais do que temos. Uma chaga. Mas o que é o ressentimento?
Nietzsche foi o primeiro filósofo a perceber de forma clara o ressentimento como marca humana essencial. Nesse sentido, foi mais profundo do que todo o blábláblá da luta de classes, tema na moda por décadas. Mas essa moda se deve justamente ao fato de a luta de classes ser um conceito que deita raízes justamente no ressentimento que a vida social gera porque somos o tempo todo lançados a conviver com gente melhor do que nós.
O ressentimento tem uma raiz profunda (o pânico diante da indiferença no universo vazio), mas um dos seus efeitos mais marcantes é exatamente a tendência de nos tornar superficiais, porque assim nos protege da consciência do próprio ressentimento. Desse modo, uma vida para o consumo cai bem, porque o ressentimento vive bem com a vida desperdiçada no consumo. A alegria breve do consumo alivia o peso da chaga do vazio que segue sendo nossa sombra. Não existe cura para a causa do ressentimento, existem modos distintos para nos relacionarmos com ele. Não há cura para uma verdade, apenas modos de enfrentá-la ou de evitá-la. A covardia contemporânea é nosso modo específico de evitar essa verdade íntima.
 Nietzsche conta que, num recanto distante do universo, uma estrela tinha um planeta a sua volta. Neste, uma raça de insetos viveu por 1 milhão de anos e criou uma coisa chamada conhecimento, que os insetos tinham em alta conta. Com a morte da estrela, tudo se apagou. E o universo continuou no seu silêncio e na sua indiferença. Nasce aí nosso ressentimento. É da indiferença do universo que nasce nossa mágoa.
Para Nietzsche, as religiões, a metafísica, a moral são criações do ressentimento. Esta crítica é largamente conhecida. Não me interessa aqui refazê-la. Prefiro falar da espiritualidade ressentida contemporânea. Morto Deus, poderíamos pensar que o ressentimento morreria junto. Ledo engano: a praga sobreviveu à morte de Deus, prova de que sua raiz é mais profunda do que a crença em Deus. De lá para cá, os sintomas do ressentimento assumiram formas infinitas. Estética, política, ética, sexual.
Deus já tinha nos dito na Bíblia que nossa missão é dar nome às coisas. Costumo dizer que não devemos falar mal da Bíblia como fazem grandes inteligentinhos como Saramago. A Bíblia é um reservatório de sabedoria, como todo livro de grandes tradições religiosas. Dar nome às coisas é essencial, devemos chamar o ressentimento por seu nome e seus atributos: inveja de quem é melhor, sentimento sufocante de que eu tenho o “direito” de ser melhor do que ele é, conclusão aterrizadora de que não sou. Toda vez que encontramos Deus, deuses ou gente melhor do que nós, afundamos no ressentimento.
Se você já fez algum workshop xamânico, você é, provavelmente, um ressentido. Sinto muito em dizê-lo. A verdadeira espiritualidade trilha aquele caminho que os pietistas alemães (luteranos que odiavam o mundo e viam o pecado em si mesmos e no mundo o tempo todo e, por isso, faziam silêncio para acalmar a Criação do ruído do mal) chamavam de “inferno do conhecimento de si mesmo”. Espiritualidade nada tem a ver com cursos de três dias sobre sabedoria egípcia antiga ou textos védicos. Espiritualidade tem mais a ver com colocar filhos para dormir todos os dias do que com aprender línguas mortas. Mas a alma contemporânea, essa ridícula, pretende recuperar espiritualidades mortas num fim de semana. Mistura budismo com seres de outros planetas como quem mistura molhos de comida étnica. No fundo, todos os deuses que adoram estão a serviço de seus projetos pessoais. Um deus que serve ao homem não vale a pena ser adorado.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

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publicado às 01:29



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