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O REINO DOS CÉUS NA TERRA

por Thynus, em 25.01.17
O mito de Jesus Cristo mostra as qualidades de «Deus», ou melhor, da Energia Vital inata e dada pela natureza de uma maneira quase perfeita. O que não se sabe ou não se reconhece é que o Mal, o Diabo, é um Deus pervertido, resultado da SUPRESSÃO de tudo o que é divino. Esta falta de conhecimento é uma das causas profundas da tragédia humana.
No Orgonomic Infant Research Center, vimos essas características «divinas» naturais nas crianças pequenas, características essas que têm sido consideradas, até agora, como o objective idealizado e inacessível de toda a religião e de toda a moral. Da mesma maneira, todas as religiões que nasceram nas grandes sociedades asiáticas descreveram sempre o animal humano como essencialmente mau, pecador, ruim; todos os filósofos de inspiração religiosa visaram um único objectivo através de toda a história da humanidade: todos procuram o meio de penetrar nas trevas, de descobrir a origem do Mal e um remédio contra a Maldade do homem. Os esforços e os pensamentos filosóficos sempre tenderam, basicamente, a esclarecer o enigma do Mal e a aboli-lo.
Como pode o Mal provir da criação de Deus? Em qualquer criança recém-nascida, Deus está presente para sentir, ver, amar, proteger, desenvolver. E, até hoje, em cada criança recém-nascida. Deus é reprimido, contido, abolido, sufocado, odiado. Este é apenas um dos aspectos do crónico Assassinato de Cristo. O Pecado, (o Mal) é uma criação do próprio homem. Isto ficou sempre escondido,
O Reino de Deus está dentro de nós. Ele nasceu connosco. Mas estamos em falta com Deus, como nos dizem todas as religiões. Nós não o reconhecemos, traímo-lo, somos desleais para com ele, somos pecadores enquanto não regressarmos a Deus. Durante esse tempo estamos" expostos às tentações do Diabo e devemos rezar para resistir à tentação. Como é possível que o homem não veja Deus à sua frente?
As características do sistema vital orgonótico funcionando livremente e a observação de crianças que crescem livres nos seus direitos naturais confirmam a suspeita de que uma verdade básica foi revestida de religiosidade mistificada. Sublinhamos que o nosso propósito não é explicar a crença religiosa ou preconizar uma vida religiosa. O que principalmente nos interessa é saber até que ponto o Homem teve conhecimento, ao longo dos séculos, da verdade biológica, e até que ponto foi capaz de a encarar, tendo em conta o seu medo e o seu ódio à vida. Cristo representa esse conhecimento do homem. Por isso ele deve morrer.
Do passado emergirão as Crianças do Futuro. A rapidez e a eficácia da mudança dependerão, em larga escala, de quanto pôde ser salvo da antecipação de um futuro melhor nos sonhos da humanidade e de quanto foi distorcido durante o conflito entre o Diabo e a moral. Se esta orientação fundamental não for seguida, todo o esforço pedagógico está destinado ao fracasso. Se queremos descobrir o homem, é preciso tomar consciência da tendência de todo o homem couraçado: o ódio ao Vivo:
Jesus sabia que as crianças possuíam «ALGO». Amava as crianças e ele próprio se assemelhava a uma delas. Era sábio, mas ingênuo; confiante, mas prudente; transbordante de amor e gentileza, mas sabia ser duro; era forte e, apesar disso, doce, como será a criança do futuro. Não se trata de uma visão idealizada. Temos plena consciência de que a menor idealização dessas crianças equivaleria a ver a realidade através de um espelho onde ela não poderia ser apreendida.
Ser semelhante a Deus não é ser simplesmente vingativo e severo, nem ser simplesmente bom e indulgente, dando sempre a outra face ao inimigo. Ser semelhante a Deus é conhecer todas as expressões da vida. As emoções orgonóticas são benevolentes e doces quando a benevolência e a doçura se impõem. São duras e rudes quando a Vida é traída ou ofendida. A Vida é capaz de acessos de cólera, como Cristo demonstrou expulsando os mercadores do templo de Deus. Ela não condena o corpo, ela compreende até a prostituta e a mulher que é infiel ao seu marido. Ela não persegue nem condena a prostituta e a mulher adúltera. Quando fala de «adultério», a palavra não tem o mesmo significado que tem na boca dos animais humanos, sedentos de sexualidade, maus, endurecidos, estereotipados, que encontramos nalgumas cidades superpovoadas.
Deus é Vida. O seu símbolo na religião cristã, Jesus Cristo, é uma criatura de intensa irradiação. Ele atrai as pessoas, que se agrupam em torno dele e o amam. Este amor é, na realidade, sede de amor; transforma-se rapidamente em ódio quando não é gratificado.
As criaturas que irradiam vida nasceram para dirigir os povos. São líderes sem esforço, sem se proclamarem líderes do povo, como o fazem os líderes da peste emocional.
As crianças irradiantes de felicidade são também líderes natos para as outras crianças. Estas agrupam-se em tomo daquelas, amam-nas, admiram-nas, buscam os seus elogios e conselhos. Esta relação entre líder e seguidores desenvolve-se espontaneamente durante as conversas e as brincadeiras. A criança do futuro é gentil, amável, natural e alegremente generosa. Os seus movimentos são harmoniosos, a sua voz melodiosa. Os seus olhos brilham com uma luz doce e lançam um olhar profundo e calmo sobre o mundo. O seu contacto é suave. Quem é tocado passa a irradiar a sua própria energia vital. Este é o «poder curativo» de Jesus Cristo, tão mal interpretado. A maioria das pessoas, incluindo as criancinhas couraçadas, são frias e têm a pele húmida, o seu campo energético é pequeno, não irradiam, não comunicam nenhuma força aos outros. Elas próprias têm necessidade de energia e sugam-na onde a encontram. Bebem a energia e a beleza irradiante de Cristo, como o homem a morrer de sede vai beber ao poço.
Cristo dá livremente. Pode dar de mãos abertas, pois o seu poder de absorver a energia vital do universo é ilimitado. Cristo não pensa estar a fazer demasiado ao dar a sua força aos outros. Fá-lo com satisfação. Mais ainda, tem necessidade de se dar assim; ele transborda energia. Nada perde ao dar generosamente aos outros. Pelo contrário, é dando aos outros que ele aumenta a sua força e riqueza. Não dá apenas pelo prazer de dar; floresce com as suas doações, pois a sua generosidade acelera o metabolismo das suas energias; quanto mais esbanja a sua força e o seu amor, mais força obtém do universo; quanto mais intenso o seu contacto com a natureza que o cerca, mais aguda é a sua percepção de Deus e da Natureza, dos pássaros e das flores, do ar e dos animais, dos quais está próximo, apreendendo-os com o seu Primeiro Sentido orgonótico; seguro nas suas reacções, harmónico na sua auto-regulação e independente de todos os «deves» e «não deves» obsoletos. Ele não se apercebe de que outros «deves» e «não deves» surgirão mais tarde, da maneira mais trágica, e assassinarão Cristo em cada criança.
O «poder curativo» de Cristo, que os homens couraçados mais tarde deformaram, transformando-o em mediocridade interesseira, é, na realidade, um atributo perfeitamente compreensível e facilmente observável em todos os homens e mulheres naturalmente dotados das qualidades de líder. Os seus poderosos campos orgono-energéticos são capazes de estimular os sistemas energéticos inertes e «mortos» dos miseráveis e dos «infelizes». Esse estímulo do sistema vital exaurido é sentido como um relaxamento da tensão e da angústia, relaxamento esse devido à dilatação do sistema nervoso, que se traduz por uma faísca de amor verdadeiro num organismo cheio de ódio. A excitação da bioenergia no ser fraco é capaz de dilatar os seus vasos sanguíneos, de irrigar melhor os tecidos, de acelerar a cura das feridas, de contrariar os efeitos parausantes e degeneradores da energia vital estagnada.
O próprio Cristo não se preocupava com os seus dons de curador. Nenhum grande médico se vangloria de saber curar. Nenhuma criança saudável tem consciência do seu poder de redenção. É a função da vida que age neles. Ela faz parte da expressão vital de Cristo nas crianças, no autêntico médico, no próprio Deus. Cristo vai ao extremo de proibir os seus místicos adeptos e pasmados admiradores de revelarem aos outros o seu poder de curar. Alguns historiadores do Cristianismo, mal informados, interpretarão essa atitude de Cristo como uma «retirada diante dos inimigos» ou «medo de ser acusado de bruxaria». Na realidade, esta questão nada tem a ver com inimigos ou bruxaria, embora Cristo também seja mais tarde atacado pela peste, pelas mesmas razões. A verdade é que ele não presta muita atenção aos seus poderes curativos. Eles fazem parte integrante do seu ser, a ponto de não lhe suscitarem mais interesse ou orgulho do que a sua maneira de andar, de amar, de comer, de pensar ou de dar. Esta é uma das características básicas do CARÁCTER GENITAL.
Cristo disse aos seus companheiros: O Reino dos Céus está em vós. Está também para além de vós, em toda a eternidade. Se tomardes consciência disto, se viverdes conforme as suas leis e objectives, sentiréis Deus e conhecê-lo-eis. ESTA é a vossa redenção, este é o vosso salvador.
Mas eles não compreendem Cristo. De que fala ele? Onde estão os «sinais»? Porque não lhes diz se é ou não o Messias? Ele é o Messias? Deve prová-lo, fazendo milagres. Ele não fala. Ele próprio é um mistério. É preciso que se faça luz sobre ele, que o véu do seu segredo seja levantado.
Cristo não é um mistério. Se ele nada disse, foi porque nada tinha a dizer que pudesse satisfazer-lhes as aspirações místicas. Cristo É. Ele vive a sua vida. Ele não tem consciência de que é tão diferente de todos os outros.
Para Cristo, que é natureza, a Natureza e Deus são uma só coisa. As crianças sabem isso, disse ele aos seus amigos. E crê que todos são Crianças em Deus. Para ele. Deus é Crescimento e Crescimento é Deus.
Mesmo assim, eles não entendem aquilo de que Cristo lhes fala. Para eles. Deus é um pai barbudo, colérico, vingativo. Por isso. Cristo parece falar-lhes por parábolas veladas. Para eles. Deus faz o crescimento. E eles não se sentem crianças em Deus, mas os servos de um Deus raivoso. Para eles, a Natureza foi criada por Deus em sete dias a partir do nada. Como pode, então. Deus ser a Natureza?
Cristo não ignora a moral inata e a sociabilidade natural da vida. Nos seus sermões, ele evoca a bondade inerente aos pobres e aos infelizes. Os pobres assemelham-se às crianças. A fé é força. A fé pode mover montanhas. A fé dá energia. A fé é o sentimento de Deus, ou da Vida, em nós. Ela é confiança em si, energia, dinamismo.
Eles não entendem aquilo de que Cristo lhes fala. Estão tristemente privados da sua própria natureza. É preciso ameaçá-los para que observem as leis da moralidade e da sociabilidade. Eles perderam o Reino de Deus e guardam com eles a nostalgia do paraíso. Imaginam o paraíso como uma terra em que não é obrigatório trabalhar para criar abelhas que dêem mel. Ali o mel corre em grandes rios, sem que ninguém precise de mover um dedo. O leite também é obtido, claro, sem o menor esforço. Ele também corre nos rios.
Se é verdade que Deus se preocupa com cada criatura do universo, por que razão não tomaria conta delas no paraíso? Então, nada de trabalho, nada de esforços, nada de preocupações: apenas o leite e o mel a correr nos rios. E o maná também cairia do céu sobre a terra. Bastaria abaixar-se, apanhá-lo e pô-lo na boca. Mas acontece que o maná não cai do céu, e que é necessário trabalhar muito para obter leite e mel. E é assim porque Deus ainda não enviou o seu Messias para as redimir. Moisés já tinha prometido aos seus uma terra onde teriam leite e mel em abundância. Mas foi um sonho que acabou por se transformar em pesadelo com a ocupação romana, as taxas, a escravidão, as perseguições. No entanto, o Messias está a chegar. Cristo é tão diferente deles. Ele tem uma linguagem e vive uma vida que não compreendem. Isso confirma a sua opinião de que ele é o Messias que veio para os salvar. As pessoas temem e admiram o que não compreendem. Sentem-se felizes quando estão perto dele. As crianças amam-no e cercam-no como se ele fosse Deus em pessoa. Naquela época, ainda não se adquirira o hábito de mandar crianças vestidas de branco entregar flores aos homens de Estado. Esse hábito foi instituído cerca de dois mil anos mais tarde.
Cristo não percebe muito bem o que lhe está a acontecer. Ele não se revela, porque nada tem a revelar. Ele apenas vive à sua maneira. E como vê e sente quanto eles são infelizes e diferentes dele, tenta ajudá-los. Tenta inculcar-lhes os seus próprios sentimentos de simplicidade, de franqueza, de intimidade com a natureza. Ele ama as mulheres; rodeia-se de mulheres, assim como de homens, vive o seu corpo «no corpo», como. Deus o criou. Não vive a sua carne, mas o seu corpo. O sentimento vivo que ele tem de Deus é muito diferente do que têm os escribas e os talmujistas. Estes perderam Deus dentro de si, e procuram Deus com sofreguidão, interrogam Deus nas suas preces, implorando Àquele-que-nunca-conheceram que Se lhes revele. São obrigados a pregar a fé porque não têm fé. São obrigados a pregar a obediência às leis de Deus, porque os homens já não se assemelham a Deus. Deus é para eles um estranho colérico e duro. Outrora Ele castigou-os, expulsando-os do paraíso. Depois colocou um anjo na entrada, com uma espada de fogo. Eles tornaram-se vítimas do demônio.
O Demônio é a doença, a luxuria da carne, a avidez, o assassinato, a deslealdade para com os semelhantes, a farsa, a mentira, a caça ao dinheiro. Eles perderam Deus e já não o conhecem. Durante séculos, muitos profetas exortaram-nos a regressar a Deus, mas ninguém ousou reconhecer Deus tal como ele vive e age no homem. A carne suplantou completamente o corpo. Mesmo os recém-nascidos já não se assemelhavam a Deus, mas saíam pálidos, doentes e infelizes do ventre materno contraído, frio e murcho.
Evidentemente, Deus continuava neles; mas encontrava-se oculto e deformado, a ponto de ninguém o reconhecer. O sentimento de Deus habitando neles estava intimamente ligado a um sentimento de angústia. De certo modo impunha-se a convicção de que não se devia conhecer Deus, apesar de a Lei ordenar que seja reconhecido e que se viva segundo a Sua vontade. Como se pode viver segundo a vontade de alguém que se não conhece e que jamais se conhecerá? Ninguém lhes diz. Ninguém lhes pode dizer. Tudo o que se relaciona com Deus é transportado para um futuro longínquo, para uma grande e terrível esperança, para uma miragem em direcção à qual os homens estendem desesperadamente os braços. E, entretanto. Deus encontra-se no fundo deles, inacessível, protegido do seu contacto pelo medo e pela angústia. Um anjo assustador protege os anjos contra eles próprios.
Cristo sabe que os homens são infelizes, mas não sabe exactamente como, pois é diferente deles e não conhece a infelicidade. Acredita que os homens são feitos como ele. Não é irmão deles? Não cresceu no meio deles? Não brincou com eles, em criança, partilhando as alegrias e as tristezas? Sendo assim, como podia ele saber que era tão diferente? Se tivesse tido consciência disso, ter-se-ia isolado, separado dos outros, teria procurado a solidão, não teria partilhado com as outras crianças as suas alegrias e tristezas infantis.
No entanto. Cristo era tão diferente de todos os outros que só a ausência flagrante neles das coisas que ele possuía em abundância poderia revelar a diferença.
Cristo não se julgava santo. Ele simplesmente vivia o que os seus companheiros pensavam ser a vida de um santo. Uma flor vive «como se» fosse uma flor? Um veado, «como se» fosse um veado? Uma flor ou um veado andam por aí a dizer «sou uma flor» ou «sou um veado»? Eles são como são. Vivem a vida. Preenchem uma função. Existem, sendo de maneira ininterrupta a realidade que representam, sem pensar nela ou fazer perguntas. Se alguém resolvesse dizer a uma flor ou a um veado: «Escuta, tu és maravilhosa, és uma flor (um veado)», eles olhariam para o seu interlocutor com surpresa. «Que está a dizer? Não compreendo. Evidentemente que sou uma flor (um veado). Que queria que eu fosse?»
E os admiradores místicos não compreenderiam o que o veado e a flor tinham tentado dizer-lhes. Ficariam mudos de admiração diante do milagre. Gostariam de ser como a flor ou o veado. E, finalmente, colheriam a flor e matariam o veado. Este é o desenlace inevitável, dado o estado das coisas.
Eles amam Jesus porque ele é o que eles não são e nunca poderão ser. Tentam imbuir-se da sua força, da sua simplicidade, da sua beleza espontânea. Mas não conseguem. Não podem assemelhar-se a ele, nem absorvê-lo. Para se sentirem melhor, mais fortes, mais sábios, diferentes do que são, bastaria que olhassem para ele, escutassem o que ele diz, que dessem ouvidos à simples e estranha verdade que sai da sua boca e vai directamente, sem nunca errar, ao alvo. Cristo não erra o alvo porque mantém um contacto perfeito com o que se passa à sua volta. Ele pode ver o que eles não vêem porque está aberto para ver. Ele contempla uma paisagem e apercebe-se da unidade que ali reina. Ele não vê, como eles, árvores isoladas, montanhas isoladas, lagos isolados. Ele vê árvores, lagos e montanhas como são na realidade: elementos integrados de um fluxo total e unitário de ocorrências cósmicas. Ele vê, ouve e toca todas as coisas com a totalidade do seu ser, derramando nelas as suas energias vitais, e recebendo das árvores, flores e montanhas a mesma energia, mas centuplicada. Ele não retém a sua força nem se apega a ela. Dá generosamente, sem nunca perguntar se, ao agir assim, se empobrece. Ele não se empobrece, antes se enriquece ao dar. A Vida devolve em metabolismos ricamente transbordantes o que recebe. Receber e dar nunca são actos de sentido único. É sempre uma troca, um vai e vera.
Uma vez mais, eles não sabem do que Cristo lhes fala. Para eles, dar é empobrecer-se. Perceber é juntar forças, encher o vazio, preencher um abismo no mais profundo do ser. Eles só podem receber, não podem dar. Quem dá é, aos olhos deles, um louco ou um bom fruto para ser espremido, para ser explorado. Assim desencorajam muitos seres generosos, condenam à solidão muitas almas bondosas. E o mundo fica cada vez mais pobre.
Cristo, que ama o povo, vive sozinho. Aqueles que se detestam, assim como detestam todos os outros, vivem solitários e abandonados no meio da multidão. Têm medo uns dos outros. Dão palmadinhas nas costas uns dos outros e fazem sorrisos grotescos que lhes parecem amáveis. São obrigados a representar uma comédia, com medo de se degolarem uns aos outros. E sabem que todos se estão a enganar uns aos outros. Reúnem-se em congressos, como há dois mil anos, para conseguir a «paz definitiva», mas sabem muito bem que se estão a enganar uns aos outros com subterfúgios e formalismos. Ninguém diz o que realmente pensa. Cristo, ele sim, diz o que pensa. Ele não é formal, não finge, nem faz esforço para não fingir. Simplesmente não finge. As vezes cala-se, mas ignora a mentira deliberada e maldosa. Quanto aos outros, não dizem a verdade, pela simples razão de que a verdade não pode ser dita; neles, o órgão que faz dizer a verdade morreu dentro deles quando perderam a corrente da Vida e do viver sincero.
Assim, honram a verdade e vivem na mentira. A verdade está indissoluvelmente ligada às correntes da Vida no organismo e na sua percepção. A vida não é verdadeira porque deve ser ou porque foi feita para ser verdadeira; porém, em cada um dos seus movimentos está expressa a verdade. A expressão do corpo é incapaz de mentira. Poderemos ler a verdade se soubermos ler a linguagem expressiva dos movimentos do rosto ou do modo de andar de cada homem. O corpo diz a verdade, mesmo que tenha de dizer que mente habitualmente e que esconde as suas mentiras sob um verniz de atitudes dúbias. Assim, a Vida «interpreta os sinais» como os Homens julgaram que Cristo era incapaz de interpretar. No entanto, em certos contextos em que a própria existência da raça está em jogo, também acontece que a verdade não possa ser expressa, permanecendo escondida.
O macaco que existe no homem manifesta-se raramente. Isso também se aplica às origens do homem, a partir do funcionamento da segmentação vermicular dos seres vivos. Embora a história de um acontecimento esteja sempre de algum modo presente no instante em que o consideramos, é necessário ter conhecimentos de anatomia e fisiologia para compreender bem certas verdades que ultrapassam as possibilidades comuns dos homens. O significado cósmico que os homens atribuíram a Cristo, numa óptica mística, residia na expressão verídica da Vida, na completa coordenação do corpo e das emoções, no imediatismo do seu contacto com as coisas. Assim, colocava-se para além das possibilidades do homem que, com a sua couraça, se acha confinado num domínio estritamente «humano». É essa couraça que envolve o homem no mundo dos problemas estritamente humanos que o impede de alcançar o universo, de compreender a vida à sua volta e nas suas crianças recém-nascidas, de desenvolver a sua sociedade de acordo com um saber que ultrapassa a sua própria biologia. Encerrado num estreito espaço, ele é obrigado a desenvolver sonhos e utopias que nunca entrarão no domínio do possível.
Ora, todas as experiências humanas se fazem a partir de dentro do espaço estreito em que o homem está confinado, e ele será incapaz de julgar a sua existência a não ser opondo a sua miserável realidade a alguma realidade transcendente de ordem mística. Ele será incapaz de mudar a primeira e discernir a verdadeira natureza da segunda. A vida, que se desenrola fora do seu espaço estreito, parecer-lhe-á inevitavelmente incompreensível e inacessível.
A exploração das estruturas profundas do homem pela análise do carácter mostrou que são os seus problemas genitais, que é a sua impotência orgástica, que o atiram para a sua estreita prisão. Então é perfeitamente lógico que não haja nada que ele persiga e reprove com mais ardor, que ele mais deteste, do que os aspectos bons da potência orgástica, quer dizer, a Vida ou o Cristo, ou seja, a sua própria origem cósmica e potencialidades actuáis. A primeira, ele interpreta-a, erradamente, mas com uma coerência inexorável, como uma simples foda desprovida de amor, as segundas são transferidas para sempre para o domínio dos sonhos irrealizáveis.
Desta confusão sem remédio deriva o Assassinato de Cristo. O caminho que leva ao assassinato final é longo; as formas que ele toma são muitas; no entanto, até este século XX, o assassinato acabou por nunca deixar de ocorrer. Uma das suas características fundamentais é o facto de ter permanecido tão secreto e tão inacessível.
O núcleo bioenergético da vida e o seu sentido cósmico exprimem-se na função do orgasmo, isto é, na convulsão involuntária de todo o organismo vivo durante o abraço do macho e da fêmea, com o fim de comunicar reciprocamente as suas cargas bioenergéticas. Se não houvesse outros meios de identificar a função da Vida com a função do orgasmo, deduzir-se-ia da identidade dos seus destinos ao longo da história escrita da espécie humana. E entre as características mais típicas e menos aceitáveis do homem couraçado estão a incompreensão, a perseguição e a desaprovação das suas manifestações, a transformação mística da consciência que tem da sua importância, o terror que inspira a perspectiva de um estreito contacto com a Vida e o orgasmo.
Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve
 
A comparação sistemática do comportamento da Vida com o da Vida couraçada durante o abraço genital permitirá, melhor do que qualquer outra coisa, uma boa compreensão do ódio e do consecutivo assassinato de Cristo. Cristo descreveu o Reino dos Céus numa parábola, cuja profunda significação biológica não poderia escapar a quem se interessa pela profundidade da bioenergia humana:
Então o reino dos céus será comparado a dez virgens que, tomando suas lâmpadas, saíram a receber o esposo e a esposa. Mas cinco de entre elas eram. loucas, e cinco prudentes. E quando as cinco que eram loucas tomaram as lâmpadas, não levaram consigo azeite; as prudentes, porém, levaram azeite nos seus vasos juntamente com as lâmpadas. E, tardando o esposo, começaram a sentir-se sonolentas, e assim vieram a dormir. E à meia-noite ouviu-se um grito: «Eis ai o esposo, saí a recebê-lo.» Então levantaram-se todas aquelas virgens e prepararam as suas lâmpadas. E disseram as loucas às prudentes: «Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam.» Responderam as prudentes, dizendo: «Para que não suceda talvez faltar-nos ele a nós, e a vós, ide antes aos que vendem, e comprai para vós.» Mas, enquanto elas foram a comprá-lo, veio o esposo; e as que estavam preparadas entraram com ele a celebrar as bodas, e fechou-se a porta. E por fim vieram também as outras virgens, dizendo: «Senhor, Senhor, abre-nos!» Mas ele, respondendo, disse: «Na verdade vos digo que vos não conheço.» Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora.
(Mateus, 25:1-13)

(Wilhelm Reich - O Assassinato de Cristo)

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