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O REI MINOS E O TOURO

por Thynus, em 03.09.14

Usando o poder com integridade

Esse famoso mito grego ilustra vividamente o que pode acontecer quando não honramos as promessas feitas aos deuses e quando o poder é exercido de maneira irresponsável. Dizem que o poder corrompe, mas qual é a natureza dessa corrupção? Vemos aqui seu lado mais profundo, quando a corrupção atinge os que estão no poder. As escolhas feitas por Minos e as consequências que ele provoca revelam a profunda importância de nos mantermos fiéis à causa superior a que estamos servindo.
Zeus, o rei do Olimpo, viu a bela princesa Europa e a desejou. Mas não era fácil seduzir a moça, de modo que Zeus se disfarçou num touro imaculadamente branco e a transportou pelo mar até a ilha de Creta. Ali, possuiu-a. Mas os atrativos de Europa eram tantos que ele voltou várias vezes para visitá-la, o que não era habitual nesse deus volúvel. Com o tempo, Europa deu-lhe três filhos — Minos, Radamanto e Sarpêdon —, todos os quais foram adotados pelo rei cretense Asteríon, que se apaixonou por Europa e se casou com ela.
Quando os meninos cresceram, houve a inevitável disputa pela sucessão do trono após a morte do pai adotivo. Minos, o mais velho, resolveu a questão rezando para que Poseidon, o deus do mar, lhe desse um sinal divino. Poseidon prometeu que enviaria do mar um touro, como um sinal para o mundo inteiro de que a reivindicação do trono por Minos era favorecida pelos poderes divinos. Minos, por sua vez, concordou em sacrificar imediatamente esse touro ao deus, para afirmar sua lealdade a Poseidon e seu reconhecimento de que seu direito de governar provinha do senhor das profundezas oceânicas. Com isso, Minos deveria demonstrar a todos que seu poder não era apenas seu, e que ele deveria usá-lo com responsabilidade.
Poseidon cumpriu sua parte do pacto, e um magnífico touro branco emergiu das ondas. Minos, entretanto, uma vez coroado, não cumpriu sua promessa. A ganância e a vaidade instigaram-no, e ele começou a pensar em maneiras de ludibriar o deus e fugir ao sacrifício prometido. Considerava que o animal era tão esplêndido que seria uma pena matá-lo; quis mantê-lo em seu rebanho e usá-lo para reprodução, em vez de desperdiçá-lo imolando-o no altar dos sacrifícios. Assim, substituiu-o por seu segundo melhor touro e sacrificou este a Poseidon. Mas esse foi um erro que lhe custou muito caro; o deus ficou furioso e castigou Minos fazendo com que sua mulher, Pasifae, se apaixonasse loucamente pelo touro saído do mar.
Pasifae conseguiu satisfazer seu desejo ardente com a ajuda do artesão Dédalo, que lhe construiu uma vaca de madeira em tamanho natural na qual ela pudesse se esconder. O touro foi enganado e a união se consumou. O resultado desse estranho acasalamento foi o Minotauro — um monstro com corpo de homem e cabeça de touro, que se alimentava exclusivamente da carne humana de virgens. Para esconder essa criatura vergonhosa, Minos encomendou a Dédalo a construção de um labirinto complexo em que aprisionar o Minotauro, um labirinto tão difícil que ninguém fosse capaz de encontrar sua saída. Todos os anos, nove rapazes e nove moças eram enviados de Atenas para alimentar o terrível apetite do Minotauro. E ano após ano, o mal secreto que havia no coração do reino de Minos foi devorando sua paz, até que o herói ateniense Teseu embarcou para Creta. Teseu matou o Minotauro com a ajuda de Ariadne, uma das filhas de Minos, e com isso libertou Creta de sua terrível maldição. Desgastado pela tristeza e pela culpa, Minos morreu, e Teseu se tornou rei de Creta e de Atenas.
COMENTÁRIO: Todas as ações humanas têm consequências, e nenhuma é mais visível ao mundo do que os atos praticados por quem está no poder. No começo da história, o rei Minos é um homem decente. Não se apodera do trono pela violência ou pela traição, como fazem muitos governantes na mitologia grega: recorre aos deuses em busca do julgamento deles, e é recompensado por sua humildade. Esse é o antigo simbolismo da monarquia, que sempre retratou o rei como um veículo da divindade, uma espécie de “bom pastor” que governa o povo pela graça de Deus, e que renova seu poder pela renovação de seu juramento de servir. Embora nos tempos modernos tenhamos praticamente esquecido essa dimensão antiga e profunda do governo, existe uma certa magia naqueles que governam (seja por herança, seja em cargos eletivos), e talvez seja de fato por um poder e finalidade mais profundos que o governante que reivindica seu trono com honestidade recebe esse papel.
Mas a ganância e a vaidade de Minos tomavam conta dele. Do mesmo modo, muitas pessoas hoje começam a abusar do poder em função do desejo de obter mais do que é sua cota. A arrogância também pode ter um certo papel nisso, pois é fácil esquecer, quando se chega ao poder, os ideais iniciais que inspiraram a busca dessa posição, e o indivíduo pode começar a acreditar que é superior àqueles sobre quem exerce controle. A história está cheia de exemplos do triste destino dos que se esqueceram daqueles ou daquilo a que deviam seu poder; e todos os dias podemos observar esse padrão em qualquer empresa ou estabelecimento comercial, bem como no mundo político. Poseidon, o senhor dos mares, dispôs-se a ajudar Minos a obter sua coroa, desde que Minos o honrasse publicamente. Mas, como muitos de nós, o rei não se deu por satisfeito depois de obter o que queria; achou que podia conseguir um pouco mais e cometeu o erro fatal de tratar o deus como um tolo. Naturalmente, o deus se enfureceu. Ainda que, no sofisticado mundo moderno, possamos não acreditar mais na justiça divina, a vida tem estranhas maneiras de, mais cedo ou mais tarde, nos mostrar as consequências de nossos atos.
O Minotauro é uma imagem selvagem de algo cego, bestial e implacável, que se encontra no cerne do reino de Minos e, portanto, no coração do próprio rei. Esse monstro é um retrato vigoroso do processo de corrupção e transformação da alma humana em algo menos que humano. Em pequeninas coisas, nós também podemos perder parte de nossa humanidade pela cobiça e pela arrogância, pisoteando sem pena os que são mais fracos do que nós. O Minotauro come a carne dos jovens, e quando nossa integridade é corroída pela embriaguez do poder, tendemos a ser destrutivos com tudo o que é vulnerável, tanto nos outros quanto em nós mesmos. Podemos tratar nossos filhos com insensibilidade, ou mesmo brutalidade, por eles serem dependentes de nós e não poderem revidar, e podemos nos portar ditatorialmente com aqueles que nos devem alguma coisa, alegrando-nos secretamente com o poder de humilhá-los. Várias vezes ouvimos falar de empresários de sucesso que arriscam tudo para duplicar sua fortuna — e perdem tudo. E há os que se sentem tentados a praticar atos indecorosos, desonrosos ou lesivos contra outras pessoas, em troca de uma esplendorosa recompensa no final; cedo ou tarde, entretanto, em particular ou em público, eles têm que enfrentar a humilhação da derrota. Talvez nem sempre tomemos conhecimento das consequências desses atos nos jornais. O desfecho pode se dar em sigilo e estar no cerne da vida pessoal da pessoa. Mas há um velho provérbio que diz que os moinhos do Senhor moem com vagar, mas trituram até reduzir a um pó extraordinariamente pequeno.
A história de Minos nos ensina que usar o poder com integridade não é algo que devamos fazer apenas em público, para impressionar os outros; trata-se de um compromisso íntimo com aquilo a que chamamos Deus, seja usando a terminologia religiosa ou a linguagem mais objetiva dos interesses humanitários. Quando o compromisso é sincero, e quando nos mantemos fiéis aos ditames do coração, renovamos nosso poder interior e nossa autenticidade. Quando somos hipócritas, prometendo muitas coisas apenas para conseguir votos, podemos enganar algumas pessoas, mas não podemos enganar a nós mesmos, e acabamos ficando frustrados, infelizes e atormentados por nossa consciência.
(Liz Greene Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos, O significado dos mitos como um guia para a vida)

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publicado às 19:29



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