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O rei da França é careca

por Thynus, em 08.02.16
Suponha que eu lhe diga “o rei da França é careca”. Posso parecer maluco, ou talvez apenas mal informado. Mas o que eu disse é falso? Se for falso, isso significa (de acordo com uma das leis da lógica) que o oposto – “o rei da França não é careca” – é verdadeiro. E isso não soa muito melhor. Ou talvez essas afirmações não sejam nem verdadeiras nem falsas – são apenas nonsense; no entanto, embora sejam coisas estranhas de se dizer, não parecem carecer de sentido.

Os filósofos se preocupam mesmo com questões desse tipo? Você pode achar que esse parece ser um caso de inventar sarna para se coçar. Pois bem, eles se preocupam, sim: nos últimos cem anos, muito trabalho cerebral filosófico foi dedicado ao rei da França, embora o país seja uma república há mais de dois séculos. Preocupação com esse quebra-cabeça e outros forneceram inspiração à teoria das descrições do filósofo britânico Bertrand Russell, que a tornou pública num influente artigo de 1905 intitulado “On Denoting”. Essa teoria, entre vários outros trabalhos feitos por filósofos de língua inglesa no início do século XX, foi criada com base na crença de que uma minuciosa análise da linguagem e sua lógica subjacente é o melhor caminho – talvez o único – para se chegar a um conhecimento do mundo que possa ser descrito por meio do uso dessa linguagem.

Dois assuntos espinhosos 
O foco principal da teoria das descrições de Russell é uma categoria de termos linguísticos chamados de descrições definidas: “o primeiro homem na Lua”; “o menor número primo”; “a montanha mais alta do mundo”; “a atual rainha da Inglaterra”. Com relação à forma gramatical, o tipo de sentença em que tais frases ocorrem – por exemplo, “o primeiro homem na Lua era norteamericano” – são similares às chamadas “sentenças sujeito-predicado”, tais como “Neil Armstrong era americano”. No último exemplo, “Neil Armstrong” é um nome próprio, que é referencial, pois se refere a, ou denota, um objeto específico (neste caso, um ser humano em particular) e depois atribui uma propriedade a ele (neste caso, a propriedade de ser norte-americano). Apesar de sua semelhança superficial com nomes próprios, existe um número de problemas que surgem do fato de se tratar descrições definidas como se fossem frases de referência. Providenciar soluções para esses quebra-cabeças foi uma das principais motivações por trás do artigo de Russell em 1905. Dois dos principais problemas enfrentados por Russell foram:
« E assim “o pai de Charles II foi executado” se torna: “Nem sempre é falso no que se refere a x que x gerou Charles II e que x foi executado” e que “se y gerou Charles II, y é idêntico a x” é sempre verdadeiro no que se refere a y. » Bertrand Russell, 1905

Isso é óbvio quando você pensa no assunto…

1. Afirmações de identidade informativas
Se a e b são idênticos, qualquer propriedade de a é propriedade de b, e a pode ser substituído por b em qualquer sentença contendo este último sem afetar sua verdade ou falsidade. Pois bem, o rei George IV queria saber se Scott era autor de Waverley. Uma vez que Scott era, de fato, autor desse romance, podemos substituir “Scott” por “autor de Waverley” e assim descobrir que George IV queria saber se Scott era Scott. Mas isso não parece ser o que o rei queria saber. “Scott é o autor de Waverley” é informativo de um modo que “Scott é Scott” não é.

Angst existencial
Muitas descrições definidas falham em denotar o que quer que seja. Por exemplo, poderíamos desejar dizer: “O número primo mais alto não existe”. Mas claro que é absurdo afirmar sobre algo que esse algo não existe. É como afirmar que algo que existe não existe – uma contradição evidente. A reanálise que Russell faz de sentenças desse tipo explica como tais expressões não denotativas são significativas sem nos forçar a adquirir uma bagagem metafísica indesejada como, por exemplo, entidades não existentes. A (possível) bagagem mais controversa, é claro, é Deus; as falhas mais óbvias de um dos mais significativos argumentos para a existência de Deus (o argumento ontológico) são evidenciados por uma análise russelliana.


2. Preservando as leis da lógica
Segundo a lei do meio excluído (uma lei da lógica clássica), se “A é B” é falso, “A não é B” deve ser verdadeiro. Assim, se a afirmação “o rei da França é careca” é falsa (como parece ser, se proferida no século XXI), a afirmação “o rei da França não é careca” deve ser verdadeira. Mas isso também parece ser falso. Se uma afirmação e sua negação são ambas falsas, a lógica parece ter sido fatalmente ferida.

A solução de Russell
A solução para cada um desses quebra-cabeças, de acordo com Russell, é simplesmente parar de tratar as descrições exatas envolvidas como se fossem expressões de referência disfarçadas. As aparências, em casos assim, são enganadoras: embora as várias sentenças exemplificadas anteriormente tenham a forma gramatical de sentenças sujeito-predicado, elas não têm sua forma lógica; e é a estrutura lógica que deveria determinar se as sentenças são verdadeiras ou falsas e justificar qualquer inferência que possamos tirar delas.
Ao abandonar o modelo referencial sujeito-predicado, Russell propõe no lugar dele que sentenças contendo descrições claras deveriam ser tratadas como sentenças “existencialmente quantificadas”. Assim, de acordo com sua análise, uma sentença de forma geral “F é G” pode ser dividida em três afirmações individuais: “Existe um F”; “nada além de uma coisa é o F”; e “se algo é um F, então é um G”. Usando esse tipo de análise, Russell espertamente acaba com vários mistérios que circundavam as cabeças coroadas da Europa:
« Se enumerássemos as coisas que são calvas, e depois as coisas que não são calvas, não encontraríamos o atual rei da França em nenhuma das listas. Hegelianos, que amam uma síntese, provavelmente concluirão que ele usa uma peruca. » Bertrand Russell, 1905
1. “Scott é o autor de Waverley” é analisada como “Existe uma entidade, e apenas uma entidade, que é o autor de Waverley, e essa entidade é Scott”. É claro que uma coisa é o rei George IV imaginar se isso é verdade; outra bem diferente é ele ficar pensando na insípida afirmação de identidade deduzida do modelo referencial.
2. “O atual rei da França é careca”, na análise de Russell, transforma-se em “Existe uma entidade tal que só ela é agora rei da França, e tal entidade é careca”; isso é falso. A negação disso não é que o rei da França não é careca (o que também é falso), mas que “Não existe uma entidade tal que seja só ela rei da França, e que tal entidade é careca”. Essa afirmação é verdadeira, portanto, a lei do meio excluído é preservada.

a ideia resumida:
Linguagem e lógica

(Dupré, Ben - 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer)

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publicado às 22:20


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