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Viver é tornar acreditável o amor; é vingar o homem, amando
(Abbé Pierre)
 
O propósito mais duradouro da humanidade sempre foi o de produzir mais humanidade. A certa altura, isso significou ter tantos filhos quanto possível, mas a quantidade de cuidados dispensados aos filhos veio a importar mais que o número deles. Hoje em dia a humanidade é, acima de tudo, um ideal de ternura e bondade, estendendo-se a qualquer idade e a qualquer ser vivo. Os primeiros rumores dessa mudança histórica ecoaram há muitos séculos, e agora grandes partes do mundo são sacudidas por eles.
Imaginar a forma que um renascimento viria a ter sobre tais bases foi difícil, porque as pessoas nunca foram capazes de uma visão nova do futuro sem primeiro rever sua ideia do passado.
 
(...) Vejo a humanidade como uma família que raramente tentou se encontrar. Vejo o encontro de pessoas, corpos, pensamentos, emoções ou ações como o princípio de mudanças maiores. Cada vínculo criado por um encontro assemelha-se a um filamento que, se fosse inteiramente visível, faria o mundo parecer recoberto de fios de teia de aranha. Todo indivíduo está ligado a outros, de maneira mais frouxa ou mais tensa, por uma singular mistura de filamentos, que se distendem através das fronteiras do espaço e do tempo. Todo indivíduo reúne lealdades passadas, apresenta necessidades e visões do futuro numa teia de contornos diferentes, com ajuda de elementos heterogêneos tomados de empréstimo a outros indivíduos; e esse constante intercâmbio constitui o principal estímulo da energia da humanidade. Quando as pessoas se vêem como fatores de influência entre si, já não são meras vítimas: qualquer uma, por mais modesta que seja, se toma então capaz de estabelecer uma diferença, por mais ínfima e fugaz, para modelar a realidade. Atitudes novas não são promulgadas por lei, mas se espalham, quase como uma infecção, de uma pessoa para outra.
O debate sobre como se conquistar uma vida melhor, se mediante o esforço individual ou pela ação coletiva, perdeu o sentido, porque não passa de dois lados da mesma moeda. É difícil fazer tudo sem ajuda ou inspiração de fora. As lutas individuais foram, simultaneamente, lutas coletivas. Todos os grandes movimentos de protesto contra o menosprezo, a segregação e a exclusão envolveram um número infinito de atos pessoais dos indivíduos, provocando no todo uma pequena mudança pela qual aprendem um do outro, e pela qual tratam os demais. Sentir-se isolado é não ter consciência dos filamentos que ligam uma pessoa ao passado e a partes do mundo onde jamais esteve.
A era da descoberta mal se iniciou. Até aqui, os indivíduos gastaram mais tempo tentando compreender a si mesmos do que descobrindo os outros. Mas agora a curiosidade se expande como nunca. Até aqueles que jamais puseram os pés fora da terra em que nasceram são, nas suas imaginações, imigrantes perpétuos. Conhecer alguém em todos os países do mundo, e alguém em cada volta da vida, poderá tomar-se, em breve, uma exigência mínima de pessoas que desejam experimentar plenamente o que significa estar vivo. O mundo entrelaçado por íntimos filamentos está separado em variados graus do mundo territorial em que as pessoas são identificadas pelo lugar onde moram e trabalham, por aquelas a quem têm de obedecer, pelos passaportes ou saldos bancários. A ascensão do cristianismo e outros movimentos religiosos do Império Romano é um exemplo de uma nova teia se espalhando por sobre uma civilização apodrecida; ainda que, na aparência, imperadores e exércitos continuassem a dar ordens como se nada houvesse mudado, os indivíduos, sentindo que as instituições oficiais tinham perdido a relevância em face de suas necessidades, buscaram consolo entre si. Hoje, uma reviravolta idêntica de atenção está ocorrendo: a terra está nos primeiros estágios de ser recoberta por fios invisíveis unindo os indivíduos que diferem entre si, segundo todos os critérios convencionais, mas que descobrem aspirações em comum. Quando as nações se formaram, todos os fios estavam destinados a se encontrar num ponto central; agora já não existe centro; as pessoas são livres para se encontrar onde bem quiserem.
Mesmo que todo mundo encontre as pessoas com que sonha, isso não significa o desaparecimento súbito dos descontentes. Almas gêmeas, muitas vezes, tiveram histórias trágicas. Encontrar Deus não evitou pessoas piedosas de se tornarem cruéis em Seu nome. Amizades se deterioram frequentemente em rotinas estéreis. A maior parte das vidas se paralisa no começo da vida adulta, após o que novos encontros não trazem novidade alguma. Os que mais sofreram desse tipo de desenvolvimento travado se dedicaram ao crime, que é a bancarrota final da imaginação.
A imaginação, todavia, não está condenada à fossilização. A descoberta mútua leva pessoas a cuidarem uma da outra tanto quanto de si mesmas. Ser útil ao próximo tem sido reconhecido, ocasionalmente, como um prazer mais profundo e satisfatório do que o exercício permanente do egoísmo, embora tal prazer se torne a cada dia mais delicado, estorvado por sensibilidades cada vez mais complicadas. Algumas relações estabelecidas ultrapassam a crença de que os seres humanos sejam basicamente animais, ou máquinas, ou inválidos crônicos que necessitam de permanente atenção médica. Mas a arte do encontro está apenas na infância.
Uma nova era envolve sempre uma nova categoria de herói. No passado, os seres humanos admiraram heróis porque tinham uma opinião fraca de si mesmos, poucos se julgando pessoalmente capazes de agir com heroísmo; mas também vieram a desmascarar seus heróis, um após outro, como simulacros, e a maior soma de esforços para inventar novos tipos de heróis acabou em decepção. O herói de Maquiavel era por demais insensível. O de Gracian pecava pela pretensão exagerada. O ídolo romântico tinha encanto pessoal, mas levou a sensibilidade ao ponto da auto tortura. O Super operário Herói da União Soviética não tardou a se sentir enganado. Heróis foram outrora conquistadores, mas subjugar já não é admirável, e os que comandam valem agora menos que os encorajadores. O êxito numa carreira já não basta para fazer de alguém um herói, porque a vida privada passou a valer tanto quanto a vida pública. A religião ainda pode inspirar alguns entusiastas a serem mártires, mas pouquíssimos preferem ser santos. O orador carismático e o líder revolucionário são vistos, a cada dia, com maior suspeita, pois o mundo está farto de promessas nãocumpridas e prefere alguém que ouça.
“Feliz o país que dispensa heróis”, disse Brecht. Não, sua falta será sentida se desaparecerem. Mas um número exagerado deles se fez passar por deuses: houve uma escassez de heróis modestos. Por isso, os anti-heróis foram inventados; eles jamais poderiam decepcionar. Ser herói hoje não significa criar um padrão para outros seguirem, porque o relacionamento ideal requer que cada parceiro seja mantido vivo pelo outro: heróis devem ser capazes tanto de receber quanto de dar, já que a influência em mão única pode se tomar desanimadora ou corruptora. Para tirar benefício de um herói, deve-se ter um pouco dele; deve-se ter coragem; a relação heróica é uma troca de coragem. Os heróis precisam ser intermediários que abrem o mundo para outros. Ser um intermediário que não engana está ao alcance de qualquer pessoa. Não basta contar somente com as minúsculas junções dos encontros pessoais.
Tornou-se possível, como nunca antes, prestar atenção ao que está acontecendo em cada canto do globo. Todos os seres humanos têm um horizonte pessoal, além do qual normalmente não ousam olhar. Mas, ocasionalmente, se aventuram mais longe, e então sua forma habitual de pensar fica inadequada. Hoje em dia eles se conscientizam, cada vez mais, da existência de outras civilizações. Em tais circunstâncias, velhos problemas assumem aparência nova, porque são revelados como partes de problemas mais complexos. A mudança de foco, das disputas nacionais para o humanitarismo amplo e as preocupações ambientais, são sinal da urgente necessidade de escapar de antigas obsessões, de manter à vista todas as dimensões diferentes da realidade e de enfocar simultaneamente o pessoal, o local e o universal.
A justiça - o mais velho sonho da humanidade - continua ilusória porque a arte de fazer justiça começa aos poucos a ser aprendida. Nos tempos antigos, a justiça era cega, incapaz de reconhecer a humanidade que está em todo mundo. Nos tempos modernos, tornou-se caolha, centrada estreitamente no princípio da impessoalidade, impondo as mesmas regras sobre todos, a fim de evitar o nepotismo e o favoritismo, mas incapaz de observar o que as pessoas sentem quando tratadas de maneira impessoal e fria, ainda que com justiça ou eficiência. Impessoais compensações monetárias do estado de bem-estar social não foram capazes de cicatrizar as feridas da injustiça, porque nada pode compensar de forma adequada uma vida desperdiçada, sobretudo quando, como acontece mesmo nos EUA, que estudaram a eficiência até os últimos limites, ela toma 7 dólares de impostos para pôr 1 dólar adicional de renda em mãos de uma pessoa pobre. Somente com os dois olhos abertos é possível ver que os seres humanos sempre necessitaram não apenas de comida e abrigo, saúde e educação, mas também do trabalho que não destrói a alma e de relacionamentos que fazem mais que expulsar a solidão; os seres humanos precisam ser reconhecidos como pessoas. Este livro é uma história de pessoas.
A humanidade só pode dar uma impressão satisfatória de rumo certo quando calcular suas realizações com a ajuda de uma economia que se refira às pessoas como estas de fato são, que incorpore comportamentos irracionais e altruístas em seus cálculos, que não parta do pressuposto de que as pessoas são sempre e fundamentalmente egoístas e que compreenda, por fim, que o êxito, mesmo no mundo material, não é obtido pelo empenho exclusivo no interesse egoísta. Esta economia de dois olhos está em vias de nascer, como também a política de dois olhos, preocupando-se não apenas em conceder vitória à maioria, mas em oferecer aos perdedores vitórias alternativas mutuamente aceitáveis, estimulando, sem ciúme, o cultivo de lealdades múltiplas.
A religião sempre utilizou dois olhos, essencialmente universais, abrangendo tanto o material quanto o espiritual, equilibrando salvação pessoal e interesse pelos outros, embora muitos crentes tenham preferido ter um olho só e nada mais ver além de sua verdade. No século XII, Maimônides disse que os seres humanos podiam contar com o céu, quaisquer que fossem suas crenças teológicas, desde que se comportassem com decência, aceitando as “Sete Leis de Noé”, que foi o pai de todos quando “a Terra inteira tinha apenas uma língua e uma fala”. Essas leis nada mais exigiam além do respeito ao próximo; os judeus concordavam que um muçulmano ou um cristão poderia ser “uma pessoa direita”. A essência universal da religião é redescoberta sempre que se lembra que a doutrina divide enquanto a ação une; ou que ying e yang não são opostos, mas sim interagentes; ou que a devoção hindu (bhakti) envolve o aprendizado da arte de ouvir e ser amigo; ou, como o rabino de Varsóvia declarou antes de sua comunidade ser aniquilada, que ninguém está sozinho - yahid (solitário) e yahad (juntos) estão separados apenas por uma letra. Descobrir compatibilidades através das fronteiras do dogma é o próximo item na agenda dos crentes e descrentes que não desejam ser confundidos pelas diferentes metáforas que cada sistema de crenças adota. Os fantasmas do passado podem ser postos no trabalho útil sem precisar causar estragos.
Enquanto cada segmento da humanidade, esquecendo que a busca do respeito é uma preocupação universal, exigi- lo somente para si, os resultados serão medíocres, como foram no passado. Os métodos tradicionais de agitação, legislação e infiltração vagarosa nas posições do poder nunca foram suficientes para mudar mentalidades. As mulheres abrindo caminho em profissões antes fechadas, geralmente se obrigam a aceitar as regras dos que estão no poder, os quais fazem concessões na suposição de que os recém-chegados irão jogar, mais ou menos, da maneira como se jogou sempre. Ademais, a independência econômica, o direito de trabalhar e de receber salário igual, não constituem fins em si mesmos, mas um meio voltado para uma vida mais completa, que a maior parte dos empregos não está destinada a estimular. Além da luta pelo poder, jaz a possibilidade de conquistar-se o respeito próprio ajudando os outros a se respeitarem mutuamente.
Tentei fornecer uma base onde salientar não uma retirada dos assuntos públicos para uma auto-obsessão particular, mas uma consciência do que é mais legitimamente público, o que os seres humanos compartilham. O que é único acerca da época atual é que a humanidade nunca esteve tão consciente da supremacia de suas preocupações íntimas, nem as exprimiu de forma tão franca, em quase todas as partes do mundo.
A busca do que temos em comum, apesar das nossas diferenças, nos enseja um novo ponto de partida.
“MINHA VIDA É UM FRACASSO.” Foram estas as palavras com que iniciei este livro, e agora o encerro com a história de um assassino que repetiu esta frase muitas vezes, até que um dia …
Meio minuto basta para transformar uma pessoa aparentemente comum num objeto de ódio, um inimigo da humanidade. Ele cometeu um homicídio e foi condenado à prisão perpétua. Depois, na sua cela desolada, meio minuto foi o suficiente para transformá-lo outra vez, agora em herói. Salvou a vida de um homem e foi perdoado. Mas ao chegar em casa encontrou a mulher vivendo com outro, além do que a filha nada sabia a seu respeito. Não o queriam, de modo que ele decidiu morrer.
Sua tentativa de suicídio também fracassou. Um padre chamado à beira do seu leito disse-lhe: “Sua história é terrível, eu nada posso fazer para ajudá-lo. Tenho família rica, mas renunciei à herança e fiquei apenas com dívidas. Gastei tudo que tinha em abrigos para os desamparados. Nada lhe posso dar. Você quer morrer e nada pode detê-lo. Mas, antes de se matar, me dê uma ajuda. Depois, faça como quiser.” Aquelas palavras mudaram o mundo do assassino. Alguém precisava dele: afinal não era uma pessoa supérflua e dispensável. Concordou em ajudar. E o mundo nunca voltou a ser o mesmo para o monge, que se sentia até então esmagado pelo acúmulo de sofrimento ao seu redor, e cujos esforços para minorá-lo quase não faziam diferença. O encontro casual com o criminoso deu-lhe a ideia que iria modelar todo o futuro: diante de uma pessoa na maior depressão, nada lhe pudera dar, mas, ao contrário, lhe pedira auxílio. Mais tarde o criminoso disse ao monge: “Se você tivesse oferecido-me dinheiro, ou um quarto para morar, ou um emprego, eu teria reiniciado minha vida de crimes e matado outra pessoa. Mas você precisou de mim.” Eis como nasceu o movimento de Emaús, do Abade Pierre, em benefício dos miseráveis: de um encontro entre duas pessoas totalmente diferentes, que acenderam uma luz no coração uma da outra. Esses dois homens não eram almas gêmeas no sentido comum, na significação romântica das palavras e, no entanto, cada um deles deve ao outro o sentido de direção que lhes guia a vida até hoje.

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Todos têm o poder, com um pouco de coragem, de estender a mão a um estranho, de ouvir e de tentar aumentar, ainda que em pequeníssima proporção, a soma de bondade e de humanidade no mundo. Mas não adianta agir assim sem lembrar que esforços anteriores falharam e que nunca foi possível prever com certeza como se comportará um ser humano. A história, com sua infindável procissão de passantes, que em sua maioria perderam a oportunidade de encontros esclarecedores, caracterizou-se, até aqui, como uma crônica do pendor para o desperdício. Mas, na próxima vez em que duas pessoas se encontrarem, o resultado talvez seja diferente. Esta é a origem da ansiedade, mas também da esperança, e a esperança é a origem da humanidade.


 (Theodore Zeldin - Uma história íntima da humanidade)

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publicado às 13:38


1 comentário

De Carolina Lourenço a 06.11.2018 às 01:24

Parabéns pelo texto. Incrivelmente belo, questionador e provocante.  

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