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O que é nostalgia?

por Thynus, em 21.10.15
Nostalgia significa o estado de profunda tristeza causado pela falta de algo. É a sensação de saudade originada pela lembrança de um momento vivido no passado ou de pessoas que estão distantes. É um sentimento melancólico geralmente produzido em pessoas que se encontram longe da sua terra natal e sente saudades da sua pátria, do seu lar e de coisas que lhe são familiares.
Etimologicamente, a palavra nostalgia é formada pelos termos gregos nostós (que significa regresso a casa) e álgos (que significa dor). Esse sentimento de tristeza é causado em um indivíduo pela distância em relação a um lugar, pessoas ou coisas. Esse afastamento em relação a elementos queridos provoca abatimento e uma vontade extrema de voltar a esses momentos e lugares ou de estar com algumas pessoas.
A nostalgia pode gerar um comportamento anormal em indivíduos que foram afastados da sua terra natal ou separados da sua família. Há um forte desejo de regressar à pátria ou de rever os seus familiares. É um sentimento semelhante à saudade mas tende sempre a aumentar. Os pensamentos nostálgicos também podem estar associados a momentos de felicidade vivenciados em determinado período da vida, em alguns casos são idealizados.
O estado de nostalgia também é produzido através da lembrança da infância. Dos brinquedos, jogos, brincadeiras, programas de televisão e de outros momentos vividos quando criança.
O Romantismo foi um movimento cultural marcado pela nostalgia, que era manifestada pelos românticos na literatura, arquitetura e artes plásticas. Um estado de tristeza indefinida, tal como a melancolia.

(Significados)
Podemos falar de “nostalgia”?
E, se for o caso, em qual sentido?
Pode-se, como muitas vezes já se fez com relação à Odisseia, falar de “nostalgia”
para caracterizar as motivações de Ulisses? À primeira vista é o que parece. A própria
palavra tem uma consonância grega, pois é formada a partir de nostos, que vem de
nesthai, “regressar”, “voltar para casa” — palavra que dá origem ao nome Nestor,
“aquele que volta vitoriosamente” —, e algos, o sofrimento: a nostalgia é o desejo
doloroso de voltar ao lar. Não seria, precisamente, o que motiva Ulisses? Uma vontade
intensa, mas contrariada, de voltar a seu ponto de partida, “ao país” ou, para falar
como os românticos alemães, mestres por excelência em nostalgia, bei sich selbst,
voltar a si mesmo?
Porém, mais vale ser prudente nesse ponto e não se deixar levar pela magia das
palavras. Primeiro, porque o termo não pertence ao vocabulário dos gregos. Ele não se
encontra em parte alguma da Odisseia, nem, aliás, em nenhum texto antigo. E por razão
bem simples: foi forjado tardiamente, em 1678, por um médico suíço chamado Harder,
para traduzir um sentimento destinado a ganhar uma crescente importância no decorrer
dos séculos, principalmente no XIX: Heimweh, cuja equivalência em francês de hoje é
mal du pays.(1) Se deixarmos a esfera da filologia e da história e nos alçarmos à da
filosofia, vemos que existem, na verdade, três formas bem diferentes de nostalgia, que
o belo livro de Kundera que aborda esse tema nem sempre distingue.(2) Há primeiro a
nostalgia puramente sentimental, que lamenta alguma felicidade perdida, qualquer que seja — o ninho familiar, as férias desfrutadas na infância, os amores passados. Todos já tivemos experiências assim. Há, em seguida, a nostalgia histórico-política, que, no sentido próprio do termo, é “reacionária”, motivadora de todas as “Restaurações” e que se exprime muitas vezes em alguma língua morta, como, por exemplo, na expressão latina laudator temporis acti, que serve de título para um bonito livro (3) e que se pode
traduzir como “elogio dos tempos passados” ou, apenas, “antigamente era melhor”, isto
é, no tempo da Atlântida, antes da civilização moderna, da indústria, das cidades
grandes, do individualismo, da poluição, do capitalismo etc. Já sob essa influência, os
românticos do século XIX construíam na Alemanha e na Suíça ruínas antigas em seus
jardins, em vez de alamedas geométricas como as de Versalhes. Gostavam de assim
evocar a ideia do passado, do bom tempo, das civilizações em que os humanos eram
em tudo mais e melhores do que os de hoje: mais nobres, mais bem-educados, mais
grandiosos, mais corajosos etc. E por último, mesmo que o termo seja desapropriado
ou anacrônico, há a nostalgia dos gregos, a de Ulisses, que é, antes de tudo,
cosmológica e pode se resumir numa fórmula que tomo emprestada de um grande
filósofo, Aristóteles: phusis archè kinéséos, “a natureza é o princípio do movimento”,
isto é, a gente se move, como na Odisseia, para voltar ao lugar natural do qual se foi
injustamente deslocado (Ítaca), sendo a meta da viagem, para o herói, voltar ao acordo
perdido com a ordem cósmica.
Não é o amor que faz Ulisses se mover — ele nunca viu Telêmaco (o filho de Ulisses) e em grande medida já esqueceu Penélope (a mulher), a quem inclusive ele não para de enganar, sempre que a oportunidade se apresenta. É menos ainda um projeto de restauração política; se ele quer repor ordem em sua casa, não é para combater um declínio eventual que alguma revolução ou visão moderna tiver estabelecido. Não, o que em profundidade faz Ulisses se movimentar é o desejo de estar em casa, de se pôr em harmonia com o
cosmos, pois essa harmonia vale mais e é melhor do que a própria imortalidade prometida por Calipso. Em outras palavras, se ele aceita sua condição de mortal, não é como um consolo, mas, pelo contrário, para viver melhor. Como disse antes, escolher a imortalidade oferecida o teria despersonalizado, afastando-o dos outros, do mundo e, enfim, de si mesmo. Pois ele não é isso, não é um amante de Calipso que trai os seus,
não é alguém que esquece a pátria, que aceita viver em qualquer parte, no meio de lugar nenhum, com uma mulher que ele não ama de verdade. Não, isso não é Ulisses! E para ser o que ele realmente é, precisa aceitar a morte, não sob a forma de resignação, mas, pelo contrário, como um motor — aquilo que o leva, a qualquer preço, a buscar o seu ponto de partida. É a maneira pela qual o sábio deve viver a construção
cosmológica que até o presente só tínhamos apreciado do ponto de vista dos deuses. E é também, ao mesmo tempo, a primeira imagem da sabedoria para os mortais, da espiritualidade leiga que a mitologia grega vai, por assim dizer, legar à filosofia. E essa sabedoria que Ulisses consegue perfeitamente encarnar — sem dúvida ele é o primeiro na literatura — desfruta, deve-se reconhecer, um enorme charme.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

NOTAS:
(1) - Mais ou menos “saudade de casa”, ou do oikos, como utiliza o autor
(2) - A ignorância
(3) - De Lucien Jerphagnon, um filósofo cujos livros deveriam ser mais lidos

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publicado às 14:33



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