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O que é a vida boa?

por Thynus, em 25.10.17

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Hedonismo: O prazer acima de tudo?


Na linguagem corrente, a noção de hedonismo designa uma inclinação amoral para uma vida voltada para o prazer, até mesmo para o vício. Certamente a noção é inexata: Epicuro, o primeiro grande teórico do prazer, entendeu a vida feliz de um modo extremamente cético: sente prazer aquele que não sofre. É o sofrimento, portanto, que é a noção fundamental do hedonismo: somos felizes na medida em que sabemos afastar o sofrimento; e como os prazeres trazem muitas vezes mais infelicidade do que felicidade, Epicuro não recomenda senão os prazeres modestos e prudentes.

A sabedoria epicurista tem um fundo melancólico: atirado a miséria do mundo, o homem constata que o único valor evidente e seguro é o prazer mesmo pequeno, que ele próprio pode sentir: um gole de água fresca, um olhar para o céu (para as janelas de Deus), uma carícia.

Modestos ou não, os prazeres só pertencem aquele que os experimenta, e um filósofo, com toda razão, poderia criticar no hedonismo seu fundamento egoísta. Entretanto, na minha opinião, não é o egoísmo que é o calcanhar de Aquiles do hedonismo, mas seu caráter (ah, tomara que eu esteja enganado!) desesperadamente utópico: na verdade, duvido que o ideal hedonista possa se realizar; receio que a vida que ele nos recomenda não seja compatível com a natureza humana.

O século XVIII, com sua arte, fez com que os prazeres saíssem da bruma das interdições morais; fez nascer a atitude que chamamos de libertina e que emana dos quadros de Fragonard, de Watteau, das páginas de Sade, de Crebillon filho e de Duclos. É por isso que o meu jovem amigo Vincent adora esse século e, se pudesse, usaria como distintivo na lapela de seu casaco o perfil do marquês de Sade. Compartilho de sua admiração mas acrescento (sem ser porém ouvido) que a verdadeira grandeza dessa arte não reside numa propaganda qualquer do hedonismo mas em sua análise.

É essa a razão pela qual considero As ligações perigosas de Choderlos de Laclos um dos maiores romances de todos os tempos.

Seus personagens não se ocupam senão da conquista do prazer. No entanto, pouco a pouco, o leitor compreende que é menos o prazer e mais a conquista que os tenta.

Que não é o desejo de prazer mas o desejo de vitória que conduz a dança. Que aquilo que aparece primeiro como um jogo alegre e obsceno se transforma imperceptível e inevitavelmente numa luta de vida e de morte. Mas o que tem em comum a luta com o hedonismo? Epicuro escreveu: 'O homem sábio não procura nenhuma atividade ligada a luta.'

A forma epistolar das Ligações perigosas não é um simples procedimento técnico que poderia ser substituído por outro. Essa forma é eloquente em si mesma e nos diz que tudo aquilo que os personagens viveram foi vivido para ser contado, transmitido, comunicado, confessado, escrito. Num mundo em que tudo se conta, a arma ao mesmo tempo mais facilmente acessível e a mais mortal é a divulgação. Valmont, o herói do romance, envia a mulher que ele seduziu uma carta de ruptura que a destruirá. Ora, foi sua amiga, a marquesa de Merteuil, quem a ditou, palavra por palavra. Mais tarde, essa mesma Merteuil, por vingança, mostra uma carta confidencial de Valmont a seu rival; este irá provocá-lo para um duelo e Valmont morrerá. Depois de sua morte, a correspondência íntima entre ele e Merteuil será divulgada e a marquesa acabará sua vida desprezada, perseguida e banida.

Nada nesse romance é segredo exclusivo de dois seres; todo o mundo parece estar dentro de uma imensa concha sonora em que cada palavra sussurrada ressoa, ampliada, em ecos múltiplos e intermináveis. Quando eu era pequeno, diziam-me que colocando uma concha na orelha ouviria o eterno murmúrio do mar. É assim que, no mundo de Laclos, cada palavra continua audível para sempre. Será isso o século XVIII?

Será isso o paraíso do prazer? Ou será que o homem, sem se dar conta, sempre viveu numa dessas conchas ressonantes? Em todo caso, uma concha ressonante não é o mundo de Epicuro, que ordena a seus discípulos: 'Viverás escondido!

 

(Milan Kundera - A Lentidão)

 

 

Os dias são iguais para todos. Cabe a nós decidirmos se vamos torná-los especiais.

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publicado às 14:40



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