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O público na privada

por Thynus, em 27.11.14
 
O papel do Estado
As coisas quase sempre andam pior numa instituição pública do que numa privada basicamente por quatro motivos: pouca competição, garantia de perpetuação, pouco foco no resultado e baixo nível de controle dos processos. Esses motivos serão analisados a seguir:

COMPETIÇÃO: A competição é o principal fator de evolução das empresas. Em uma sociedade livre, as companhias lutam entre si para conquistar e manter seus clientes. Isso só pode ser feito por meio de investimentos em melhor qualidade dos processos, dos produtos, das pessoas, o que leva à redução de custos e possibilita à empresa oferecer produtos com menores preços tornando-a mais competitiva. Nessa corrida, a sociedade ganha como um todo, já que a economia agita-se gerando resultados efetivos, como laboratórios criando mais remédios, empresas de construção civil erguendo cada vez mais edifícios de modo cada vez mais eficiente e barato. Tudo para ganhar mais mercado, pois se uma empresa ficar parada, será engolida por suas concorrentes. Nessa luta, só há uma vencedora: a sociedade, que recebe os frutos de toda essa evolução. Para se atingir esse círculo virtuoso só é necessário que existam regras claras e liberdade para competir.
No caso das atividades públicas, muitas vezes existe um monopólio controlando o setor, ou seja, não há competidores. Prestando bom ou mau serviço, a população é obrigada a usar os serviços públicos, por falta de opções. Se você precisa, por exemplo, tirar um passaporte, é obrigado a usar a mesma repartição pública, quer lhe atenda em cinco minutos ou em cinco horas. Não é possível escolher uma outra opção, como uma empresa privada, para obter esse documento.
Se tal escolha fosse possível, uma empresa privada rapidamente perderia os clientes se os fizessem esperar cinco horas por um documento. Certamente essa empresa iria à falência, na medida em que seus clientes (os cidadãos) teriam outras opções e, com certeza, passariam a escolher companhias mais ágeis.

GARANTIA DE SOBREVIVÊNCIA: Empresas públicas não vão à falência. Mesmo que os serviços sejam péssimos, mesmo que haja competição com empresas da iniciativa privada (como o setor petroquímico — petróleo) e as estatais sofram prejuízos atrás de prejuízos, ainda assim a empresa pública pode contar com o socorro do Estado para tapar os rombos e manter a atividade. Efeito disso é a redução cada vez maior da presença do espírito de melhoria e do senso de urgência de mudança. A sensação de imortalidade reforça a baixa qualidade e a ineficiência dos órgãos públicos. Essa sensação estende-se aos funcionários públicos que lá trabalham, uma vez que a Constituição os protege contra a demissão. Enquanto nos Estados Unidos ou na Inglaterra, por exemplo, os servidores públicos podem ser demitidos a qualquer momento caso apresentem baixo desempenho, no Brasil eles não têm esse risco.

MERITOCRACIA: Em qualquer empresa existem bons e maus funcionários. Nas empresas privadas tudo ocorre de forma bastante simples. Geralmente os bons, que se dedicam mais e trabalham melhor, são promovidos quando surgem as oportunidades. Isso funciona como estímulo para todos, eles sabem que se forem dedicados, chegarem no horário, realizarem seu trabalho direito, terão mais chances de serem reconhecidos por seu mérito e, assim, serem promovidos.
Já nos órgãos públicos, a situação é diferente. Uma infinidade de regras rígidas define as promoções, baseando-se em fatores como tempo de serviço e realização de cursos. Pouco valor se dá à competência e à dedicação, uma vez que esses são fatores subjetivos e que, portanto, não podem ser levados em conta dentro das regras de impessoalidade dos órgãos públicos.
Além disso, não há um dono, em muitos casos o presidente da empresa está lá não porque galgou ao cargo, mas porque foi nomeado, porque é próximo ao político que está no poder. O mesmo ocorre com os cargos de confiança à sua volta. Ele próprio nomeia amigos, parentes, pessoas para as quais deve favores, ou das quais já projeta receber favores no futuro. O Brasil possui atualmente 25 mil “cargos de confiança”, ou seja, posições de trabalho preenchidas por mera indicação política. Na Inglaterra existem apenas cem. Se essas pessoas forem incompetentes, não tem problema, a população cobrirá sua ineficiência, pois continuará usando os serviços prestados por não dispor de alternativas.
Num ambiente onde o corporativismo vale mais que o mérito, em que o parentesco vale mais que a competência e onde as regras rígidas de promoção valem mais do que a capacidade, qual o estímulo existente para todos os outros funcionários? Para que irão dedicar-se, se isso não fará muita diferença em seus salários e seus cargos no futuro? Pior: quanto melhor desempenharem suas funções, mais os políticos incompetentes que foram nomeados se beneficiarão do seu trabalho, justificando que permaneçam por mais tempo no topo das empresas. Assim, é muito mais difícil que um funcionário público produza para a sociedade o mesmo que um trabalhador da iniciativa privada.

CORRUPÇÃO: Além da falta de competição, da despreocupação em introduzir inovações para sobreviver e da cultura de valorização dos colaboradores pelo apadrinhamento e não pela competência dos órgãos públicos, há ainda outro agravante que os tornam um perigo para a sociedade:o enorme potencial para roubo e desonestidade. Nas empresas privadas, existem duas partes que podem roubar: o dono ou os funcionários. Imaginar o dono roubando, com raras exceções, não faz sentido, pois ele estaria tirando algo que já lhe pertence. Além disso, ele dedica boa parte de sua energia para que os funcionários não roubem sua empresa. Mesmo no caso de grandes corporações, os acionistas costumam ter um conselho vigilante para impedir fraudes e desvios por parte dos executivos. Claro que existem casos, como Enron e WorldCom, empresas americanas que foram à falência por causa de desvios. Mas esses exemplos tornaram-se notórios justamente por serem exceções, na medida em que o sistema costuma manter um rígido controle sobre as corporações.
Nos órgãos públicos a situação é bem pior. Caso o presidente seja desonesto, ele pode desviar recursos da empresa para seu patrimônio pessoal e, não sendo pego, terá ganhos nada modestos com isso. Mesmo sendo honesto, ainda restam todos os outros funcionários, dentre os quais encontra-se uma parcela disposta a roubar. O presidente tem muito menor estímulo para vigiá-los, pois caso desviem recursos da empresa, esses prejuízos não serão seus e sim da sociedade como um todo. Isso faz com que, de modo geral, as empresas públicas sejam muito mais corruptas do que as privadas.

(ALEXANDRE OSTROWIECKI, RENATO FEDER - CARREGANDO O ELEFANTE)
 

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publicado às 13:07



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