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O progresso, um mito?

por Thynus, em 27.03.15
Que há de mais absurdo que o progresso, já que o homem, como está provado pelos fatos de todos os dias, é sempre igual e semelhante ao homem, isto é, sempre em estado selvagem.
 
A palavra progresso não terá qualquer sentido enquanto houver crianças infelizes.
 
Estamos convencidos de que o pior mal, tanto para a humanidade quanto para a verdade e o progresso, é a Igreja. Poderia ser de outra forma? Pois não cabe à Igreja a tarefa de perverter as gerações mais novas e especialmente as mulheres? Não é ela que, através de seus dogmas, suas mentiras, sua estupidez e sua ignomínia tenta destruir o pensamento lógico e a ciência? Não é ela que ameaça a dignidade do homem, pervertendo suas idéias sobre o que é bom e o que é justo? Não é ela que transforma os vivos em cadáveres, despreza a liberdade e prega a eterna escravidão das massas em benefício dos tiranos e dos exploradores? Não é essa mesma Igreja implacável que procura perpetuar o reino das sombras, da ignorância, da pobreza e do crime? Se não quisermos que o progresso seja, em nosso século, um sonho mentiroso, devemos acabar com a Igreja.
 
O progresso técnico deixará apenas um problema: a fragilidade da natureza humana.
 
 
O progresso é um mito moderno que surgiu no tempo da Renascença e floresceu nos séculos XVIII e XIX. Previamente, a idéia fora de que o homem tivera uma idade de ouro no passado, e desde então andava constantemente montanha abaixo. A partir da Renascença a idade de ouro ficou no futuro, e o homem subia a encosta. Houve várias versões do mito. Havia uma idéia muito popular no século XVIII de que se nos livrássemos dos reis e dos padres automaticamente chegaria a Idade de Ouro.
Depois, houve o mito do século XIX, de que a industrialização traria a paz universal. Essa expressão do mito morreu dolorosamente durante o século atual; a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa infligiram-lhe um duro golpe, e ele foi finalmente aniquilado pelos eventos mais recentes da Segunda Guerra Mundial e da bomba atômica.
Mas, embora o mito já não exista, podemos dizer que o progresso é um fato. Existe claramente um traço de progresso na ordem natural — o progresso básico fundamental do inorgânico ao orgânico, a evolução de moléculas gigantes que podiam reproduzir-se e que tornaram a vida possível, a passagem de formas extremamente simples a formas mais complexas, capazes de se adaptar a diferentes ambientes e finalmente até de controlá-los. Vemos o progresso de animais que produzem filhotes através de ovos e animais que produzem embriões e controlam a temperatura dentro do corpo, e depois animais que desenvolvem um sistema nervoso altamente organizado.
Embora seja evidente que tudo quanto se desenvolveu no passado ainda existe hoje — as moléculas gigantes persistem na forma de vírus, assim como também persistem os organismos unicelulares —mesmo assim, na linha mestra do desenvolvimento, existe algo que podemos descrever inequívoca e legitimamente como progresso. A mesma coisa parece acontecer na esfera humana, em que a evolução deixou em grande parte de ser biológica e hereditária. Ainda temos a mesma capacidade inata de nossos ancestrais, mas — porque temos linguagem e podemos acumular conhecimentos —usamos essa capacidade de maneira muito mais eficaz hoje do que no passado para controlarmos nosso ambiente. Podemos dizer, com toda a razão, que houve um genuíno progresso, embora ainda se possa andar pelo mundo e encontrar povos neolíticos e até paleolíticos.
A questão então é: pode-se observar esse progresso objetivamente, mas até que ponto o poderemos experimentar? Obviamente o progresso biológico original jamais foi objeto de experiência, em parte pela boa razão de que há dois bilhões de anos não havia ninguém para experimentá-lo de modo consciente. Mesmo depois do surgimento do ser humano, durante quase todo o seu tempo na terra, ele foi, como indivíduo, completamente incapaz de experimentar o progresso, porque este acontecia muito lentamente.
Mas agora as mudanças progressivas no campo da tecnologia e das idéias acontecem em lapsos de tempo medidos por décadas ou menos. Assim, ao menos teoricamente, deveria ser possível para o indivíduo ter uma experiência subjetiva direta do progresso. E até certo ponto isso realmente acontece. Mesmo assim, é verdade que, embora observemos o progresso, leiamos sobre ele, vejamos sinais dele em edifícios e novos tipos de aviões, e assim por diante, não o experimentamos grandemente de maneira subjetiva.
Há muitas razões pelas quais não experimentamos tanto quanto talvez esperássemos fazê-lo.
Para começar, a vida humana não é uma ação progressiva. Sobe até certo ponto, permanece num planalto, depois desce. Na medida em que a vida humana é intrinsecamente não-pro-gressiva, não podemos esperar que haja em muitas fases uma experiência subjetiva muito intensa do progresso que pode ser objetivamente observado. É muito difícil pedir às pessoas que prestem atenção ao mundo que sobe e desce enquanto elas mesmas estão tendo seus altos e baixos. Em segundo lugar, o homem tem uma capacidade quase infinita de considerar as coisas como certas. Quando algo novo acontece, é espantoso por um dia ou dois, depois é aceito como parte da ordem das coisas. O que hoje é um teto dourado sobre nossa cabeça, torna-se — quando subimos e chegamos até ele —apenas um assoalho sob nossos pés, ao qual não damos atenção. E devemos também lembrar que toda criança nasce no mundo tal qual ele é no momento, e não tem experiência do mundo como era anteriormente. Para uma criança nascida hoje, a televisão e os aviões a jato são parte da ordem das coisas. Ela não tem idéia do tipo de mundo em que eu fui criado, um mundo de cavalos e trens, embora essas coisas, que para ela são curiosos legados neolíticos, ainda existam. Essa é outra razão pela qual é muito difícil experimentarmos o progresso subjetivamente, como se experimentam outros aspectos da vida pública e histórica: a maior parte de nós preocupa-se apenas com os fatos de nossas vidas privadas, relações familiares, brigas, ciúmes, compaixão, sexo e mexericos. Estamos unicamente envolvidos na vida da molécula, não na vida do gás.
Por todos esses motivos, pois — porque o lapso de nossa vida é tão breve e o progresso no passado foi tão lento, porque consideramos as coisas como certas, porque a vida humana em si é não-progressiva, e porque vivemos e queremos viver tanto em nossa vida pessoal isolada, ilhada —, por tudo isso, esses grandes fatos objetivos são muito pouco experimentados por nós e vivemos num estranho mundo anfíbio. O homem é um anfíbio múltiplo, vivendo em muitos mundos duplos e levando muitas vidas duplas, e uma delas é sem dúvida essa vida de ser individual inserido numa história que podemos ver objetivamente, mas não experimentamos. O dr. Johnson, que era extremamente duro em relação a idealismo e pretensões, tem uns versos que expressam tudo isso muito claramente. Não é uma boa poesia, mas é um bom epigrama: "Como é pequena, em tudo o que o humano coração suporta, A parcela que qualquer lei ou rei provoca ou cura"1.
Podemos acrescentar a reis e senhores2 itens como tecnologia e inventos científicos, e veremos que isso continua sendo verdadeiro: há uma pequena parcela da história que sentimos subjetivamente como algo de suprema importância para nós. Como diz o dr. Johnson, "acontecimentos públicos não molestam o homem"3 e as notícias de uma batalha perdida nunca fizeram com que "um homem comesse menos ao jantar"4. E, vice-versa, as notícias de uma novidade científica ou de uma grande descoberta jamais fizeram um homem comer mais ao jantar.
Esse estado anfíbio entre sociedade e indivíduo, história e biografia, é um tipo de existência bizarra e desconfortável.
Mas temos de aceitá-la, e em todos os processos de educação precisamos preparar os jovens a viverem nos dois mundos — viver da melhor maneira possível seu mundo individual, e, se possível, manter um interesse inteligente pelo mundo histórico. Provavelmente jamais conseguirão sentir subjetivamente, como deveriam, o mundo histórico — ou talvez não devam mesmo; penso que é uma grande bênção não o sentirmos subjetivamente a maior parte do tempo. De qualquer modo, deverão ter consciência dele intelectual e objetivamente, para serem cidadãos úteis. Pois esse é sempre o problema com os seres humanos — compreender que são anfíbios e saber que precisam tirar o maior proveito deste mundo e daquele.

(Aldous Huxley - A Situação Humana)
 
O Mito do progresso

 
 
NOTAS

1 Linhas para o final do poema de Oliver Goldsmith, "The traveller or A prospect of Society". Cf. The poems of Samuel Johnson. Oxford, Clarendon Press, 1941, p. 380.

2 Nos versos, Johnson falava em reis e leis (laws). (N. da T.)

3 Boswell, James. Life of Johnson, 15.5.1783.

4 Ibid., 18.9.1760
Concluirei esse breve esboço de nosso estado anfíbio com uma passagem que sempre me comoveu muito, de um estranho poeta do fim do período elizabetano, Lorde Brooke:
"Oh, a Humanidade vive em triste condição!
Nasce sob uma Lei, mas prendem-na a outra:
Tende à vaidade, querem-na humilde,
Surgiu enferma e querem-na saudável:
O que quer a Natureza com essa dúbia Lei?
E assim nos dilaceram a Razão e a Paixão!"'
(Fulke Greville, Lorde Brooke, "Chorus sacerdotum", de Mustapha.)

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