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O pênis, esse glorioso factótum

por Thynus, em 19.02.18

 

nilo_aparecida_pinto2.jpg

 

Coloquei o teu retrato

no meu relógio, querida:

- Faz, agora, o que quiseres

das horas da minha vida.

 

Um belo dia, lá pelo final da meninice, você acorda de pau duro. Muito bem. Voilá o mandrová ereto a pedir que você tome uma providência a respeito. Não é nada além de sangue injetado pelo tesão nos canais cavernosos do seu pênis, mas vai dar muito trabalho pela vida afora lidar com aquilo. Namoros, ciúmes, casamento, filhos, carência, rolos mil. Tudo por causa de uma simples ereção. No princípio, você mesmo pode dar conta do fenômeno, tipo do it yourself. Mas você logo descobre que se uma mulher te ajudar a lidar com o impaciente objeto tudo fica bem mais prazeroso. E complicado, ao fim e ao cabo, mas c’est la vie, como diria Brigitte Bardot e a minha prima Valéria que estudava francês na Alliance Française e em quem, num dos confusos dias da nossa adolescência, dei uns beijos num cinema. Não lembro que filme passava. Nem lembro se eu tinha mesmo uma prima chamada Valéria. Mas lembro dos beijos e da ereção envergonhada que eles me provocaram dentro de uma imitação barata da cueca Zorba que mais parecia uma sacola de supermercado com furinhos na bunda.

Pois então, o fato é que a primeira ereção consciente, fremente, latejante, urgente e ejaculante a gente nunca esquece. Pro homem, é o ato fundante da sua identidade masculina. O equivalente, na mulher, à primeira menstruação. O Cogito ergo sum cartesiano, na era pós-freudiana, virou “Pênis, logo existo”. E, acredite, digo isso sem a menor jactância machista. É só uma constatação banal. Tão banal quanto uma ereção adolescente.
O assunto é antigo. Japoneses e hindus, por exemplo, idolatram há milênios esse ícone da fertilidade e do prazer que é o pirilau teso. Se você for a Kawasaki, província de Kanagawa, no Japão, no primeiro domingo de abril, vai topar com desfiles de alegres japas carregando andores onde repousam enormes estátuas de pênis eretos apontados pro céu. Trata-se do Kanamara Matsuri, ou Festival do Falo de Aço, denominação que remonta à lenda de um demônio sacana que se escondia na vagina das jovens da aldeia para castrar às dentadas os incautos caralhos que se intrometiam por ali. Até que um ferreiro veio com a ideia de forjar um falo de aço para trincar os dentes do demônio.
E aqui vai uma importante dica socioturística: se você for conferir in loco o Kanamara Matsuri e vier a se engraçar por uma guria local, a ponto de se ver na cama com ela, convém fazer-se preceder por um dildo de aço antes de introduzir nela o seu ちんこ. Como se pronuncia? Pirôka.
Não, não, tô zoando. É chinko, uma gíria leve e não muito chula. Existem também as variantes chinbo, chinboko e chinchin. Sei que na hora de chamar a moça na chincha, digo, no chinchin, ela vai estranhar um pouco você tirar de algum lugar o falo metálico demonstrando séria intenção de meter aquilo nela antes de fazer uso do seu próprio instrumento de carne e sangue. De qualquer maneira, escolha um modelo um pouco menor que o seu pau, que é pra causar boa impressão quando você substituir o falso pelo verdadeiro. À falta de um mandrová auxiliar, de aço ou qualquer outro material menos agressivo, comece os trabalhos com uma boa e funda dedada. Se a dentuça do demo entrar em ação, melhor perder uma ou duas falanges que o ちんこ, né!
Entre os hindus, é muito popular o culto ao lingam, ou falo, símbolo da potência criadora, da fertilidade e, cá entre nós, da velha e boa sacanagem. Existe até uma seita por lá, dos lingavantha, cujos adeptos trazem um ícone em forma de lingam pendurado no pescoço. Já ouvi em algum lugar a tese de que a gravata ocidental seria uma adaptação evolutiva desse lingam de pescoço. Não poria meu lingam no fogo pela veracidade dessa tese, mas, de qualquer forma, pensar nisso na hora de dar o nó na gravata pode gerar certo incômodo cognitivo nos temperamentos mais sugestionáveis.
Não muito tempo atrás, a velhice, certas doenças cardiovasculares e a prostactomia radical arrolavam-se entre as grandes inimigas do orgulho peniano. Ou da rôla, já que de arrolar se trata. A farra acabava ali. Mas, hoje em dia, a desfrutável fase genital da sexualidade masculina só termina, a rigor, com a morte do cisne, ou melhor, do ganso — ou, mais precisamente, de seu dono. Digo isso pensando não somente no livre acesso às modernas substâncias paudurogênicas, como sildenafila, tadalafila e vardenafila, presentes nos remédios antidisfunção erétil à disposição dos lingans recalcitrantes, e mesmo dos mais serelepes. Falo também da nova geração de antigas drogas injetáveis que cumprem sua missão com incrível rapidez e eficiência, mesmo que o cidadão esteja fazendo seu imposto de renda ou assistindo um vídeo sobre a vida dos pinguins imperadores na Antártida.
É o caso da papaverina, da fentolamina e da admirável mandrová auxiliar, de aço ou qualquer outro material menos agressivo, comece os trabalhos com uma boa e funda dedada. Se a dentuça do demo entrar em ação, melhor perder uma ou duas falanges que o ちんこ, né! Entre os hindus, é muito popular o culto ao lingam, ou falo, símbolo da potência criadora, da fertilidade e, cá entre nós, da velha e boa sacanagem. Existe até uma seita por lá, dos lingavantha, cujos adeptos trazem um ícone em forma de lingam pendurado no pescoço. Já ouvi em algum lugar a tese de que a gravata ocidental seria uma adaptação evolutiva desse lingam de pescoço. Não poria meu lingam no fogo pela veracidade dessa tese, mas, de qualquer forma, pensar nisso na hora de dar o nó na gravata pode gerar certo incômodo cognitivo nos temperamentos mais sugestionáveis.
Não muito tempo atrás, a velhice, certas doenças cardiovasculares e a prostactomia radical arrolavam-se entre as grandes inimigas do orgulho peniano. Ou da rôla, já que de arrolar se trata. A farra acabava ali. Mas, hoje em dia, a desfrutável fase genital da sexualidade masculina só termina, a rigor, com a morte do cisne, ou melhor, do ganso — ou, mais precisamente, de seu dono. Digo isso pensando não somente no livre acesso às modernas substâncias paudurogênicas, como sildenafila, tadalafila e vardenafila, presentes nos remédios antidisfunção erétil à disposição dos lingans recalcitrantes, e mesmo dos mais serelepes. Falo também da nova geração de antigas drogas injetáveis que cumprem sua missão com incrível rapidez e eficiência, mesmo que o cidadão esteja fazendo seu imposto de renda ou assistindo um vídeo sobre a vida dos pinguins imperadores na Antártida.
É o caso da papaverina, da fentolamina e da admirável prostaglandina, drogas já bastante conhecidas e receitadas, mas que se apresentam hoje com formulações novas e mais seguras. Aplicadas diretamente na base da glande, elas são capazes de fazer Tutankamon levantar do sarcófago, de cetro real em riste. E a agulha é tão fina que você mal sente que algo te pica a pica, dizem os aficionados.
Um amigo meu, setentão, que teve de deixar a próstata no lixo hospitalar e ainda pagar por isso, usa um bagulho injetável desses e me mostrou a seringuinha com as ampolas acondicionadas num estojo de isopor. “Você nem sente a picada”, garante o trêfego geronte. “Você só precisa arranjar uma boa desculpa para se trancar por alguns minutos no banheiro, antes de fazer sua gloriosa entrada em cena de lança em riste.”
Enfim — e aqui chego ao ponto onde imagino que pretendia chegar —, vamos combinar que, com ou sem drogas pró-priápicas, é verdadeiramente enorme, quase massacrante, a carga de responsabilidade depositada nesse mítico apêndice masculino. E com a agravante de que o homem tem de arcar com essa responsa praticamente até o fim de seus dias na Terra. Esse mesmo velho amigo meu lamenta, às vezes, sua longevidade sexual que o faz abanar o lingam pra qualquer rabo de saia que passe por perto, a ponto de ter engravidado tardiamente um desses rabos numa quadra da vida em que muito neguinho já pendurou as chuteiras, as bolas do saco e o velho e ensebado chinboko. Seu caçula temporão tem hoje treze anos, o que inspira no meu amigo uma reflexão preocupante: “Vou ter que pagar colégio pro Tiaguinho até quase os noventa anos”, ele se lamenta. “Ou mais, se o moleque cursar uma faculdade paga e ainda resolver fazer uma pós.” Ou seja, por causa de seu pau duro, meu amigo sacou que não poderá se dar ao luxo de morrer antes dos noventa anos. Faço votos pra que não morra mesmo. E também pra que não abuse daquela seringa, de modo a não fabricar mais dois ou três Tiaguinhos até lá.
Agora, vai perguntar pro meu septuagenário cumpadre se, ao invés de namorar e trepar, ele não preferia ter passado a última década a jogar bocha ou dominó, e a praticar tai chi chuan no parque do Ibirapuera. Não precisa perguntar, eu sei a resposta: “Nem fodendo!” Ou seja, nem fodendo ele teria preferido ficar sem foder, com o perdão pelo meu francês.
E haja pílulas e seringas. E, sobretudo, tesão. A mulher pode até ter a tal da “inveja do pênis”, diagnosticada pelo dr. Freud, mas pelo menos não tem que carregar esse piano todo, nem quando jovem, nem ao envelhecer. Como bem observou a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade ­(ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, “O pênis reúne os conceitos de procriação, prazer, virilidade e paternidade. Na mulher, eles estão separados entre o clitóris (prazer), útero (procriação), vagina (gênero) e seios (maternidade)”.
Quer dizer, é muita responsa prum ちんこ só. Não é à toa que o carregam em triunfo pelas ruas de Kawasaki uma vez por ano.
Hay!

(Reinaldo Moraes - O cheirinho do amor, Crônicas safadas)

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publicado às 19:07



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