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O partido da liberdade - Espinosa

por Thynus, em 19.02.14

 

"Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Espinosa... Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa...
Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele."

Essas palavras fazem parte do texto de excomunhão de Espinosa, promulgada pela comunidade judaica de Amsterdam a 27 de julho de 1656. Compreender-lhe o significado mais profundo exige que se saiba o que Espinosa pensou e exprimiu, a que situação concreta esse pensamento respondia e quais suas conseqüência s; como se formou e como se desenvolveu.

 

O partido da liberdade
A exclusão da comunidade judaica foi seguida por outras transformações na vida de Espinosa. Como por essa época as finanças da família não iam bem, os irmãos e cunhados viram na excomunhão um bom motivo para deserdá-lo e afastá-lo dos negócios familiares. Espinosa não se abalou e procurou uma ocupação que resolvesse o problema da subsistência. Pondo em prática uma regra de vida dos antigos sábios judeus, aprendeu a polir lentes para lunetas. Saiu-se tão bem no ofício que a clientela aumentou rapidamente, fornecendo-lhe o suficiente para viver.
A mais importante das conseqüências, contudo, foi sua integração na vida cultural holandesa, no momento em que os Países-Baixos vivia m seu século de ouro. O novo Estado holandês fundava-se na liberdade burguesa, entendida como liberdade de empresa e liberdade de consciência. Valorizava-se a atividade econômica e promovia -se a tolerância religiosa, pois as barreiras confessionais apresentavam-se como empecilho para o intercâmbio comercial. A Igreja Romana, com seus tribunais, sua fiscalização, sua intolerância, aparecia aos burgueses da Holanda como manifestação de sua dependência em relação a um poder estrangeiro e contrário a seus interesses vitais. A alta burguesia adotou então o calvinismo em sua forma liberal, também chamado evangélico ou libertino e que se opunha ao calvinismo ortodoxo. Os libertinos defendia m a tolerância em matéria de religião, afirmavam a supremacia do poder civil sobre a autoridade religiosa e declaravam que esta não tinha direito de legislar em assuntos de fé e de moral. Opunham-se, assim, aos ortodoxos, partidários da dominação do Estado pela Igreja e que condenavam o desenvolvimento econômico como contrário à Bíblia. O calvinismo ortodoxo foi, em geral, adotado por todas as classes e camadas sociais prejudicadas com o desenvolvimento da economia mercante e com a nascente indústria. Ortodoxos eram, assim, os camponeses pobres, artesãos, marinheiros, operários portuários e a nobreza, constituindo todos a clientela da Casa de Orange.
O conflito entre as duas tendência s opostas explodiu abertamente após o tratado de Vestfália (1648). As Província s Unidas havia m participado da Guerra dos Trinta Anos, ao lado da França, contra a Espanha, e assinaram um tratado de paz em separado, o que abria as portas das colônias espanholas para o comércio holandês, satisfazendo portanto aos interesses da burguesia. A Casa de Orange, ao contrario, desejava a continuação da guerra, sem a qual sua existência não tinha sentido.
Firmada a paz, o poder passou a ser ocupado pela burguesia e pela ala calvinista libertina. Seu maior representante era Johannes de Witt, eleito Grande Pensionário em 1653, permanecendo até 1672, quando foi assassinado e a Casa de Orange retomou o poder.
Espinosa, amigo de Witt, viveu intensamente todo o conflito. Partidário de sua política e horrorizado com o crime, quis pregar nas paredes de Amsterdam um cartaz que dizia "Últimos dos Bárbaros", mas foi impedido por um amigo.
Durante esse período, Espinosa escreveu a maior parte de suas obras e sua integração na cultura holandesa se fez, assim, no momento de maior intensidade dos conflitos socioeconômicos, característicos dos Países-Baixos, e na fase de maior esplendor da vida intelectual e artística da nação.
Nem asceta nem solitário: um homem do mundo
Dentro desse panorama, após a excomunhão em 1656, Espinosa abandonou os estudos judaicos e penetrou no humanismo clássico. Aprendeu latim e um pouco de grego com Franz van den Enden, ex-jesuíta, médico, filólogo e livreiro, que em 1648 tentou a paz entre os Países-Baixos e a Espanha, em 1650 ofereceu-se a Johannes de Witt para lutar contra a Inglaterra e, em 1654, foi enforcado pelos franceses depois de participar de um complô de alta traição. Com esse mestre, Espinosa leu obras de Terêncio, Tácito, Tito Lívio, Petrônio, Virgílio, Sêneca, César, Salústio, Márcia l, Plínio, Ovídio, Cúrcio, Plauto e Cícero. Dos gregos, leu Diofanto, Aristóteles, Hipócrates, Epiteto, Lucla no, Homero e Euclides.
Na mesma época, Espinosa estuda a filosofia de Descartes, sobre a qual escreverá, em 1663, os Princípios da Filosofia Cartesiana. O peso do cartesianismo sobre Espinosa é, na verdade, o peso do novo racionalismo do século XVII; é a confiança no poder da razão tanto nos domínios da teoria, quanto na ação prática e que começou pela necessidade de elaborar as noções de método, de verdade e, a partir delas, as noções de ser e de ação.
Os calvinistas libertinos eram favoráveis ao cartesianismo. Alguns deles formaram o grupo dos colegiantes (integrantes do Collegi Prophetica), entre os quais se encontrava a maior parte dos amigos de Espinosa. Os colegiantes dedicavam-se especialmente ao estudo da Bíblia e da nova filosofia ; foram eles os primeiros a ler o manuscrito da Ética, redigida por Espinosa a partir de 1661.
Além dos amigos colegiantes, Espinosa relacionava-se com muito mais gente dos círculos culturais holandeses. Não é verdadeira, portanto, a imagem muito difundida, segundo a qual teria sido uma espécie de eremita, solitário, pobre e asceta. Nada mais distante da realidade. Entre a burguesia libertina e progressista, encontram-se amigos íntimos do filósofo. Loedwjk Meijer, Simon de Vries, Jarig Jelles, Pieter Balling, Johannes Rienwertz, Conrad von Beuning, Johannes Hudde mantêm relações com Espinosa e todos são representantes expressivos das altas esferas administrativas e científicas da Holanda. O Grande Pensionário Johannes de Witt e seu irmão Cornelius visitam-no em casa, assim como o filósofo Leibniz. A correspondência de Espinosa revela que discutiu longamente com o químico inglês Robert Boyle, a respeito da natureza do salitre. Outro correspondente foi Oldenburg, diplomata holandês na Inglaterra. As cartas revelam também que foi convidado para lecionar na Universidade de Heidelberg, mas recusou, pois o convite solicitava-lhe não ensinar teorias comprometedoras para a religião. Prova também de seu intenso relacionamento encontra-se na viagem a Utrecht, realizada em 1673, como embaixador.
Que não era um asceta e solitário, preocupado exclusivamente com a salvação de sua alma e desinteressado do mundo, prova-o melhor ainda o Tratado Teológico-Político, onde defende a separação entre Estado e Igreja, política e religião, filosofia e revelação. O Tratado preocupa-se com a violência política e nele aparece a meditação teórica articulada com as exigências objetivas, própria s da sociedade em que viveu e dos interesses da classe com a qual era solidário.
O Tratado Teológico-Político foi. escrito em 1665 e, por precaução, publicado sem o nome do autor. Além dessa obra e dos Princípios da Filosofia Cartesiana (única obra publicada com seu nome), escreveu, em 1660, o Breve Tratado, forma juvenil e preparatória da Ética, o Tratado da Correção do Intelecto, em 1661, e a Ética, sua maior obra, iniciada nesse mesmo ano e terminada em 1675. A Ética não pôde ser publicada, logo após a efervescência causada pelo Tratado Teológico-Político, por causa das acusações que pesavam sobre o autor; os teólogos o consideravam "ateu, blasfemador e elemento nocivo para a república". Em 1677, após sua morte, Meijer e Schuller enviaram a Rienwertz os manuscritos e Jelles financiou uma edição, que saiu com o título de Obras Póstumas, compreendendo a Ética, o Tratado da Correção do Intelecto, o Tratado Teológico-Político, uma Gramática Hebraica e as Cartas.
Espinosa era fisicamente muito fraco e sofreu de tuberculose, durante quase vinte anos. Na manhã de domingo, 21 de fevereiro de 1677, o amigo Meijer foi visitá-lo porque o filósofo não se sentia muito bem. Almoçaram juntos e logo depois Espinosa faleceu.

(Marilena de Souza Chauí - BARUCH DE ESPINOSA)

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publicado às 19:32



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