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O paraíso na outra esquina

por Thynus, em 24.08.14
Dos hackers de Berlim às festas de todos, no Malecón de Havana, e a um mito que torna possível enfrentar as engrenagens do mundo

"Não há liberdade sem liberdade de pensar. O meu direito ao conhecimento é superior às leis que privatizam o que é de todos”, dizia-me um hacker alemão, sobre a questão da propriedade intelectual, num cenário revelador: computadores empilhados. Canibalizados. Esventrados. Salvo do massacre das máquinas estava um velho Apple Lisa, de 1983. O Kaos Komputer Klub é uma organização de hacktivistas que tem sede em Kreuzberg, o bairro de que eu mais gosto do lado ocidental de Berlim: boêmia, imigração e ativismo misturados. A história está escrita nas paredes. As pinturas da resistência curda confundem-se com palavras de ordem dos autonomistas. Nas ruas de Kreuzberg estão ainda as pichagens, datadas do final dos anos 70, protestos contra o assassinato na prisão de Ulrike Meinhof e Andreas Baader, da Facção do Exército Vermelho.
À saída do KKK vemos passar um grupo de autonomistas vestidos de preto. Um amigo diz-me que o problema deles é que não querem mudar a Alemanha mas aprender espanhol para ir para a América Latina. Acham que é “lá” que “as coisas vão acontecer”. Distraído com a “movida” do bairro onde se cruza gente de lenço islâmico com punks de crista verde, no mais puro estilo Bilal, pergunto: “Acontecer o quê?” “A revolução”, garante-me, divertido.
Naquele ano, de 1992, tinha atravessado Cuba de carro, durante um mês, e aquilo que consegui ver foi que a revolução é como as paixões, com o tempo cansam-se, mas há sempre uma memória que pode dar-lhe sentido. A meio da viagem, um velho disse-me: “Camaguey é o estômago de Cuba, e este estômago está vazio.” Quase a chegar à cidade de Guantánamo falei com um camponês. A casa estava cheia de condecorações. O “herói do trabalho” tinha várias vezes ultrapassado os recordes das colheitas de cana de açúcar. Afirmava-se disposto a defender a sua pátria, de armas na mão, das ameaças dos ianques e acrescentava a sorrir: “O socialismo é a coisa mais bonita do mundo, funciona nos livros, infelizmente ainda não na realidade.”
Viviam-se os anos do “período especial”, a União Soviética tinha acabado e Cuba estava só. Tudo faltava. O turismo era um remédio que salvava e sujava. No final do Malecón, a mítica marginal de Havana, acotovelavam-se as jineteras, nome por que as prostitutas são conhecidas na ilha. O rum e a música misturavam-se nas ruas, as pessoas dançavam ao som dos NG La Banda e a sua música de homenagem às novas heroínas: “Tú te crees la mejor, tú te crees una artista / Porque vas en turitaxi por buena vista / Buscando lo imposible…”
Bebíamos no Malecón o rum do cartão de racionamento, bastante mais adstringente que o añejo do Havana Club que se consumia no Hotel Nacional. Enquanto emborcávamos as conversas multiplicavam-se. Todo o mundo ria. Gente de copos. Homens que queriam partir da ilha. Bispos. Santeiros. Membros do partido. Marginais. Médicos. Putas. Artistas. Dissidentes. Polícias. Intelectuais. Cosmonautas, se os houvesse. Cuba entranha-se na pele. Todas as pessoas são geniais. Não há ninguém no mundo que fale tanto. Mal. Bem. Contra o regime. Viva Fidel! Sobre a ciência. Deus. O sexo. E os anjos. As mulatas e os mulatos dançavam. Os turistas abanavam-se fora de tempo.
Entrevistei o bispo Carlos Manuel de Cespedes, bisneto de um dos heróis da independência de Cuba, e Abel Prieto, membro do politburo do Partido Comunista Cubano. O dirigente do partido respondeu-me de uma forma apaixonada quando lhe disse que havia pessoas que estavam revoltadas e que em algumas zonas de Havana tinha havido protestos por causa dos apagones (cortes de energia). Disse-me num tom duro: “Tu acreditaste em todas essas mentiras, Nuno? Os cubanos não são covardes. Na guerra com Espanha, mais de um milhão de pessoas morreu. Se não quisessem o regime, há muito que ele teria caído. Bastava que alguém subisse acima de um palanque para que um multidão se formasse”. E olhou-me nos olhos e garantiu: “Se abríssemos as fronteiras, meio milhão de pessoas fugiria, mas essa gente não tem projetos, não quer um outro país, quer viver num outro país.”
O Homem da Igreja disse-me, em pura linguagem marxista, que quando um país muda as estruturas econômicas, legaliza o dólar, permite atividades privadas e autoriza o investimento estrangeiro, necessariamente a superstrutura da sociedade não vai ficar igual. Passaram mais de 20 anos, às vezes a história parece condenar os homens a tentar arrastar pedras montanha acima. O esforço parece sem lógica, até porque as pedras deslizam para a base da montanha, para serem novamente arrastadas. Mas a vida está presa neste gesto daqueles que acreditam ser possível transportar as pedras.

(Nuno Ramos de Almeida)

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publicado às 16:32


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