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O papa em guerra com a mídia

por Thynus, em 23.11.14
No dia 20 de março de 2010, o papa tentou um golpe e escreveu uma carta para os católicos irlandeses. O conteúdo da carta era uma mistura de gratidão pelos muitos irlandeses que continuavam sendo católicos, apesar dos tempos duros que Igreja de Pedro atravessava, e um pedido de desculpas pelo  que tinha acontecido naquele país. O papa dizia abertamente que ele era culpado e que ele estava envergonhado. Mas os críticos entenderam essa mesma carta, que deveria aliviar as coisas, como outra confirmação de que o Vaticano não queria admitir a gravidade da situação diante daquela crise que, na verdade, era global. Os críticos do papa diziam que ele deveria ter dirigido essa carta, a todos os católicos do mundo. Mas como a carta foi endereçada apenas para os irlandeses, os críticos viram nisso outra tentativa da Igreja de negar a crise mundial.
Mas essa crítica ao papa não era justa. Logo na primeira frase o papa reconhecia que os casos de abuso sexual dentro da Igreja causaram a crise que não se limitava à ilha da Irlanda, e que esses casos afetavam muitos países. Mas o papa não fez um pedido geral de desculpas, endereçado ao mundo inteiro. Como ele poderia fazer isso? Pedir desculpas pelos abusos e pelos encobrimentos dos casos que a Igreja Católica cometeu no mundo inteiro com certeza teria um poder destrutivo dentro da Igreja. Porque seria uma suspeita geral do bispo de Roma, o que equivalia a afirmar que os bispos do mundo inteiro encobriram casos de abuso sexual e pedofilia cometidos por padres. Como os bispos irlandeses foram visitar o papa, ele limitou-se a se dirigir à Irlanda em sua carta, na esperança de que a mensagem chegasse a outros países.
Não havia dúvida de que além de pedir desculpas o papa teria que tentar prevenir que isso voltasse a acontecer. Bento XVI sabia que ele teria que criar um mecanismo para evitar que padres voltassem a abusar de crianças e adolescentes. Seus opositores não achavam que pedir desculpas fosse o suficiente, mas eles não podiam dar um golpe ainda maior contra o papa. Todos no Vaticano sabiam que o cardeal Joseph Ratzinger tinha tido um atrito com o carismático João Paulo II, justamente com relação ao assunto da punição de clérigos importantes que cometeram abusos sexuais.
Mas então um caso controverso na Alemanha finalmente deu a munição que a mídia estava esperando contra o papa: um suposto caso em que o arcebispo Ratzinger de Munique se envolveu para encobrir o caso de um padre que tinha abusado de crianças. Agora a mídia parecia pronta para destroçar o papa. O que aconteceu foi o seguinte: em 1980, o arcebispo de Munique, Joseph Ratzinger,  oncordou em transferir para Minique um padre que estuprou crianças e adolescentes da diocese de Essen. O padre deveria fazer terapia, mas não fez. Ele voltou a trabalhar na Igreja e abusou de outras crianças. Essa era a munição que a mídia esperava, para usar contra o Vaticano. Principalmente a mídia dos Estados Unidos. Joseph Ratzinger estava envolvido pessoalmente no sistema que causava tanto dano nas igrejas dos Estados Unidos: em vez de serem punidos, padres que cometeram crimes sexuais são simplesmente transferidos de um lugar para outro, podendo entrar novamente em contato com crianças. No início, havia uma grande dúvida se Ratzinger era culpado ou não. Apesar de ninguém discordar que ele transferiu um padre que estuprou crianças. Mas ele sabia que o criminoso iria ser colocado como conselheiro de crianças e adolescentes? O The New York Times parecia não se importar com essa dúvida. Eles atacaram o papa e o Vaticano e, ao mesmo tempo, descobriram detalhes novos sobre um caso horrível nos Estados Unidos. Um presente divino.
De acordo com a Igreja Católica dos Estados Unidos, o padre católico Lawrence Murphy cuidou de mais de duzentas crianças entre 1950 e 1974, quando ele trabalhou como diretor de uma escola para crianças surdas. Segundo pesquisas do The New York Times , o cardeal Joseph Ratzinger evitou um caso contra Murphy em 1996. Isso era suficiente. Agora, um dos jornais mais importantes do mundo tinha decidido atacar de vez. Eles criticaram o papa diretamente em uma série de artigos. Com isso, a briga atingiu um novo patamar. Agora não se tratava mais de falhar em denunciar o desejo sexual de padres, agora se tratava de atacar e prejudicar Bento XVI diretamente. Ele foi acusado tanto nos Estados Unidos como em Munique, de proteger dois criminosos sexuais entre os padres e de sujar as próprias mãos. Agora as provas pareciam irrefutáveis de que padres e clérigos da Igreja Católica são de fato um grupo de homens sexualmente perturbados, e que entre eles existem homens que cometem abusos sexuais e outros que encobrem tudo. As provas eram claras e até o alto clero viu que o papa também fazia parte da sujeira. O corvo não bicava o olho de mais ninguém.
Com exceção das críticas, todos na Igreja sabiam que era um absurdo, além de injusta e errada a alegação dizendo que Bento XVI quis encobrir crimes sexuais de padres. O papa e o Vaticano penavam para conseguir minimizar os danos. O padre Federico Lombardi foi enviado novamente para a linha de frente. No dia 26 de março de 2010, Lombardi atacou o jornal The New York Times de volta. O chefe da imprensa do Vaticano acusou o jornal de noticiar especulação em vez de pesquisar os fatos corretamente e se manter fiel à sua fama de jornal sério e de qualidade. Lombardi tinha uma carta na manga para mostrar ao prestigioso jornal: ele tinha uma confissão. Em Munique, Gerhard Gruber, o ex-vigário chefe do arcebispo Joseph Ratzinger, assumiu a culpa. Gruber, que agora estava com 81 anos de idade, testemunhou que Joseph Ratzinger não tinha a mínima ideia da decisão do vigário chefe de renomear para o trabalho com crianças o padre pedófilo. Com isso, o padre voltou a estuprar crianças e o vigário Gruber sentia muito por isso... Ele pediu mil desculpas para as crianças que foram vítimas desse padre, porque Gerhard Gruber devolveu o cargo a um homem cujas criminosas preferências sexuais eram conhecidas.
No dia 31 de março de 2010, o padre Federico Lombardi atacou o The New York Times mais uma vez. A emissora de rádio da qual Lombardi é chefe noticiou sobre Thomas Brundage, vigário chefe de Milwaukee entre 1995 e 2003, responsável pelo caso do padre Lawrence Murphy, que morreu em 1998. Brundage criticou o jornal. Ele disse que o The New York Times trabalhou negligentemente, pois os jornalistas nem sequer foram falar com ele, a pessoa responsável pelo caso Murphy. Ele exibiu documentos mostrando que o caso não tinha acontecido como o jornal havia noticiado, dizendo na ocasião da morte de Murphy que a má-conduta dele não fora a público. Era uma mentira e uma bobagem falar que Joseph Ratzinger havia tentado encobrir tudo: pelo contrário, Joseph Ratzinger insistia em punir Murphy, que havia sido suspenso do prelado por causa da sua idade.
No dia 1o de abril, o The New York Times recebeu outro golpe, dessa vez de um dos clérigos mais importantes dos Estados Unidos, o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal William Levada. O ex-bispo de São Francisco é um homem tímido, ele não é alguém que gosta de entrar em conflitos. Fiquei muito orgulhoso quando fui um dos poucos a conseguir uma entrevista com ele. Levada é um patriota, ele ama o seu país natal e está convencido de que os Estados Unidos e o Vaticano conseguiram muitas coisas quando trabalharam juntos. – Estou convencido de que os americanos sabem que o papa João Paulo II foi um instrumento importante para ganhar a Guerra Fria contra a União Soviética – disse-me Levada, na Congregação para a Doutrina da Fé, no primeiro semestre de 2010. Quando um homem como Levada ataca uma instituição tão velha e respeitável como o The New York Times, isso significa que ele está muito irritado. Levada acusou o jornal de “violar todos os critérios de justiça”, justamente o jornal que pode ser descrito como “a dama de cinza”, ou seja, como um modelo global para o jornalismo correto. Segundo Levada, eles organizaram uma campanha contra o papa baseados em especulações. O Vaticano ganhou essa guerra contra a mídia. O The New York Times reconheceu terem acusado erroneamente o papa Bento XVI em todos os casos e escreveram uma nota de reparação, divulgada à opinião pública internacional. No dia 26 de abril de 2010, o jornal escreveu que Joseph Ratzinger perseguiu os criminosos sexuais e fez com que eles fossem responsabilizados. Foi divulgada ainda uma nota voltando atrás na suspeita de que o papa tentara encobrir os casos. O seu papel nos casos de Munique e de Milwaukee tinham sido muito mais complexos do que eles haviam noticiado. Pela primeira vez, o silencioso papa pôde respirar tranquilo desde que começara aquela guerra com a mídia.

(Andreas Englisch - O homem que não queria ser Papa)

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publicado às 17:33



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