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O navio de Teseu

por Thynus, em 08.02.16
Cara, Theo teve problemas com o carro que comprou no Joe’s! Tudo começou com pequenas peças – uma fechadura de porta precisou ser trocada, pedaços da suspensão traseira caíram, o normal. Depois coisas mais sérias aconteceram – a alavanca da embreagem, a caixa de câmbio, por fim a transmissão inteira. Mais partes quebraram, o carro mal saía da oficina. E assim foi, e foi, e foi… Inacreditável. “Mas não tão inacreditável”, pensou Theo, “quanto o fato de todas as peças de um carro de apenas dois anos terem sido trocadas. Mas veja o lado bom – talvez agora eu tenha um carro novo!”

Será que Theo tem razão? Ou o carro ainda é o mesmo? A história do carro de Theo – ou, mais precisamente, do navio de Teseu – é um dos muitos quebra-cabeças usados pelos filósofos para testar intuições sobre a identidade de coisas ou pessoas ao longo do tempo. Parece que nossas intuições nessa área costumam ser fortes, mas conflitantes. A história do navio de Teseu foi contada pelo filósofo inglês Thomas Hobbes, que a aperfeiçoou. Voltando à versão de Theo…
Identidade numa vida a dois
 
Crise de identidade
Qual é o original? O carro que Theo possui, agora todo feito de peças novas, ou a versão de Joe, toda construída com as peças originais? Depende de para quem você fizer a pergunta. Mas qualquer que seja a resposta, a identidade do carro ao longo do tempo não é tão certinha quanto desejaríamos que fosse.
Não é um problema que envolve apenas carros e navios. As pessoas mudam bastante durante a vida. Física e psicologicamente, existe muito pouco em comum entre um garotinho de dois anos e o velhote de 90 anos que ocupou o lugar dele 88 anos mais tarde. Serão eles a mesma pessoa? Se forem, o que os torna essa mesma pessoa? Isso interessa apenas para punir o velho de 90 anos por algo que ele fez 70 anos antes? E se ele não se lembrar do que fez? Deveria um médico permitir que o velho de 90 anos morresse porque esse foi um desejo que ele expressou 40 anos antes por uma (suposta) versão anterior dele mesmo?
Esse é o problema da identidade pessoal, que tem atormentado filósofos há centenas de anos. Quais seriam então as condições necessárias e suficientes para que uma pessoa num determinado período seja a mesma tempos mais tarde?

Animais e transplantes de cérebro
O senso comum, provavelmente, diz que a identidade pessoal é uma questão biológica: eu sou agora quem eu era no passado porque sou o mesmo organismo vivo, o mesmo animal humano; estou ligado a um corpo específico que é uma única e contínua entidade orgânica. Mas pense por um momento no transplante de cérebro – no qual o seu cérebro é transferido para o meu corpo. Nossa intuição afirma com certeza que você tem um novo corpo, não que o meu corpo tem um novo cérebro; assim, parece que ter um corpo específico não é uma condição necessária para a sobrevivência pessoal.
Essa consideração levou alguns filósofos a recuar do corpo para o cérebro – a dizer que a identidade está ligada não ao corpo inteiro, mas ao cérebro. Esse movimento satisfaz nossa intuição no que se refere ao transplante de cérebro, mas ainda não resolve o assunto. Nossa preocupação é com o que supomos que emana do cérebro, não com o órgão físico em si. Embora possamos não ter certeza de como a atividade cerebral dá origem à consciência ou à atividade mental, poucos duvidam que o cérebro de algum modo permeia essa atividade. Considerando o que faz de mim “eu”, é o “software” de experiências, memórias, crenças etc. que diz respeito a mim, não o “hardware” de um pedaço de massa cinzenta. Meu sentido de identidade não mudaria muito se a soma dessas experiências, memórias etc. fosse copiada num cérebro artificial, ou se o cérebro de outra pessoa fosse reconfigurado para receber todas as minhas memórias, crenças etc. Sou a minha mente; vou onde a minha mente estiver. Com base nisso, minha identidade.

O oficial valente
Thomas Reid tentou sabotar a proposição de Locke com esta história: Um corajoso oficial, quando criança, havia sido chicoteado por roubar frutas num pomar; em sua primeira campanha militar, ele capturou uma bandeira inimiga; anos mais tarde, foi promovido a general. Suponha que, quando capturou a bandeira, ele ainda se lembrasse das chicotadas, mas quando tornou-se general ele se lembrava de ter capturado a bandeira, mas não de ter levado chicotadas. Locke pôde aceitar a implicação na objeção de Reid: sua tese envolvia uma distinção clara entre o ser humano (organismo) e a pessoa (sujeito da consciência), de modo que o velho general seria, na verdade, uma pessoa diferente do garoto chicoteado.


Continuidade psicológica
Fazendo uma abordagem psicológica da questão da identidade pessoal, em lugar de uma abordagem biológica ou física, vamos supor que cada pedaço da minha história psicológica esteja ligada a pedaços anteriores por fios de duradouras lembranças, crenças etc. Nem todas elas (talvez nenhuma) precisam ir do começo ao fim; desde que exista uma rede única e sobreposta de tais elementos, isso forma a minha história. Sou eu. A ideia de continuidade psicológica como critério principal de identidade pessoal ao longo do tempo partiu de John Locke. É a teoria dominante entre os filósofos contemporâneos, mas não está isenta de problemas.
Imagine, por exemplo, um sistema de teletransporte ao estilo de Jornada nas estrelas. Suponha que o sistema registre a sua composição física até o último átomo e depois transfira os seus dados para um local remoto (digamos de Londres, Terra, para Estação Lunar 1), onde o seu corpo é duplicado (usando matéria nova) no exato instante em que o seu corpo é destruído em Londres. Tudo está bem – desde que você seja partidário da tese de continuidade psicológica: há um fluxo ininterrupto de memórias etc. fluindo do indivíduo em Londres para o indivíduo na Lua, ou seja, a continuidade psicológica – e, portanto, a identidade pessoal – foi preservada. Você está na Estação Lunar 1.
Mas suponha que houve um problema com o teletransportador e o seu corpo em Londres não foi destruído. Agora existem dois de “você”. Um na Terra e outro na Lua. De acordo com a tese da continuidade, como o fluxo psicológico foi preservado nos dois casos, ambos são você. Nessa situação, não hesitaremos em dizer que você é o indivíduo que está em Londres, e o que está na Lua é uma cópia. Mas, se essa intuição estiver correta, parecemos ser forçados a recuar do psicológico para o biológico/animal; parece ser importante que você é o ser de carne e osso em Londres, e não o indivíduo que está na Lua.

Definindo quem você é
Essas intuições confusas podem derivar de se fazer as perguntas erradas, ou de se aplicar conceitos errados ao respondê-las. David Hume chamou atenção sobre a dificuldade de compreensão do eu (self), dizendo que, por mais que você olhe para dentro de si, só será capaz de detectar pensamentos, memórias e experiências individuais. Embora seja natural imaginar um self substancial que seja o sujeito desses pensamentos, ele argumenta que isso é errado – o self é apenas o ponto de vista que dá sentido aos nossos pensamentos e experiências, não pode em si ser determinado por eles.
A ideia do self como uma “coisa” substancial que acreditamos ser a nossa essência causa confusão quando nos imaginamos passando por um transplante de cérebro ou sendo destruídos e reconstituídos em algum outro lugar. Supomos que a nossa sobrevivência pessoal nesses experimentos da mente depende de algum modo de encontrarmos um lugar para esse self. Mas, se pararmos de pensar em termos de self substancial, as coisas tornam-se mais claras. Suponham, por exemplo, que o teletransportador funcione na hora de destruir o seu corpo em Londres, mas crie duas cópias suas na Lua. Perguntar qual delas é você (equivalente a “onde foi parar o meu eu?”) é fazer a pergunta errada. O resultado é que agora existem dois seres humanos, cada um começando com exatamente a mesma bagagem de pensamentos, lembranças e experiências; eles seguirão seus próprios caminhos, e suas histórias psicológicas vão divergir. Você (essencialmente a bagagem de pensamentos, experiências e lembranças) sobreviveu em dois novos indivíduos – uma forma interessante de sobrevivência pessoal, alcançada ao custo da sua identidade pessoal!

a ideia resumida:
O que torna você «você»?

(Dupré, Ben - 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer)

Perda de identidade

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publicado às 16:55



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