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Na mitologia grega, Anfitrião era marido de Alcmena, a mãe de Hércules.
Enquanto Anfitrião estava na guerra de Tebas, Zeus tomou a sua forma para deitar-se com Alcmena, e Hermes tomou a forma de seu escravo, Sósia, para montar guarda no portão. 
Uma grande confusão foi criada, pois evidentemente, Anfitrião duvidou da fidelidade da esposa.
No fim, tudo foi esclarecido por Zeus, e Anfitrião ficou contente por ser marido de uma mulher escolhida do deus.
Daquela noite de amor nasceu o semideus Hércules. A partir daí, o termo anfitrião passou a ter o sentido de 'aquele que recebe em casa'.
Portanto, ANFITRIÃO é sinônimo de: CORNO MANSO E FELIZ!
RESUMINDO: QUANDO DISSEREM QUE VOCÊ É UM BOM ANFITRIÃO FIQUE DE ORELHA EM PÉ.
CULTURA DEMAIS É UMA MERDA!

(Vamos rir?)

 

O corno é sempre o último, a saber
(Ditado popular)

 

(...) O Pai do Céu (Zeus) ficou aturdido por uma paixão tal que o deixara totalmente
cego. "Somente com ela (Alcmena)" - declarou aos outros deuses -, "serei capaz
de gerar o melhor de todos os homens, aquele que, por meio de sua
força, há de dignificar meu nome e se elevará por suas façanhas acima
do resto dos mortais."
Desse modo, Zeus decidiu assumir a aparência do incauto
Anfitrião, que de nada suspeitava, e possuir assim sua esposa
mediante um elaborado artifício. Antes de apresentar-se na alcova de
Alcmena com a impostura do triunfo, Hermes, por ordem de seu amo,
fez com que Hélio apagasse os fogos solares, deteve a Lua, desatrelou os
cavalos do Tempo da carruagem das Horas e ordenou a Morfeu que
adormecesse os homens durante três dias e três noites para que
ninguém se pudesse interpor ã consecução da infame tarefa de Zeus,
porque uma criatura tão grande como o filho que ele pretendia gerar não
poderia ser concebida às pressas.

(Martha Robles - Mulheres, Mitos e Deusas)

Nada menos cristão que as cruezas eclesiásticas de um
Deus como pessoa, de um “reino de Deus” que virá, de um “reino do céu”
além, de um “filho de Deus”, a segunda pessoa da Trindade. Isso tudo é
— perdoem-me a expressão — o murro no olho — ah, que olho! — do
evangelho; um cinismo histórico-universal na derrisão do símbolo... Mas
é óbvio — não para qualquer um, admito — a que dizem respeito os signos
“pai” e “filho”: com a palavra “filho” se expressa a entrada no sentimento
geral de transfiguração de todas as coisas (a beatitude), com a palavra
“pai”, este sentimento mesmo, o sentimento de eternidade, de perfeição.
— Envergonho-me de lembrar o que a Igreja fez desse simbolismo: não
pôs ela, no limiar da “fé” cristã, uma história de Anfitrião?

(“uma história de Anfitrião”: num episódio da mitologia grega, Zeus assume a
forma de Anfitrião, marido de uma bela mulher, Alcmena, para poder possuí-la, e dessa
união nasce o semideus Héracles /Hércules. Na frase seguinte há um engano constatado já
pelos primeiros editores da obra, que o corrigiram sorrateiramente: o dogma da

“imaculada concepção” diz respeito ao nascimento de Maria, não ao de Jesus;

esse equívoco se repeteadiante, no § 56) E, ainda por cima, um dogma de “imaculada concepção”?... Mas com isso ela maculou a concepção 
( NIETZSCHE - O Anticristo — Maldição ao cristianismo e Ditirambos de Dionisio

 

00000000000000000 H.jpgZeus consegue seduzir aencantadora Alcmena, uma mortal casada com um certo Anfitrião, e se torna pai deHéracles. A criança será um “semideus”, no sentido que os gregos dão a essa palavra:um filho de Imortal por parte de pai e de ser humano por parte de mãe

 

Um poema muito antigo — provavelmente escrito por volta do século VI a.C. —, um poema por muito tempo atribuído (erradamente, mas isso pouco importa aqui) a Hesíodo, é o primeiro a nos contar em detalhe o fabuloso mito do nascimento de Héracles. O poema se intitula O Escudo porque sua maior parte se dedica a descrever esse elemento do equipamento de combate do herói. Desde os primeiros versos descobre-se por quais artifícios — bastante tortuosos — Zeus consegue seduzir a encantadora Alcmena, uma mortal casada com um certo Anfitrião, e se torna pai de Héracles. A criança será um “semideus”, no sentido que os gregos dão a essa palavra: um filho de Imortal por parte de pai e de ser humano por parte de mãe. O mais importante é que o poema nos faz uma revelação quanto às intenções de Zeus. Abrindo uma exceção em sua regra, para o deus não se tratava ali (apenas) de se divertir fazendo amor com uma bonita mulher, mas, como acrescenta Hesíodo:
o pai dos deuses e dos homens tramava outra coisa: queria, tanto para os deuses quanto para os homens, criar um defensor contra o perigo.
Um “defensor contra o perigo” é, de fato, a principal missão de nosso herói. Mas de qual perigo, exatamente? E por que Zeus, como um xerife de faroeste, quer um “auxiliar”? Com Héracles, na verdade, é literalmente um lieutenant(Em francês, o oficial que literalmente “ocupa o lugar” do oficial logo acima na hierarquia; tenente) que Zeus pretende, alguém capaz de “estar no lugar” do rei dos deuses na terra e não apenas no céu, de secundá-lo aqui embaixo em sua luta contra a incessante ressurgência das forças do caos, herdeiras longínquas dos Titãs. É bem provável que seja esse o perigo que constantemente vai estar em foco na lenda de Héracles. Talvez você me pergunte como se reconhecem tais forças. Não acha um tanto simplista se expressar como fazem os políticos, que separam com uma linha divisória única de um lado as “forças do mal”, o “grande Satã”, e, do outro, as forças do bem, que, numa feliz coincidência, em geral eles próprios representam? Na verdade, estamos longe dessa situação caricatural. Pois devemos ver que naquela época, obviamente lendária, em que os deuses não estavam separados dos mortais — como prova disso, vão para as suas camas, fazem filhos —, estávamos ainda bem perto das origens do mundo, do caos inicial e dos grandes combates “titânicos” que levaram à edificação do cosmos. Zeus acabava de vencer Tífon, o último monstro destruidor de mundo, mas em nosso planeta veem-se o tempo todo renascer “mini-Tifões” que ameaçam tomar o poder num ou noutro lugar, devendo ser remetidos a seus devidos lugares. E isso, com a força que têm e o pavor que inspiram, está longe de ser tarefa fácil para os humanos.
É essa, justamente, a missão que Zeus quer confiar a Héracles: desse ponto de vista, ele deve continuar no mundo sublunar o trabalho feito pelo rei dos deuses em outra escala, a escala do cosmos inteiro. Sua vida então será dedicada à luta, em nome de diké, pela ordem justa, contra a injustiça, contra entidades mágicas e maléficas, muitas vezes com origem no próprio Tífon, que de diversos modos encarnam sempre o possível renascimento da desordem. É absolutamente crucial a correta compreensão desse tema. Seria um erro entender aqui a palavra “desordem” no sentido moderno, quase “policial”, como quando nos referimos às “forças da ordem pública” para designar a polícia, ou também as “perturbações da ordem pública”, quando se reprime uma manifestação política. Não é, no caso, disso que se trata, mas de uma ordem entendida no sentido cosmológico do termo. É a harmonia do Grande Todo que está em causa, e as forças da desordem não são manifestantes e sim seres mágicos, frequentemente engendrados por divindades que ameaçam o ordenamento do universo e a justiça, ambos instaurados por Zeus no momento da famosa partilha original do universo. Além disso, deve-se ver que a preservação da ordem nada tem a ver com a simples polícia, pois põe em jogo a própria finalidade da vida dos homens mortais. De fato, se a vida boa, para nós, consiste em encontrar nosso lugar na ordem cósmica e, pelo modelo de Ulisses, a ele voltar custe o que custar, é preciso também que essa referida ordem pura e simplesmente exista e seja preservada. Sem isso, é todo o sentido da vida humana que naufraga e, com ele, a possibilidade de qualquer busca da sabedoria.
Por esse motivo, a filosofia estoica, que constitui um dos pontos altos do pensamento grego, viu no personagem de Héracles uma figura tutelar, uma espécie de padroeiro. A ideia fundamental que anima o estoicismo é a de que o mundo, o cosmos, é divino, no sentido de que é harmonioso, belo, justo e bom.(Para uma apresentação mais completa dessa filosofia, cf. Aprender a Viver I) Nada é mais benfeito do que a ordem natural, e nossa função na Terra, pequenos humanos que somos, é a de preservá-la, nela encontrarmos nosso lugar e nos adaptarmos. É sob esse ângulo que os pais fundadores do estoicismo se referem a Héracles como a um dos seus ancestrais. Cleanto, um dos primeiríssimos diretores da escola, gostava de que se referissem a ele como a um “segundo Héracles”, e Epiteto sublinha muitas vezes em sua obra que Héracles é um deus vivo na terra, um daqueles seres que participaram da elaboração e da preservação da ordem divina do mundo. A meta filosófica das aventuras de Héracles parece, então, considerável. Em tais condições, não surpreende que suas façanhas tenham alimentado tantas narrativas diversas, com tal riqueza de imaginação. Assim, tentarei dar uma ideia dessa extraordinária diversidade, mesmo que com isso a narrativa pareça mais complicada e menos linear.
Mas vamos por enquanto voltar ao início dessa história, ao famoso estratagema usado por Zeus para conceber Héracles. Pois essa cena primitiva, várias vezes evocada por Homero, não é anedótica. Ela tem inúmeras e consideráveis consequências sobre a futura trajetória do herói.
Alcmena, a mulher mortal que vai ser sua mãe, acaba de se casar com Anfitrião. Eles são primos-irmãos. Seus pais são irmãos, filhos de um outro herói grego famoso, Perseu, que, então, é bisavô de Héracles e já era um célebre matador de monstros, pois, como você sabe, ele enfrentou vitoriosamente a terrível Górgona Medusa, numa série de aventuras a que ainda voltaremos mais adiante. Os irmãos de Alcmena tinham sido mortos durante uma guerra contra povos que na época eram denominados tafianos e teleboanos. Deixemos de lado os detalhes; Alcmena ama Anfitrião, seu marido e primo, porém mesmo assim proíbe que venha à sua cama enquanto não tiver vingado os seus irmãos. Por isso Anfitrião parte para a guerra contra esses famosos tafianos e teleboanos. Enquanto isso, Zeus observa os acontecimentos do alto do Olimpo. Vê Anfitrião se comportar como valoroso guerreiro nos combates, conseguir a vitória e se pôr no caminho de volta para casa, querendo contar à esposa os seus feitos. Anfitrião espera assim ter finalmente acesso ao leito nupcial. É nesse momento que Zeus pensa em Héracles. Imagine que ele se transforma em Anfitrião. Simplesmente se torna seu sósia, seu perfeito duplo, e penetra nos aposentos de Alcmena como se fosse o marido. Tem inclusive a cara de pau de contar suas façanhas, como se as tivesse realizado. Chega a presenteá-la, se dermos ouvido a certas variantes, com joias e outros troféus que arrancara do inimigo. Alcmena, é claro, satisfeitíssima com o trabalho do marido, vingando seus irmãos, e fascinada por tanta intrepidez, aceita afinal se deitar com ele — quer dizer, na verdade, com Zeus, que imediatamente lhe dá um filho, o pequeno Héracles, justamente.
A cena viria a gerar, na literatura, um número impressionante de representações diversas, mas entre todos os mitógrafos a trama básica é mais ou menos a mesma, esta que acabo de revelar. Deve-se precisar ainda que, uma vez chegando em casa, o verdadeiro Anfitrião também vai para a cama com a esposa e igualmente lhe faz um filho, Ificles, que será, então, irmão gêmeo de Héracles, mesmo não tendo o mesmo pai. Algumas variantes do mito indicam que Zeus alongou o tempo, fazendo a noite durar três vezes mais do que uma noite normal, certamente para se aproveitar de Alcmena, que é linda, como eu disse, assim como para atrasar a volta do verdadeiro Anfitrião. Igualmente descreveram o espanto do marido, de regresso ao lar, constatando que a mulher já sabe tudo sobre os seus feitos antes que ele os conte e até mesmo, o que obviamente parece incompreensível a Anfitrião, possui os troféus que ele traz — e que, no entanto, ainda não havia dado a ela! No fundo, pouco importam esses detalhes. O que conta é que Héracles nasce, e não da mulher legítima de Zeus, Hera — o que faz com que esta última fique louca de raiva ao descobrir Alcmena grávida de seu marido.
Talvez você já tenha notado por si mesmo que os dois nomes — Hera, Héracles — se parecem, ou melhor, um é um pedaço do outro: de fato, há um laço entre eles. Etimologicamente, Héracles é uma palavra que quer dizer “a glória de Hera” e, uma vez mais, preciso explicar por quê: essa parte do mito possui um significado que serve de fio condutor para as principais aventuras do herói.
De início, e nesse ponto todo mundo está de acordo, Héracles se chamava Alcides — o que quer dizer “filho de Alceu” — em homenagem ao avô, que tinha esse nome e significa “forte”. Mas a partir daí, como em todos os assuntos referentes à vida de Héracles, várias histórias entram em concorrência para explicar sua troca de nome. Grosso modo, duas explicações principais se apresentam — o que é bem divertido, pois falamos como se tratássemos de um personagem histórico, apesar de, lembro uma vez mais, ser alguém totalmente mítico e lendário que nunca existiu, o que leva a pensar que os gregos certamente aderiam a essas histórias, levavam-nas com certeza muito a sério, se não num sentido factual, pelo menos na perspectiva da significação que tinham, para eles, em termos de sabedoria de vida. A primeira explicação, que devemos ao poeta Píndaro,(Pelo menos é o primeiro, ao que parece, a apresentá-la) diz que a própria Hera assim batizou o herói, e isso por um motivo bem compreensível: enlouquecida de ciúme e detestando ser, uma vez mais, enganada por Zeus, ela tem verdadeiro ódio pelo recém-nascido. Ela é que vai inventar os famosos 12 trabalhos, com a esperança de que Héracles morra rapidamente, enviado a combater monstros que ser humano algum jamais conseguiria vencer. Héracles, no entanto, não apenas sai vitorioso, mas aureolado por uma glória inigualável. Aliás, o semideus e a deusa acabam se reconciliando depois da morte de Héracles, sendo transformado em verdadeiro deus e acolhido no Olimpo. De forma que, de certa maneira, é “graças” a Hera que Héracles vai se tornar célebre no mundo inteiro. De fato, sua glória é inteiramente dedicada à mulher de Zeus, que foi também, por mais paradoxal que isso possa parecer, sua principal instigadora. Donde seu nome: “Herakleios”, a glória de Hera.
Principalmente em Apolodoro, temos uma explicação um pouco diferente, mas que no fundo tem a ver com a de Píndaro. Antes até de dar início a seus famosos trabalhos, Héracles tivera oportunidade de prestar um grande favor a Creonte, o rei de Tebas que sucedeu a um outro personagem célebre da mitologia, Édipo. Em troca, ou pelo menos em sinal de gratidão e amizade, Creonte lhe oferece em casamento a filha, Mégara. Héracles se casa e tem com ela três filhos. Vivem aparentemente felizes até que Hera, por ciúmes, lança um feitiço em Héracles para que fique louco, furioso. O sortilégio funciona e, em apavorante crise de delírio, numa demência que foge inteiramente da sua responsabilidade, Héracles lança seus três filhos no fogo e, completando o quadro, mata ao mesmo tempo dois sobrinhos, filhos do “meio-irmão gêmeo” Ificles. Voltando a si, ele se dá conta do horror da sua situação e se autocondena ao exílio. Vai a uma cidade vizinha para, segundo o costume, “se purificar”. De fato, um sacerdote ou um deus podiam, durante uma cerimônia, “purificar”, isto é, lavar a culpa — mais ou menos como Midas no Pactolo — de quem houvesse cometido algum crime grave, uma morte, por exemplo. Uma vez executado o ritual, Héracles vai a Delfos consultar a pítia. Ela é que lhe dá o nome premonitório de Héracles — a glória de Hera —, recomendando que se ponha a serviço da deusa para cumprir os 12 feitos, trabalhos impossíveis que ela vai impor por intermédio do seu primo, o horrível Euristeu (de quem falarei daqui a pouco). A pítia acrescenta ainda que Héracles, depois de cumprir os trabalhos, será imortal — não apenas pela glória, mas realmente se transformando em deus.
De um jeito ou de outro, as duas versões não estão assim tão afastadas quanto parece à primeira vista. Nos dois casos, com efeito, Héracles trabalha pela glória de Hera, e sua glória está ligada às tarefas incríveis que ela impõe por ciúmes, para se vingar do fato de ele existir, fato este que permanentemente relembra a infidelidade de Zeus. Ainda duas pequenas observações acessórias, antes de chegarmos às primeiras grandes façanhas de Héracles. São acontecimentos que antecedem os 12 trabalhos e se passaram de maneira quase miraculosa, durante a sua primeira infância. Primeiro, é anedótico, mas demonstra bem a interligação entre todas essas histórias; você pode notar que Héracles, por mais estranho que isso possa parecer à primeira vista, é, ao mesmo tempo, bisneto e irmão caçula de seu bisavô Perseu! De fato, mesmo que distantes por várias gerações, ambos têm o mesmo pai, ou seja, Zeus; a imortalidade torna possível aos deuses o que é inconcebível para os humanos. Simbolicamente, permite também fazer a ligação entre os mitos, associando, como no jogo de cartas “sete famílias”, vários personagens, no caso Perseu e Héracles, que têm perfis análogos. Os dois são destruidores de monstros e herdeiros, em seu próprio nível, é claro, da obra paterna.

000000000000000 via látea.jpgO nascimento da via Láctea, 1636. Quadro do pintor barrroco Peter Paul Rubens

 A segunda observação concerne à origem “hercúlea” da Via Láctea.(Essa lenda surge bem cedo, sob forma fragmentária, mas encontram-se versões mais desenvolvidas em Pausânias, Diodoro e Higino) Como sempre, há várias maneiras de contar essa famosa lenda dos primeiros meses de vida do herói. Uma delas parece se impor com mais frequência e consiste em lembrar que para se tornar imortal um dia — e este é o destino de Héracles, como a pítia o confirma em Delfos — ele precisa absorver o alimento dos deuses, principalmente a ambrosia. Aliás, faço notar que, em grego, a palavra “ambrosia” significa, simplesmente, “não mortais”, a-(m)brotoi. Com essa finalidade, Hermes teria sido encarregado por Zeus de colocar o pequeno Héracles no seio de Hera, enquanto ela dormia. Porém, entreabrindo um olho, Hera é tomada por verdadeiro horror, vendo o bebê que não para de lhe lembrar a infidelidade de Zeus. Violentamente o afasta e são as gotas de leite perdidas no céu que dão origem à Via Láctea. Diodoro conta uma versão um pouco diferente: Héracles foi posto no seio de Hera por Atena, porém, já cheio de energia, teria mordido a deusa com uma certa voracidade! E só aí ela o repele com violência, dando nascimento a essa famosa Via Láctea. Essas variantes dão mais ou menos no mesmo e idêntico resultado final, que é a criação dessa espécie de autoestrada das estrelas. Indico simplesmente para que se tenha ideia de como, desde a Antiguidade, se apresentavam de maneira muito variada as narrativas míticas, segundo as épocas, os autores e as regiões. Apesar de tudo, dessa diversidade nasce, pelo menos em suas grandes linhas, uma cultura comum que faz sentido e que os mitógrafos vão transmitir aos filósofos — mais ou menos como, em nossa própria tradição, os contos de fada vão também ganhar variações a partir de uma base comum; afinal, entre as diferentes histórias de Cinderela, quando contada por Grimm ou por Perrault, há igualmente apenas nuanças diferentes. E, mesmo assim, a trama continua fundamentalmente a mesma.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

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publicado às 01:21


2 comentários

De A Vertigem a 20.11.2015 às 01:46

Coloque uns bons textos sobre Hades e Perséfone... 
Terá?

De Thynus a 20.11.2015 às 08:54

Obrigado pela sugestão! Irei providenciar Image

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