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O mito da criação em Heliópolis

por Thynus, em 05.04.16
O mito era uma forma de explicação para processos naturais que estavam sem resposta no pensamento egípcio, tais como a criação do mundo, da raça humana e o pósmorte. Os mitos também passavam um tipo de moral, concepção de ordem e caos, e valores éticos que deveriam ser seguidos e ensinados às próximas gerações. Um bom exemplo é o mito de Osíris, como veremos. Assim, os mitos representavam necessidades e anseios dos homens e mulheres dessa sociedade. Um dos mitos mais importantes e antigos relativo à criação é o da cidade de Heliópolis, cujo nome em egípcio antigo é Wn, Annu ou Iunnu. Durante o Antigo Império (2.575 - 2.134 a.C.) tornou-se o principal centro religioso e sede do culto solar, sobretudo da 4ª. à 6ª. dinastias, época da construção das pirâmides de Queóps, Quéfren, Miquerinos, Unas, Pepi e Teti. O prestígio do culto solar foi tal que um dos cinco títulos básicos do faraó, de “Filho de Ra” (sa-Ra), pode ter surgido nesse período. Referências a esse mito podem ser encontradas nos Textos das Pirâmides no papiro Bremner-Rhind e no livro da Vaca celeste. Estes dois últimos talvez sejam a melhor maneira de conhecê-lo, apesar da forma truncada da narrativa. De um modo geral, podemos contar o mito da seguinte maneira:
No princípio era o Nu (Num), o oceano celestial com sua característica de imobilidade e totalmente estático - a visão do caos na concepção egípcia. Do seu interior emergiu o deus Atum autogerado (não confundir com Aton, que surgiria na 18ª. dinastia e representa o disco solar). Uma vez emerso do Num, a primeira porção de terra também emergiu para acolher o deus. Tal porção de terra era identificada por uma forma piramidal, frequentemente associada a um obelisco. Segundo George Hart, no livro Mitos egípcios, “este outeiro primitivo tornou-se formalizado como benben (bnbn), uma elevação piramidal firme para sustentar o deus Sol; as relíquias reais de pedra, talvez consideradas como o sêmen petrificado de Atum, eram citadas como sobrevivente no hewet-benben (hwt-bnbn), a Mansão do benben”, ou a Mansão da pedra benben. O benben pode ser interpretado como o raio de Sol petrificado e não necessariamente o sêmen.
Uma vez sustentado, o deus Atum inicia o processo de criação dos deuses, por atos oriundos da fala ou da boca. (Em outras variantes, essa criação foi produzida pela masturbação do deus. Há uma outra, ainda, que relata a união do deus Atum com sua sombra (kaibit). Uma vez autogerado, o deus Atum expeliu o deus Shu e cuspiu a deusa Tefnut, estabelecendo a primeira tríade. Shu representava o ar, a atmosfera entre outros atributos (esse deus pode aparecer com o atributo da luz solar segundo outros textos).Tefhut representava a umidade do céu. A partir desse ponto, o casal Shu-Tefnut continuou a criação gerando o casal Geb (terra) e Nut (céu). Atum não tomou mais parte na criação, a não ser para gerar, de suas lágrimas, a raça humana.
Representação de Geb (abaixo) e Nut (acima)
 O deus Geb possuía um caráter masculino, ao contrário de muitas sociedades antigas que estabelecem uma relação feminina com a terra — “a mãe terra”. A deusa Nut, por outro lado, representava o céu no qual estrelas, planetas e outros deuses estão presentes. A barca de Ra navegava 12 horas por dia no seu corpo e tal jornada tinha início no seu ventre, situado no leste, e terminava aparentemente na sua boca, no crepúsculo no oeste. Em seguida, uma nova fase foi levada a efeito com a geração dos quatro filhos do casal Geb e Nut: Osíris, que se tornaria rei do mundo inferior, Ísis, a senhora do trono; Seth, representando forças caóticas da natureza, e Néfits, a senhora do castelo.
Um aspecto importante nessa fase da criação é o papel de Osíris e Seth, que representavam uma certa dualidade de princípios na forma masculina. Assim, temos a terra fértil e estéril, o vale do Nilo e o deserto, luz e trevas, ordem e caos, Osíris e Seth. Ísis representa o aspecto materno, a grande maga e consorte de Osíris. Ela é a senhora do trono (trono de Osíris ou do Egito). Néftis é a senhora do castelo ou mansão — Nebt-het. Esse castelo pode ser entendido como um lugar no firmamento e a casa de Hórus. Assim, os deuses Atum (ou Ra, o deus Sol), Shu, Tefnut, Geb, Nut, Osíris, Ísis, Seth e Néftis formaram a enéada de Heliópolis. Ou seja, os nove deuses da criação. Aos deuses é agregado Hórus ou Heru, que representava o faraó ou a própria raça humana. Com o Hórus vivo deixado na terra depois da partida de Atum-Ra para o firmamento e Osíris reinando no mundo inferior, o processo da criação estava estabelecido. A criação da natureza ocorreu em algum ponto das quatro fases da criação. Assim, a espécie humana — criada a partir das lágrimas de Atum-Ra — passou por um processo diferente do mundo natural.

 (Pedro Paulo Funari e outros - As Religiões que o Mundo esqueceu) 

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publicado às 21:33



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