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O argumento de que os seres humanos são movidos por impulsos primitivos é em parte científico, em parte moral, e em parte psicológico. Esse pensamento pode ser resumido em uma frase: “Nascemos maus porque Deus está nos punindo, e até a ciência concorda com isso”. Um número enorme de pessoas acredita em alguma parte dessa frase, ou nela inteira.
Vamos examinar o que parece ser a opinião racional, o argumento científico. Todos nascemos com uma memória genética que nos fornece os instintos básicos que precisamos para sobreviver. A evolução visa a garantir a propagação de nossa espécie. Nossas necessidades instintivas trabalham lado a lado com nossa necessidade emocional de coletar alimento, encontrar abrigo, conquistar poder e procriar. Nosso medo instintivo nos ajuda a evitar situações perigosas que ameaçam nossa vida e nossa família.
Assim, um argumento evolucionário é usado para nos persuadir de que nossos medos e desejos, instintivamente programados desde o útero, dominam nosso cérebro racional e mais evoluído, com sua razão e sua lógica (ignorando a óbvia ironia de que o cérebro racional inventou a teoria que o rebaixou). Não há dúvida de que as reações instintivas são parte da estrutura do cérebro. Alguns neurocientistas se convenceram do argumento de que certos indivíduos são programados para se tornar antissociais, criminosos, alcoólatras agressivos, assim como outros são programados para ter ansiedade, depressão, autismo e esquizofrenia.
Mas a ênfase no cérebro reptiliano ignora uma verdade. O cérebro é multidimensional, o que permite que qualquer experiência aconteça. Qual experiência será dominante não é algo automático nem geneticamente programado. Existe um equilíbrio entre desejo e contenção, entre escolha e  compulsão. Aceitar que a biologia é um destino destrói o propósito do ser humano: devemos nos submeter ao destino apenas em último caso, mas o argumento da força do cérebro reptiliano faz da submissão a primeira escolha. Como compensar isso? Não aceitamos que nossos antepassados tenham se conformado com o erro humano porque lhes disseram que isso era herança da desobediência de Adão e Eva no Jardim do Éden. A herança genética corre o risco de induzir à mesma resignação, camuflada de ciência.
Mesmo que uma pessoa sinta medo e desejo todos os dias, numa reação natural ao mundo, não precisa ser governada por esses sentimentos. Um motorista parado numa autoestrada de Los Angeles e sufocado pela poluição sentirá a mesma reação de fuga ou luta de seus ancestrais quando caçavam antílopes na savana africana ou tigres no norte da Europa. Essa reação ao estresse, um impulso instintivo, está em nós, mas não faz o motorista abandonar seu veículo e sair correndo ou atacar os outros motoristas. Freud afirmou que a civilização depende do controle dos impulsos primitivos, de modo que valores mais altos possam prevalecer, o que é uma grande verdade. Mas, pessimista, ele acreditava que pagamos um alto preço por isso. Reprimimos nossos impulsos inferiores, mas nunca os extinguimos nem fazemos as pazes com nossos medos mais profundos e nossa agressividade. O resultado é a erupção da violência em massa, como ocorreu nas duas guerras mundiais, quando toda essa energia reprimida cobrou o seu preço de uma maneira horrenda e incontrolável.
Não podemos resumir os milhares de livros escritos sobre esse tema ou oferecer uma resposta perfeita. Mas, com certeza, rotular seres humanos como títeres do instinto animal está errado, em primeiro lugar porque denota uma total falta de equilíbrio. O cérebro racional é tão legítimo, poderoso e evolucionário quanto o cérebro reptiliano. Os maiores circuitos, que criam um ciclo de feedback entre os dois, são maleáveis. Se você é um enforcer no hóquei profissional, sua tarefa é provocar as brigas na quadra de gelo, e por isso você provavelmente escolheu moldar os circuitos de seu cérebro para favorecer a agressividade. Mas sempre existe uma possibilidade de escolha, e, se algum dia você se arrepender dela, pode se retirar para um mosteiro budista, meditar sobre a compaixão e moldar os circuitos cerebrais numa direção superior. As opções sempre existem.
Com raras exceções, a liberdade de escolha não é proibida na programação original. “Meu cérebro me fez fazer isso” é uma desculpa esfarrapada para quase todo comportamento indesejável. Podemos ter consciência de nossas emoções e escolher não nos identificarmos com elas. Isso é muito mais difícil para uma pessoa que sofre de transtorno bipolar, dependência de drogas ou fobia. Mas o caminho para a saúde do cérebro começa com a consciência. E também acaba com ela, pois a consciência permite cada passo do processo. No cérebro, a energia flui aonde a consciência vai.
Quando a energia para de fluir, ficamos bloqueados. Essa barreira é uma ilusão, mas, quando acontece, parece real. Vamos supor que uma pessoa tenha um medo mortal de aranhas. Fobias são reações paralisantes. Um aracnofóbico não pode ver uma aranha sem ter um acesso automático de medo. O cérebro reptiliano desencadeia uma complexa cascata química. Os hormônios correm pela corrente sanguínea, aceleram o coração e elevam a pressão sanguínea. Os músculos se preparam para a fuga ou para a luta. Os olhos se fixam, com a visão concentrada no objeto que provoca o medo. A aranha se torna enorme aos olhos da mente. Tão forte é a reação de medo que o cérebro racional – a parte racional, que sabe que as aranhas são na maioria pequenas e inofensivas – se desliga.
Esse é um exemplo excelente de alguém que está sendo usado pelo cérebro. Ele impõe uma falsa realidade. Todas as fobias são, no fundo, distorções do que é real. A altura não é necessariamente motivo para pânico, nem espaços abertos, nem voar de avião ou uma infinidade de outras coisas que os fóbicos temem. Desistindo do poder de usar o cérebro, quem tem uma fobia se vê preso numa reação paralisante.
As fobias podem ser tratadas com sucesso restabelecendo a consciência e devolvendo o controle ao usuário do cérebro. Uma técnica é fazer a pessoa imaginar o que tem medo. Um aracnofóbico, por exemplo, é solicitado a visualizar uma aranha e imaginar a imagem cada vez maior e depois cada vez menor. Depois, fazer a imagem andar para a frente e para trás. Esse simples ato de movimentar o objeto temido pode ser muito eficiente para eliminar seu poder, porque o medo congela a mente. Aos poucos, o terapeuta pode usar uma aranha numa caixa de vidro. O paciente é solicitado a se aproximar o máximo que puder sem sentir pânico. A distância pode mudar dependendo do nível de conforto do paciente, e com o tempo essa liberdade também restaura o controle. O fóbico aprende que tem outras opções além de apenas fugir.
É óbvio que o cérebro racional pode dominar até mesmo os medos mais instintivos, caso contrário não existiriam alpinistas (medo de altura), equilibristas (medo de cair) ou domadores de leões (medo da morte). O lado triste, porém, é que somos todos como o fóbico que nem consegue imaginar uma aranha sem suar frio.
Cedemos ao medo, não de aranhas, mas de coisas normais: fracasso, humilhação, rejeição, velhice, doença e morte. É uma trágica ironia que o mesmo cérebro capaz de dominar o medo também possa nos sujeitar a medos que nos perseguem por toda a vida.
As chamadas “criaturas inferiores” estão livres do medo psicológico. Quando uma onça ataca, a gazela entra em pânico e luta por sua vida. Mas, se não existe nenhum predador por perto, esse animal leva uma vida despreocupada. Os humanos, porém, passam por terríveis sofrimentos interiores, e esses sentimentos se traduzem em problemas físicos. Os riscos são muito altos se permitirmos que nosso cérebro nos use. Mas, se começarmos a usá-lo, as recompensas serão infinitas.

(DEEPAK CHOPRA, RUDOLPH E. TANZI - SUPERCÉREBRO)

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publicado às 17:32



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