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Anatomia de um Sequestro emocional

por Thynus, em 23.03.15
A vida é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem.
 (Horace Walpol)

Era uma tarde quente de verão, em 1963, o mesmo dia em que o reverendo Martin Luther King Jr. fez o discurso “Eu tenho um sonho” numa marcha pelos direitos civis em Washington. Naquele dia, Richard Robles, um ladrão contumaz, acabara de ser posto em liberdade condicional. Ele havia cumprido a sentença que o havia condenado a três anos de prisão por mais de cem invasões de domicílio que perpetrara para sustentar seu vício em heroína. Robles decidiu fazer outra invasão. Queria abandonar o mundo do crime, alegou mais tarde, mas naquele momento estava precisando desesperadamente de dinheiro para manter a namorada e a filha deles, uma menina com cerca de 3 anos.
O apartamento que arrombou naquele dia pertencia a duas moças, Janice Wylie, de 21 anos, pesquisadora na revista Newsweek, e Emily Hoffert, 23, professora primária. Embora Robles houvesse escolhido para arrombar um apartamento num luxuoso bairro de Nova York por achar que não havia ninguém lá, Janice estava em casa. Ameaçando-a com uma faca, ele a amarrou. Quando ia saindo, entrou Emily. Para garantir a fuga, Robles a amarrou também.
Segundo relatou anos depois, enquanto amarrava Emily, Janice Wylie disse que ele não sairia impune daquele crime: ia se lembrar da cara dele e ajudar a polícia a localizá-lo. Robles, que prometera a si mesmo que aquele seria seu último arrombamento, entrou em pânico, perdendo completamente o controle. Num frenesi, pegou uma garrafa de refrigerante e bateu nas moças até deixá-las inconscientes; depois, possuído de raiva e medo, retalhou-as e esfaqueou-as várias vezes com uma faca de cozinha. Vinte e cinco anos depois, ao lembrar daquele momento, Robles lamentava:
— Fiquei muito furioso. Minha cabeça explodiu.
De lá para cá, Robles teve muito tempo para se arrepender daqueles breves minutos de fúria desenfreada. Enquanto escrevo, ele continua na prisão, algumas décadas depois, cumprindo pena pelo famoso “Assassinato das Executivas”.
Tais explosões emocionais são seqüestros neurais. Nesses momentos, sugerem os indícios, um centro no cérebro límbico proclama uma emergência, recrutando o resto do cérebro para seu plano de urgência. O seqüestro ocorre num instante, disparando essa reação crucial momentos antes de o neocórtex, o cérebro pensante, ter a oportunidade de ver tudo que está acontecendo, e sem ter o tempo necessário para decidir se essa é uma boa idéia. A marca característica desse seqüestro neural é que, assim que passa o momento, o cérebro “possuído” não tem a menor noção do que deu nele.
Esses seqüestros não são de modo algum incidentes isolados e horrendos, que levam sempre a crimes brutais como o Assassinato das Executivas. De forma menos catastrófica — mas não necessariamente menos intensa — ocorrem conosco com muita freqüência. Lembrem da última vez em que vocês “saíram do sério”, explodiram com alguém — o marido ou filho, ou quem sabe o motorista de outro carro — a tal ponto que depois, com um pouco de reflexão e visão retrospectiva, a coisa pareceulhes imprópria. Isso, com toda probabilidade, foi também um desses seqüestros, uma tomada de poder neural que, como veremos, se origina na amígdala cortical, um centro no cérebro límbico.
Nem todos os seqüestros límbicos são aflitivos. Quando uma piada é muito engraçada, a risada é quase explosiva — esta é também uma resposta límbica. Funciona igualmente em momentos de intensa alegria: quando Dan Jansen, após frustradas tentativas para conquistar a medalha de ouro olímpica de patinação (que prometera à irmã agonizante), finalmente ganhou-a nos 1.000 metros, nas Olimpíadas de Inverno na Noruega, sua mulher ficou tão emocionada que teve de ser levada às pressas para a beira do rinque para ser atendida pelo pronto-socorro médico.

O LOCAL DAS PAIXÕES
 Nos seres humanos, a amígdala cortical (do grego, significando “amêndoa”) é um feixe, em forma de amêndoa, de estruturas interligadas, situado acima do tronco cerebral, perto da parte inferior do anel límbico. Há duas amígdalas, uma de cada lado do cérebro, instaladas mais para a lateral da cabeça. A amígdala humana é relativamente grande, em comparação com a de qualquer dos nossos primos evolucionários mais próximos, os primatas.
O hipocampo e a amígdala eram duas partes importantes do primitivo “nariz cerebral” que, na evolução, deu origem ao córtex e depois ao neocórtex. Até hoje, essas estruturas límbicas são responsáveis por grande parte da aprendizagem e da memória do cérebro; a amígdala cortical é especialista em questões emocionais. Se for retirada do cérebro, o resultado é uma impressionante incapacidade de avaliar o significado emocional dos fatos; esse mal é às vezes chamado de “cegueira afetiva”.
Sem peso emocional, os contatos interpessoais ficam insossos. Um rapaz cuja amígdala fora cirurgicamente removida para controlar sérios ataques perdeu por completo o interesse pelas pessoas, preferindo o isolamento, sem qualquer contato humano. Embora fosse perfeitamente capaz de conversar, não reconhecia mais amigos íntimos, parentes, nem mesmo a mãe, e ficava impassível diante da angústia deles com sua indiferença. Sem a amígdala, havia perdido não só a capacidade de discernir sentimentos como também de ter sentimentos sobre sentimentos.1 A amígdala cortical funciona como um depósito da memória emocional e, portanto, do próprio significado; a vida sem essa amígdala não tem o menor sentido do ponto de vista emocional.
O que está ligado à amígdala é mais que a afeição; qualquer paixão depende dela. Os animais que têm a amígdala cortical retirada ou seccionada não sentem medo nem raiva, perdem o icooperar e ficam sem qualquer noção do lugar que ocupam na hierarquia social de sua espécie; a emoção fica embotada ou ausente. As lágrimas, um sinal emocional exclusivo dos seres humanos, são provocadas pela amígdala cortical e uma estrutura próxima, a circunvolução cingulada; ser abraçado, afagado ou de outro modo reconfortado acalma essas mesmas regiões cerebrais. Sem amígdala, não há lágrimas para aliviar um sofrimento.
Joseph LeDoux, neurocientista do Centro de Ciência Neural da Universidade de Nova York, foi o primeiro a descobrir o importante papel que a amígdala cortical desempenha no cérebro emocional.2mpulso de competir ou Ele faz parte de um novo grupo de neurocientistas, os quais recorrem a tecnologias e métodos inovadores, responsáveis por um nível de precisão antes desconhecido no mapeamento do cérebro em funcionamento, e assim podem desvendar mistérios da mente que gerações anteriores de cientistas julgavam impenetráveis. Suas descobertas sobre os circuitos do cérebro emocional puseram abaixo uma noção há muito existente sobre o sistema límbico, colocando a amígdala cortical no centro da ação e deixando outras estruturas límbicas em funções muito diferentes.3
A pesquisa de LeDoux explica como essa amígdala pode assumir o controle sobre o que fazemos quando o cérebro pensante, o neocórtex, ainda está em vias de tomar uma decisão. Como veremos, o funcionamento da amígdala e sua interação com o neocórtex estão no centro da inteligência emocional.

O RASTILHO DE NEURÔNIOS
O que é mais intrigante acerca da força das emoções na vida mental são aqueles momentos de ação passional de que mais tarde nos arrependemos, assim que a poeira se assenta; por que agimos, com tanta facilidade, de forma irracional? Vejam, por exemplo, uma jovem que dirigiu duas horas até Boston, para fazer um brunch e passar o dia com o namorado. Na lanchonete, ele lhe deu de presente uma coisa que ela vinha querendo havia meses, uma gravura rara, trazida da Espanha. Mas a alegria dela acabou quando sugeriu ao namorado que, depois dali, fossem ver um filme que estava louca para ver. Ele a chocou quando disse que não podia passar o dia com ela, pois tinha um treino de softball. Magoada e incrédula, ela se levantou em prantos, deixou a lanchonete e, num impulso, jogou a gravura na lata de lixo. Meses depois, contando o incidente, não é de ter saído que ela se arrependia, mas da perda da gravura.
É em momentos assim — quando um sentimento impulsivo domina a razão — que o recém-descoberto papel da amígdala cortical se mostra crucial. Os sinais que vêm dos sentidos permitem que a amígdala faça uma varredura de toda experiência, em busca de problemas. Isso lhe dá um papel privilegiado na vida mental, algo semelhante a uma sentinela psicológica, desafiando cada situação, cada percepção, com apenas um tipo de pergunta em mente, a mais primitiva: “É alguma coisa que odeio? Isso me fere? Alguma coisa que temo?” Se for o caso — se o momento em questão de algum modo esboça um “Sim” —, a amígdala reage imediatamente, como um rastilho de neurônios, mandando uma mensagem de emergência para todas as partes do cérebro.
Na arquitetura do cérebro, a amígdala está situada como se fosse o alarme de uma empresa, onde operadores estão a postos para chamar o Corpo de Bombeiros, polícia e um vizinho, sempre que o sistema de segurança interno dá o sinal de perigo.
Quando soa um alarme, digamos, de medo, ela envia mensagens urgentes às principais partes do cérebro: dispara a secreção dos hormônios orgânicos para lutar-ou-fugir, mobiliza os centros de movimento e ativa o sistema cardiovascular, os músculos e os intestinos.4 Outros circuitos da amígdala enviam sinais para a secreção de gotas de emergência do hormônio noradrenalina, para aumentar a reatividade das principais áreas cerebrais, incluindo as que tornam os sentidos mais alertas, na verdade deixando o cérebro de prontidão. Outros sinais da amígdala dizem ao tronco cerebral para afixar no rosto uma expressão de medo, paralisar movimentos que os músculos estariam em vias de executar, acelerar a pulsação cardíaca, aumentar a pressão sanguínea e reduzir o ritmo da respiração. Outros fixam a atenção na causa do medo e preparam os músculos para reagir de acordo. Simultaneamente, sistemas da memória cortical são vasculhados em busca de qualquer conhecimento relevante para a emergência em questão, passando por cima dos outros fios de pensamento.
E essas são apenas parte de uma cuidadosamente coordenada série de mudanças que a amígdala organiza quando recruta áreas de todo o cérebro (para uma explicação mais detalhada, ver Apêndice C). A extensa rede de ligações neurais da amígdala permite que, durante uma emergência emocional, ela assuma e dirija grande parte do restante do cérebro — inclusive a mente racional.

A SENTINELA EMOCIONAL
Conta um amigo que, em férias na Inglaterra, tomou um café-da- manhã reforçado num café à beira de um canal. Depois, desceu pelos degraus de pedra que davam no canal e, de repente, viu uma moça olhando fixo para a água, o rosto transido de pavor. Antes de saber exatamente o que estava acontecendo, ele já estava pulando — de paletó e gravata. Só então compreendeu que a moça fitava em estado de choque uma criancinha que caíra na água — e que ele conseguiu salvar.
O que o fez pular na água antes de saber por quê? A resposta mais provável: foi sua amígdala cortical.
Na última década, uma das descobertas mais impressionantes sobre emoções está no trabalho de LeDoux onde ele revela que a arquitetura do cérebro dá à amígdala uma posição privilegiada como sentinela emocional, capaz de assumir o controle do cérebro.5 A pesquisa de LeDoux mostra que sinais sensoriais do olho ou ouvido viajam no cérebro primeiro para o tálamo, e depois — por uma única sinapse — para a amígdala; um segundo sinal do tálamo é encaminhado para o neocórtex — o cérebro pensante. Essa ramificação permite que a amígdala comece a responder antes que o neocórtex o faça, pois ele elabora a informação em vários níveis dos circuitos cerebrais, antes de percebê-la plenamente e por fim dar início a uma resposta, mais cuidadosamente elaborada.
A pesquisa de LeDoux é revolucionária para a compreensão da vida emocional porque é a primeira a estabelecer caminhos neurais de sentimentos que contornam o neocórtex. Esses sentimentos que tomam a rota direta da amígdala estão entre os nossos sinais mais primitivos e poderosos; esse circuito nos ajuda a entender o poder que a emoção tem de superar a razão. A opinião clássica na neurociência era de que o olho, o ouvido e outros órgãos sensoriais transmitem sinais ao tálamo e de lá para as áreas de processamento sensorial do neocórtex, onde eles são reunidos em objetos como nós os percebemos. Os sinais são classificados por significados, para que o cérebro reconheça o que é cada objeto e o que significa a sua presença. Do neocórtex, dizia a antiga teoria, os sinais são enviados para o cérebro límbico, e de lá a resposta apropriada se irradia pelo cérebro e o resto do corpo. É assim que funciona durante a maior parte do tempo — mas LeDoux descobriu que, além daqueles que seguem pelo caminho mais longo de neurônios até o córtex, há um pequeno feixe de neurônios que vai direto do tálamo à amígdala cortical. Esse atalho — como uma viela neural — permite que a amígdala receba alguns insumos diretos dos sentidos e inicie uma resposta antes que eles sejam plenamente registrados pelo neocórtex.
Essa descoberta invalida totalmente a tese de que a amígdala depende inteiramente de sinais do neocórtex para formular suas reações emocionais. A amígdala pode acionar uma resposta emocional através dessa rota de emergência no momento exato em que um circuito ressonante paralelo se inicia entre a amígdala e o neocórtex. A amígdala pode fazer com que nos lancemos à ação, enquanto o neocórtex — um pouco mais lento, porém mais plenamente informado — traça um plano de reação mais refinado.
LeDoux pôs por terra o conhecimento predominante sobre os caminhos percorridos pelas emoções, com sua pesquisa sobre medo em animais. Numa experiência crucial, destruiu o córtex auditivo de ratos, depois os expôs a um som associado a um choque elétrico. Os ratos logo aprenderam a temer o som, antes de o neocórtex tê-lo registrado. Em vez disso, o som tomava a rota direta do ouvido ao tálamo e à amígdala, saltando todos os trajetos mais longos. Em suma, os ratos aprenderam uma reação emocional sem nenhum envolvimento cortical maior: a amígdala percebeu, lembrou e orquestrou seu medo de modo independente.
— Anatomicamente, o sistema emocional pode agir de modo independente do neocórtex — disse-me LeDoux.
— Algumas reações e lembranças emocionais podem formar-se sem que haja nenhuma participação consciente e cognitiva.
A amígdala pode abrigar lembranças e repertórios de respostas que interpretamos sem compreender bem por que o fazemos, porque o atalho do tálamo à amígdala contorna completamente o neocórtex. Essa passagem permite que a amígdala seja um repositório de impressões emocionais e lembranças de que não temos plena consciência. LeDoux sugere que é o papel subterrâneo da amígdala na memória que explica, por exemplo, um experimento surpreendente, em que pessoas adquiriram preferência por figuras geométricas com estranhas formas, exibidas de modo tão rápido que elas nem tiveram a oportunidade de tomar consciência de tê-las visto!6
Outra pesquisa demonstrou que, nos primeiros milésimos de segundo em que temos a percepção de alguma coisa, não apenas compreendemos inconscientemente o que é, mas decidimos se gostamos ou não dela; o “inconsciente cognitivo” apresenta à nossa consciência não apenas a identidade do que vemos, mas uma opinião sobre o que vemos.7 Nossas emoções têm uma mente própria, que pode ter opiniões bastante diversas das que tem a nossa mente racional.

A ESPECIALISTA EM MEMÓRIA EMOCIONAL
Essas opiniões inconscientes são memórias emocionais; ficam guardadas na amígdala. A pesquisa de LeDoux e outros neurocientistas parece agora sugerir que o hipocampo, há muito considerado a estruturachave do sistema límbico, está mais envolvido com o registro e a atribuição de sentido aos padrões perceptivos do que com reações emocionais. A principal contribuição do hipocampo está em fornecer uma precisa memória de contexto, vital para o significado emocional; é o hipocampo que reconhece o significado de, digamos, um urso no zoológico ou em nosso quintal. Enquanto o hipocampo lembra os fatos puros, a amígdala retém o sabor emocional que os acompanha. Se tentamos ultrapassar um carro numa estrada de mão dupla e por pouco escapamos de uma batida de frente, o hipocampo retém os detalhes específicos do incidente, como, por exemplo, em que faixa da estrada estávamos, quem estava conosco, como era o outro carro. Mas é a amígdala que daí em diante enviará uma onda de ansiedade que nos percorre o corpo toda vez que tentarmos ultrapassar um carro em circunstâncias semelhantes. Como explicou LeDoux:
— O hipocampo é crucial no reconhecimento do rosto de sua sobrinha. Mas é a amígdala que diz que você, na realidade, não gosta dela.
O cérebro usa um método simples mas astuto para registrar memórias emocionais com força especial: os mesmíssimos sistemas de alarme neuroquímicos que preparam o corpo para reagir a emergências de risco de vida com a resposta de lutar-oufugir também gravam fortemente na memória o momento de intenso estímulo emocional.8 Sob tensão (ou ansiedade, ou provavelmente até mesmo intensa excitação de alegria), um nervo que vai do cérebro às glândulas suprarenais, situadas acima dos rins, provoca uma secreção dos hormônios epinefrina e norepinefrina, que invadem o corpo, preparando-o para uma emergência. Esses hormônios ativam receptores no nervo vago; embora este transmita mensagens do cérebro para regular o coração, também retransmite sinais para o cérebro, disparados pela epinefrina e pela norepinefrina. A amígdala é o principal ponto no cérebro para onde vão esses sinais; eles ativam neurônios dentro dela que enviam sinais a outras regiões cerebrais, a fim de dar um reforço à memória sobre o que está acontecendo.
Esse estímulo da amígdala parece gravar na memória a maioria dos momentos mais intensos de estímulo emocional — por isso é muito provável, por exemplo, que lembremos do lugar onde ocorreu nosso primeiro encontro amoroso, ou o que fazíamos quando ouvimos a notícia de que o ônibus espacial Challenger explodira. Quanto mais intenso o estímulo da amígdala, mais forte o registro; as experiências que mais nos apavoram ou emocionam na vida estão entre nossas lembranças indeléveis. Isto significa, na verdade, que o cérebro tem dois sistemas de memória, um para fatos comuns e outro para aqueles que são carregados de emoção. É claro que um sistema especial de memorização se justifica no contexto da evolução, na medida em que assegurou que os animais tivessem lembranças particularmente vívidas do que os ameaçava ou agradava. Mas as memórias emocionais podem ser péssimos guias na nossa atualidade.

ALARMES NEURAIS ANACRÔNICOS
Uma desvantagem desses alarmes neurais é que a mensagem urgente enviada pela amígdala, às vezes, ou muito freqüentemente, é anacrônica — sobretudo no fluido mundo social em que nós, humanos, vivemos. Como repositório de memória emocional, a amígdala examina a experiência, comparando o que está acontecendo agora com o que aconteceu no passado. Seu método de comparação é associativo: quando um elemento-chave de uma situação presente é semelhante àquele do passado, pode-se dizer que se “casam” — motivo pelo qual esse circuito é falho: age antes de haver uma plena confirmação. Ordena-nos freneticamente que reajamos ao presente com meios registrados muito tempo atrás, com pensamentos, emoções e reações aprendidos em resposta a acontecimentos talvez apenas vagamente semelhantes, mas ainda assim o bastante para alarmar a amígdala.
Eis por que uma ex-enfermeira do Exército, traumatizada pelo incessante fluxo de ferimentos horríveis de que cuidou na guerra, é acometida de repente por um misto de pavor, repugnância e pânico — uma repetição de sua reação no campo de batalha, provocada mais uma vez, anos depois, pelo mau cheiro quando abre a porta de um armário e descobre que seu filho pequeno enfiou ali uma fralda suja. Basta que poucos elementos esparsos da situação pareçam semelhantes a algum perigo do passado para que a amígdala dispare seu alerta de emergência. O problema é que, junto com as lembranças emocionalmente carregadas que têm o poder de provocar essa reação de crise, podem vir do mesmo modo formas obsoletas de respondê-la.
À imprecisão do cérebro emocional nesses momentos acrescenta-se o fato de que muitas lembranças emocionais fortes datam dos primeiros anos de vida, na relação entre a criança e aqueles que cuidam dela. Isso se aplica sobretudo aos acontecimentos traumáticos, como surras ou total abandono. Durante esse primeiro período de vida, outras estruturas cerebrais, em particular o hipocampo, que é crucial para as lembranças narrativas, e o neocórtex, sede do pensamento racional, ainda não se desenvolveram inteiramente. Na memória, a amígdala e o hipocampo trabalham juntos; cada um armazena e conserva sua informação de forma independente. Enquanto o hipocampo retém a informação, a amígdala determina se ela tem valência emocional. Mas a amígdala, que amadurece muito rápido no cérebro infantil, está, no nascimento, muito mais próxima da forma completa. LeDoux recorre ao papel da amígdala na infância para confirmar o que há muito tempo é doutrina básica no pensamento psicanalítico: que as interações ocorridas nos primeiros anos de vida estabelecem um conjunto de lições elementares, baseadas na sintonia e perturbações dos contatos entre a criança e os que cuidam dela.9 Essas lições emocionais são tão poderosas e, no entanto, tão difíceis de entender do privilegiado ponto de vista da vida adulta porque, acredita LeDoux, estão armazenadas na amígdala como planos brutos, sem palavras, para a vida emocional. Como essas primeiras lembranças emocionais se estabelecem numa época anterior àquela em que as crianças podem verbalizar sua experiência, quando essas lembranças são disparadas na vida posterior não há um conjunto adequado de pensamentos articulados sobre a resposta que se apodera de nós. Um dos motivos pelos quais ficamos tão aturdidos com nossas explosões emocionais, portanto, é que elas muitas vezes remontam a um tempo inicial em nossas vidas, quando tudo era desconcertante e ainda não tínhamos palavras para compreender os fatos. Temos os sentimentos caóticos, mas não as palavras para as lembranças que os formaram.

QUANDO AS EMOÇÕES SÃO “RÁPIDAS E MALFEITAS”
Eram mais ou menos três da manhã quando um imenso objeto varou com um estrondo o teto, lá num canto do meu quarto, despejando coisas que estavam no sótão. Num segundo, saltei da cama e saí correndo do quarto, com medo de que todo o teto desabasse. Depois, percebendo que estava a salvo, voltei para espiar cautelosamente o que causara aquele estrago todo — e descobri simplesmente que o som que julgara ser do teto desabando fora na verdade a queda de uma pilha de caixas que minha mulher, na véspera, amontoara no canto. Nada caíra do sótão: não havia sótão. O teto estava intacto, assim como eu.
Ter pulado da cama, meio sonolento, poderia ter evitado que eu me ferisse, se fosse o caso de o teto estar caindo — esse fato ilustra o poder que a amígdala tem de nos impelir à ação nas emergências, momentos vitais que ocorrem antes de o neocórtex ter tempo de registrar plenamente o que de fato está acontecendo. A rota de emergência do olho ou ouvido ao tálamo e à amígdala é crucial: poupa tempo numa emergência, quando se impõe uma reação instantânea. Mas esse circuito do tálamo à amígdala transmite apenas uma pequena parte das mensagens sensoriais, com a maioria tomando o caminho principal até o neocórtex.
Assim, o que se registra na amígdala nessa via expressa é, na melhor das hipóteses, um sinal informe, suficiente apenas para uma advertência. Como observa LeDoux, “não é necessário que saibamos exatamente o que uma coisa é para que saibamos que ela pode ser perigosa”.10
A rota direta tem uma enorme vantagem em tempo cerebral, que é calculado em milésimos de segundo. A amígdala de um rato pode iniciar uma resposta a uma percepção numa fração mínima de 12 milissegundos. A rota do tálamo ao neocórtex e à amígdala leva cerca de duas vezes esse tempo. Ainda não foi feita medição semelhante no cérebro humano, mas a proporção geral provavelmente se confirmaria.
Em termos evolucionários, o valor para a sobrevivência dessa rota direta teria sido grande, permitindo uma opção de resposta rápida que elimina alguns críticos milissegundos no tempo de reação a perigos. Esses milissegundos muito provavelmente salvaram a vida de nossos ancestrais protomamíferos em número tal que o esquema é hoje característico de qualquer cérebro de mamífero, incluindo o seu e o meu. Na verdade, embora esse circuito desempenhe uma função relativamente limitada na vida mental humana, restrita em grande parte a crises emocionais, a maior parte da vida mental de pássaros, peixes e répteis gira em torno dele, pois sua sobrevivência depende de localizar constantemente predadores ou presa.
— Esse sistema cerebral primitivo, menor, nos mamíferos, é o principal sistema cerebral nos não-mamíferos — diz LeDoux. — Oferece um meio muito ágil de ligar emoções. Mas é um processo rápido e malfeito: as células são velozes, mas não muito precisas.
Essa imprecisão, digamos, num esquilo, é ótima, já que o leva a “errar”, mas a acertar em termos de segurança, afastando-se aos saltos ao primeiro sinal de qualquer coisa que possa sugerir o aparecimento de um inimigo, ou saltando sobre qualquer indício de algo comestível. Mas, na vida emocional humana, pode ter conseqüências desastrosas para nossas relações, pois significa, falando de modo figurado, que podemos saltar em cima ou fugir da coisa — ou pessoa — errada. (Pensem, por exemplo, na garçonete que derrubou uma bandeja com seis jantares quando viu de relance uma mulher de cabelos ruivos ondulados exatamente iguais aos daquela por quem seu marido a deixara.)
Esses rudimentares erros emocionais baseiam-se no sentimento anterior ao pensamento. LeDoux chama isso de “emoção precognitiva”, uma reação baseada em fragmentos neurais de informação sensorial que não foram completamente classificados e integrados num objeto reconhecível. É uma forma muito grosseira de informação sensorial, meio semelhante, em termos neurais, a um programa do tipo “Qual é a Música?”, onde, em vez de julgamentos instantâneos feitos com base num acorde, toda uma percepção é captada com base em algumas notas, ainda indefinidas. Se a amígdala capta o surgimento de um padrão sensorial importante, parte logo para uma conclusão, disparando suas reações antes de haver confirmação total da prova — ou nenhuma confirmação.
Não admira que tenhamos tão pouca consciência das trevas de nossas emoções mais explosivas, sobretudo enquanto elas ainda nos mantêm escravos. A amígdala pode reagir num delírio de raiva ou medo antes de o córtex saber o que está acontecendo, porque essa emoção bruta é disparada independentemente do pensamento e o antecede.

O ADMINISTRADOR DAS EMOÇÕES
A filha de 6 anos de uma amiga, Jessica, passava a primeira noite fora, em casa de uma colega, e era difícil saber quem estava mais nervosa com isso, se a mãe ou a filha. Embora a mãe tenha conseguido disfarçar para Jessica a intensa ansiedade que sentia, sua tensão atingiu o mais alto grau por volta da meianoite, quando se preparava para dormir e ouviu o telefone tocar. Largou a escova de dentes, correu para atender, o coração disparando, imagens de Jessica em terrível aflição passando-lhe pela cabeça.
Agarrou o telefone e explodiu:
— Jessica!
E ouviu uma voz de mulher dizer:
— Ah, acho que disquei o número errado...
Diante disso, a mãe recuperou a serenidade e, num tom educado, comedido, perguntou: — Que número você discou? Enquanto a amígdala trabalha preparando uma reação ansiosa e impulsiva, outra parte do cérebro emocional possibilita uma resposta mais adequada, corretiva. A chave do amortecedor cerebral das ondas repentinas da amígdala parece localizar-se na outra ponta de um circuito principal do neocórtex, nos lobos pré-frontais, logo atrás da testa. O córtex préfrontal parece agir quando alguém está assustado ou zangado, mas sufoca ou controla o sentimento para tratar com mais eficácia da situação imediata, ou quando uma reavaliação exige uma resposta completamente diferente, como no caso da ansiosa mãe ao telefone. Essa região neocortical do cérebro traz uma resposta mais analítica ou adequada aos nossos impulsos emocionais, modulando a amígdala e outras áreas límbicas.
Em geral, as áreas pré-frontais governam, de cara, as nossas reações emocionais. A maior parte de informação sensorial do tálamo, lembrem, não vai para a amígdala, mas para o neocórtex e seus muitos centros, que a absorvem e dão sentido ao que se está percebendo; essa informação e nossa resposta a ela são coordenadas pelos lobos pré-frontais, o local onde são planejadas e organizadas as ações para que alcancemos um objetivo, incluindo os emocionais. No neocórtex, uma série em cascata de circuitos registra e analisa essa informação, compreende-a e, por meio dos lobos pré-frontais, organiza uma reação. Se no processo é exigida uma resposta emocional, os lobos pré-frontais a ditam, trabalhando em comum com a amígdala e outros circuitos no cérebro emocional.
Essa progressão, que permite discernir a resposta emocional, é o esquema-padrão, com a significativa exceção das emergências emocionais. Quando uma emoção dispara, em poucos momentos os lobos pré-frontais efetuam o equivalente a um cálculo da relação custo/benefício das miríades de reações possíveis e decidem que uma delas é a melhor.11 Nos animais, quando atacar, quando fugir. E quanto a nós, humanos..., quando atacar, quando fugir — e também quando apaziguar, persuadir, atrair simpatia, fechar-se em copas, provocar culpa, lamentar-se, assumir uma fachada de bravata, mostrar desprezo — e assim por diante, percorrendo todo o repertório de ardis emocionais.
A resposta neocortical é mais lenta em tempo cerebral que o mecanismo de seqüestro porque envolve mais circuitos. Também é mais criteriosa e ponderada, pois mais pensamentos antecedem o sentimento. Quando registramos uma perda e ficamos tristes, ou nos alegramos com uma vitória, ou refletimos sobre alguma coisa que alguém disse ou fez e depois ficamos magoados ou zangados, é o neocórtex agindo.
Como acontece com a amígdala, sem o funcionamento dos lobos pré-frontais grande parte da vida emocional desapareceria; sem a compreensão de que alguma coisa merece uma resposta emocional, não há nenhuma resposta. Neurologistas suspeitavam desse papel dos lobos pré-frontais nas emoções desde o advento, na década de 1940, daquele “tratamento” cirúrgico um tanto desesperado — e tristemente enganoso — para a doença mental: a lobotomia pré-frontal, que (muitas vezes malfeita) removia parte dos lobos pré-frontais ou então seccionava as ligações entre o córtex pré-frontal e o cérebro inferior. Numa época anterior à existência de remédios eficazes para a doença mental, a lobotomia foi saudada como a solução para a perturbação emocional grave — era só cortar as ligações entre os lobos pré-frontais e o resto do cérebro que se “aliviava” a aflição do paciente. Infelizmente, o custo para a maioria dos pacientes era, também, a perda de suas emoções. O circuito-chave ficava destruído.
Supõe-se que os seqüestros emocionais envolvem duas dinâmicas: o disparo da amígdala e a não-ativação dos processos neocorticais que em geral mantêm o equilíbrio da resposta emocional — ou um recrutamento das zonas neocorticais para a urgência emocional.12 Nesses momentos, a mente racional é inundada pela emoção. Uma das maneiras de o neocórtex agir como eficiente administrador da emoção — avaliando as reações antes de agir — é amortecer os sinais de ativação enviados pela amígdala e outros centros límbicos — assim como um pai que impede um filho impulsivo de pegar uma coisa e o manda, em vez disso, pedir direito (ou esperar) o que quer.13
A principal chave de “desligar” a emoção aflitiva parece ser o lobo pré-frontal esquerdo. Neuropsicólogos que estudam humores de pacientes com danos em partes dos lobos frontais determinaram que uma das tarefas do lobo pré-frontal esquerdo é agir como um termostato nervoso, regulando emoções desagradáveis. Os lobos pré-frontais direitos são um local de sentimentos negativos, como medo e agressividade, enquanto os esquerdos refreiam essas emoções brutas, provavelmente inibindo o lobo direito.14 Num grupo de pacientes que sofreram derrame, por exemplo, aqueles cujas lesões haviam ocorrido no córtex pré-frontal esquerdo tinham tendência a preocupações e medos catastróficos; aqueles com lesões no direito eram “exageradamente animados”; durante os exames neurológicos, faziam piadas com tudo e mostravam-se tão descontraídos que visivelmente nem se preocupavam com o resultado do exame.15 E ainda houve o caso do marido feliz: um homem cujo lobo pré-frontal direito fora parcialmente removido numa cirurgia para correção de uma má-formação do cérebro. A mulher contou aos médicos que depois da operação o marido sofrera uma mudança radical de personalidade, passando a irritar-se com menos facilidade e — como ela estava feliz! — estava mais carinhoso. 16
O lobo pré-frontal esquerdo, em suma, parece fazer parte de um circuito neural que pode desligar, ou pelo menos amortecer, quase todos os impulsos negativos mais fortes da emoção. Se a amígdala muitas vezes age como um disparador de emergência, o lobo pré-frontal esquerdo faz parte da chave de “desligar” a emoção perturbadora: a amígdala propõe, o lobo pré-frontal dispõe. Essas ligações pré-frontallímbicas são cruciais na vida mental muito além do simples refinamento da emoção; são essenciais para fazer-nos navegar em meio às decisões mais importantes na vida.

HARMONIZANDO EMOÇÃO E PENSAMENTO
As ligações entre a amígdala (e as estruturas límbicas relacionadas) e o neocórtex são o centro das batalhas ou dos tratados de cooperação entre a cabeça e o coração, o pensamento e o sentimento. Esses circuitos explicam por que a emoção é tão crucial para o pensamento efetivo, tanto no que diz respeito a tomar decisões sensatas quanto simplesmente a permitir que pensemos com clareza. Consideremos o poder que têm as emoções em perturbar o próprio pensamento. Os neurocientistas usam o termo “memória funcional” para a capacidade de atenção que guarda na mente os fatos essenciais para concluir uma determinada tarefa ou problema, sejam os aspectos ideais que buscamos numa casa quando examinamos vários prospectos, sejam os elementos de um problema de raciocínio num teste. O córtex pré-frontal é a região do cérebro responsável pela memória funcional. 17 Mas os circuitos que vão do cérebro límbico aos lobos pré-frontais indicam que os sinais de forte emoção — ansiedade, raiva e afins — podem criar estática neural, sabotando a capacidade do lobo pré-frontal de manter a memória funcional. É por isso que, quando estamos emocionalmente perturbados, dizemos: “Simplesmente não consigo raciocinar” — e por que a contínua perturbação emocional cria deficiências nas aptidões intelectuais da criança, mutilando a capacidade de aprender.
Essas deficiências, quando muito sutis, nem sempre aparecem em testes de QI, embora se revelem em avaliações neuropsicológicas mais dirigidas, bem como na contínua agitação e impulsividade da criança. Num determinado estudo, por exemplo, descobriu-se que meninos de escola primária com QI acima da média, mas com fraco desempenho escolar, tinham uma deficiência no funcionamento do córtex frontal.18 Também eram impulsivos e ansiosos, muitas vezes desordeiros e chegados a meter-se em apuros — o que sugere um falho controle pré-frontal sobre os impulsos límbicos. Apesar de seu potencial intelectual, essas crianças são as mais propensas a terem problemas na escola, ao alcoolismo e à criminalidade — não por deficiência intelectual, mas porque o controle que têm sobre sua vida emocional é deficiente. O cérebro emocional, bastante distinto das regiões corticais reveladas pelos testes de QI, controla igualmente a raiva e o sentimento de piedade. Esses circuitos emocionais são esculpidos pelo que foi vivenciado na infância — e, no entanto, deixamos essas experiências absolutamente ao acaso.
Pensem, também, no papel das emoções mesmo na mais “racional” decisão que tomamos. Num trabalho com implicações de amplo alcance para a compreensão da vida mental, o Dr. Antonio Damasio, neurologista da Faculdade de Medicina da Universidade de Iowa, fez meticulosos estudos sobre o que, precisamente, está comprometido nos pacientes com danos no circuito pré- frontal-amígdala.19 O processo decisório deles é muitíssimo falho — e, no entanto, não revelam absolutamente nenhuma deterioração no QI ou em qualquer capacidade cognitiva. Apesar de o intelecto estar intacto, fazem escolhas desastrosas nos negócios e na vida pessoal e podem mesmo entrar em interminável obsessão sobre uma decisão tão simples como, por exemplo, para que horas marcar um encontro.
O Dr. Damasio diz que as decisões são mal tomadas porque eles perderam acesso ao que foi emocionalmente aprendido. Como ponto de encontro entre pensamento e emoção, o circuito pré-frontal-amígdala é uma entrada crucial para o repositório de preferências e aversões que adquirimos ao longo da vida. Desligado da memória emocional na amígdala, qualquer coisa sobre a qual o neocórtex medite não mais dispara as reações emocionais a ela associadas no passado — tudo assume uma neutralidade cinzenta. Um estímulo, seja um bichinho de estimação preferido ou alguém que detestamos, não desperta mais atração nem aversão; esses pacientes “esqueceram” todo esse aprendizado emocional porque não têm mais acesso ao lugar onde ele está armazenado na amígdala cortical.
Indicações como essa levam o Dr. Damasio à posição antiintuitiva de que os sentimentos são geralmente indispensáveis nas decisões racionais; põemnos na direção certa, onde a lógica fria pode então ser de melhor uso. Enquanto o mundo muitas vezes nos põe diante de uma gama difícil de opções (Onde aplicar o dinheiro? Com quem casar?), o aprendizado emocional que a vida nos deu (como a lembrança de um desastroso investimento ou uma separação dolorosa) nos envia sinais que facilitam a decisão, eliminando, de pronto, algumas opções e privilegiando outras. Eis por quê, diz o Dr. Damasio, o cérebro emocional está tão envolvido no raciocínio quanto o cérebro pensante.
As emoções, portanto, são importantes para a racionalidade. Na dança entre sentimento e pensamento, a faculdade emocional guia nossas decisões a cada momento, trabalhando de mãos dadas com a mente racional e capacitando — ou incapacitando — o próprio pensamento. Do mesmo modo, o cérebro pensante desempenha uma função de administrador de nossas emoções — a não ser naqueles momentos em que elas lhe escapam ao controle e o cérebro emocional corre solto.
Num certo sentido, temos dois cérebros, duas mentes — e dois tipos diferentes de inteligência: racional e emocional. Nosso desempenho na vida é determinado pelas duas — não é apenas o QI, mas a inteligência emocional também conta. Na verdade, o intelecto não pode dar o melhor de si sem a inteligência emocional. Em geral, a complementaridade de sistema límbico e neocórtex, amígdala e lobos pré-frontais significa que cada um é um parceiro integral na vida mental. Quando esses parceiros interagem bem, a inteligência emocional aumenta — e também a capacidade intelectual. Isso subverte a antiga concepção de antagonismo entre razão e sentimento: não é que queiramos eliminar a emoção e pôr a razão em seu lugar, como queria Erasmo, mas, ao contrário, precisamos encontrar o equilíbrio inteligente entre as duas. O antigo paradigma defendia um ideal de razão livre do peso da emoção. O novo paradigma nos exorta a harmonizar cabeça e coração. Fazer isso bem em nossas vidas implica precisarmos primeiro entender com mais exatidão o que significa usar inteligentemente a emoção.

(Goleman, Daniel - Inteligência emocional)


NOTAS

1. O caso do homem sem sentimentos foi descrito por R. Joseph, op. cit., p. 83. Por outro lado, pode haver alguns vestígios de sentimentos em pessoas que não têm a amígdala cortical (ver Paul Ekman e Richard Davidson (eds.), Questions About Emotions, Nova York: Oxford University Press, 1994). As diferentes constatações talvez dependam de exatamente quais partes dessa amígdala e circuitos relacionados estavam faltando; a última palavra sobre a detalhada neurologia da emoção está longe de ser dada.

2. Como muitos neurocientistas, LeDoux trabalha em vários níveis, estudando, por exemplo, como lições específicas no cérebro de um rato mudam o comportamento dele; identificando, minuciosamente, o caminho de neurônios individuais; elaborando complicadas experiências para condicionar o medo em ratos cujos cérebros foram cirurgicamente alterados. Suas descobertas, e outras examinadas aqui, estão na vanguarda da exploração na neurociência e, portanto, permanecem um pouco especulativas — sobretudo as implicações que parecem fluir dos dados brutos para uma compreensão de nossa vida emocional. Mas o trabalho de LeDoux é sustentado por um crescente conjunto de indícios convergentes, de uma variedade de neurocientistas que estão desvendando constantemente os esteios neurais das emoções. Ver, por exemplo, Joseph LeDoux, “Sensory Systems and Emotion”, Integrative Psychology, 4, 1986; Joseph LeDoux, “Emotion and the Limbic System Concept”, Concepts in Neuroscience, 2, 1992.

3. A idéia de o sistema límbico ser o centro emocional do cérebro foi introduzida pelo neurologista Paul MacLean há mais de quarenta anos. Em anos recentes, descobertas como as de LeDoux aperfeiçoaram o conceito, mostrando que algumas de suas estruturas centrais como o hipocampo estão menos diretamente envolvidas nas emoções, enquanto circuitos que ligam outras partes do cérebro — sobretudo os lobos pré-frontais — à amígdala são mais fundamentais. Além disso, há um crescente reconhecimento de que cada emoção pode ativar distintas áreas do cérebro. O pensamento mais corrente é que não há um único “cérebro emocional” claramente distinto, mas sim vários sistemas de circuitos que dispersam a regulação de uma determinada emoção para partes distantes, mas coordenadas, do cérebro. Os neurocientistas acreditam que quando se conseguir o mapeamento completo das emoções no cérebro, cada emoção importante terá sua própria topografia, um mapa distinto de caminhos neuronais determinando suas qualidades únicas, embora muitos ou a maioria desses circuitos provavelmente estejam interligados em junções-chave no sistema límbico, como a amígdala, e no córtex pré-frontal. Ver Joseph LeDoux, “Emotional Memory Systems in the Brain”, Behavioral Brain Research, 58, 1993.

4. Circuitos cerebrais dos diferentes níveis do medo: esta análise se baseia na excelente síntese feita por Jerome Kagan, Galen’s Prophecy (Nova York: Basic Books, 1994).

5. Escrevi sobre a pesquisa de Joseph LeDoux em The New York Times de 15 de agosto de 1989. A discussão deste capítulo se baseia em entrevistas com ele e em vários de seus artigos, incluindo Joseph LeDoux, “Emotional Memory Systems in the Brain”, Behavioral Brain Research, 58, 1993; Joseph LeDoux, “Emotion, Memory and the Brain”, Scientific American, junho de 1994; Joseph LeDoux, “Emotion and the Limbic System Concept”, Concepts in Neuroscience, 2, 1992.

6. Preferências inconscientes: William Raft Kunst-Wilson e R. B. Zajonc, “Affective Discrimination of Stimuli That Cannot Be Recognized”, Science (1º de fevereiro de 1980).

7. Opinião inconsciente: John A. Bargh, “First Second: The Preconscious in Social Interactions”, apresentado no encontro da Sociedade Psicológica Americana, Washington, DC (junho de 1994).

8. Memória emocional: Larry Cahill e outros, “Beta-adrenergic activation and memory for emotional events”, Nature (20 de outubro de 1994).

9. Teoria psicanalítica e maturação do cérebro: a mais detalhada discussão dos primeiros anos e as conseqüências emocionais do desenvolvimento do cérebro está em Allan Schore, Affect Regulation and the Origin of Self (Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 1994).

10. Perigoso, mesmo que não se saiba o que é: LeDoux, citado em “How Scary Things Get That Way”, Science (6 de novembro de 1992), p. 887.

11. Grande parte dessa especulação sobre a sintonia fina da resposta emocional pelo neocórtex vem de Ned Kalin, op. cit.

12. Uma olhada mais atenta à neuroanatomia mostra que os lobos pré-frontais atuam como administradores emocionais. Muitos indícios apontam para partes do córtex pré-frontal como o sítio onde se juntam a maior parte ou todos os circuitos corticais envolvidos numa reação emocional. Nos seres humanos, as mais fortes ligações entre neocórtex e amígdala vão para o lobo pré-frontal esquerdo e o lobo temporal abaixo, e para o lado do lobo frontal (o lobo temporal é fundamental na identificação do que é um objeto). Essas duas ligações são feitas numa única projeção, sugerindo uma rápida e poderosa rota, uma virtual auto-estrada neural. A projeção de neurônios individuais entre a amígdala e o córtex préfrontal vai para uma área chamada córtex orbitofrontal. É a área que parece mais crítica na avaliação de respostas emocionais quando estamos no meio delas e fazendo correções de percurso. O córtex orbitofrontal tanto recebe sinais da amígdala como tem sua própria e complexa rede de projeções por todo o cérebro límbico. Por intermédio dessa rede, desempenha um papel na regulação das respostas emocionais — inclusive inibindo sinais do cérebro límbico quando alcançam outras áreas do córtex, e moderando assim a urgência neural desses sinais. As ligações do córtex orbitofrontal com o cérebro límbico são tão extensas que alguns neuroanatomistas o chamaram de uma espécie de “córtex límbico” — a parte pensante do cérebro emocional. Ver Ned Kalin, Departamentos de Psicologia e Psiquiatria, Universidade de Wisconsin, “Aspects of Emotion Conserved Across Species”, manuscrito inédito preparado para o Encontro MacArthur de Neurociência Afetiva, novembro de 1992; e Allan Schore, Affect Regulation and the Origin of Self (Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 1994). Não há apenas uma ponte estrutural entre a amígdala e o córtex préfrontal, mas também, como sempre, uma ponte bioquímica: tanto a parte ventromedial do córtex pré-frontal quanto a amígdala têm alta concentração especialmente de receptores químicos para o neurotransmissor serotonina. Esse produto químico do cérebro parece, entre outras coisas, aprimorar a cooperatividade: macacos com altíssima densidade de receptores de serotonina no circuito amígdala-pré-frontal são “socialmente bem sintonizados”, enquanto os de baixa concentração são hostis e antagônicos. Ver Antonio Damasio, Descartes’ Error (Nova York: Grosset/Putnam, 1994).

13. Estudos em animais mostram que quando áreas dos lobos pré-frontais são lesionadas, para não mais modularem os sinais vindos da área límbica, eles se tornam instáveis, explodindo impulsiva e imprevisivelmente com raiva ou encolhendo-se de medo. O brilhante neuropsicólogo russo A. R. Luria sugeria, já na década de 1930, que o córtex pré-frontal era fundamental para o autocontrole e para conter explosões emocionais; pacientes que haviam sofrido danos nessa área, observava, eram impulsivos e dados a surtos de medo e cólera. E um estudo com duas dúzias de homens e mulheres condenados por assassinatos cometidos sob impulso, no calor da paixão, constatou, após tomografias para obtenção de imagens do cérebro, que eles tinham um nível muito mais baixo de atividade que o habitual nessas mesmas partes do cérebro pré-frontal.

14. Parte do trabalho principal sobre lobos lesionados em ratos foi feita por Victar Dannenberg, psicólogo da Universidade de Connecticut.

15. Lesões no hemisfério esquerdo e jovialidade: G. Gianotti, “Emotional Behavior and Hemispheric Side of Lesion”, Cortex, 8, 1972.

16. O caso do derrame que deixou o paciente mais feliz foi relatado par Mary K. Morris, do Departamento de Neurologia da Universidade da Flórida, no Encontro da Sociedade Neurofisiológica Internacional, 13-16 de fevereiro de 1991, em San Antonio.

17. Córtex pré-frontal e memória funcional: Lynn D. Selemon e outros, “Prefrontal Cortex”, American Journal of Psychiatry, 152, 1995.

18. Lobos frontais defeituosos: Philip Harden e Robert Pihl, “Cognitive Function, Cardiovascular Reactivity, and Behavior in Boys at High Risk for Alcoholismo”, Journal of Abnormal Psychology, 104, 1995.

19. Córtex pré-frontal: Antonio Damasio. Descartes’ Error: Emotion, Reason and the Human Brain (Nova York: Grosset/Putnam, 1994).

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