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O instante eterno

por Thynus, em 16.10.16

A globalização liberal está traindo uma das promessas fundamentais da democracia: aquela segundo a qual poderíamos, coletivamente, fazer nossa história ou participar dela, interferir em nosso destino para tentar dirigi-lo rumo ao melhor. Ora, o universo no qual entramos não apenas nos escapa, mas se revela desprovido de sentido, na dupla acepção do termo: simultaneamente privado de significado e de direção.

Estou certo de que você já constatou que todos os anos seu celular, seu computador, os jogos que você utiliza, e tudo o mais, mudam: as funções se multiplicam, as telas aumentam, se colorem, as conexões da internet melhoram etc. Ora, você compreende que a marca que não acompanhasse o ritmo se suicidaria. Portanto, ela é forçada a fazê-lo, quer lhe agrade ou não, quer isso tenha ou não sentido. Não é uma questão de gosto, uma escolha entre outras, mas um imperativo absoluto, uma necessidade indiscutível, caso se queira apenas sobreviver. Nesse sentido, poderíamos dizer que na competição globalizada que hoje põe todas as atividades humanas num permanente estado de concorrência, a história se move longe da vontade dos homens. Ela se torna uma espécie de fatalidade e nada indica com certeza que se oriente para o melhor. Quem pode acreditar seriamente que vamos ser mais livres e mais felizes porque no ano que vem o peso de nosso aparelho de MP3 vai diminuir pela metade, ou sua memória duplicar? Conforme o desejo de Nietzsche, os ídolos morreram: de fato, nenhum ideal inspira mais o curso do mundo, só existe a necessidade absoluta do movimento pelo movimento.

Para usar uma metáfora banal, mas significativa: assim como uma bicicleta deve avançar para não cair, ou um giroscópio rodar sem parar para se manter no eixo e não se soltar, precisamos sempre “progredir”, mas esse progresso mecanicamente induzido pela luta em vista da sobrevivência não pode mais se situar no centro de um projeto mais vasto, integrado num grande desígnio. Ainda nesse aspecto, como você vê, a transcendência dos grandes ideais humanistas de que Nietzsche zombava desapareceu mesmo — de modo que em certo sentido, como pensa Heidegger, é seu programa que o capitalismo globalizado realiza perfeitamente.

(Luc Ferry - Aprender a Viver)

 

O urgente não é mais se opor a “poderes”, a partir de agora raros, a tal ponto o curso da história tornou-se mecânico e anônimo, mas, ao contrário, fazer surgir novas ideias, ou mesmo novos ideais, a fim de se reencontrar um mínimo de poder no desenvolvimento do mundo. Pois o verdadeiro problema, na verdade, não é que ele seria secretamente guiado por alguns “poderosos”, mas, ao contrário, que ele escapa, de agora em diante, a todos nós, inclusive aos poderosos. Não é tanto o poder que incomoda, mas antes a ausência de poder — de modo que querer desconstruir ainda e sempre os ídolos, procurar pela enésima vez derrubar o “Poder”, com P maiúsculo, não é mais tanto agir em função da emancipação dos homens, mas se tornar involuntariamente cúmplice de uma globalização cega e insensata.

(Luc Ferry - Aprender a Viver)

 
 
MAFFESOLI, Michel. "O instante eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas". Tradução de Rogério de Almeida e Alexandre Dias. São Paulo: Zouk, 2003.

 
E pelo espaço de um instante, o eterno e o efêmero te fizeram em mim vida.

Este é o título de um dos melhores livros que li para entender as condutas individuais e as práticas sociais da atualidade, a diferença entre a sociedade moderna e a pós-moderna, chamada de globalizada.
Mas, para o sociólogo francês Michel Maffesoli, isso é: “pura abstração, limitada à ordem econômica ou política”, que deixa entrever cada vez mais sua fragilidade. Vivemos sob o “totalitarismo do Um ou do mercado”, afirma, porém “o verdadeiro princípio de realidade é o cotidiano”. É no cotidiano que vivemos a grande transformação da pósmodernidade. Mas que transformação é esta?
A modernidade se caracterizou pelo individualismo, com sociedade contratual, centralidade da razão, educação como domesticação para a sociedade disciplinar, visando o enquadramento da juventude no mundo do trabalho e da cidadania. Mas, assim como a escola era o remédio ruim para garantir um futuro melhor, a modernidade era marcada pela esperança no futuro, fundada na crença do progresso da humanidade. Uma crença que fazia dos homens e mulheres, dos jovens e dos trabalhadores, atores da história, voltados para as grandes causas sociais, como a liberdade, a democracia, o socialismo utópico, o socialismo científico..., porque a política era entendida como ação voltada para a busca da “felicidade geral” – coisa em que hoje, nem as crianças acreditam.
Não é à toa que o subtítulo do livro é O retorno do trágico nas sociedades pós-modernas. Atualmente, em que pese o enorme progresso tecnológico, a crença no progresso da humanidade não passa de mera ideologia, de mito, de máscara que encobre o medo de enxergar o que está acontecendo sob os nossos olhos: não há razões superiores à vida nem verdades universais, nem grandes causas. Já não há mais o drama moderno, em que o homem lutava para controlar a desordem e buscar solução num futuro melhor. Mas sim tragédia pós-moderna, “intensificação da vida dos nervos”, forte presença da morte na vida, precariedade da existência, fragilidade humana, impotência do homem diante da imposição dos fatos históricos de força, violência e impiedade. Diferentemente do drama, a tragédia engendra a aceitação da fatalidade como destino e a religiosidade ambiente. Porém, diante do trágico latente, na vida cotidiana, emerge um hedonismo ardente. A intranqülidade, as incertezas, as situações efêmeras despertam a voracidade de viver, a vontade de tirar proveito de tudo, a intensidade da vida. Usando os termos de Maffesoli, vivemos numa “surrealidade societal”, com novos territórios, novos valores, onde se procura viver intensamente, aproveitando ao máximo cada momento, eternizando o instante, sob valores dionisíacos, lúdicos, pois não dá mais para adiar o gozo em nome de um projeto político ou profissional.
O historicismo finalista acabou junto com o mito do progresso e da cidadania. O que importa para entender a pós-modernidade é a passagem de um tempo linear, seguro, de projeto futuro, para um tempo policromático, essencialmente trágico e presenteísta, que escapa do utilitarismo burguês e do ascetismo, para difundir “a medida da vida sem medidas”, a consumação perceptível, a vida vivida com avidez, a explosão dos elementos dionisíacos, o carpe diem, como expressão da consciência trágica.
A “atração apaixonada” é a categoria chave para definir o espírito da pós-modernidade. Ela aparece com mais evidência nas tribos das novas gerações, mas afeta idosos e adultos, expressando-se na busca da eterna juventude, no culto ao corpo, no modo de vestir, de falar, de pensar. O homem maduro - senhor de si e da natureza, durante a modernidade - foi substituído pela criança eterna e brincalhona. Daí a pergunta do autor: “Não é possível imaginar que, em lugar do trabalho, com seu aspecto crucificador, o lúdico, com sua dimensão criativa, seja o novo paradigma cultural?”
É importante ressaltar que, na tragédia, o lúdico não se resume à brincadeira de criança, pois o descomedimento orgiástico é uma resposta do desespero, uma tentativa de ludibriá-lo, de purgar a angústia da época. Assim, sob o signo do trágico, apesar da competição desmedida e do individualismo a-social, surgem nomadismos, tribalismos – uma nova sociabilidade em que a comunidade prevalece sobre o indivíduo. Essa nova sociabilidade é complexa: o culto ao corpo tem algo de primário, as celebrações animalescas, como a do touro, não escondem a bestialidade do homem. O hard rock, a techno music, o estilo decadente das roupas, o nomadismo ambiente traduzem “o retorno dos bárbaros aos nossos muros” e apontam a fragmentação da sociedade disciplinar ordenada em mais de três séculos de modernidade. Em suma, o bárbaro já não se opõe ao civilizado, torna-se um componente da civilização.
 Michel Maffesoli aceita a transformação, sabe que ela constitui uma forma de regressão, mas uma “regressão fundadora”, que acarreta, paradoxalmente, um excedente de vida. O livro é um convite à vida em toda a sua ebulição, em meio à explosão trágica, onde o barroco reaparece na vida cotidiana, expressando a emoção, o sentimento trágico, a excitação, o desejo, que as imposições morais e econômicas não domesticaram. Em outras palavras, há um querer-viver social que a civilização não conseguiu reprimir.
O livro suscita uma questão interessante para quem trabalha com educação. Depois de quase quatro séculos de educação para a domesticação do indivíduo, as duas formas de autoridade do professor - a manifesta e a anônima - entraram em crise juntamente com a liberdade, a centralidade da razão e o progresso. O autor põe em xeque a própria idéia de formação. Enquanto Adorno, baseado em Kant, afirmava que a formação ligava-se à idéia de aprender a pensar com o pensamento do Outro, para que o indivíduo aprendesse a pensar por si próprio, atingindo, assim, a maioridade intelectual, Maffesoli retoma a noção de formação para acentuar seu aspecto de iniciação. Iniciação baseada no “fervor pela vida”, que “concede ao ser (esse) um lugar primordial, que relativiza todas as outras características: fazer, ter, raciocinar”.
Se ele estiver certo, teremos que pensar em novas formas de educação da criança, da juventude e da criança eterna que se tornou o adulto da nossa época; uma educação mais adequada ao instante eterno da tragédia pós-moderna.

(Sonia MARRACH -  Educação em Revista,Marília, 2006, v.7, n.1/2, p. 133-136)
A eternidade reside num instantes

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publicado às 15:35



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