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O imperativo categórico (1781 d.C.)

por Thynus, em 15.01.16

.A preocupação de Kant com questões de conhecimento e liberdade o levou naturalmente à ética e à pergunta final: “O que é a coisa certa a fazer?” Kant rejeitava a ética utilitarista de Jeremy Bentham e John Stuart Mill, que sustenta que as boas ações são aquelas que levam à maior quantidade de felicidade (o “cálculo hedonista” de Bentham) para o maior número de pessoas. Em A metafísica dos costumes (1785), Kant contestou o utilitarismo ao propor que, se permitirmos que nosso comportamento seja regido por motivos utilitaristas, poderemos valorizar outras pessoas sob a luz do “bem” para o qual elas podem ser usadas – tratando-as, portanto, como meios para um fim, e não como fins em si. Ele também refutou a doutrina do absolutismo moral, que sustenta a existência de normas absolutas de conduta que resultam em comportamentos “certos” e “errados”, qualquer que seja o contexto. A resposta de Kant ao utilitarismo e ao absolutismo moral foi o desenvolvimento do imperativo categórico, uma regra segundo a qual o homem deveria agir eticamente: “Aja somente conforme aquela máxima que, ao mesmo tempo, você possa desejar que se torne uma lei universal”. O imperativo categórico é bem ilustrado pela famosa distinção ética “é /deveria ser”. Para Kant, nosso comportamento ético (“deveria ser”) não necessariamente deveria resultar de um estado particular de coisas (“é”). Nosso sentido de dever ético jamais deveria incluir o que nos é impossível fazer; neste sentido, “deveria ser” implica “pode ser”. A ética deontológica de Kant é um caso de “poder fazer”: se eu deveria fazer isso e aquilo, então me é logicamente possível fazê-lo; e, deste modo, eu posso fazê-lo.

(Stephen Trombley - 50 Pensadores que formaram o Mundo Moderno)


"Para onde foi Deus? Quero dizer-lhes! Nós o matamos — vós e eu. Deus está
morto! ... A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não temos
de converter-nos em deuses, para parecermos dignos desse ato?"

(Friedrich W. Nietzsche)

 
 
Você sabe que Christina quer matar a sua amiga Mariah, que você deixou sentada lá no bar. Christina se aproxima e pergunta se você sabe onde Mariah está. Se você lhe disser a verdade, Christina vai encontrar Mariah e matá-la. Se você mentir e disser que viu Mariah ir embora há cinco minutos, Christina perderá a pista dela e Mariah conseguirá escapar. O que você deveria fazer? Falar a verdade ou mentir?

“Faça para o outros o que gostaria que fizessem a você”

 
Parece maluquice fazer uma pergunta dessas. A consequência de dizer a verdade é terrível. Claro que você deveria mentir – uma mentira branca, você irá pensar, por uma boa causa. Mas, segundo a visão de Immanuel Kant – um dos mais influentes e, diriam alguns, o maior filósofo dos últimos 300 anos –, essa é a resposta errada. Não mentir é, de acordo com Kant, um princípio fundamental da moralidade, um “imperativo categórico”: algo que alguém é obrigado a fazer, incondicionalmente e sem preocupação com as consequências. Essa insistência implacável em agir segundo o dever, junto com a noção de imperativo categórico que a permeia, é a pedra fundamental da ética kantiana.


Imperativos hipotéticos e categóricos
Para explicar o que é um imperativocategórico, primeiro Kant nos diz o que ele não é, comparando-o a um imperativo hipotético.
Suponha que eu lhe diga o que fazer, dando uma ordem (um imperativo): “Pare de fumar!”. Implicitamente há uma série de condições que posso acrescentar à ordem – “senão arruinará a sua saúde”, por exemplo, ou “senão irá desperdiçar dinheiro”. É claro que, se você não se preocupa com a sua saúde ou com dinheiro, a ordem não o afeta e você não me obedece. Em contrapartida, no caso de um imperativo categórico, não há “se” algum envolvido, implícito ou explícito. “Não minta!” e “Não mate pessoas!” são injunções que não estão sujeitas a exercícios hipotéticos baseados em qualquer objetivo ou desejo que você possa ter e devem ser obedecidas, absoluta e incondicionalmente, por uma questão de dever. Um imperativo categórico desse tipo, ao contrário de um imperativo hipotético, constitui uma lei moral.

Danem-se as consequências
A ética de Kant, um sistema de moralidade paradigmático deontológico, ou baseado no dever, exerce enorme influência sobre os teoristas éticos subsequentes, que avidamente têm desenvolvido as ideias dele ou reagido contra elas. Uma questão semelhante à de Christina e Mariah foi apresentada a Kant e ele conservou sua visão categórica, insistindo que é dever moral de uma pessoa dizer a verdade em todas as ocasiões, mesmo falando com um assassino. Ao manter seu foco inabalável no dever pelo valor do dever, com total desprezo pelas consequências, previstas ou imprevistas, Kant mapeia um caminho tão oposto quanto possível de conceber aos sistemas de moralidade baseados em consequências.  


De acordo com Kant, sob cada ação existe uma regra subjacente de conduta, ou máxima. Tais máximas podem ter a forma de imperativos categóricos, contudo, sem serem qualificadas como leis morais, pois são reprovadas num teste que é, em si, uma forma de imperativo categórico supremo e abrangente: 

Aja apenas de acordo com uma máxima
que você possa ao mesmo tempo querer
que se torne uma lei universal.
 
Em outras palavras, uma ação é permitida pela moral apenas se estiver de acordo com uma regra que você possa consistente e universalmente aplicar a si mesmo e aos outros (uma variação da regra áurea, na verdade). Por exemplo, poderíamos propor a máxima de que é permitido mentir. Mas mentir só é possível contra um pano de fundo no qual exista (algum nível de) verdade – se todos mentissem o tempo todo, ninguém acreditaria em ninguém – e por essa razão seria autofrustrante e em certo sentido irracional desejar que mentir se tornasse uma lei universal. Do mesmo modo, roubar pressupõe um contexto de posse de propriedade, mas todo o conceito de propriedade ruiria se todos roubassem; quebrar promessas pressupõe uma instituição geralmente aceita de cumprir promessas; e assim por diante.

O filósofo contemplativo
Há tempos Kant tem sido retratado de modo zombeteiro como o filósofo arquetípico consumado, fechado em sua torre de marfim meditando profundamente sobre segredos teutônicos profundos. Tal imagem é reforçada pelo fato de Kant ter vivido toda sua longa vida como um solteirão acadêmico em Königsberg, sem jamais, ao que se diz, ter saído de sua cidade natal.
Os tons sombrios dessa imagem são aprofundados pela completa austeridade de sua filosofia e pela dificuldade da linguagem na qual foi apresentada. De fato, Kant às vezes parece ir longe para oferecer munição a seus adversários; um dos mais famosos exemplos refere-se a suas elucubrações sobre o amor sexual, as quais (como apontou o filósofo Simon Blackburn) soam mais como a descrição de um estupro coletivo:
Por si só, é uma degradação da natureza humana, pois assim que uma pessoa torna-se objeto de apetite para outra, todos os motivos para um relacionamento moral deixam de atuar, porque, como objeto de apetite para outra pessoa, torna-se uma coisa e, como tal, pode ser tratada e usada por todo mundo.
Seja como for, mesmo que exista uma base para tal caricatura, o veredito final deve ser que Kant é um dos mais originais e influentes pensadores na história da filosofia, cuja grande e indelével marca é ser igualmente estudado em ética moderna, epistemologia e metafísica.
 


 Assim, a exigência da universalidade elimina certos tipos de conduta com base na lógica, mas parece haver muitas outras que poderíamos universalizar, mas não desejaríamos considerar como morais. “Pense sempre nos seus próprios interesses”, “Quebre promessas quando possível, mas sem solapar a instituição da promessa” – parece não haver nada de inconsistente ou irracional em desejar que isso fosse transformado em lei universal. Então como Kant afastou esse perigo?
Autonomia e razão pura
As exigências do imperativo categórico impõem uma estrutura racional à ética de Kant, mas a tarefa é então passar do enquadramento lógico para o conteúdo moral propriamente dito – para explicar como a “razão pura”, sem suporte empírico, pode informar e direcionar a vontade do agente moral.
A resposta reside no valor inerente da agência moral em si – valor baseado no “único princípio supremo da moralidade”, a liberdade ou autonomia de uma vontade que obedece a leis que impõe a si mesma. A importância suprema vinculada aos agentes autônomos, de vontade livre, é espelhada na segunda maior formulação do imperativo categórico: 

Aja de modo a tratar a humanidade, na sua pessoa
ou na de outros, não apenas como um meio,
mas sempre e ao mesmo tempo como um fim
 Uma vez que alguém reconhece o inestimável valor da própria agência moral, é necessário estender esse respeito à agência dos outros. Tratar os outros como simples meios para promover os próprios interesses sabota ou destrói a agência dos outros, logo as máximas que servem a propósitos próprios ou prejudicam os outros contradizem essa formulação do imperativo categórico e não se qualificam como leis morais. Em resumo, existe um reconhecimento aqui de que há direitos básicos que pertencem às pessoas em virtude de sua humanidade e não podem ser ignorados: essa é uma faceta profunda e iluminada da ética kantiana.

« Duas coisas enchem o espírito de uma admiração e de uma
veneração que não faz mais do que aumentar quanto mais
frequente e regularmente refletimos sobre elas: o céu estrelado
sobre minha cabeça e a lei moral em meu íntimo »
(Immanuel Kant, 1788)


A ideia resumida:
O dever a todo custo
 

 (Dupré, Ben - 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer)

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publicado às 14:55



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