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O homem é um ser racional?

por Thynus, em 18.07.16
O homem é um animal racional que perde sempre a cabeça 
quando é chamado a agir pelos ditames da razão.
 

De sexos, conheço apenas dois: 
um que se diz racional, 
outro que nos prova que isso não é verdade.
Pierre Marivaux   
 

Se o responsável por amar fosse o cérebro, o amor seria tão chato, tão certinho e racional. O coração não sabe escolher, faz burradas, mas do jeito dele, sabe exatamente o que esta fazendo.
Roger Stankewski 
 
 
Antropocentrismo renascentista
Não creio, sinto lhe dizer. Você acha que como sou um filósofo deveria crer que o homem seja um ser racional, mas lamento dizer que julgo algo irracional pensar que o homem, diante de tantas provas, seja um ser racional. Ou, talvez, eu deveria ser mais comedido e dizer que o homem é apenas em parte racional, e assim não destruir sua fé no conhecimento. Como já disse antes, quando discutíamos meu pequeno coro de demônios, estou longe de achar que o conhecimento torne um homem melhor. Mais sofisticado com certeza, melhor em termos de caráter? O contrário é mais provável.
A fé em que o homem seja um ser racional é uma bobagem recente. Qualquer hegeliano ou marxista de plantão diria que só com a emergência do mundo moderno burguês, que precisa de uma sociedade racionalizada em seus processos para que o dinheiro circule com segurança de retorno ainda maior, é que o homem começou a querer se ver como um ser plenamente racional. Por isso, o Iluminismo e sua baboseira racionalista. Mesmo para um Platão que buscava se livrar do pessimismo trágico da religião grega era claro que no homem nem tudo é racional. A ideia de que o homem é um ser racional vai bem com a ideia, necessária no mundo burguês, de que ele é autônomo. Mas tanto a racionalidade quanto a autonomia são uma pequena parte da vida humana, ainda que não devamos buscar mais racionalidade e mais autonomia da vida. Kant estava certo em defender a noção de “maioridade” como sendo a capacidade humana de assumir suas decisões a partir de um esforço de autonomia e racionalidade. Nem sempre isso é possível. O que faz o homem não ser racional plenamente? Muitas coisas. Instintos, taras, o corpo e sua fisiologia e patologia, o contexto psicológico em que nasceu, a falta de grana, o ressentimento que o afoga em inveja do cunhado mais rico ou da cunhada mais gostosa, enfim, motivos é que não faltam para não sermos plenamente racionais.
Existe, entretanto, um motivo mais profundo para isso. Os gregos usavam a palavra pathos para descrever forças, internas ou externas, capazes de nos submeter. Traduzimos essa palavra por paixão ou emoção, mas também por doença (patologia). Nossa capacidade de agir racional e autonomamente depende do quanto de pathos age sobre nós. Portanto, desde a filosofia antiga, suspeita-se dos limites da autonomia racional humana. Na filosofia medieval, o cristianismo acaba trazendo para dentro desse debate a ideia de pecado. O pecado destrói nossa capacidade de julgamento e entendimento da realidade, fazendo-nos de escravos da concupiscência (a atração irresistível pelo pecado): basta lembrar de você dominado pelas pernas de uma gostosa, ou você, cara leitora, desejando muito fazer coisa errada por aí...
Já na modernidade, autores como os românticos (de que já falamos antes) duvidavam dessa racionalidade toda e achavam que ela poderia nos enlouquecer porque seria contra nossa natureza meio misteriosa e irracional. Foram esses românticos que pela primeira vez falaram em inconsciente. Freud e seus seguidores criaram uma disciplina, a psicanálise, que negava a plena autonomia do Eu (“ferida narcísica” na linguagem de Freud era saber que não somos senhores em nos sa própria casa, o inconsciente é esse senhor). Imersos em traumas inconscientes e em pulsões infinitas, para a psicanálise, conseguimos só com muito esforço um pouco de razão e um pouco de autonomia.
Mesmo o marxismo e companhia e seu conceito de ideologia determinaram que nossa classe econômica definiria em parte nosso pensamento e nossas emoções. Então, o que sobra disso tudo? Vale a pena buscar ser racional e responsável? Claro que vale, mas não queira recompensas. Nada garante que vai dar certo, mas, creio, a experiência do amadurecimento mostra que, ainda que seja precária, a tentativa de olhar para o mundo pelos olhos da razão sempre nos ajuda a entendêlo melhor. E isso nos leva a alguma experiência de autonomia. O homem não é um ser racional plenamente, nem pode sê-lo, a menos que seja doente. Nem por isso devemos desistir de ser racionais em alguma medida. Como dizia o grande Nelson Rodrigues (século XX), a razão é algo que se busca com o mesmo sofrimento que a santidade. Muitas vezes contra sua própria natureza de bicho. Nesse sentido, ser racional é um esforço que merece nosso cuidado.

(Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos)
A formação do ser humano - uma visão filosófica

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publicado às 03:55



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